terça-feira, junho 13, 2006

Lafayette, Lafayette!...

“A felicidade da América está intimamente ligada à felicidade da Humanidade!...”, proclamava o francês Lafayette, por volta de 1777, a bordo do navio “Victoire”, rumo à América, em apoio das colónias revoltosas do domínio britânico.

Escassos anos após os primeiros tiros, o general George Washington escrevia: “A nossa causa é nobre, é a causa da Humanidade”!... Em vésperas da Revolução Francesa, Rousseau constatava que “o homem nasceu livre e por toda a parte está agrilhoado”! Porém, os americanos são quem, em primeiro lugar, pega em armas para conquistarem a sua liberdade e, enquanto se batem, explicam ao mundo o sentido da sua luta, na célebre “Declaração de Independência”.

Eis alguns excertos significativos (na impossibilidade da sua transcrição integral):

“(...) Consideramos como verdades evidentes por si mesmas que todos os homens nascem iguais, que o seu Criador os dotou de certos direitos inalienáveis, entre os quais a vida, a liberdade e a procura de felicidade ;

“Que, para garantir estes direitos, os homens instituem Governos, cujo justo poder provém do consentimento dos governados;

“ Que, se um Governo, qualquer que seja a sua forma, vier a não ter em conta estes fins, o povo tem direito de o modificar ou abolir e de instituir um novo governo (...);

(...)”O governo que reina sobre a Grã-Bretanha é uma história de injustiças e de usurpações reiteradas que visam directamente o estabelecimento de uma tirania sobre os nossos Estados (...);

(...) “Ele (o Governo britânico) submeteu os juizes ao império exclusivo da sua vontade;

(...) “Ele manteve entre nós, em tempo de paz, exércitos permanentes, sem consentimento das nossas assembleias;

(...) “ Ele (...) dá assentimento a seus pretensos actos legislativos que :

. autorizam o acantonamento no nosso solo tropas em número importante;
. poupam-lhes, por simulacros de processos, qualquer punição pelos (seus) assassínios;
. (...) asfixiam o nosso comércio com todas as partes do mundo;
. (...) suspendem as nossas próprias assembleias e declaram-se investidos do poder de legislar em nosso nome (...);
. suprimem as nossas leis mais preciosas e modificam nos seus princípios fundamentais a forma dos nossos governos (...);
(...) “Ele pilhou os nossos mares, devastou as nossas costas, queimou as nossas cidades a aniquilou a vida do nosso Povo(...)”.

A liberdade e de igualdade estão, portanto, inscritas na génese da nação americana. Será certamente por essa circunstância que, ainda hoje, tantas pessoas, em todo o mundo, considerem que o seu futuro e a sua felicidade dependem estreitamente do futuro e da felicidade da democracia americana. Porém, o sonho americano, tão generosamente revolucionário, está maculado logo a partir da sua origem. Liberdade e igualdade, sim! Mas não para todos!...

Para satisfazer os estados do sul, os próceres da independência americana eliminaram da Declaração da Independência o parágrafo que condenava o tráfico de negros!... E, assim, os partidários da independência podem proclamar que “todos os homens são livres e iguais”, mas nesse preciso momento privam mais de cem mil africanos do seu direito de liberdade e de igualdade!

Como, pois, se poderá estranhar que, na constituição de vários estados norte-americanos, fosse inscrito, logo na origem, o princípio de que “o direito de propriedade está acima de qualquer sanção constitucional”?!... Direito de propriedade que inclui, o direito de possuir escravos. Naturalmente... Cem anos depois serão perto de quatro milhões de negros que a democracia americana mantém como escravos! E, nos dias de hoje, os descendentes destes escravos são mais de vinte milhões, para quem a igualdade não passa de uma panaceia...

A liberdade e a igualdade são irmãs gémeas, fruto do mesmo parto revolucionário. Porém, a história revela que cedo a igualdade foi preterida em favor da liberdade de possuir! A igualdade caiu do berço! ... Foi necessário o decurso de cerca de século e meio de história, para que, noutro País e noutro contexto, a liberdade e a igualdade recebessem novo impulso revolucionário. Mas isso são contas para outra oportunidade...

E o que resta hoje do sonho americano?! Atrevo-me admitir que Thomas Jefferson e os restantes pais da pátria da grande nação americana, corariam de vergonha pela ocupação do Iraque, pelas torturas as torturas e humilhações do seu exército, pelo o rapto, transporte e detenção pela CIA de cidadãos estrangeiros, pela situação dos detidos em Guantánamo, excluídos dos mais elementares direitos de defesa e pelas escandalosas violações das suas próprias liberdades constitucionais...

Como, por certo, morreriam de vergonha por saberem que a Presidência da grande nação americana pode ser conquistada e exercida por um candidato que teve menos votos que o candidato “derrotado”... Como, certamente, se indignariam por saberem que grande número dos seus compatriotas, não são capazes de identificar ou assinalar o seu próprio país no mapa mundial, apesar de fervor patrioteiro dos seus actuais líderes...

Entre a sonho e a história é uma longa caminhada, em que a nação americana se esqueceu, ou no mínimo ofuscou, o brilho fundador dos seus pergaminhos democráticos... A longa lista de atropelos à democracia e aos direitos humanos está nos antípodas dos valores democráticos proclamados...

Conta Claude Julien, no seu livro “O Sonho e a História – dois Séculos de América” (Ed. Arcádia), que cidadãos americanos, em Nova Iorque, foram convidados, na rua, a assinar um manifesto político. A maioria recusou, porém, indignada. No entanto, o texto que lhes foi submetido era uma cópia da Declaração da Independência, cujo conteúdo se lhes afigurou subversivo e anti-americano.

América, América!...

17 comentários:

alice disse...

boa tarde, herético

efectivamente, não rima com erótico

agradeço a tua visita

sempre que vejo o teu nick lembro-me do relógio da minha sala, com mais de cem anos, maravilhoso

um grande beijinho

alice

DIAFRAGMA disse...

Há anos pedi ao Prof. Hermano Saraiva que, aproveitando o seu programa e os seus conhecimentos, inventasse o que poderia ter sido um Telejornal em pleno Sec.XVII, por exemplo, ao que ele infelizmente se escusou.
Vem isto a propósito da forma como passeias pela geografia a cavalo na História, coisa que gostaria de também saber fazer.

Gostei de te ler, e já agora, não quererás tu aceitar o repto que lancei ao Hermano Saraiva?

lazuli disse...

América..América..Porque me terei lembrado da série O Padrinho?
Do gosto de ler o que aqui se escreve, duma escrita que escorre pelos olhos sem pausas, sem qualquer espécie de enfado, retive essa experiência do texto da Declaração ser subversivo e contra os interesses do país.

E admiro a simples navegação pelos outros sítios, com toda essa naturalidade.

Um abraço..

Licínia Quitério disse...

Como os sonhos se podem transformar em pesadelos. Como a generosidade dos princípios pode vir a ter rasgões de egoísmo. Como a preversidade de alguns homens pode subverter as boas intenções de outros. De facto, esta viagem a que nos conduzes pela história da América dá para reflectir sobre o que nos está a acontecer a nós, portugueses, que também cegamente desprezamos muito do melhor que num passado tão recente soubemos anunciar.
"À bon entendeur..."
Beijinhos.
Licínia

lique disse...

Pois é! América, América!... (que, por acaso, é um grande filme).
Como sempre, "pintas" o quadro de forma clara e escorreita e lanças as pistas para quem te lê ficar a pensar.
Vou-te dizer do que gostei mais. É que, se retirarmos do contexto aquilo que na "Declaração de Independência" é atribuído ao Governo inglês, temos uma boa descrição do que, hoje em dia, os EUA fazem em várias zonas do mundo.
Irónico ou trágico?

Beijos

jorgesteves disse...

Dizia um amigo meu, a propósito: à América falta-lhe o 'Ontem'. Não diria tanto; acho que é, apenas, a subversão do que deverá ser uma sociedade humana.

um abraço,
jorgesteves

Nilson Barcelli disse...

A América (EUA) é um país cheio de contradições.
Apesar da treta toda, eles sempre colocaram o capital acima de todos os interesses. E isso ainda se mantém, mais refinado ainda.

Fizeste uma boa análise da "coisa" americana.

Um abraço.

FOTOESCRITA disse...

O título e a última frase reforçam todo o conteúdo do artigo, por isso calo-me...

Maria P. disse...

Excelente.

Bom Feriado.

OvelhaNegra disse...

O teu texto trouxe-me à memória o Triunfo dos Porcos do George Orwell e a sua fabulosa conclusão:
« Somos todos iguais. Mas uns são mais iguais que outros.»

Assim é a "Igualdade" na Sociedade(ou aquilo a que chamam Democracia) Americana. :)

Obrigada pela visita que fizeste ao meu cantinho.
Tomei a liberdade(sem consulta prévia) de te juntar à minha lista de links.Espero que não seja do teu desagrado.

Um beijo*

maria disse...

Não é o Homem o único animal predador de si próprio??? Não se inscreverá aí, nessa sua dimensão a constante e sucessiva subversão de todos os princípios de liberdade e igualdade?
Cepticismo exagerado, o meu???
Talvez
Muitos beijinhos para ti
(só a arte nos redime...)

Nilson Barcelli disse...

Já comentei...
Deixo-te um abraço e o desejo de um bom fim-de-semana.

tecum disse...

de tão alheada, tenho-me esquecido - imperdoável, meu amigo, imperdoável! - de te dizer que gosto muito desta tua escrita.
Aliviada! Já disse!
Bom fds - parto para a beira.
Beijo, grato.

batista filho disse...

Herético, cá onde moro, Planaltina (um bairro de Brasília), faço parte de uma associação que mantém uma rádio comunitária. Apresento um programa de variedades (música regional, poesia, notícias, entrevistas), onde por duas vezes apresentei textos de tua autoria - inclusive com alguns comentários do teu blog! - é lógico que citei a fonte. Espero que isso não te desagrade.
Com o presente texto espero fazer o mesmo, dado a objetividade com que tratas o tema.
Um abraço fraterno.

PS. Se tiveres algo em contrário, certamente não mais utilizarei os textos de tua autoria... mas certamente os ouvintes perderão essa oportunidade de alargar os conhecimentos.

Peter disse...

Destaco com vergonha:

"O capitalismo caseiro, vociferando contra o Estado, não enjeita pretender moldar o regime político aos seus desígnios, de forma a colocar, sem rebuço, nem disfarce, o poder político na dependência do poder económico, com um sistema de governo fiel, venerando e obrigado aos seus interesses."

Anónimo disse...

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Anónimo disse...

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