segunda-feira, dezembro 31, 2007

Outras Leituras - "O Desejo de Futuro..."

"De há uns tempos para cá, vozes muito dissemelhantes parecem insinuar, se não explicitamente afirmar, que não há futuro para ninguém ou que vivemos tempos em que ninguém se arrisca a qualquer gesto (...) ou actividade de prognose. Conheceríamos uma era em que teríamos já desistido, ou teríamos de desistir, de tentar imaginar ou desejar um rosto para o futuro.

Esta situação dever-se-ia a um medo que inibe a própria imaginação e de que padeceríamos para além de todo e qualquer pessimismo (...). E contudo se não houver futuro, se não tivermos futuro, seremos como dizia o outro, “cadáveres adiados que procriam”. Porque aquele medo se torna uma patologia do desejo, uma tão brutal antecipação simbólica da morte que inibiria todo o imaginário, amputaria a capacidade de simbolização e tornaria toda a esperança uma ilusão ou um produto do sono da razão. Ora, nós precisamos do futuro como do ar que respiramos.

A perda do desejo de futuro seria, segundo alguns, uma lição aprendida com a experiência social e histórica disponível. Pois não é verdade que todas as revoluções acabaram traídas pelos revolucionários? Pois não é verdade que a história do séc. XX é uma história de catástrofes e de massacres, é a história do fim das ideologias emancipatórias? Eis a “experiência histórica disponível” reduzida a essa pobre e desgraçada fórmula da resignação fatalista : "sempre houve pobres e ricos e portanto sempre os há-de haver". Respondamos perguntando o que significa “disponível”. Não seria melhor dizer “disponibilizada” pelos senhores da comunicação planetária?
(...)
Essa disputa interessa ao conflito entre os possíveis do presente (...). O que aconteceu podia não ter acontecido, porém, de facto, aconteceu. Mas apagar a luta dos possíveis significa fixar, imobilizar ou paralisar o que aconteceu: a história desaparece na repetição do mesmo. Tal paralisia, desencadeando a repetição, tornando fatal todo o acontecido, torna a história uma narrativa profética, uma profecia dos vencedores: será sempre assim, porque sempre assim foi.

Aliás, a tese sobre o “fim da história” começa por ser uma história mal contada e, mais do que um diagnóstico, representa uma tentativa de eternização de um presente reduzido e um bloqueamento do futuro por esgotamento dos possíveis. Nós, na “tradição dos oprimidos” (...), aprendemos a não ceder aos desastres, aprendemos a trabalhar para estoirar o tempo contínuo das derrotas e a perscrutar os momentos em que algo de diferente foi possível, mesmo que por umas semanas ou meses ou décadas. O trabalho da esperança que magoa ensina-nos que o que foi possível, e logo derrotado, será possível (de outra forma) outra vez.

Para outros, a ausência de abertura ao futuro seria resultado de uma limitação própria da acção humana orientada por fins gerais e últimos. O sujeito pós-moderno teria finalmente reconhecido que as acções humanas seriam no limite inconsequentes, (...) quando não perversamente contraproducentes, uma vez que a evolução das sociedades seria um processo de tal forma multivectorial e complexo que seria de facto incomensurável para a inteligência, a consciência e acção humanas. As tentativas de orientar os processos sociais, (...), seriam uma tentação voluntarista, própria de um sujeito moderno, que implicaria de raiz uma violência destruidora, desencadeada sobre “o curso natural” (fatal) das coisas" e traria no seu cerne a ameaça do totalitarismo.

E, contudo, tudo se transforma. Transforma-se o mundo em nós e fora de nós. E da mudança dos tempos e das vontades, nós participamos. Não como animais caminhando para o abate, nem como demiurgos incondicionados. Mas como agentes procurando o máximo de consciência possível, estendendo as mãos e tacteando os possíveis; fazendo, de acordo com os tempos, a vinda de um outro tempo. Não somos adivinhos, nem sabemos rigorosamente prever qual será o rosto do futuro, mas isso não nos impede de o desejar.

O carácter profundamente transformador do trabalho humano, o facto de uma criança de dois anos ser capaz de produzir uma frase que nunca ouviu, o facto de a poesia reinventar a língua em que se escreve, o facto de as artes serem construções antropológicas e de os humanos se configurarem e reconfigurarem, segundo uma “autopoiesis” histórica, são fundamentos suficientes para que nos possamos, sem mais garantias, prometer um futuro - “uma terra sem amos!”.

Porque nós habitamos o mundo e o mundo é a nossa tarefa".


Manuel Gusmão – in “Público” - de 30.12.2007
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Moldemos, então, com nossas mãos, o rosto do Futuro!...

Bom Ano de 2008!

sexta-feira, dezembro 28, 2007

E a fava, senhor Primeiro-ministro?!...

Estamos em época de balanço(s), todos sabemos!... O primeiro-ministro deu o tom na sua charla da noite de Natal, antecipando o tempo e o modo. Ou não fora o eng.º Sócrates um estadista zeloso e atento às necessidades do Povo, sempre venerador da sua Palavra inspirada. Daí, certamente, o esmero de partilhar connosco a noite de consoada, por breves minutos que fossem, em horário nobre de televisão.

Magnífico... Querem momento mais adequado, com maior audiência?!...

Ficamos-lhe gratos, pois claro, mas em verdade, por mim, dispensava! Embrulhou Sua Excelência em colorido papel celofane o aumento do salário mínimo nacional, com que esmolou alguns milhares de portugueses. Ocorre-me, então, dizer que “nunca a mão lhe doa”, enormes que são as diferenças salariais com os trabalhadores da restante Europa comunitária.

O aumento de vinte e três euros mensais sempre dá para fazer um “figuraço”, dirão vozes maldosas (entre as quais a minha). Para quem o concede, naturalmente. E para quem o recebe, o irrisório aumento terá um valor que excede o seu tamanho (ou não fosse a lei da “utilidade marginal” uma experiência viva daqueles que menos possuem), acabando, porém, a magnanimidade do gesto por se “evaporar” no aumento do preço do gás, da electricidade e dos transportes. Antes, porém, não deixou em quem o recebe de afeiçoar a “ilusão” das benfazejas preocupações sociais do governo.

Quem disse que em economia política dois e dois são igual a quatro? São muito mais!.. (Saravah, velho Prof. Teixeira Ribeiro!) . Perfeito, não vos parece?!...

Brindou-nos também o Eng.º Sócrates com outras pérolas da sua governação, com a generosidade de quem distribui substanciais fatias douradas. Entre outras,

a magnificência do déficit orçamental abaixo dos 3% (à custa de investimento público, do garrote dos impostos e do consequente atraso do País e a pobreza dos portugueses);

a grandeza do feito de crescimento da economia na ordem de 2% (com o País cada vez mais na cauda da Europa comunitária, ficando atrás, por exemplo, da Grécia, de Chipre e da Eslovénia, quanto a níveis de desenvolvimento económico e social);

a beatitude de colocar o desemprego no centro das suas augustas preocupações, garantindo-nos que “a economia criou 106.000 empregos líquidos”, (de que os seus correligionários da UGT apresentam versão oposta, com o crescimento do desemprego no último trimestre a uma taxa de 7,9%, como afirmam);

A girândola festiva, como era de prever, rodou à volta dos méritos da presidência comunitária. É humano. As lantejoulas são próprias da época. Mas apenas deslumbram quem quer. Não me atrevo a tanto, mas há quem diga que o País desempenhou a tarefa com zelo de bons mordomos. Porreiro, pá!...

Por minha parte, não me alimento das celestiais delícias, que escorrem das indigestas páginas do “Tratado de Lisboa”. Pelo contrário, partilho a convicção das vozes autorizadas de mais de trezentos economistas europeus de que o “novo Tratado acentua a marca neoliberal que corrói o modelo social europeu”, pois que “não são idealismos jurídicos, que se agarram a uma carta de direitos vazia de conteúdo e a vagas referências a economia social de mercado, que podem contrariar as tendências que nos estão a levar a um modelo de capitalismo falhado” (ver em http://www.memo-europe.uni-bremen.de/).

Ora, perante isto, digam-me se o nosso primeiro-ministro não merecia a fava do bolo?!... Mas não posso obsequiá-lo dessa forma. A ASAE não deixa!...

Vingo-me, hereticamente, num pomposo charuto. Por enquanto, a fumaça não está proibida cá em casa. Nem a ASAE é visita...

Bons “balanços” para 2008!...

sexta-feira, dezembro 21, 2007

Canção Mágico-Religiosa...

“Mesmo que as nossas preces sejam simples,
As nossas promessas sem prestígio
Nesta nossa existência,
Há o tormento da criança, como sabes.
Esta é a doença infantil.
Enquanto nós sofremos até velhos e senis,

Quem irá corrigir o problema?
Donde provirá a dor que nos é apontada?
Donde nos foi incubada a vontade atacar?
Crescida na casa da família,
Pousando no muro Ocidental...

O grande e sagrado Venerando,
Crescendo e inchando por dez mil anos,
Governando por dez mil anos...
(...)
Eu, sacerdote (herético rsss), deverei comandar o espírito
(...)
Procurarei para ti a Paz,
Implorarei para ti a Compaixão
Comunicando através do teu vazio...”


Canção Mágico-Religiosa – Mongólia – in “Rosa do Mundo – 2001 Poema para o Futuro” -Edição Assírio &Alvim.
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Feliz Natal!

Moderem-se. Cuidado com as rabanadas!...





terça-feira, dezembro 18, 2007

Contributo de Gil Vicente para o "Tratado de Lisboa"

Fala Fantasilea:

“(...) Ó famoso Portugal,
Conhece teu bem profundo,
Pois até o pólo segundo
Chega teu poder real.
Avante, avante, Senhores,
Pois que com grandes favores
Todo o céo vos favorece:
El rei de Fez esmorece,
E Marrocos dá clamores.
Ó deixais de edificar
Tantas câmaras dobradas,
Mui pintadas e douradas
Que he gastar sem prestar!
(...)
Não queirais ser Genoveses,
Senão muito portugueses
E morar em casas pardas
Cobrae fama de ferozes
E dourae a pátria vossa
Com mais vozes que nozes...”
(...)


Fala o clérigo (preplexo):

“Sus, sus , digo eu!...”

Fala o diabo Zebron (sardónico):

Este clérigo é sandeu;
onde estou, que não o crismo!
Ó fideputa judeu,
Queres vazar o abismo?”


Gil Vicente – in Tragicomédia “Exortação da Guerra”
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Que o Diabo que, como sabem, é sábio, lhe ponha então a sua diligente mão.No Tratado, claro!...

sexta-feira, dezembro 14, 2007

oscar niemeyer: a vida é um sopro

“Não quero me fazer incómodo e falar da vida com o desprezo que ela merece. Lembrar a miséria, a violência, que crescem por toda parte, e esse futuro sem solução que o destino nos impõe?
Prefiro pensar que um dia a vida será mais justa, que os homens não se olharão a procurar defeitos uns nos outros, como tantas vezes acontece. Que, ao contrário, haverá sempre a ideia de que em todos há um lado bom, uma dada qualidade a destacar (Lenine dizia que 10% de qualidades já seriam suficientes)”...
Ver em - Folha Online

quinta-feira, dezembro 13, 2007

Outras Personagens - Óscar Niemeyer

O arquitecto brasileiro, Óscar Niemeyer, completa, no próximo Sábado, 15 de Dezembro, 100 anos de vida.

Niemeyer nasceu no Rio de Janeiro em 1907. É nesta cidade que faz os estudos de arquitectura, depois de ter trabalhado como tipógrafo. Arrojado e inconformista, Niemeyer é brilhante percursor da arquitectura e do urbanismo modernistas, notabilizando-se, nos anos 40, pelo desenho de edifícios como a sede das Nações Unidas, em Nova Iorque. No entanto, o governo norte-americano de então, impediu-o de leccionar na Universidade em Yale, pelo facto de ser membro do Partido Comunista do Brasil.

Nos anos cinquenta, coordena o projecto de edificação da nova capital do seu país - Brasília - sendo responsável, pelo conjunto de edifícios, onde estão instalados os órgãos de soberania do Brasil. Na década seguinte, exila-se em Paris, após a instauração da ditadura militar.

Enquanto refugiado em França, retoma grandes projectos de arquitectura, como a Mesquita de Argel, ou sede da editora Mondadori, em Itália, ou a sede do Partido Comunista, em Paris. De regresso ao Brasil, nos anos 80, após a queda da ditadura, continuou a actividade de arquitecto de renome mundial, mantendo-se sempre dedicado aos ideais da sua vida, ainda hoje preenchida e animada por projectos arquitectónicos, intervenção cultural e pela luta contra as injustiças sociais.

Lisboa teve o privilégio de admirar, há poucos anos, uma exposição retrospectiva da sua vida e obra, no Pavilhão de Portugal, do Parque das Nações, hoje em dia, palco de todas as cimeiras...

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Eu sei, tivemos a assinatura do Tratado de Lisboa. E o eléctrico da Carris, vestido de azul, a mudar a sua genuína cor. São estes os tempos!...

Mas que querem?!... Da história dos nossos dias, prefiro registar outras personagens! Que antecipam o Futuro. E a sua beleza...

quarta-feira, dezembro 05, 2007

Definições de virtude...

Virtude, Albino, é atribuir o verdadeiro preço
Às coisas no meio das quais nos encontramos, com que vivemos
Virtude é para um homem saber o valor de cada coisa,
Virtude é saber o que para um homem recto, o que é útil, honesto,
O que é bom, como o que é mau, o que é inútil, feio, desonesto;
Virtude é saber marcar o termo e a medida do ganho,
Virtude é ser capaz de fixar o valor das riquezas,
Virtude é dar aquilo que por si só é devido à honra,
Ser adversário e inimigo dos homens dos costumes maus,
E, invés, defensor dos homens e costumes bons,
A este prezá-los, a estes queres-lhes bem, ser seu amigo;

E, além disso, pôr em primeiro lugar o bem da Pátria,
Em segundo os pais, e, terceiro e último, o nosso!”


Lucrécio - “Da Natureza das Coisas”
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Sejam virtuosos! Portem-se mal!...

Até breve. Estarei ausente por uns dias.
Beijos e abraços.

segunda-feira, dezembro 03, 2007

As subtis questões da Justiça...

Sei que as questões da Justiça não podem ser tratadas como “fait divers”, embora o acordo do bloco central na matéria o faça prever...

A “proletarização” de milhares de jovens licenciados em Direito, vítimas de “um gigantesco negócio que explorou de forma inescrupulosa as ilusões e as esperanças da juventude” (o novo Bastonário da O.A. dixit);

A moda da “desjudicionalização” da Justiça, mediante decisões arbitrais, (mesmo em matéria penal), como se a justiça fosse para administrar entre entidades privadas, (ou em Repartições Públicas) e não em Tribunais, enquanto órgãos de soberania e instâncias independentes;

Os custos da Justiça que fazem com que apenas tenha acesso ao sistema, quem pode pagar;

O estrangulamento do sistema em termos de organização, de instalações e de pessoal;

A deficiente formação de magistrados e dos restantes trabalhadores da justiça;

São, entre outros, temas importantes que davam para diversos blogs.

Mas, ou porque ando pouco inspirado, ou porque outras solicitações me prendem, ofereço-vos a tramitação de uma decisão judicial, (cujas referências vou omitir), que mão amiga teve a amabilidade de me enviar.

Concordarão comigo que fazer justiça é tarefa de fazer doer a caixa craniana...

Ora, atentem...

“O Ministério Público deduziu acusação pela prática de crime de ameaças porque durante uma discussão, o arguido ameaçou o ofendido, dizendo que “lhe dava um tiro nos cornos”.

- ”Com tais palavras – conclui o distinto magistrado - o visado sentiu intranquilidade pela sua integridade física”.

O Juiz (de julgamento) decidiu não receber a acusação “porque inexiste crime de ameaças (...) simplesmente pelo facto de o ofendido não ter “cornos”, face a que se trata de um ser humano. “Quando muito, - esclareceu, doutamente - as palavras poderiam integrar crime de injúrias, mas não foi deduzida acusação particular pela prática de tal crime".

O Ministério Público recorreu da decisão, tendo o Tribunal da Relação acolhido o seu recurso, dando-lhe razão, remetendo-se o processo para julgamento, entre outros, pelos motivos que de seguida se descrevem, em breves extractos.

Se é por o visado não ter cornos estar-se-ia então perante uma tentativa impossível?!...

“Como a decisão (recorrida) não desenvolve o seu raciocínio - talvez por o considerar óbvio -, não se percebe quais as objecções colocadas à integração do crime”.


Se é por o visado não ter cornos estar-se-ia então perante uma tentativa impossível”? – interroga-se, supinamente, o venerando conselheiro, para de imediato acrescentar : - “Parece-nos evidente que não."

E duvidativo:

- “Será porque por não ter cornos não tem de ter medo, já que não é possível ser atingido no que não se tem?!...”

E, inspiradíssimo:

- “Num país de tradições tauromáquicas e de moral ditada por uma tradição ainda de cariz marialva, como é Portugal, não é pouco vulgar dirigir a alguém expressão que inclua a referida terminologia...”

Assim – esclarece-nos - quer atribuindo a alguém o facto de “ter cornos” ou de alguém “os andar a pôr a outrem” ou simplesmente de se “ser como” (...) tem significado conhecido e conotação desonrosa, especialmente se o seu detentor for de sexo masculino, face às regras de uma moral social vigente, ainda predominantemente machista".

”Não se duvida – acrescenta - que, por analogia, também se utiliza a expressão "dar um tiro nos cornos" ou outras idênticas, face ao corpo do visado, como “levar nos cornos”, referindo-se à cabeça, zona vital do corpo humano. Já relativamenteà cara se tem preferido, em contexto idêntico, a expressão “focinho»" (sabiam?).

”Não há dúvida – conclui o douto acórdão - de que se preenche o crime de ameaças, uma vez que a atitude e palavras usadas são idóneas a provocar na pessoa do queixoso o receio de vir a ser atingido por um tiro mortal, posto que o local ameaçado era ponto vital”.(Querem ponto mais vital que os ditos?!...)

E pronto. Cuidem-se!.. Antes que vos saia ao caminho algum juiz "marado dos cornos"!...

sábado, dezembro 01, 2007

Revista da Imprensa - Parte Dois

(...)

A arrogância e o desprezo pelas greves está muito para além da discordância com os seus objectivos, é uma manifestação antidemocrática e mais uma, entre muitas, manifestações do tardo-salazarismo inscrito no nosso espaço público e que abomina o conflito como se fosse um mal, e que deseja um mundo sem ondas e sem confrontos, onde os negócios prosperem sem complicações, em que uma mediocridade remediada seja a regra para todos e onde a ausência de escrutínio e vigilância democrática decorrem do peso abafador dos consensos.

Um pouco como já acontece com a "Europa".

Mas, a realidade que mobiliza os grevistas é incontornável e tem a ver com o empobrecimento dos portugueses. Com a excepção de muito poucos, a maioria dos portugueses estão mais pobres e não tem qualquer esperança sobre o seu futuro. Cada vez mais ameaçados pelo desemprego, pela perda de poder de compra, pelo peso esmagador do fisco, o sentimento e a realidade do empobrecimento atinge as pessoas, as famílias e as empresas.

Todas as estatísticas revelam esta crise, e todos os dias saem novas estatísticas mostrando o mesmo caminho: menos "desenvolvimento humano" (um agregado da ONU de vários indicadores), mais desemprego, aumento da inflação, quebra de poder de compra dos salários, menos confiança dos consumidores e dos empresários, mais penhoras, falências, dívidas incobráveis, e os sinais de perturbação social no aumento da criminalidade.

Quando tudo isto é recebido por manobras comunicacionais e spin do Governo e dos seus apoiantes, transformando sinais de empobrecimento e estagnação em sinais de que se vai no “rumo certo”;

quando a oposição do PSD continua muda e calada, quando não ao lado do Governo, às claras ou às escondidas, a negociar tudo e todos, com meio mundo;

quando mesmo os cínicos habituais do jornalismo ficam estranhamente apáticos e complacentes;

quando numa sociedade em que as dependências e a precariedade são tantas que poucas vozes são efectivamente livres,

apoucar os grevistas (...) é ser parte da pasmaceira colaboracionista em que nos atolamos.

É que há mais dignidade cívica nos grevistas do que naqueles que se queixam por tudo o que é recanto discreto ou anónimo dos males da governação Sócrates e não têm coragem para alto e bom som dizerem o que pensam e sofrer as consequências”.


Excerto de um artigo de José Pacheco Pereira – in “Público” de 01.12.2007.
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Claro que, quanto a pressupostos e soluções da crise, haverá com certeza divergências. Profundas, certamente. Mas é inquestionável o rigor e oportunidade de semelhante análise. A vida tem destas ironias...

Tiro-lhe o meu chapéu!...

quinta-feira, novembro 29, 2007

Um Desafio - Liberdade!...

A Helena F. Monteiro hfm teve a amabilidade de nomear este blog com o prémio “Escritores da Liberdade”. Um pouco arredio, (porventura preconceituoso) quanto a este género de iniciativas, sinto-me incapaz de fugir a este desafio.

Invocando-se a Liberdade para homenagear este blog, sinto-me sobejamente gratificado pelos textos que aqui tenho publicado e que têm merecido o vosso esclarecido interesse. Por isso, aceito, com gosto, dar continuidade a esta corrente, celebrando a Liberdade, com um belíssimo soneto do poeta Bocage.

Não se importará a Helena – estou certo disso – que a esta celebração, associemos uma saudação aos trabalhadores da Administração Pública, que dentro de horas estarão em greve, na defesa dos seus legítimos direitos.


Liberdade...

“Liberdade, onde estás? Quem te demora?
Quem faz que o teu influxo em nós não caia?
Porque (triste de mim), porque não raia
Já na esfera de Lísia a tua aurora?

Da santa redenção é vinda a hora
A esta parte do mundo, que desmaia.
Oh! Venha... Oh venha e trémulo descaia
Despotismo feroz, que nos devora!

Eia! Acode ao mortal que, frio e mudo,
Oculta o pátrio amor, torce a vontade,
E em fingir, por temor, empenha estudo.

Movam nossos grilhões tua piedade;
Nosso númen tu és, e glória, e tudo,
Mãe do génio e prazer, ó Liberdade!”


Manuel Maria Barbosa du Bocage

Passo o testemunho a:

António Melenas - pela sua amizade e em memória de seu irmão, José Augusto Gouveia;
Mr. Pickwick - porque a Liberdade não tem fronteiras;
Lícinia Quitério - porque a Liberdade é feminina e a Lícinia é uma poetisa da Liberdade.

segunda-feira, novembro 26, 2007

Revista de Imprensa...

"Meia dúzia de lavradores que comercializam directamente os seus produtos e que sobreviveram aos centros comerciais ou às grandes superfícies vai agora ser eliminada sumariamente.

Os proprietários de restaurantes caseiros que sobram, e vivem no mesmo prédio em que trabalham, preparam-se, depois da chegada da fastfood, para fechar portas e mudar de vida.

Os cozinheiros que faziam no domicílio pratos e “petiscos”, a fim de os vender no café ao lado e que resistiram a toneladas de batatas fritas e de gordura reciclada, podem rezar as últimas orações.
(...)
Os artesãos que comercializam produtos confeccionados à sua maneira vão ser liquidados. A solução final vem aí. Com a lei, as políticas, as polícias, os inspectores, os fiscais, a imprensa e a televisão. Ninguém, deste velho mundo, sobrará...

Quem não quer funcionar como uma empresa, quem não usa os computadores tão generosamente distribuídos pelo país, quem não aceita as receitas harmonizadas, quem recusa fornecer-se de produtos e matérias-primas industriais e quem não quer ser igual a toda a gente está condenado.

Estes exércitos de liquidação são poderosíssimos: têm estado-maior em Bruxelas e regulam-se pelas directivas europeias elaboradas pelos mais qualificados cientistas do mundo; organizam-se no governo nacional, sob tutela carismática do ministro da Economia e da Inovação, Manuel Pinho;

e agem através pessoal da ASAE, a organização mais falada e odiada do país, mas certamente a mais amada pelas multinacionais da gordura, pelo cartel da ração e pelos impérios do açúcar.
(...)
Nas esplanadas, a partir de Janeiro, é proibido beber café em chávenas de louça, ou vinho, águas, refrigerantes e cerveja em copos de vidro. Tem de ser em copos de plástico.
(...)
Nas feiras e nos mercados, tanto em Lisboa e Porto, como em Vinhais ou Estremoz, os exércitos dos zeladores da nossa saúde e da nossa virtude fazem razias semanais e levam tudo quanto é artesanal: azeitonas, queijos, compotas, pão e enchidos.

Na província, um restaurante artesanal é gerido por uma família que tem, ao lado, a sua horta, donde retira produtos como alfaces, feijão verde, coentros, galinhas e ovos? Acabou. É proibido.

Embrulhar castanhas assadas em papel de jornal? Proibido.

Trazer da terra, na estação, cerejas e morangos? Proibido.
(...)
É proibido ter pão congelado para uma emergência: só em arcas especiais e com fornos de descongelação especiais, aliás caríssimos.

Servir areias, biscoitos, queijinhos de amêndoa e brigadeiros feitos pela vizinha, uma excelente cozinheira que faz isto há 30 anos? Proibido.
(...)
Nas prateleiras, diante das garrafas de Coca-Cola e de vinho tinto tem de haver etiquetas a dizer Coca-Cola e vinho tinto.
(...)
No frigorífico, tem de haver sempre uma caixa com uma etiqueta “produto não válido”, mesmo que vazia.

Cada vez que se corta uma fatia de fiambre ou de queijo para uma sanduíche, tem de se colar uma etiqueta e inscrever a data e a hora dessa operação.

Não se pode guardar pão para, ao fim de vários dias, fazer torradas ou açorda.

Aproveitar outras sobras para confeccionar rissóis ou croquetes? Proibido.

Flores naturais nas mesas ou no balcão? Proibido. Têm de ser de plástico, papel ou tecido.
(...)
Usar colheres de pau para cozinhar, tratar da sopa ou dos fritos? Proibido. Tem de ser de plástico ou de aço.

Cortar tomate, couve, batata e outros legumes? Sim, pode ser. Desde que seja com facas de cores diferentes, em locais apropriados das mesas e das bancas, tendo o cuidado de fazer sempre uma etiqueta com a data e a hora do corte.
(...)
Tudo isto, como é evidente, para nosso bem. Para proteger a nossa saúde. Para modernizar a economia. Para apostar no futuro. Para estarmos na linha da frente.

E não tenhamos dúvidas: um dia destes, as brigadas vêm, com estas regras, fiscalizar e ordenar as nossas casas. Para nosso bem, pois claro!...”


António Barreto – in “Público” de 25.11.07

Perante isto que fazer?!... Matem-se! Ou revoltem-se!...

sexta-feira, novembro 23, 2007

Fragilidade(s)...

Réptil o grito
E o movimento rubro.
Ergue-se o gesto. De nada
Sobre o berço...

O corpo preso. Ainda.
E o rumor mudo. Da língua
Contra o muro...

Teimosa a vida
Que apenas a lágrima
Humaniza. E o riso...

António.


a partilha de uma terna fragilidade. com votos de bom fim de semana...

segunda-feira, novembro 19, 2007

Precários e... mal pagos!

Sabiam que do total dos 5 milhões e 200 mil portugueses no activo mais de um terço tem vínculos de trabalho precário?!... Porventura, imaginam essa angústia? É o ganha-pão de cada um preso pelo ténue fio da imprevisibilidade. Em nome da saúde económica das empresas - dir-me-ão alguns. A desvalorização social do trabalho, enquanto elemento de autonomia individual e de dignidade humana - respondo-lhes!... A servidão dos tempos modernos – trabalho com “muitos deveres e poucos direitos”... Uma questão de cidadania, portanto!...

O facto, porém, de um terço dos postos de trabalho terem um carácter precário permite também leitura de que grande parte da nossa actividade económica não gera grande valor acrescentado e, por isso, dispensa a qualificação profissional dos trabalhadores. O que naturalmente não se ajusta ao objectivo proclamado do Governo Sócrates que se proclama apostado numa estratégia de qualificação profissional e de “novas oportunidades”. Nem condiz com as parangonas do “choque tecnológico”...

Esta realidade é tanto mais preocupante quanto é certo que o relatório anual da Proudfoot Consulting, - um estudo de análise independente Universidade de Warwick sobre a produtividade - acrescenta motivos de preocupação sobre ao desempenho das empresas portuguesas.

O que célebre relatório vem dizer?!... Que as empresas privadas portuguesas desperdiçam 47 dias de trabalho por ano, que representam 5,5 por cento no produto interno bruto, correspondente ao prejuízo de 7626 milhões de euros para a economia portuguesa.

Claro que os trabalhadores têm as costas largas. E não faltam governantes e “inspirados” comentadores a culpar o mundo do trabalho pela fraca produtividade da economia portuguesa. E, em verdade, face à precariedade das relações laborais quem poderia estranhar um menor empenho?!... De facto, à primeira vista, poder-se-ia deduzir que o desperdício estaria intimamente relacionado com o carácter precário de um terço das relações laborais...

Porém, não é nada disso que o relatório anual da Proudfoot Consulting afirma. Na realidade, segundo o relatório, a fraca motivação dos trabalhadores é apenas o terceiro factor que contribui para o chamado trabalho não produtivo. Os factores decisivos, causadores do desperdício 7626 milhões de euros para a economia portuguesa, são precisamente a falta de planeamento e de controlo dos dirigentes e a impreparação das chefias.

Se os números do trabalho precário são lastimáveis do ponto de vista social, os números do trabalho improdutivo constituem verdadeiro libelo acusatório aos nossos ilustres empresários, tão lestos em parasitar o Estado ou na exploração do trabalho, (ou a arrotar postas de pescada) mas tão pouco diligentes nas tarefas que deles se exigem.

A falta de planeamento e controlo por parte de quem dirige as empresas é responsável por 40 por cento do desperdício na economia portuguesa. E outros 40 por cento do desperdício são da responsabilidade das chamadas chefias intermédias, com falhas de formação necessária para dirigirem trabalhadores e para utilizar os métodos mais eficazes para poderem alcançar os objectivos.

Claro que nada disto nos é estranho. Toda a gente tem consciência que os trabalhadores portugueses são produtivos “lá fora”. Porque não serão “cá dentro”?!...

E aqui chegamos. Quem, porém, nos fala disto?!... Será que célebre relatório da Proudfoot Consulting é lido em S. Bento? Ou em Belém? Deixem-me ser um pouco perverso - será que um dia veremos uns “Prós e Contras” sobre o tema?!...

quinta-feira, novembro 15, 2007

O seu a seu dono...

O célebre “Por qué no te callas?” percorre, com frémito, o mundo lusitano!...

Desde o mais boçal taxista, ao mais sofisticado comentador, não há ninguém que se dispense, na matéria, ter opinião. Para louvar – hélas! – o brioso feito do monarca espanhol, mandando calar o semi-índio que, no outro lado do atlântico, por vontade do seu povo, é presidente da República da Venezuela...

Compreende-se esta pulsão cor de rosa pelo Bourbon de Espanha, feito monarca por decisão do generalíssimo Franco... Hugo Chávez é feio, faz voz grossa e - pecado dos pecados! – não desiste de, por processos democráticos, alcançar uma sociedade mais justa para o seu povo. E para a América Latina. Nem que para isso tenha que enfrentar os poderosos e dizer algumas verdades duras como punhos...

Bom seria que a nossa complacente comunicação social, para além da leitura da imprensa cortesã, que se publica em Espanha, estivesse mais atenta a tudo o que se publica no País vizinho, sobre o incidente verificado no decurso da XVII Cimeira Ibero-americana.

De facto, se é verdade que todos os periódicos espanhóis ligados à corte cerraram fileiras para defender o monarca, importa também conhecer, por exemplo, que o diário El País, em editorial, mostrou preocupação pelo contínuos incidentes que o monarca protagoniza, defendendo que “a figura do rei não deveria estar por mais tempo no primeiro plano político”. Embora, no caso concreto, um pouco contraditoriamente, reconhecesse que o monarca “esteve no seu papel”.

Mas, para além do incidente, o que deveria, sobretudo, fazer reflectir os cidadãos interessados, são as duras acusações de vários representantes de países sul-americanos às empresas espanholas e a determinados comportamentos da diplomacia espanhola, nos respectivos países.

Por exemplo, quanto à intervenção a embaixada espanhola em Caracas no golpe militar contra Chávez, em 2002. Está provado que aquela embaixada recebeu instruções precisas do presidente Aznar, em convergência com os Estados Unidos, para apoiar o golpe. No entanto, Hugo Chávez era na altura, como hoje, presidente legítimo da Venezuela, eleito por sufrágio dos seus concidadãos.

Por outro lado, Daniel Ortega, acusou directamente a diplomacia espanhola de intervir nos processos eleitorais da Nicarágua e de colaborar com a direita naquele País para evitar o triunfo da Frente Sandinista.

Deveriam também ser motivo de grande preocupação as denúncias feitas contra a União Fenosa, acusada de utilizar métodos dignos de gangsters na América latina. Ou a palavra honrada do “moderado” Presidente Néstor Kircher ao criticar, com dureza, a abusiva actuação das empresas espanholas na Argentina.

A nossa comunicação social, que rasga as vestes e se cobre de cinzas, perante o qualificativo de “fascista” lançado por Chávez a Aznar, acha bem que Aznar, então presidente do Governo de Espanha tivesse chamado a Chávez “novo ditador”, ou tivesse falado do “regresso ao nazismo”, ou tivesse acusado o Chávez de ser defensor do “abuso, a tirania e o empobrecimento”, entre outras expressões de igual teor.

Juan Carlos Bourbon, monarca de Espanha, em gesto imperial, pretendeu fazer calar Chávez. Mas porque se sentiu ofendido com as criticas de Chávez a Aznar? Em verdade, como, cada um de nós, deve qualificar alguém que apoia golpes militares para destruir as instituições democráticas? Na Venezuela, ou de qualquer outro País...

Tenho, para mim, que o gesto irado de Juan Carlos de Bourbon, tentando fazer calar o Presidente venezuelano, usurpando as funções de quem presidia à reunião e ausentando-se depois, não abonam a seu favor como chefe de Estado.

Talvez, por essas e outras, se levantem, em Espanha, cada vez mais vozes, reclamando a instituição da III República.

domingo, novembro 11, 2007

Outras Personagens - Paul Tibbets!...

O nome de Paul Tibbets, diz-vos alguma coisa? Não?!... E o brigadeiro-general Paul Warfield Tibbets Jr., da aviação norte americana, que faleceu, beatificamente, em sua casa, no passado dia 1 de Novembro, em Columbus, Ohio? Ainda não?!... E a manhã soalheira de 6 de Agosto de 1945? E Hiroshima? E a primeira bomba atómica deflagrada sobre populações indefesas? E Nagasaki três dias depois?!... E as cem mil pessoas que morreram imediatamente à explosão, diz-vos alguma coisa?!... E milhares e milhares que morreram nos dias, meses e anos seguintes?!...

Tibbets foi o escolhido justiceiro da barbárie moderna. Quarenta e seis segundos depois de ter saído do bojo do “Enola Gay” – a super fortaleza voadora assim designada – a bomba atómica (carinhosamente baptizada de “Litlle Boy”) explodiu a seiscentos e cinquenta metros do solo, com a força de trinta e cinco mil toneladas de dinamite. “Ground Zero”, assim se disse então, da cidade devastada de Hiroshima...

Paul Tibbets treinara durante meses para a missão. Como, aliás, toda a tripulação por ele escolhida. Era, por isso, piloto experiente, como se compreende. Numa manobra de grande perícia, desviou o avião da linha perpendicular do lançamento e fê-lo picar abaixo do cogumelo nuclear e, a muitos quilómetros de distância, a explosão sacudiu o super avião, como se uma bomba antiaérea tivesse deflagrado a ali ao lado...

Seis horas depois aterrou, em Tinian, ilhas Marianas, donde partira na madrugada anterior. Missão cumprida! Tibbets e toda a tripulação foram condecorados...

Para a apressar o fim da guerra – diz-se – e vergar o Japão!... Mas a besta nazi entrara em colapso e o Japão sem meios para resistir mais que escassas semanas. Hoje, está historicamente comprovado que a bomba atómica, mais que o fim da guerra e a derrota inevitável do Japão, visava conter a União Soviética.

Assim o compreenderam, antes de todos, Oppenheimer, Einstein e Fermi, os cientistas que inventaram a bomba atómica, batendo na corrida o aparelho científico nazi, que tentava também construir a bomba atómica para oferecer a Hitler...

Alguns dos cientistas, que estiveram envolvidos no projecto Manhattan, face a dimensão apocalíptica de Hiroshima e Nagasaki, cedo lamentaram a sua invenção; outros, foram mais longe e, vencida a guerra, contribuíram para por termo ao monopólio nuclear dos Estados Unidos, trabalhando a favor da União Soviética, por entenderem que assim reduziam as probabilidades de novos ataques nucleares.

E, assim, décadas de “guerra fria” fizeram com que nunca se tivesse chegado à “guerra quente” por medo da catástrofe nuclear. Equilíbrio de terror, sem dúvida, mas em qualquer caso o equilíbrio de forças nucleares fez com que a Humanidade fosse poupada à tragédia.

Paul Tibbets nunca foi dado a tais rebates de consciência. Pelo contrário, em insólito fulgor patriótico, face a dimensão apocalíptica da tragédia que provocara, disse a Truman que cumpriu a sua missão, sem quaisquer hesitações ou dúvidas. E repetiu-o vezes sem conta. Era atroz perder tantas vidas, reconhecia. Mas enquanto as guerras existirem “é melhor ganhá-las que perdê-las!...”

E receio bem que Tibbets não esteja só. E que o desejo de ganhar guerras se sobreponha à vontade de evitá-las. Hoje o equilíbrio nuclear está desfeito. Mas quem se atreve a afirmar que o Mundo está mais seguro?!...

Paul Tibbets ficará na História. Esperemos que não seja pelos piores motivos...

A propósito – depois do Iraque, o Irão diz-lhes alguma coisa?!...

terça-feira, novembro 06, 2007

"ESQUERDIREITA"

A edição deste post é suscitada pela interpelação do meu amigo Jorge Castro que, no contexto da simpática cadeia que corre na blogsfera, se propõe conhecer “qual a frase que se encontra na 5ª linha da página 161 do livro”, que eu ando a ler!..

Já imaginaram a sensaboria?! Não pretendo fugir às regras, mas já viram o enfado que será declamar, em serão familiar, frases do género: - (...) “as ilusões de esquerda sobre a democracia parecem particularmente audaciosas no momento em que se apresentam como exigência de “autogestão operária”, ou como extensão da democracia ao processo produtivo (...)”.

Por isso, em lugar da linha 5ª linha da página 161 de “As Aventuras da Mercadoria – para uma nova crítica do valor”- Ansel Jappe – Ed. Antígona, proponho-vos a leitura integral do poema “ESQUERDIREITA”.

O timbre “anarca” do meu amigo ficará plenamente salvaguardado e os meus amáveis leitores(as) sem motivo para (me) fugirem...


ESQUERDIREITA

“A esquerda da minoria da direita a maioria
Do centro espia a minoria
Da maioria de esquerda
Pronta a somar-se a ela
Para minimizar
Numa centrista maioria
Mas a esquerda esquerda não deixa.
Está à espreita
De uma direita, a extrema,
Que objectivamente é aliada
Da extrema-esquerda.

Entretanto
Extra-parlamentar (quase)
O Poder Popular
Vai reactivar-se, se...

Das cúpulas (pfff!) nem vale a pena
Falar, que hão-de
Pular!

Quanto à maioria de esquerda
Ficará – se ficar – para outro poema...”


Alexandre O´Neill
pág. 81 – “Anos 70 – Poemas Dispersos” – Ed. Assírio & Alvim

Espero que o Jorge (e todos vós) me releve a falta de não proceder a novas nomeações.

sexta-feira, novembro 02, 2007

Cérebro Transparente?!...

Há mais de trinta anos, ouvi da boca de um expert norte-americano que a mensagem publicitária deve explodir no cérebro “como uma bala”. A metáfora, de uma eficácia arrepiante, exprime a vocação totalitária do consumo, a que todo o Desejo, Vontade, Emoções e Sentimentos são submetidos pela força prodigiosa da publicidade e do marketing...

Hoje, não é motivo de escândalo!... Mas, então, éramos jovens, tínhamos sonhos e não bebíamos Coca-Cola!... Foi, assim, por nós considerada tão elucidativa imagem como mais um exemplo “prático” da urgência em mudar o mundo... Para que o Homem, liberto das contingências da exploração social e das manipulações do consumo, pudesse, enfim, assumir-se, sem culpa, nem pecado, na reincarnação de Eros e a publicidade não fosse mais que a celebração da Poesia...

Surpreendi-me nestas lucubrações ao ler, no semanário Expresso (27.10.07), que a revista de economia norte-americana Forbes – uma revista de negócios -publicou recentemente um artigo entusiástico sobre os avanços das neurociências, com o sugestivo título (em tradução livre) “À procura do botão/interruptor das compras”.

O artigo em causa não saiu, obviamente, por acaso, mas sim na sequência de um crescente interesse nos meios norte-americanos por este assunto. O Expresso cita, a propósito, uma variedade significativa de artigos sobre o tema e esclarece que a Forbes, “que não brinca em serviço”, segue com atenção o que passa nos laboratórios de investigação das neurociências.

Porquê? Porque estas pesquisas tentam perceber o que acontece no nosso cérebro quando este é sujeito a determinados estímulos. E, claro – diz o Expresso“o facto de as empresas poderem configurar os seus produtos ao conhecimento preciso do que se passa no cérebro do consumidor, é algo cujo potencial só pode ser aliciante”, já que permitirá a perfeita adequação dos produtos ao consumo. E o conhecimento dos impulsos cerebrais permitirá “carregar no botão das compras de cada um de nós, individualmente...”

Por isso, a Forbes – acrescenta o semanário - voltou à carga com novo artigo, desta vez intitulado “Este é o seu cérebro quando faz uma compra”. Este segundo artigo da Forbes terá sido motivado pela publicação de um texto da revista científica Neuron, na qual um grupo de estudiosos revela que, fazendo um scanning - com uma das mais recentes tecnologias disponíveis, o FMRI (Functional Magnetic-Resonance Imaging) – ao cérebro de um indivíduo se “conseguia determinar se ele iria fazer, ou não, uma determinada compra”.

Esclarece ainda o Expresso que os autores do artigo científico em questão pertencem a algumas das mais prestigiadas escolas dos Estados dos Estados Unidos e que trabalham numa nova área de investigação designada “neuroeconomia”. Esta nova “ciência” combina as contribuições das neurociências, da economia e da psicologia na perspectiva de definir, entre outras questões, os padrões de comportamento dos indivíduos na tomada de decisões de consumo...

Como se compreende, os artigos são cautelosos quanto à possibilidade de as “lojas em geral” terem capacidade para “olhar” para dentro do cérebro dos consumidores – “não só pelo custo proibitivo das máquinas que o fazem, como pela sua inadequação aos espaços mais comuns”-, mas garantem que os resultados obtidos permitem já não só compreender melhor os mecanismos da tomada de decisão dos consumidores “como prefiguram claramente o futuro que se prepara”.

Enfim, se eles o dizem...

E, com toda a naturalidade, referem que grandes empresas como a General Motors, por exemplo, têm vindo a utilizar tecnologias de visualização do cérebro em tempo real, para estudarem as reacções dos consumidores perante determinadas imagens específicas (carros, dinheiro, etc.).

Entretanto, a dimensão orwelliana agrava-se quando se fica a saber que tais tecnologias de “leitura do cérebro” serão, num futuro não muito distante, também “passíveis de serem exploradas e aplicadas em contextos muito diversos, como a política e a cultura...”

Eis, pois, o anúncio antecipado da derrota de Eros e do fim da autodeterminação do Homem que, desde os helénicos, tem percorrido História como promessa de realização plena...

Perante isto, que posso dizer-vos?!... Que a metáfora da explosão da bala deixou de fazer sentido?!... Ou que ainda hoje não bebo Coca-Cola?!... Ou dizer-vos da fatalidade do absoluto “Triunfo dos Porcos”? Ou, pelo contrário, proclamar que continuo acreditar na urgência em mudar o Mundo?!...

domingo, outubro 28, 2007

Cem mil anos é agora?..

Esta manhã (26.10.2007), inesperadamente, entrei em estado de choque. Receei pelo meu pobre coração. Mais grave ainda. Receie pelos meus genes, por quem tenho, elevada estima. O caso não é para menos, como compreenderão. Eu explico...

Fiquei a saber, através do “Diário de Notícias”, que “a espécie humana pode vir a subdividir-se em duas”. E melhor que La Palisse, acrescenta o jornal que “as duas subespécies vão dar origem a uma classe superior e a uma inferior”...

Os descendentes da classe superior serão “altos, magros, saudáveis, atraentes, inteligentes e criativos”, enquanto que os descendentes das classes inferiores serão baixos, feios e pouco inteligentes, “uma espécie de goblins” (não sei que raio seja, mas não é certamente coisa boa!). Fundamenta-se o jornal nas últimas descobertas do especialista em evolução(?) Oliver Curry, da London School of Economics...

Entrei em pânico, garanto-vos!.. O meu pânico assumiu foros de catástrofe ao saber que os homens – da classe superior está bem de ver – “vão ter feições mais simétricas, o queixo mais quadrado, a voz mais profunda e o pénis maior...”

Pénis maior, já viram! Querem maior castigo?!... A natureza é madrasta, sem dúvida. Não poderia, ao menos, o pénis ficar fora da distinção de classes?!...

Acalmei quando, em segunda leitura, percebi que o risco é apenas para daqui a cem mil anos e que a espécie humana vai atingir o pico de evolução no ano três mil. Pus-me então a fazer contas, a partir do homo sapiens e dos milhões de anos desde então e suspirei fundo... Afinal, talvez os meus genes ainda se safem e o meu neto – uma terna criança de escassos meses - não esteja condenado a ostentar as orelhas de um goblin...

Fiquei mais confortado quando soube que “vamos mastigar menos” (isto deve ser música aos ouvidos de Sócrates) e “ficaremos com os maxilares menos desenvolvidos e com os queixos mais pequenos”. Pudera!...

E foi já com bonomia que recebi a explicação de que “não podemos prever exactamente o que irá acontecer, mas podemos fazer previsões com base no conhecimento que temos...”. Era o que faltava que não pudéssemos fazer previsões. Não vos parece o máximo rigor científico?!...

Melhor apenas o Zandinga!... Ou o argumento do laureado James Watson, de que bastará reparar num empregado de café para se concluir que os negros não possuem a inteligência dos brancos...

Claro que tudo isto é de gargalhada. Mas não são inocentes estas novidades. Os “fazedores de opinião” batem sempre a mesma tecla, com novos métodos, seguindo a linha do tempo. E a roupagem científica dá sempre jeito...

As fantasiosas mutações genéticas poderão ocorrer apenas daqui a cem mil anos. Mas tão bombásticas revelações são ideologicamente produtivas no presente. Escutem o murmúrio subliminar – as desigualdades estão instaladas na matriz biológica da natureza e inscritas no ADN da Humanidade...

A espécie humana está assim fatalmente condenada a divisão em classes. Já não apenas classe sociais, historicamente superáveis, mas “subespécies vão dar origem a uma classe superior e a uma inferior”, predeterminadas pela natureza...

Perante tamanha fatalidade, cientificamente proclamada, porquê lutar contra as injustiças? A natureza é injusta, porquê então preocupar-nos?!... Não será melhor conformar-nos e adaptarmo-nos ao sistema? E sobreviver, pois claro! Salve-se quem puder...

Há, porém, aqui, um pormenor intrigante. Foi a London School of Economics – uma escola de economia política - a difundir semelhantes teorias sobre a evolução da espécie humana. Compreende-se. A ciência é coisa demasiado séria para ser deixada apenas aos cientistas...

Bem melhor seria, porém, que os “sacerdotes” do mercado e os gurus do liberalismo económico, em vez de especulações à distância de milhares de anos, tomassem consciência do eminente “beco sem saída” que o capitalismo, de que são oficiantes, está a empurrar a humanidade...

quinta-feira, outubro 25, 2007

A propósito de "Fazedores de Opinião"...

"Tudo que os fazedores de opinião apregoam como sagrado, nobre, intangível; o que dizem ser as características da nossa civilização, garantindo a estabilidade social ou promovendo o progresso material e moral, tudo isso é apresentado de forma a constituir poeira que se atira aos olhos dos outros para que não vejam a realidade das coisas.

Quando a revolução social é pregada como transformação principalmente económica, os conservadores tornam-se idealistas e acusam os revolucionários de só pensarem no estômago, de não se elevarem acima da preocupação mais inferior. E entoam hinos à espiritualidade da vida!

Se a revolução é pregada como transformação não só económica, mas política e moral, visando a modificação das instituições respectivas, os conservadores levantam os braços ao ar e manifestam, por todas as formas, o seu horror à tremenda catástrofe. Então é poeira às mãos cheias, atirada aos olhos dos ingénuos, dos simples, para lhes infundir a sagrada aversão de tais heresias e dos heréticos pregadores; e pede-se repressão em nome da defesa das instituições civilizadoras...

Como os ingénuos e os ignorantes são legião, não é difícil conseguir-se o que se pretende, tanto mais que vão ao encontro de hábitos, de ideias inveteradas e de preconceitos aos quais repugnam sempre inovações.

A sua tarefa é, sem dúvida, mais fácil que a nossa; mas não fora a força legal de que dispõem e que baptizam com o nome legítima, usando dela para se impedir a propaganda a que chamam, com toda a razão, dissolvente, porque tende a dissolver os privilégios de que gozam, não fora essa força e bem depressa, apesar das múltiplas dificuldades, se conseguiria desfazer preconceitos e que todos vissem claro...”
(...)

Se queremos revolução, é para que a moral social seja uma verdade (...); para que a justiça não seja campo onde o dinheiro e soberano para condenar pequenos gatunos e absolver grandes ladrões; (...) para que acabe tudo onde há humilhação, resignação dolorosa, revolta abafada em lágrimas, espírito de independência sufocado, acordo forçado, dissimulação, toda essa série de actos que reflectem o rebaixamento da personalidade e que se executam para não se ficar sem o ganha pão, para não se fazer sofrer os que se estimam, para não se ser banido como empestado e, quanto mais não seja, por instinto de conservação...
(...)

Porém, leitor observa e indaga e hás-de ver que todo este caudal de misérias morais tem como factor de grande importância, se não como causa directa ou indirecta, próxima ou remota, aparente ou oculta, a dependência económica. Pensa bem e reconhecerás que abolida ela, assegurada a existência a todos que trabalhem, esta vida de mentiras se transformaria para melhor e começaríamos então a praticar essa moral e esse civismo por cujo desaparecimento tanto tartufo se mostra agoniado, quando ouve falar em revolução social...”(...)


Emídio Costa – in “SEARA NOVA” – nº2 – 05.11.1921

Admito que ando um pouco preguiçoso. Espero que me desculpem. Em minha defesa, invoco a vantagem de vos dedicar leituras mais estimulantes...

sexta-feira, outubro 19, 2007

O Nariz Torcido...

“O Nariz Torcido...”

“O teu nariz avança insolentemente
No Mundo; inflama-se a tua narina...
É por isso, homenzinho altivo,
Rinoceronte sem chifres que tu és, que cais sempre
Para diante!
De tal modo que vemos sempre juntos
A altivez rígida e o nariz torcido...”


Frederico Nietzsche – in “A Gaia Ciência”
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Terminou a Cimeira Europeia? Que viva então a Cimeira!...

Entretanto, duzentas mil pessoas manifestaram-se no Parque das Nações, em Lisboa, pela dignidade do quotidiano...

Sabe-se lá onde mora a História!...
O pêndulo continua a balançar. Sempre!...

domingo, outubro 14, 2007

Trova do vento que passa

"há sempre alguém que semeia...canções no vento que passa"...

Anos de brasa....

São de brasa os anos de 1961/62. Como, aliás, toda a década de sessenta, no nosso País...Há greves operárias e camponesas de norte a sul. O 1º de Maio de 1962 é a maior comemoração de sempre, do Dia do Trabalhador, durante a ditadura fascista de Salazar e Caetano.

A União Indiana havia, pouco antes, recuperado Goa e libertado o denominado Estado Português da Índia. Começa a Guerra Colonial em Angola. Verifica-se a tentativa de assalto ao quartel de Beja por um grupo de militares e civis. José Dias Coelho – o pintor mais tarde celebrado na canção de Zeca Afonso – militante comunista, é assassinado pela PIDE. Ocorre a espectacular fuga da prisão de Caxias de um grupo de dirigentes do Partido Comunista Português.

Em Lisboa, na sequência da proibição da comemoração do “Dia do Estudante”, intensificam-se as lutas estudantis, dando início a uma prolongada greve que alastra às outras academias. Mais de 1500 estudantes são presos...

Adriano Correia de Oliveira, então a estudar em Lisboa, regressa a Coimbra e está presente em todas as lutas académicas. Canta baladas, fazendo o canto participar na luta. Em 1963, Adriano está a viver na República “Rás-te-Parta”, onde funcionará a sede da candidatura democrática às eleições da Associação Académica. Grava um disco emblemático: “Trova do Vento que Passa”, poema de Manuel Alegre e música de António Portugal.

O general Humberto Delgado é assassinado pela PIDE. Luandino Vieira, escritor angolano, com o romance Luuanda, ganha o prémio da Sociedade Portuguesa de Autores que, por esse motivo, é assaltada pelos esbirros da Legião Portuguesa e fechada pela PIDE.

Para Adriano a “canção é uma arma”... Canta por esse País fora, sempre solidário com as lutas e anseios do Povo Português. Depois do 25 de Abril, o seu compromisso de cidadão solidário com as causas mais nobres e justas prosseguiu, ganhando, se possível, ainda mais forte intensidade. E a sua voz forte e bem timbrada, constitui uma referência ao serviço da revolução dos cravos e um exercício de cidadania que ainda hoje aponta caminhos do futuro.

António Correia de Oliveira faria, este ano, 65 anos, colhido que foi, pela morte, aos 40.

Que a força do seu exemplo e a sua mensagem perdurem no coração daqueles que foram seus camaradas e amigos, ou daqueles que simplesmente se professam seus admiradores...

quarta-feira, outubro 10, 2007

Ética republicana...

Como bem sabe, a “ética republicana” anda bastante lassa. Uma vez por outra, porém, o País político finge-se de pudores. Um discurso presidencial. Uma entrevista de um respeitável bonzo. Ou um artigo de um qualquer angustiado publicista. Ficamos então a saber que o País vai mal. Que a corrupção alastra. Que o bloco central de interesses corrói o regime e avilta a República...

Pode até acontecer que juristas desassombrados, em lugares institucionais de relevo, se não calem e tenham a coragem de afirmar que “desde que o Presidente da República alertou há um ano para a necessidade de intensificar o combate a corrupção se verificou uma “involução” nessa luta” (Director do DCIAP de Coimbra – in “Público” de 5.10.07). Ou que tenham a honradez de proclamar que o novo Código de Processo Penal – instrumento jurídico decisivo – serve apenas para enfrentar as chamadas “bagatelas penais”, mas não serve para o combate à criminalidade violenta ou altamente organizada e, em especial, a corrupção.

Pode ser que tudo isto aconteça. E, apesar de tudo, acontece. Raros, mas nem todos os homens se vergam, nem todas as instituições se calam. Ou demitem... No entanto, passada a onda e o frémito, a cálida morabezza dos costumes ocupa o espaço e o conúbio indecoroso entre os negócios e a política ganha em lucro(s) privado(s) o que perde em pudor(es) públicos...

Há até quem diga, com algum escândalo, que os “lobbies se apoderaram dos órgãos vitais das decisões do Estado”. O mesmo é dizer que o Estado deixou de servir os interesse geral do País para estar ao serviço dos interesses privados. Os mais poderosos, como bem se deduz...

Porém, apenas se surpreende quem quer. Quem não se lembra do célebre “Compromisso Portugal”? Confrontem com a prática governativa do governo de Sócrates. Os “grandes desígnios” do governo (socialista), mais que no sufrágio ou nas promessas eleitorais, foram ditados nas célebres reuniões do Convento do Beato. E que são escrupulosamente cumpridos, ponto por ponto. Na obsessão do deficit, no desemprego, nos baixos salários, na legislação laboral, nos lucros da especulação financeira.

Como vem sendo o notado, “os negócios conseguem inspirar um respeito e um temor (...) que manifestamente coíbem a imprensa e a televisão”, de que, aliás, são genericamente propriedade. Como conhecer, portanto, o que se passa no interior dos ministérios, que definem as orientações governamentais sobre a economia? Porventura alguma vez chegam ao conhecimento público?...

E como compreender que sejam interesses privados organizados a promover estudos para grandes investimentos públicos (de a questão da localização novo aeroporto é apenas um exemplo)? Ou então, (quando a desvergonha não tem limites), que pensar do facto de serem escritórios de advogados, ao serviço do poderosos interesses privados, a redigir próprios diplomas legais, que melhor servem os interesses que representam?Ilustres advogados, aliás, (ou engenheiros) distribuídos pelas bancadas parlamentares do dito bloco central. Ou instalados no directórios dos partidos do poder! Ou melhor ainda, ex-governantes retirados da “maçada” da política...

Não se trata aqui da velha questão da “mulher de César”! Não existe República sem republicanos. Como também não existe ética política, sem homens íntegros. E de pouco valem piedosas intenções presidenciais (ou outras) sobre a “transparência” da vida pública, enquanto o Estado não se libertar dos interesses que o condicionam. E dos governos que o colocam ao serviço de uns poucos... Como o “rotativismo” das últimas décadas bem demonstra...

Descontado o exagero apocalíptico, alguém duvida “se por acaso caísse do céu a transparência que o Dr. Cavaco deseja, metade da primorosa elite do nosso país marchava para a cadeia como um fuso”... (VPV – in Público de 07.10.07).

O que era bem feito, reconheçam...

terça-feira, outubro 02, 2007

Outras Leituras - Raul Proença

"Um amor (quase físico) pelas ideias..."

Muitas vezes pergunto a mim mesmo como foi possível que tantos que se dizem republicanos aderissem tão prontamente às ideias fascistas, ou pelo menos se revelassem como seus simpatizantes.
(...)
A explicação é que, para eles, a República é um simples agregado de nove letras, numa fórmula cabalística - embora muitos (que não eles) estejam dispostos a morrer por ela heroicamente. O amor à liberdade, as crenças democráticas - que estão muito acima dessa coisa miserável que é a República quando esta não realiza a Democracia - sentiram-se abaladas ao primeiro embate, na sugestão do primeiro êxito, como esses caules frágeis dos arbustos que não suportam as primeiras ventanias. Ora resistir aos embates do êxito é que constitui a prova real da verdadeira convicção - só assim podemos certificar-nos das profundidades, a que a árvore ideológica fez descer as suas raízes.

A verdade é que nenhuma das suas ideias (na maior parte) corresponde a uma necessidade viva. Neles tudo se passa - quer estejam a favor da liberdade ou contra ela - no domínio das ideologias inconsistentes. A liberdade foi uma etiqueta que eles colaram no seu vestuário, não uma necessidade sentida pela sua própria alma. As suas ideias são fluidas, incorpóreas, indecisas e oscilantes, como essas nuvens que flutuam em contornos indecisos, tomando, segundo os acasos atmosféricos, a forma dum animal fantástico, dum palácio ou dum navio flamejante.

Não pergunteis que força íntima as impele, que realidade está por trás delas: é o vento que as impele. Vivem apenas uma vida fictícia, uma vida de empréstimo. Postas num plano exterior à vida íntima do espírito, não mergulham nele as suas raízes, não tomam dele as suas energias, não recebem ali a sua organização concreta. Por isso, os acontecimentos encontram esses homens sempre dispostos a todas as abdicações e transigências - contanto que lhes fique nos lábios, com o sabor da última mentira, o último flatus vocis.

Quantos poucos de nós, aqueles que nos dizemos intelectuais, temos independência e firmeza de espírito!... Quantos poucos de nós nos mantemos intransigentemente numa atitude intelectual e resistimos ao succés, à moda, ao snobismo, às correntes dominantes, aos puros impulsos duma emotividade superficial e transitória!...

Quantos poucos de nós, finalmente, têm isto a que poderei talvez chamar - um amor quase físico pelas Ideias?!..

Raul Proença - in Seara Nova, N.· 81, de 1 de Abril de 1926


Estarei ausente do vosso convívio durante uns (breves) dias.
Até lá deixo-vos na (boa) companhia de Raul Proença.

sexta-feira, setembro 28, 2007

"Flatus vocis" ou o estrondo da política...

Como se sabe, qualquer linguagem ou sistema de comunicação, desde a política, literatura, a arte, a moda, o cinema, o desporto, a culinária e, de uma forma geral, todo o comportamento humano – desejaria que até este próprio texto - “fala” para além daquilo que propriamente diz. Os silêncios, os gestos, os contextos, são tantas vezes mais expressivos que a denotação das palavras, ou que os códigos em cada discurso se desencadeia e se realiza.

Claro que as linguagens mais elaboradas, como a literatura, o cinema, a arte em geral e (uma certa forma) de política alimentam-se deste jogo de(s) ambiguidade(s), e nuances de sentido, articulando-se, ou desfazendo-se, abrindo-se a novas possibilidades de “leitura”, ou remetendo para outras instâncias de “significação”...

No que diz respeito à política, a comunicação tem, por sua natureza, importância decisiva, como bem se compreende. Porque a política é fundamentalmente “verbo”, quer dizer, carne do compromisso originário do homem com a cidade - usar a palavra é ministrar o sacramento do(s) poder(es)...

Por isso, a política, é (era) encenada, cerimonial, retórica, empolgante... Em discurso directo com os cidadãos, na praça pública, tantas vezes na proximidade da presença afectiva e do contacto pessoal. Pode dizer-se que a politica se exercia sem mediatizações. Ou, então, em espaços e meios de comunicação neutros (enfim, tendencialmente!), por onde perpassavam os diversos discursos políticos, em relativa igualdade. E tinha sempre significado. Quer dizer, conteúdo, diferenciação, sentido... A pulsão da vida e do discurso político sobrepunham-se aos efeitos da forma...

Hoje em dia, verifica-se uma mudança de paradigma. Os órgãos de comunicação social e, em especial as televisões, criaram a sua própria ideologia comunicacional ao serviço do lucro das empresas, de que são emanação. As audiências são o alfa e o ómega de qualquer direcção editorial. O que interessa é o estrondo mediático que aumente o lucro da publicidade. A realidade real é ilidida. “A tragédia e o horror” são receita garantida de audiência. E, se a realidade não chega, “fabrica-se” virtualmente a realidade, inventando, empolando, repetindo até à exaustão... Com consequências devastadoras na forma de fazer política.

Os media – até então instrumento neutro (?) de comunicação - são hoje o “quarto poder”, sobrelevando-se aos poderes de soberania (as televisões têm a veleidade de afirmarem que “fabricam presidentes da República como quem vende sabonetes"...) A verdade política é, assim, aquilo que a comunicação social afirma ou as televisões revelam – e não aquilo que os políticos pensam ou propõem e, muito menos, aquilo que a sociedade e os cidadãos aspiram. A política ficou, portanto, prisioneira do enredo da comunicação social. A criatura devora o criador, num jogo de mútuos reflexos, de quem ninguém sai ileso – nem os media, nem os políticos.

Dois breves exemplos. “A guerra do Alecrim e da Manjerona” que grassa no reino do PSD, a propósito da eleição do líder. A dramatização mediática, interessa aos media, como meio de fixar audiências. E interessa aos actores, que pela histeria (no sentido patológico do termo) do discurso pretendem evocar uma alegada matriz ideológica do partido em causa – frontalidade, combatividade, clareza – e projectar na sociedade uma (falsa) ideia de democracia, no jogo de oposições e simulacros.

Quem se limite a partilhar apenas os efeitos do discurso não pode escapar a sensação de “deslumbramento” no confronto bélico dos candidatos. E, no entanto, qualquer deles, confrangedores, sem qualquer substância, ou qualquer ideia digna de registo...

Mais sofisticado, porventura, o segundo exemplo. Um político desacreditado, em momento de recuperação, é entrevistado num canal televisão. Simultaneamente, uma vedeta desportiva, qual herói nacional, regressa ao País, depois do loiros conquistados na velha Albion... A televisão não hesita. As audiências a tal obrigam. Descarta-se do político para ligar ao aeroporto e entrevistar a vedeta...

Hábil nos simulacros, o político nega-se a continuar a entrevista. Abandona os estúdios gritando que o “País está a ficar doido”. O gesto, porém, valeu-lhe mais que qualquer discurso. O “homem mordeu o cão” . Por isso, o político é notícia, como almejava...

Flactus vocis, - dir-se-ia – evocando-se Raul Proença e os tempos da "velha" política...

domingo, setembro 23, 2007

Marcel Marceau

"Je sais des rêves qui ne reviendrons plus

A l'heure fugitive ou les visions passent,

Les enfants comme les vieillards

pensent à leur passé pour que rien ne s'efface"

Marcel Marceau...

Marcel Marceau, um dos mais famosos mímicos do mundo, faleceu este Sábado, com 84 anos. Nascido no dia 22 de Março de 1923, em Estrasburgo, França, Marceau proporcionou, durante décadas, gargalhadas e lágrimas ao(s) público(s) de todo o Mundo, através da sua arte genial.

Marcel Marceau passou a infância em Estrasburgo até aos 15 anos, quando a sua família, de origem judia, foi obrigada a deixar o seu domicílio, após entrada da França na Segunda Guerra Mundial e a ocupação nazi.

O seu pai foi preso pela Gestapo em 1944 e assassinado em Auschwitz. Marcel Marceau juntou-se à Resistência francesa em 1942, em Limogges, como elemento das “Forças Francesas Livres”, lideradas pelo General De Gaulle. Parte do seu trabalho na “Resistência” consistia em ajudar a atravessar a fronteira a jovens e crianças judias. Foi então uma das pessoas mais procuradas pela Gestapo.

Marcel Marceau confessou que manteve esse nome de empréstimo, como nome artístico, em homenagem aos homens e mulheres da ”Resistência” e “todos aqueles que foram torturados e fuzilados, para que o nosso Mundo possa ser livre e justo”.

Em 2005, aos 82 anos, Marceau fez uma tournée de despedida pela América Latina, passando por Cuba, Colômbia, Chile e Brasil. “A mímica, assim como a música, não conhece fronteiras nem nacionalidades”, - dizia. “Se a gargalhada e as lágrimas são características da humanidade, todas as culturas estão mergulhadas em nossa disciplina”.

Marcel Marceau maravilhou o público cubano com sua apresentação cheia de intensas emoções, sem proferir uma só palavra na superlotada sala do Gran Teatro de La Havana. O célebre mímico francês mostrou “o melhor de Marcel Marceau” , numa apresentação única, em 12 de Setembro, a convite da directora e fundadora do Ballet Nacional de Cuba, Alicia Alonso.

Com uma vitalidade incomum numa pessoa dessa idade, Marceau transmitiu a arte magnífica de converter “o invisível em visível”, segundo suas próprias palavras, numa selecção de pantomimas: “A criação do mundo”,O jardim público”, “As mãos”, “Os burocratas” e “O tribunal”.

As cerca de 2 mil pessoas que lotaram a sala não esperaram o fim da apresentação para manifestarem entusiasmo pela sátira “Os burocratas”. Marceau não se agastou por isso e expressou: “Foi um público extraordinário, porque entendeu como misturei a tragédia e a comédia”.

A tragédia e a comédia da vida!...

quarta-feira, setembro 19, 2007

"Zezinha" ou miss Pig da política?

A menina “Zezinha” anda acalorada neste fim de Verão lisboeta. A sua madeixa loiro-acobreada dança, pletórica, em agitação de grandes causas, com os chineses da baixa lisboeta, erguidos como objecto de limpeza urbana. Senhora prendada e de esmeros, com pedigree nos genes e um destino messiânico, não suporta, um grão que seja de poeira, em sua lustrosa sala e, por sua vontade, bem gostaria de transpor para o espaço público semelhantes cuidados de cleanness. Em grande - uma Chinatown, portanto! – inspirada, sabe-se lá, se nos fantasmas do velho gueto de Varsóvia, onde hoje em dia, pela mão de dois gémeos, alcandorados no poder, as coisas parecem talhadas a seu gosto, com a marginalização daqueles que não apresentem a “pureza” necessária...

Há quem lhe ache graça e a considere uma espécie de Mafaldinha da(s) cena(s) políticas do País. A mim, confesso, mais me parece miss Pig, lançando olho lúbrico ao poder, como a outra, a verdadeira, se atirava, dengosa, para os braços do pobre Cocas... Porque a senhora gosta de mandar (“alguém tem que mandar, n´é?!...” ) e, à falta de outra legitimidade, propõe-se ser nomeada para a “Missão” Baixa-Chiado – programa público, de milhões de euros, para revitalização daquela zona citadina. Em part time e “não mais de dois anos”, apressa-se a esclarecer, não vão os comuns mortais julgar que os seus múltiplos talentos e sua multifacetada personalidade se esgotariam nessas minudências...

Em troca semelhante dádiva à Pátria, ficamos então a saber que votou António Costa e que votou Salazar! ... Que o voto em Costa lhe faça bom proveito! Mas uma coisa, porém, é certa, em Salazar nunca ela votou. Não era possível. Salazar era mais dado “a uns safanões a tempo”, com que surrava – nas prisões e nas ruas - os que patrioticamente o combatiam. Por isso, as salazarentas eleições foram sempre um simulacro, a que o ditador, aliás, nunca se submeteu... Mas ficamos a conhecer melhor, com seu desplante, qual o paradigma de cidadania da senhora em causa: segregação social e simulacro de eleições (de preferência na Televisão, para evitar maçadas!...)

Eu sei que a questão é séria. Mais digna de indignação que de desajustada ironia. De facto, Maria José Nogueira Pinto, - é dela que se trata - não é tontinha nenhuma. Sabe bem o que faz e o que diz. Ao serviço dos objectivos políticos que persegue, na recuperação da triologia “Deus, Pátria e Família” e da ideologia fascista, que inspira a sua permanente agitação política. Sem rebuço desta vez em afirmar que Salazar, - “que gostava de mandar” – cumpriu “os objectivos que tinha”(...) apesar dos ventos da História estarem a mudar...”

Se a ilustre senhora o afirma, quem sou eu para contrariá-la? Até estou tentado a dar-lhe razão e admitir que os objectivos de Salazar foram zelosamente cumpridos. O campo de morte do Tarrafal, as execuções sumárias, (de que o assassínio do general Humberto Delgado é porventura a mais conhecida), os Tribunais Plenários, as cadeias políticas, a censura, a fraude eleitoral, o analfabetismo, a doença e a miséria são disso poderosos exemplos, que hoje, tão desvanecidamente, a deslumbram...

É certo que nunca Salazar conseguiu vergar a resistência e erradicar do Povo a esperança de Liberdade e do progresso social. E por ela se bateu com determinação e coragem ao longo de 40 anos. Mas para mal do País, a cadeira, que o derrubou, chegou tarde demais, contrariando, nesse ponto, a ilustre senhora.

Como se sabe, a menina “Zezinha” tem boa imprensa, boas relações sociais, verve e talento às carradas. E ufana-se da sua “obra” como vereadora da Câmara Municipal de Lisboa. Mas convém lembrar que a zelosa vereadora, promoveu e aprovou um regulamento, que impedia os imigrantes de concorrerem às habitações de um bairro municipal. Racismo e xenofobia? Que ideia... Apenas “higiene” social, meus caros! E ordem, está visto!... Isto (o bairro, a cidade, o País, o Mundo) “não é uma fruteira onde se possam meter bananas, maçãs, laranjas e dizer que tudo está bem” – diz, inspirada.

A excelsa senhora é, comprovadamente, manipuladora exímia da política. Será interessante, por isso, saber-se qual o papel, nesta trama, do Presidente de Câmara de Lisboa, António Costa. Se rejeita o fogoso abraço ou se alimenta sonhos de Duarte Pacheco.

Pela mão da menina “Zezinha”, está claro!...

sexta-feira, setembro 14, 2007

Flores para o sr. Scolari (em forma de redondilha!)

“Mester havia D. Gil
Um falcãozinho bornil
Que não voasse
A D. Gil
Nem migalha não filasse!

Um galguinho lebril
Que uma lebre de mil
Não filasse
A D. Gil
Mas rabejasse e ladrasse!

Podengo de riba Sil
Que confiasse um muril
Que lhe mijasse
A D. Gil,
Quando a lebre lhe achasse!

E ossas dum javali
Que dessem por seu quadril
Embargasse
A D. Gil
Quando lebre levantasse!...”

Cancioneiro Nacional – Anónimo - citado em “Homo Ludicus" - M. Sérgio e Noronha Feio – Edição Compendium.

Costuma afirmar-se que para um verdadeiro líder haverá sempre “um tempo falcão e um tempo coruja”. Nem um, nem outro, no caso. Apenas tempo de voar baixinho e cenas... grotescas! Que o meanstream desportivo (e político) está apto a branquear...

sábado, setembro 08, 2007

Fragilidade(s)...

A voz é apenas magma
Som inarticulado da palavra em gesto
De saltar do berço...

E o sorriso
Lágrima adiada em caótico delírio:
Um e outro instinto puro...

Mátria porém a raiz do olhar
Que te envolve. E o círculo das mãos
Em teu redor...

António.

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Antes da "rentré" política, uma embebecida fragilidade...

sexta-feira, agosto 31, 2007

De vez em quando um poema...

"Filhos da época..."

"Nós somos filhos da época,
A época é política.

Todas as tuas, nossas, vossas
Questões diárias, questões nocturnas
São questões políticas.
(...)
Os temas que abordas têm ressonância,
O que calas tem expressão
De um modo ou outro na política.

(Passeias pela floresta
e dás passos políticos
num chão político)

Também são políticos os versos apolíticos
E lá no alto a lua resplandece,
A lua já objecto não lunar.
Ser ou não ser, eis a questão,
Mas que questão, responde lá, então.
- Questão política.

Não tens sequer que ser um ser humano
Para adquirires significado político.
Basta seres petróleo bruto,
Matéria-prima, forragem substancial.

Ou mesa então de reuniões em cuja forma
Se apoiaram longos meses:
Na qual se negociou a vida e a morte,
Quadrada ou redonda.

Pessoas entretanto faleceram,
Morreram animais,
Casas arderam
E campos tornaram-se bravios
Como nos tempos de outrora
Muito menos políticos...”

Wislawa Szymborska (Nobel de Literatura 1996) – in “Paisagem com Grão de Areia”- Relógio d´Água.

Regressemos, então, fatalmente à política...

E anotemos que, com o afundamento da Ota, haverá um aeroporto em Fátima para o “turismo religioso”. Com o Estado a subsidiar a Igreja, como bem se presume...

Haja Deus!... E valha-nos a Virgem Maria!...

Até breve.

segunda-feira, agosto 27, 2007

"Noticias radiofónicas de Lisboa...."

De volta à realidade, ou seja, à estrada, o viajante olha para o céu. Está quente, como o asfalto, e parece uma bola de tão curvo. Certamente, curva-se assim para transpor a serra que tem em frente.

O viajante pára e olha o mapa. Se os seus autores não mentem, e isso não é verosímil, é já a serra de Mogadouro, o inóspito maciço montanhoso que bordeja Trás-os-Montes a Este, embora, entre Este e a raia, fique ainda o planalto mirandês. Mas ainda fica longe. Já se vê nitidamente, por entre a bruma, mas ainda muito longe. Antes ficam ainda o vale do rio Sabor e os montes de Soutelo e Penas Roías.

E, antes ainda, Peredo. Um povoado pobre, de casas velhas, que se reclina junto à estrada a seis quilómetros de Chacim (...). Peredo, tal como Chacim, é um povoado antigo e de renome. Durante o século passado (Sec. XIX), viveu da seda e conserva ainda daqueles anos heróicos, em redor das casas, algumas amoreiras. Mas a aldeia decaiu como todas as da zona e agora mal se vê gente nas suas ruas: um velho na soleira, outro sentado num tronco e duas crianças passeando de mãos dadas (...). O viajante, apesar disso, vê-a afastar-se com pena. Já sabe que até Soutelo não voltará a ver mais aldeias (...).

A paisagem é tenebrosa de tão árida. Oliveiras e sobreiros são já a única coisa que se vê, excepto algum ribeiro seco. Este ano, a seca até as pedras queimou. O viajante, angustiado, olha o céu e pede sorte. Se tiver uma avaria, os corvos comê-lo-ão.

Para o animar, liga o rádio. Costuma fazê-lo com frequência, quando atravessa sítios como este. Fá-lo para ter companhia e para que os quilómetros passem depressa. Mas não passam. A estrada, além de estreita, está cada vez mais sinuosa e mais cheia de remendos. Vê-se que há imenso tempo que nem alcatrão lhe deitam (...).

O rádio, entretanto, fala do estado do escudo português (da moeda, não do emblema). A sua saúde não é preocupante, diz alguém, comparado com as outras moedas europeias. Outro, pelo contrário, lamenta que o escudo não cresça mais. Menos mal, pensa o viajante, olhando à sua volta.

Agora, a estrada avista um rio ao longe. Deve ser o Sabor, embora não veja nenhuma indicação. O viajante atravessa-o sem parar enquanto ouve alguém, na rádio, a falar de tráfego. Pelos vistos, a esta hora, Lisboa está caótica. Quem diria, pensa o viajante.

Passado o rio Sabor, pois foi ele que ficou para trás (pelo menos, segundo os mapas) a paisagem tornou-se ainda mais inóspita. Ainda por cima, já nem oliveiras há. Só montanhas despidas e uma ou outra azinheira abrigada (...).

E um pombal. E outra encosta. E outro barranco à esquerda. À distância, alguns carvalhos e, no céu, uma abetarda. E o caminho que se alarga como se não fosse ter fim. Enquanto isto na rádio, o presidente da República (...) inaugura uma auto-estrada (longe daqui, evidentemente), a Bolsa continua a subir (tal como o escudo, parece forte) e o Sporting de Lisboa, que este ano aspira a tudo, comprou um jugoslavo por metade do que valem estes montes juntos (...).

O viajante, angustiado, volta a olhar ao longe. Só de vêem montanhas, cada vez mais solitárias e secas. E mais montes. E mais encostas. Durante vários quilómetros, que nunca mais acabam, a estrada continua a subir. Não há nada atrás. Nem carros. Nem colmeias. Nem uma simples árvore com sombra, onde possa descansar um pouco. Só montes e o céu azul e o som do rádio de Lisboa (...).“

Júlio Llamazares – in “Trás-os-Montes – Uma Viagem Portuguesa”.

Boa continuação de férias. Cá dentro...

sábado, agosto 18, 2007

Max Roach Clip - drum solo over Marthin L.King speech

"I had a dream..."

Outras Personagens - Max Roach

Com 83 anos, faleceu, em Nova Iorque, Max Roach. Dizem os especialistas que foi um dos maiores músicos de jazz. Os seus companheiros consideram-no o maior baterista de sempre. Dele se diz te afirmado que “nunca se pode escrever o mesmo livro duas vezes” para sublinhar a importância de se explorarem sempre novos caminhos...

Nasceu em New Land, Carolina do Norte, nos Estados Unidos. A sua família, porém, mudou-se para o Brooklyn, quando Roach tinha apenas quatro anos. A mãe era cantora de música gospel. Com dez anos, Max Roach já tocava bateria em bandas deste género musical. A sua primeira grande apresentação, porém, foi em Nova Iorque, aos dezasseis anos, substituindo Sonny Greer, numa performance com a Duke Ellington Orchestra.

Cresceu nos clubes de Harlém.

“Quando era pequeno, em Nova Iorque, trabalhávamos sete dias por semana, sem parar” – contou, em 1997, ao Washington Post – “Tocávamos das noves da noite às três da manhã; depois arrumámos as coisas e íamos para os clubes after hours das quatro às nove da manhã...”

Na década de 1940, Max Roach era já famoso no mundo do jazz, tocando com músicos como Charlie Parker e Dizzy Gillespie. Desistiu, porém, de estudar composição na Escola de Música de Manhatan, depois de um professor lhe ter dito que tinha uma técnica incorrecta. “A maneira como queriam que tocasse – explicou mais tarde – era óptima, se eu quisesse uma carreira numa orquestra sinfónica, mas eu funcionava na Rua 52”

Foi dos primeiros bateristas a tocar o estilo bebop e actuou em bandas lideradas por Dizzy Gillespie, Charlie Parker, Thelonious Monk, Coleman Hawkins, Bud Powell e Miles Davis.

Em 1960, Max Roach compôs e gravou, com a cantora Abbey Lincoln, (com quem foi casado) ,"We Insist! Freedom Now suite", uma suite destinada às comemorações do centenário da "proclamação de emancipação", de Abraham Lincoln. Porém, a inclusão da sua obra na lista negra da indústria fonográfica norte americana teve como objectivo impedir que o baterista contribuísse, com a sua arte, para a experiência de luta de emancipação dos negros norte americanos.

Esta obra – "Freedom Now" - constitui um dos momentos mais fortes do activismo político de Max Roach contra a segregação racial e em defesa dos direitos dos negros, tendo sido proibida na Africa do Sul, no regime do apartheid.

Foi na Festa do Avante, em 1979, que Max Roach se estreou em Portugal. Ruben de Carvalho – citado pelo “Público” de 18.08.07 – afirma, a propósito: “para além da música, interessava-me, obviamente, em Max Roach a sua intervenção social, tanto pedagógica, como política...”

Mais tarde, em 1995, Max Roach actuou, no celebrado festival “Jazz em Agosto”, da Fundação Calouste Gulbenkian...
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Deixo-vos, ao som do melhor jazz, por mais alguns dias...

Max Roach

sábado, agosto 11, 2007

Postal de férias...

Em pousio, nas delícias do Portugal profundo, os rios da minha infância são agora areias por onde despontam raízes e ervas, que teimam ainda... O tempo - “esse grande escultor” – deixa, inevitavelmente, marcas nos rostos, nas coisas e nos próprios sentimentos. Em cada passo, arrima-se o gosto ácido dos frutos, como se o mel silvestre e as amoras fossem apenas o gesto esquecido de colhê-los... Os caminhos, como se sabe, são, tantas vezes, o percurso inverso da alma!... Por isso, a lógica das emoções, assume, por momentos, o proscénio de mim, mas acalmo, célere, o sonho e o frémito. Sorrio complacente e subo à espuma dos dias...

À superfície, a (i)realidade impõe-se, incontornável (palavrão em moda). A dona televisão, gaiteira, devolve-me ao mundo nas pistas do “Portugal positivo”... Espampanante, nos seus cinquenta anos (bem?) vividos, a televisão pública, cavalgando o suor da volta a Portugal em bicicleta, trepa às veredas ignoradas do país, num exercício ridículo de auto promoção, disfarçado no propósito de divulgação do popular desporto e, explicitamente, também dos “valores nacionais”...

Com bivaque e aboletamento em cada local de paragem...

O espectáculo, porém, se bem repararem, é pungente! Digno, aliás, das comemorações. Décadas atrás, Ramiro Valadão, no seu longo consulado à frente da RTP, não teria produzido melhor...

Um apresentador, qual “calinas” (saravah, Henrique Viana) saído do teatro de revista, é o dono do programa: a pose empastelada, a piada de mau gosto, a ignorância alarve e atrevida perdem agora porque são a “realidade”. Acolitando, quais borboletas encandeadas, as meninas do programa (salvo seja) são incansáveis, desfazendo-se entre os sorrisos para o cantor pimba e o concurso da pedalada em seco, isto é, em bicicleta inamovível, sem outro desígnio que não seja o cobiçado prémio em jogo...

Em simultâneo, o desfile das celebridades locais. A gravata de seda do presidente da Câmara, o patati patatá do desenvolvimento local, a doutora da cultura (cultivando o perfil e a pose), o “ilustre” da terra, o emigrante de sucesso (arrotando sentenças), o padre, a orquestra, o grupo folclórico, o doce, o chouriço e o vinho (honra lhe seja). Enfim, toda a panóplia do país castiço, que teimam que Portugal seja...

Num dos programas, como centro da atracção, saltou (em sentido literal) uma exibição em cama elástica. Basbaques, subindo aos céus... Noutro, um brioso jogo do pau... Querem maior excelência?!... Pelo jogo do pau é que lá iremos, estou certo disso...

Não vos falo do figurão (ou da figurinha) tutelar do grupo: cabelo de bom corte, camisa último grito, aberta até a braguilha (passe o exagero) e a floresta capilar em exibição à boa maneira do melhor de Paulo Portas (lembram-se?), em proselitismo acelerado das virtudes do jogo do pau e das tradições nacionais...

Tivera eu algum poder e bater-me-ia, de imediato, para que o ensino da matemática fosse substituído pelo jogo do pau, pelo menos três vezes ao dia. Imaginem a robustez intelectual dos nossos jovens... E o mesmo, aliás, quanto aos saltos em cama elástica, que, decididamente, fazem falta nas nossas escolas, em substituição do ensino da filosofia... Qual Hegel, qual Kant?!... Não há como um bom salto em cama elástica para ver longe e alto! E é radical que baste, pelo menos bem mais que as corridinhas do nosso Primeiro-ministro...

Este o paradigma do “Portugal positivo”... Eu sei que, neste texto, há traços de exagero. E que, por entre a panóplia de banalidades, o programa pode(ria) contribuir para elevar a auto estima de terras e pessoas ignoradas, que, por vezes, irrompem subvertendo os cânones do programa festivo. Como aquele homem, curtido pelo tempo e pela vida, que no contexto do programa, não se inibe em afirmar que melhores vão os tempos hoje na sua terra “com banho diário e almoço todos os dias...”

Embalo a trouxa das minhas ruminações. Que posso eu acrescentar a tão luminosa síntese do percurso do País, nas últimas décadas?!...

Desligo, por isso, a TV e, beatificamente, prossigo “em na busca do (meu) tempo perdido”...

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Aprecio muito o vosso convívio, mas, por mais alguns dias, é difícil poder frequentar os vossos blogs. Beijos e abraços. Até breve...

quinta-feira, agosto 02, 2007

De regresso às "Farpas". Sempre...

"Sabia-se que o Tribunal da Boa Hora era o “santuário da justiça”, onde vários senhores advogados ganham a vida defendendo quotidianamente, com a maior eloquência e o maior ardor, a santa causa dos oprimidos - e, bem assim, a causa contrária!...

No dito santuário, uma multidão de ociosos assiste todas as manhãs à glorificação de um que roubou o seu patrão, ou esfaqueou o seu companheiro e a respeito do qual um magistrado, vestido de toga, exclama:

Nunca, senhores jurados, nunca, desde o principio da minha longa e obscura carreira no foro, tive a honra, em cumprimento da augusta missão que a lei me confere, de erguer minha débil voz em favor de ente mais desgraçado, mais inocente, mais vil e ferozmente ultrajado por seus inimigos, do que aquele que vedes neste momento sentado ali - com “lágrimas na voz”, apontando o réu com um gesto trémulo e antigo: - "naquele banco!...”

Viva comoção! O Sr. advogado bebe alguns golos de água e leva um lenço aos olhos...

E algumas mulheres, de xaile traçado para o ombro, com os punhos fincados nos quadris, levantadas nos bicos dos pés, espreitando por cima da multidão, ao fundo do tribunal, ouvindo estas palavras referidas ao seu conhecido Pêra de Satanás, choram...

Então, um inexperiente, enternecido, pergunta:

- “Foi este o que levou as facadas?!”
- “Não, o malvado que as levou fugiu... para o outro mundo!... Este coitadinho foi o que as deu!...”


Ramalho Ortigão – in “As Farpas” – Volume VII

Ainda bem que a justiça fechou para férias, não vos parece?! E eu com ela...

Volto dentro de dias.

domingo, julho 29, 2007

De vez em quando... um poema!

"Daqui, desta Lisboa...

Daqui desta Lisboa compassiva
Nápoles por suíços habitada,
Onde a tristeza vil e apagada
Se disfarça de gente mais activa;

Daqui deste pregão de voz antiga,
Deste traquejo feroz de motoreta
Ou do outro de gente mais selecta
Que roda a quatro a nalga e a barriga;

Daqui deste azulejo incandescente,
De soleira da vida e piaçaba,
Da sacada suspensa no poente
Do ramudo tristolho que se apaga;

Daqui, só paciência, amigos meus!
Peguem lá o soneto e vão com Deus..."


Alexandre O´Neill - Poesias Completas - Assírio & Alvim

Continuem a rebolar "a nádega e a barriga"...
Mas cuidado com o sol. Não se queimem!...

Beijos e abraços

segunda-feira, julho 23, 2007

EXCLUSIVE CLIP - Not All Digits Created Equal

uns são mais "iguais" que outros...

"Sicko" - Michael Moore novamente ao ataque...

Michael Moore surpreendeu os seus admiradores e adversários com um novo filme documentário, intitulado “Sicko” que, entre outros prémios internacionais, foi galardoado em Cannes, no seu mais recente festival.

A nova película é uma devastadora denúncia da (ausência) de sistema de saúde nos Estados Unidos da América do Norte. Como se sabe, aquele País, a maior potência económica do Mundo, com astronómicos montantes em despesas militares, não possui um sistema público de protecção na doença.

Os cidadãos são por isso empurrados para sistemas de saúde privados, que engordam as companhias de seguros; decorre, portanto, que mais de 40 milhões de pessoas não têm qualquer protecção na doença, pois não possuem rendimentos que lhes permita pagar um seguro de saúde. E, dos 250 milhões pessoas que estão abrangidos por seguros privados, muitos são abandonados pelo próprio sistema a que pagam, por vezes durante décadas, pois não há qualquer controle público sobre as seguradoras.

- “Deixam-nas fazer o que lhes dá na real gana” – diz Moore referindo-se às companhias de seguros e acrescenta: “Cobram o que querem; não controle governamental e, francamente, não organizaremos o nosso sistema até que eliminemos a intervenção dessas companhias”.

Deveras interessante é a opinião de Michael Moore sobre relações das companhias seguradores com os Clinton e, em especial, com a pré-candidata do Partido Democrático à Presidência dos EE.UU, Hillary Clinton: “as seguradoras estão metidas no seu bolso e ela no bolso das seguradoras...”

Em conversa com Amy Goodman, da “Democracy Now”, Michael Moore, fala da sua ida clandestina a Cuba, acompanhado com doentes norte-americanos para tratamento naquele País, expressando a sua admiração do sistema de saúde cubano.

E refere, a propósito, que Cuba tem mais médicos por habitante que os Estados Unidos e que a escassez de médicos no seu país é devida, em grande parte, porque a AMA (Associação Médica dos EE.UU) não quer que haja mais alunos nas escolas de medicina, porque havendo menor número de médicos, maiores são os proventos dos existentes. E acrescenta:

O sistema de cuidados sanitários cubano impressionou-me muito. Toda a gente que lá levamos estava extremamente feliz com o tratamento que recebeu”. “Porém –acrescentou – “o sistema de saúde cubano assenta sobretudo na prevenção, pelo que o que fazem resulta bem sem terem que gastar um montão de dinheiro em cuidados sanitários”.

Michael Moore mantém também grande admiração pelo sistema de cuidados saúde do Canadá, no continente americano e, na Europa, pelos sistema de saúde da Grã Bretanha e da França que considera, provavelmente, o melhor sistema que conhece.

A terminar, Michael Moore refere dados conhecidos da Organização Mundial de Saúde que colocam os EE.UU em 37º lugar da raking mundial, atrás da Costa Rica e desabafa:

- “É patético para o país mais rico doMundo que isto seja possível...

Michael Moore's Sicko on Democracy Now -part 1

"... é patético para o país mais rico do Mundo!"

quinta-feira, julho 19, 2007

Outras Leituras: Erasmo de Roterdão - "Elogio da Loucura"

(...)

“Graças a mim - a Loucura – podeis ver por toda a parte homens que atingiram a idade de Nestor e já mal parecem homens, balbuciando senis, desdentados, de cabelos brancos, ou calvos – melhor nas palavras de Aristófanes “sujos, curvados, desprezíveis, enrugados, calvos, desdentados, impotentes". No entanto, continuam tão contentes com a vida que, na ânsia de “serem jovens”, um pinta o cabelo, outro cobre a calvície com uma peruca, um outro usa dentes postiços, eventualmente de porco, outro ainda é louco por uma rapariga e supera qualquer jovem na sua patetice amorosa. Qualquer velho esquelético com pés para a cova pode hoje casar com uma jovem de tenra idade, mesmo que esta não tenha dote e esteja pronta para satisfazer outros – é prática comum, algo de que quase se vangloriam.

E é ainda mais divertido ver mulheres velhas, que mal podem arrastar os pés, com ar de cadáveres, que parecem ter-se erguido da campa. Continuam a dizer “a vida é boa”, sempre com cio, “farejando o bode”, como dizem os Gregos e contratando, por meio de grandes somas de dinheiro, algum jovem atraente. Passam a vida a pintar-se, a mirar-se ao espelho, a depilar as partes púbicas, expondo os seios flácidos e tentando despertar o desejo frustre com vozes trémulas e gemidas, enquanto bebem, dançam entre as mais jovens e rabiscam os seus bilhetes amorosos.

Tudo isto provoca o riso geral por ser uma absoluta loucura; mas, entretanto, vivem plenamente satisfeitas, numa doce fantasia e é a mim, a Loucura, que devem toda a felicidade. Quem considera isto é ridículo deve considerar se prefere passar uma vida adocicada por esta loucura ou andar à procura do proverbial ramo para a forca.

O facto de uma tal conduta ser mal vista em nada afecta os meus loucos, pois, ou não se apercebem de que algo esteja errado ou, se tal acontece, não dão importância. Se uma pedra nos cai na cabeça, provoca sérios danos, mas a vergonha, a desgraça, o opróbrio e os insultos não fazem mal, se deles tivermos consciência. Caso contrário, não nos sentimos minimamente beliscados. Que mal é que faz sermos vaiados por toda a assistência, se nós próprios nos aplaudimos? E só a Loucura torna isso possível... “

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Erasmo de Roterdão – in “Elogio da Loucura” – Ed. SorpPress – pags. 47 e 48
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Sejam loucos, mas sem exageros, peço-vos. Pois também a Loucura já não é o que era: a “Silly Season” normalizou-a!...