quarta-feira, outubro 11, 2006

Outras Leituras VI ( Vieram do Sul...)

O poema, em forma de comentário ao post anterior, da Lícinia Quitério, pela sua qualidade literária e pela sua oportunidade, merece maior destaque. Sinto-me honrado e sensibilizado. A única forma que tenho de lhe agradecer é dar-lhe expressão maior com tema principal. Espero que isso seja de seu agrado...

"Vieram do Sul em revoadas.
Descalços, sulcaram as areias
com os pés crivados de espinhos,
a fazer recuar as cobras do deserto.
Eram negros e não temeram
que o Sol os abrasasse até à morte.
Por vezes, derivaram por aldeias
e os aldeões lhes perguntaram
com os olhos, apenas com os olhos:
Para onde ides? Quem vos espera?
Também só com os olhos, responderam:
A caminho do norte, onde se diz que
a água jorra quando a sede
dos homens se apresenta,
onde dinheiro se transforma em pão
e as guerras há muito se calaram.
E caminharam meses, anos,
até que o mar os encontrou
e, em riso de maré, os provocou:
Vinde, que a barca vos espera.
Foi tarde, tarde, quando muitos deles,
na cegueira do sol mil vezes afrontado,
ouviram sussurrar o nome do barqueiro.
E Caronte os guiou até ao esquecimento
das águas generosas
com que os homens sem guerra
apagariam a sede dos que do sul vieram,
sem sentir os espinhos das areias,
na miragem do norte há tanto anunciado
pelos tambores, pelas estrelas,
pela vastidão da terra com desejo de mar."

19 comentários:

FOTOESCRITA disse...

Fizeste muito bem, este poema é belíssimo.

alfazema disse...

Merece destaque o poema da Lícinia. Todos os seus posts, poemas e textos, o merecem.
Beijinhos

Licínia Quitério disse...

Honrada por me colocares na tua galeria. Considero um prémio. Mereço?

Abraço.

TMara disse...

e é um poema k nos agarra.
na dor.
na alegria e na comodidade das nossas vidas ou vidinhas e fere e lembra, impõe, o k fazemos por esquecer.
Vou postá-lo no http://circulodepoesia.blogspot.com/
Obrigada a ambos.
Bjs. Luz e paz em nosso caminhar

Frioleiras disse...

Belíssimo, tudo muito belo...

vida de vidro disse...

Um merecido destaque, sem dúvida. Tudo o que tenho lido da Licínia tem "atestado" de qualidade. E este poema chama a atenção para tanta coisa que tentamos esquecer... Foi muito bom lê-la aqui. **

lazuli disse...

lindíssimas palavras que vieram do Sul. Fiquei a conhecer a Licínia.

pintoribeiro disse...

Gostei, mesmo. Bom dia, abraço.

Peter disse...

Belíssimo poema! Fizeste muito bem o divulgar.

JPD disse...

Excelente!

uivomania disse...

Não sei se é mais fácil construir muros que fazer poemas!
Apoiado, este foco em cima do poema da Licínia.
...Num tempo em que o racionalismo dita que se façam muros, e em que burros urram regozijados com a abundância em que se afundam, cegos e surdos para destemperanças do passado... é refrescante, o poema da Licínia.

OvelhaNegra disse...

Voltei das férias e verifico que muito tenho para ler. Ainda bem. Li os teus posts, as tuas «chamadas de atenção», as tuas criticas a temas tão pertinentes.
Terminei a leitura com chave de ouro: o poema da Licínia. Simplesmente belo. Fizeste bem em destacá-lo.É merecido.
Um sorriso e um beijo*

Velutha disse...

Que lindo poema! São sempre bonitos os poemas da Lícínia.
Beijinhos

Nilson Barcelli disse...

O poema é excelente.
Fizeste bem em dar-lhe este destaque.
Abraço.

maria disse...

"dolorosamente" bonito...
Um beijo

Lord of Erewhon disse...

Muito fixe, o poema.

batista filho disse...

... a correr atrás do próprio rabo, corre o cão, se esconde o rabo...

Com "Muro(s) de vergonha?!..." além de nos brindar com mais um instigante texto, nos deste a oportunidade de conhecer um poema excepcional de Licínia Quitério.

Aos dois, o meu abraço fraterno.

Maria P. disse...

Muito bem!

A Licínia merece, claro:)

Dafne disse...

Olá
Passei por aqui para dar um olá e desejar uma boa semana.
Um beijo.