domingo, outubro 08, 2006

Muro(s) de vergonha?! ...

Na ressaca da Segunda Guerra Mundial e da divisão da Europa em dois blocos político-militares, no apogeu da luta ideológica, as autoridades de Berlim Leste, em 1961, decidiram construir um muro de betão a separar as duas partes da cidade. Dois anos mais tarde, John F. Kennedy, Presidente dos Estados Unidos, deslocou-se a Berlim, onde do alto do seu enorme poderio, proferiu a célebre frase “Ich bin ein berliner” (Eu sou um berlinense), em óbvio incitamento à rebelião das populações de Berlim Oriental e à consequente alteração do “status quo” na cidade, desenhado no final da guerra. Na propaganda ocidental, tal muro era apresentado como “muro da vergonha”...

Sabemos que, em 1989, o muro foi derrubado. Com estrondo. Nessa medida, J. F. Kennedy foi profético: Berlim é hoje uma cidade “livre”!...

Não posso deixar de evocar estes acontecimentos históricos, ao ler que do outro lado do Atlântico, algures no Estado do Arizona, onde os heróis são sempre bons e, como tal, predestinados a, sob tiros de revólver, colocarem na ordem os vencidos (quase sempre maus), ao ler – dizia - que nesse mítico local do “oeste selvagem”, de cinéfilas memórias, o Presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, promulgou um pacote legislativo de financiamento de segurança interna, no valor de 33,8 mil milhões de dólares; desse montante, 1200 milhões serão destinados a construir infraestruturas físicas e virtuais de segurança, entre os Estados Unidos e o México.

Ou seja, um muro de mil e cem quilómetros de arame farpado, torres de vigilância, câmara de vídeo e sensores de movimentos, ao longo dos Estados do Arizona, Califórnia, Novo México e Texas para impedir a emigração de populações mexicanas para os Estados Unidos. Em suma, um enorme “condomínio fechado” para resguardo dos famintos, que assediam o sul...

Compreendam-me. Eu sabia que a derrocada do “muro de Berlim” não tinha derrubado os “muros invisíveis” que dividem a humanidade, designadamente, no interior dos Estados Unidos. Sabia, por exemplo, que na grande nação americana e, em particular, no Estado da Califórnia – novo eldorado das tecnologias da informação e de empresas mundiais de enorme sucesso – as despesas com as prisões ultrapassam o orçamento com a educação. E que os criminosos acontecimentos do “11 de Setembro” e o ataque terrorista às torres de Nova Iorque intensificaram, nos Estados Unidos, a paranóia securitária que, no interior das fronteiras, ou voando sobre a dimensão planetária, derroga princípios, valores elementares e direitos individuais, que são conquistas civilizacionais da humanidade.

Por outro lado, sei que o trabalho humano continua indispensável. Mas sei também que, para os barões do capital financeiro e os cavaleiros da “nova economia”, o trabalho humano é cada vez mais uma “mercadoria”, ao preço de trabalho de escravo em muitas regiões do Mundo.

“Para manter a actividade económica mundial” – proclamam eufóricos – “dois décimos da população activa são suficientes”. Estes dois décimos, previsivelmente, serão, apesar de tudo, beneficiários do rendimento e do consumo; quanto aos restantes 80% “vão ter problemas consideráveis”, quer dizer, vão arrastar-se penosamente na ilusão de um emprego, numa sociedade que não lhes reserva qualquer função. Seres humanos “descartáveis”, num qualquer trilho clandestino da emigração...

Digamos então que, para o capital, o sacrossanto direito de livre circulação e deslocalização das empresas na busca de maiores lucros, explorando a miséria dos países do Terceiro Mundo, ela própria fruto da exploração de um sistema de comércio mundial injusto. E sofisticados muros para os párias da história, ou para quem singelamente mendiga um posto de trabalho...

De vergonha, tais muros?!... Diria antes que muros obscenos ...

Quem, hoje, do alto do muro do Arizona, irá proclamar : “yó soy mexicano?!”...

15 comentários:

JPD disse...

A movimentação descontrolada de pessoas para países com economia incomparavelmente robustecida -- EUA/Mexico -- Africa SubSariana/Europa via Espanha -- está a levantar problemas sérios.
Estrategicamente, é aconselhado às economias ricas a criação de polos de desenvolvimento nos paises de origem dos movimentos migratórios para que os candidatos se interessem e se fixem.
Porém como o tempo que demora é insuportávelmente longo, apesar de vergonhoso, o expediente, seja ele quel for, de travagem de fluxos resulta ...o que se vai sabendo:
LAMENTÁVEL!

DIAFRAGMA disse...

Isto é de tal forma obsceno que nem sei comentar.

Prefiro pensar naquele velho ditado que diz "Quando os ventos são fortes uns constroem muros, outros, moínhos".

uivomania disse...

Perante a ignomínia, regozija-me acreditar que estes muros projectados para dividir povos possam tornar evidente a necessidade de unir gente.

FOTOESCRITA disse...

Não sei se o senhor Bush e seus acólitos são loucos, se velhacos, se desavergonhados, se malévolos, se nódoas entre os seres humanos. Devem ser tudo isso e muito mais de hediondo que ainda não se revelou. Regride-se. Absolutamente incompreensível! Mas pergunto: de que serve a nossa indignação? Não sei não.

Licínia Quitério disse...

Pela tua brilhante e pungente exposição, uma modesta oferta de um escrito meu, em carteira (talvez a propósito):


"Vieram do Sul em revoadas.
Descalços, sulcaram as areias
com os pés crivados de espinhos,
a fazer recuar as cobras do deserto.
Eram negros e não temeram
que o Sol os abrasasse até à morte.
Por vezes, derivaram por aldeias
e os aldeões lhes perguntaram
com os olhos, apenas com os olhos:
Para onde ides? Quem vos espera?
Também só com os olhos, responderam:
A caminho do norte, onde se diz que
a água jorra quando a sede
dos homens se apresenta,
onde dinheiro se transforma em pão
e as guerras há muito se calaram.
E caminharam meses, anos,
até que o mar os encontrou
e, em riso de maré, os provocou:
Vinde, que a barca vos espera.
Foi tarde, tarde, quando muitos deles,
na cegueira do sol mil vezes afrontado,
ouviram sussurrar o nome do barqueiro.
E Caronte os guiou até ao esquecimento
das águas generosas
com que os homens sem guerra
apagariam a sede dos que do sul vieram,
sem sentir os espinhos das areias,
na miragem do norte há tanto anunciado
pelos tambores, pelas estrelas,
pela vastidão da terra com desejo de mar."

Um abraço.

Dafne disse...

Olá
Passei por aqui para desejar uma boa semana de trabalho (isto de ser operariado é muito cansativo!)e dizer-te que adoro o teu espírito crítico. É um bálsamo para a alma. Continua acutilante, eu agradeço.
Um xi grande...

Anónimo disse...

Qual democracia na USA '? qual liberdade?,fraternidade?,igualdade quais direitos?lamentável, vergonhoso e só e simplesmente por se falar que pode ser feito o tal muro.Mas há mais, e o muro em Israel.não será também um
prova de regimes politicos falhados.
Será que é este Mundo que se deseja?

vida de vidro disse...

Porque é que o teu post me deixa tão triste? Acho que me custa cada vez mais acreditar num futuro em que a tolerância e os valores mínimos de humanidade se imponham às considerações economicistas que levam a considerar seres humanos "descartáveis". Os muros existem mesmo sem serem físicos. Entre o mundo desses 20% e o dos outros 80%. Quando passam a ser muros verdadeiros, lamentamos, confrangemo-nos. Mas não fazemos (podemos fazer?) nada. Triste. **

disse...

A vergonha só existe na casa do vizinho.
Na terra das liberdades e sob a bandeira das estrelas, tudo é democrático.
Pena é que as listas da dita bandeira não tenham eco na rectidão das políticas lá de casa…

Velutha disse...

Vamos todos tentar derrubar os inúmeros muros da vergonha que por aí existem em quantidade.
Beijos

Lord of Erewhon disse...

Música gótica! JAJAJAJAJAJAJA!!!

Los Bravos, «Black is Black»: http://download.yousendit.com/FD0DED77598BC2C0

JPD disse...

(Volto para te dizer que desconheço o que terá acontecido ao teu comentário sobre o Instinto Fatal II.
Não apaguei nenhum comentário.
Se não tivesses reagido nem daria conta que terias omitido comentário.
Se ainda estiveres disposto a comentar o post, teri todo o prazer em lê-lo.
Um abraço)

pintoribeiro disse...

Pois. Mesmo tendo eu mtas saudades da minha Dresden do tempo do muro...bom dia, abraço.

hfm disse...

Actual com a serenidade de quem sabe interpretar. Gostei.

TMara disse...

roubei teu poema k o RELÓGIO DE PÊNDULO e vou postar no http:/7cirv«culodepoesia.blogpot.com/.
Bem hajas.
Obrigada por estas palavras com k constróis mundos.
Bjs.
Luz e paz em teu caminhar e ao teu redor