sexta-feira, julho 21, 2006

Outras leituras...

“... Um dia o rei da Holanda, que os encantos de Madame Musard distraíam algumas vezes dos interesses da política neerlandesa para as conveniências da “Maison Dorée", encontrou-se com Citron, de passagem, no foyer de um teatro de boulevard. O soberano, incógnito, abraçou o filho pela cintura, com efusão e firmeza, e disse-lhe peremptoriamente:

- “O menino vai daqui sem mais perda de tempo lá para baixo para a Holanda reinar. Quem fica em Paris agora sou eu. Tenho aqui no bolso a minha abdicação e vou lá dentro ao foyer dos artistas assiná-la. Aceite os meus parabéns...”

Citron, inclinado-se, agradeceu comovido e retorquiu:

- “Espera-me então aqui um momentosinho, que eu venho já...

Foi essa a derradeira vez que o monarca dos Países Baixos viu o seu herdeiro neste mundo. Pouco depois Citron morria na sua cama de rapaz na Rua Auber, firme e feliz na inveterada convicção que é melhor ser um “viveur” morto do que um rei vivo...” (Ramalho Ortigão – in “As Farpas” II Volume - Carta a Sua Alteza o Sereníssimo Sr. D. Carlos, regente em nome do Rei”.

Ora digam-me se semelhante episódio não constitui uma verdadeira lição de filosofia política...
..................................................................................................................

Nota:

Como é sabido, os meses de Verão são período de defeso na política. Também este blog, entrando na onda, vai aligeirar o tom. Durante os meses Julho/Agosto, “outras leituras” ocuparão este espaço. Ao ritmo incerto do tempo e dos livros que, pessoalmente, me solicitem... Claro que ficam para trás temas como Beirute e o Médio Oriente. Mas como poder falar de uma ferida em sangue, sem que a cólera tome conta da razão?!...

Com prazer, continuarei a ler e a comentar os blogs da minha afeição...

12 comentários:

OvelhaNegra disse...

Desejo-te umas serenas férias, ricas de tudo inclusivé de leituras.
Como falas do Médio Oriente que tal o «Nómadas e sedentários na Asia Central» do Miguel Urbano Rodrigues...rs ( Leitura leve); ou então o velhinho (mas actual) «Massacre e Resistência em Beirute» do José Goulão...risos.

Umas óptimas férias.
Um sorriso e um beijo*

Maria P. disse...

Assim como eu continuarei a ler os sempre interessantes textos aqui lavrados.

Um beijinho.

alice disse...

boa noite ;)

que seja uma interrupção retemperadora de energias e que as leituras inspirem e agradem!

votos de boas férias e até breve

um beijinho

alice

batista filho disse...

Por cá, agora é que começa a "esquentar"! rss.

lazuli disse...

aligeirar pode ser, parar não.
E nessa onda, ontem fui ver o mais entediante filme dos últimos tempos, o codigo davinci. Valeu ser no Inatel ao ar livre, com um friozinho que pairou durante as 3 horas do memorável evento..

FOTOESCRITA disse...

Percebo-te: às vezes precisamos de pensar noutras coisas para não entristecermos, ou enraivecermos, de vez perante certa loucura incompreensível do mundo. Desumanizada, ao contrário da outra loucura que afasta muitos supostamente "normais" (julgam-se) porque não sabem como lidar com ela.
Aproveita as férias, nem que sejam as férias dos outros, que essas também acabam por nos bater à porta, como se vê.

Ant disse...

Boas férias. Continuarei a passar por aqui, claro.

Mas afinal ele foi comprar cigarros e não veio mais?

vida de vidro disse...

Traz-nos boas leituras, pedaços do que, certamente, lês e te toca. Já ficaremos a ganhar.
E tem umas boas férias. Com descanso e paz (pelo menos interior, que a do mundo está como se vê...)**

Nilson Barcelli disse...

As Farpas do Ramalho são impagáveis.

Versão light para o teu blogue... Até que não é má ideia. Acho que vou pensar também no assunto.

Uma abraço.

LibeLua disse...

Ora aí está uma decisão acertada. Há momentos em que temos de parar para assimilar tanta informação deformação conformação - o mundo e nós - nunca uma relação pacífica. Pacifiquemo-nos ao menos nós mesmos connosco próprios. O Verão é muito isso. Recolhimento, preservação do calor sufocante, dos raios ultra-violeta, da grande confusão, sei lá que mais. O momento ideal para dar corda ao sujeito poético. Será desta que soltas o pobre Romeiro amordaçado?
Beijinhosssssssss.

Frioleiras disse...

Meu Lindo,
ALigeirar é preciso, sempre e de vez em quando... Nem sempre só em férias e nem sempre de seriedade vive o homem !

DIAFRAGMA disse...

Há muitos anos, era eu estudante, desenrolava-se uma discussão qualquer entre colegas sobre uma notícia relativa à influência da política nas Olimpíadas. Às tantas, um dos meus colegas muito irritado perguntava
"Mas que tem a ver o desporto com a política?"
Nunca mais me esqueci da resposta de um dos meus amigos mais maduro, que respondeu com um sorrriso:
"Diz-me lá se há alguma coisa que não tenha a ver com a política."

E o que é facto é que ainda hoje lhe tenho de dar razão.
Lembrei-me disto depois de ler o teu rocambolesco artigo sobre As Farpas e Beirute... :)