sábado, junho 03, 2006

Ratzinger versus Willy Brandt?! ...

Como sabem, o actual Papa é alemão. Também Willy Brandt é (foi) de nacionalidade alemã. Um e outro foram coevos da tragédia da Segunda Grande Guerra. O Papa foi agora à Polónia. Na oportunidade, seguindo os passos de seu antecessor polaco, alargou a visita ao campo de concentração de Auschewitz. A este propósito, a nossa imprensa, dita de referência, apressou-se a comparar a atitude do Papa ao gesto de Willy Brandt, quando em 1970, na sua visita à Polónia, furou o protocolo e se ajoelhou, em silêncio, junto ao monumento das vítimas do levantamento de Varsóvia.

- “Onde estava Deus nesses dias?! Porque ficou silencioso?!...” - terá exclamado agora o Papa, na oração, vergado ao peso da realidade histórica de Auschewitz.

Não sabemos o que Deus terá respondido, mas qualquer agnóstico poderá afirmar que Deus estava onde sempre esteve : mas não, certamente, a impedir as actuais matanças, seja no Dafur, na Palestina ou no Iraque ...

Deixemos, porém, a teologia e as convicções de cada um. Relevam aqui apenas as palavras do Papa, ao afirmar que estava em Auschewitz como “filho do povo alemão, sobre o qual um bando de criminosos subiu ao poder (...) com o resultado desse povo ser usado e abusado como instrumento deles, da sua sede de destruição e de poder...”

Temos que, na perspectiva do actual Papa, o Estado nazi foi apenas um “bando de criminosos” e os alemães suas vítimas. Quem somos nós para duvidar?!... Se o Papa o diz, assim seja! Em qualquer caso, sempre se poderá acrescentar que vítimas, sim, sem dúvida, mas vítimas que sobreviveram, obedecendo...

E quanto às restantes vitimas?!... O Papa referiu algumas, especialmente os judeus, ciganos, polacos e russos! Mas, sintomático, esqueceu os “ateus” comunistas e... os homossexuais.

- “ No fundo – esclareceu o Papa – esses criminosos nazis, ao quererem eliminar o Povo judeu, queriam matar Deus que chamou Abraão, que falou no Sinai (...) e, em última análise, queriam destruir a fonte da fé cristã e substitui-la por outra da sua invenção - a fé na lei do homem, na lei dos poderosos...”

Na circunstância, o que impressiona é este “egocentrismo” que insinua ser, afinal de contas, o cristianismo o alvo final da barbárie nazi – que, em última análise, queria matar a “fonte da fé cristã”- e não as vítimas dos fornos crematórios, judeus e outras etnias, gente com pais, mães, filhos e filhas, irmãos e sobrinhos, namorados, namoradas e amigos... Gente real, em suma!...

Ratzinger, em vez de pretender rescrever a história dos nazis, fazendo-os passar por um movimento contra Deus, (quando, pelo contrário, estes se afirmavam pelo cristianismo contra o materialismo judaico-bolchevista), poderia esclarecer onde estava a sua católica Baviera, quando aí germinou e cresceu o partido nazi, ou por que razão Hitler morreu católico, dado que ninguém no Vaticano teve a ideia de o excomungar...

Em contraste, Willy Brandt foi um resistente e, tanto quanto se sabe, ateu. Fugiu da Alemanha nazi, mudou de nome e esteve várias vezes a um passo de ser preso e deportado para os campos de concentração. Era, como o actual Papa, alemão! Apesar de ter combatido, pela acção concreta, o nazismo, ajoelhou-se em silêncio perante a barbárie cometida em nome de seu Povo. Fê-lo sem palavras, sem rodeios, sem desculpas...

Em rigor, não poderemos estranhar que Ratzinger, na sua juventude, durante o nazismo, não tenha sido um resistente. Ao fim e ao cabo, à nossa escala, a maior parte de nós, também não foi, no nosso País. Mas não deixa de ser incómodo, que actualmente o Papa, noutro contexto, tenha afirmado que “era impossível ter resistido”, o que significa que, para Sua Santidade, era impossível ser como Willy Brandt ...

Decididamente, ontem como hoje, Ratzinger não é Willy Brandt! ...

14 comentários:

FOTOESCRITA disse...

É tão difícil ter-se esta lucidez! O interminável e grato trabalho de pensar. Agradecida pela partilha.

Licínia Quitério disse...

Obrigada pela peça de regresso.Uma curiosidade a partilhar:em http://rolandogabrielli.blogspot.com, ver, entre outros, o post de 29 de Maio "El Papa le preguntó a Dios en Alemán".
Abraço.
Licínia

Peter disse...

É um artigo extremamente bem escrito e uma análise inteligentemente feita.
Quando vejo as "patetices" que se escrevem por aí e nas quais naturalmente incluo as minhas, é um prazer ler-te e um prazer ainda maior ter-te incluido nos n/links.

Parabéns. Vou procurar dar-lhe maior difusão.

Maria P. disse...

Que belo regresso!!
Bravo. Excelente artigo.
Um abraço.

DIAFRAGMA disse...

As tuas análises são de uma grande lucidez, que ainda por cima têm a enorme vantagem de não ser facciosas.

Na minha leitura, o tema que abordaste é, para mim, um dos mais importantes: a coerência. Esbarrei nela muitas vezes, e de todas elas fico incomodado.
As revoluções e as convulsões sociais constituem sempre pesados exames à coerência, sejam elas a instauração do nazismo, o 25 de Abril, ou a tragédia do Burundi.
O teu artigo põe o dedo numa ferida de coerência.
Parabéns. Pena que não publiques na chamada "imprensa de referência".
Até para a semana

OrCa disse...

Lúcido e "desarmante", como nos vais habituando...

Na verdade, nada mais perigoso do que ir reescrevendo a História, eivada essa reescrita de hipocrisias e cinismos. Para estes "pensadores bons", a imensa máquina de interesses que alimentava o nazismo - como hoje alimenta outras globalizantes taras - nunca existe, existiu ou existirá nos seus desinfectados aprofundamentos.

Nada como uma boa barrela ao cérebro da "massa anónima", passando a mensagem, no caso, dos nazis como mero bando de malfeitores, para que o submundo onde se movem vá passando incólume.

Haja vozes lúcidas como a tua, ateando fogo ao mato rasteiro, para que a nova colheita surja com mais vigor.

Um abraço.

batista filho disse...

Creio: nos Homens, em Deus. Por vezes descreio, mas nunca perdi a fé nas minhas dúvidas...

Respeito quem expõe suas idéias com a clareza que lhe é peculiar, Herético...

... por falar em herético, nenhuma heresia histórica causou tantos malefícios à evolução humana como o falso moralismo dos autoproclamados interlocutores diretos de Deus, que a ferro e fogo exterminaram - e continuam exterminando! - povos inteiros, simplesmente por não professarem a mesma fé, a mesma cultura.

Parabéns pelo artigo. Deixo um abraço fraterno.

lique disse...

Levar quem te lê a pensar, é uma das virtudes da tua escrita. É bom e é raro, hoje em dia.
A mim chocou-me aquela frase do Papa. Mas chocou-me porque um representante de Deus na Terra (é o que dizem que é) não pode perguntar "onde estava Deus". Pode dizer: " nós, os que, cá na Terra podíamos ter feito alguma coisa, errámos. Não fizemos."
Tentar ainda virar a intenção final do nazismo para a destruição da fé cristã, é o máximo, provavelmente da hipocrisia, porque Ratzinger é tudo menos parvo.
Continua a dar-nos que pensar. Eu gosto. Muito.
Beijos

hala_kazam disse...

ora aqui esta um blog que nos deixa sempre a pensar...

*beijo*

jorgesteves disse...

Um dia, se tiver oportunidade (e puder, claro...) acho que vou colocar essa questão a Deus:'Onde estava Ele quando todos esses Seus filhos foram chacinados?'.
A pergunta parece-me pertinente para uma ocasião que O encontre.
Para já, e sobre o assunto, outra questão me parece mais pertinente:
'Onde estava o Papa (a Igreja) nessa altura?...'

abraço,
jorgesteves

Menina_marota disse...

Um lúcido e criterioso texto…
Mais não consigo comentar, sem mandar o “fel” que tenho guardado no meu coração, especialmente daqueles que deveriam ter consciência e sensibilidade mais apurada…
Um abraço e grata pela partilha.

lazuli disse...

extraordinária escrita!

Nilson Barcelli disse...

Excelente análise. Digna de ser publicada nas melhores revistas ou jornais.
E que, como é óbvio, subscrevo.
O movimento nazi teve amplo apoio popular. De contrário seria difícil fazer o que todos sabemos. E teve silêncios, como o da Igreja Católica, imperdoáveis. Os resistentes alemães foram poucos. Os que, não concordando, também ficaram em silêncio, poucos mais terão sido.
Estou há cerca de um ano na Alemanha. Sinto que dentro de alguns anos (talvez 10 a 20) algo vai acontecer com os turcos residentes, cujo número aumenta diariamente. Já são mais de 4 milhões e praticamente não se misturam com a sociedade alemã (haverá culpas de ambos os lados). Não gostam uns dos outros (muitos odeiam-se mesmo). Os alemães não vão repetir o que fizeram com os judeus, homossexuais, comunistas, etc., mas vão, mais tarde ou mais cedo, fazer alguma coisa para se verem livres dos turcos.
Para além disso, a sociedade alemã, em geral, não gosta dos estrangeiros residentes. E vice-versa. Já perguntei a cerca de 30 estrangeiros que cá vivem, de variadíssimas origens, se gostavam dos alemães. TODOS me disseram que não. Sem hesitações.
Sobre as palavras do Papa, nem comento. Tu já disseste tudo. E bem.
Abraço.

Klatuu o embuçado disse...

MAIS UM GRANDE POST!
Esse papa é um monte de merda!