quinta-feira, fevereiro 08, 2007

"Os Grandes Portugueses" - Parte II

Volto ao tema, com alguma irritação, porque, mais uma vez, me revelei ingénuo. Tempos atrás, escrevendo sobre este assunto, julguei eu que o “Botas”, a enfileirar nos “grandes portugueses”, não passaria de um “fait divers” a apimentar o concurso, ou como acicate à participação na votação, entretendo o pagode...

Noto hoje que se trata de uma operação, bem urdida, de branqueamento da sinistra figura da História contemporânea, que foi Salazar. Sobre o pretexto de um inocente concurso, nesta poderosa ofensiva mediática, emerge Salazar como mago das finanças públicas o libertador de Portugal dos males da guerra, a quem os portugueses devem estar eternamente gratos. Quem, porventura, assistiu, na Televisão pública, num destes fins de semana, aos copiosos elogios com que foi ungido, sabe do que falo...

Esquecem, porém, os seus epígonos que Salazar, mais que a tacanhez das “finanças equilibradas”, representa décadas de fome e miséria, doenças endémicas, analfabetismo e atraso económico, em proveito de latifundiários e retrógrados capitalistas.

Que Salazar foi responsável por uma guerra colonial sem sentido, nem esperança, que terminou sem honra; que o “grande português” foi assumido mandador de torturas aos presos políticos e da morte de alguns opositores, entre os quais mais conhecido será o General Humberto Delgado. Que a sua liberdade era a liberdade dos facínoras e dos eufemísticos “safanões a tempo” sobre a quem ousasse contestar a sua política, nas ruas ou simplesmente nas urnas...

É, por isso, ignóbil que, nesta ofensiva ideológica, Salazar possa ombrear com Álvaro Cunhal. Como se o carrasco pudesse ombrear com as suas vítimas. Como se fosse possível qualquer simetria entre a torpeza e a dignidade...

São os salazaristas de diversos graus que teimam nesta afronta. Compreende-se a intenção: atribuir a Salazar qualquer suposta semelhança com Álvaro Cunhal é imputar ao ditador algum mérito, alimentando-se, assim, o mito salazarista da heroicidade e da dignidade do combatente comunista. Como parasita estranho, em corpo saudável...

Porém, entre o resistente heróico e o carrasco não há qualquer equivalência possível, para um olhar isento. E - como vi escrito algures – quem quiser introduzir qualquer equivalência entre ambos “ou é ignorante, ou está intoxicado pela propaganda pós-salazarista (que por aí corre e engrossa) ou é irremediavelmente burro...”

Termino com excertos de uma carta de Álvaro Cunhal para a sua irmã, datada de 1 de Março de 1966, por ocasião da morte do pai...

O teor da carta é bem eloquente quanto ao seu inexaurível humanismo.

Minha muito querida irmã:

Terríveis notícias me chegaram nos últimos tempos: o suicídio do Fernando, a Morte do Pai. Que te posso dizer das lágrimas que chorei e choro, e de todas as razões delas, e das mil inquietações para que não tenho resposta? Por via indirecta, recebi as duas notícias Secas, sem qualquer referência a mais. Nada mais sei, a não ser o que suponho. A grande distância, o não ter visto mais o Pai, o não ter podido dizer-lhe um último adeus e uma última palavra, são dores irreparáveis. Sofreste mais de perto, querida irmã, mas não isto. E o que ele terá sofrido. Esforçado e paciente decerto, mas decerto também inconformado e profundamente triste. Perdemos a pessoa que mais nos amava, que melhor nos compreendia e a quem devemos elevadas lições de honestidade e isenção pessoal. Por isso não perdemos tudo. Apenas lamento, se ele o não sabia.

Chorando os mortos, penso nos vivos, querida, muito querida irmã. Penso em ti, na mãe cega, nos teus filhos, na vossa situação. Que posso eu fazer por vós? Eu sei (e é necessário que tu saibas também) que algo posso fazer. Continuo a ser o teu irmão infinitamente amigo, o teu irmão de sempre. Conta comigo, querida irmã.

À nossa pobre mãe, diz que vos escrevi algumas linhas, que sofro por não vos ter dado o muito que gostaria de dar-vos e que por isso me perdoem, se é coisa de perdoar. Diz-lhe mais, atribuindo-me a mim, todas aquelas palavras que entendas que a podem auxiliar. Do coração to agradeço, a ti a quem coube o leme de tão margas situações.

Neste momento, quero dizer-te alguma coisa mais: olha para o futuro! Não descreias da vida e da alegria! Tem forças para recomeçar, se de recomeçar se trata!
(...)
Querida, muito querida irmã: um grande, grande abraço, aquele que gostaria de poder dar-te neste momento de profunda tristeza.

Repito ainda: não desanimes, olha em frente, olha para a vida e confia.

Com a imensa ternura do teu irmão



Álvaro”

20 comentários:

Licínia Quitério disse...

Não. Não podia, não devia acontecer. Desde o princípio que isto não me cheirou bem. Primeiro as entrevistas de rua, depois a apresentadora, os convidados, o décor. É uma encenação muito bem aproveitada para o branqueamento do ditador fascista que nos rebaixou como povo até aos limites da degradação. E o asco que me metem os "intelectuais" bafientos, herdeiros do cinismo e da pequenez do velho abutre. A grandeza de homens como Álvaro Cunhal ou Aristides de Sousa Mendes subtilmente maculada, diminuida. Insuportável. Medíocres a debitar opiniões de quem nada sabe sobre dignidade e elevação.
Sobre Álvaro Cunhal, Dona Elisa aconselha os não sei quantos volumes de Pacheco Pereira. Bonito!
Este programa de mistura com o referendo dão-nos um panorama terrível dos tempos que vivemos. Por este andar, ficaremos de novo irremediavelmente sós. Na Europa, no Mundo e, o que é bem pior, nas nossas vidas de "pequenos portugueses".

Até amanhã, Camarada.

Rafael Velasquez disse...

Sei muito pouco sobre a figura acima.

Já a carta eu achei fantástica, ainda mais esse trecho: "Neste momento, quero dizer-te alguma coisa mais: olha para o futuro! Não descreias da vida e da alegria! Tem forças para recomeçar, se de recomeçar se trata!"

abraços.

Diafragma disse...

Tinha eu cerca de 11 ou 12 anos e pouco depois de sair do Liceu fui encurralado por três adultos sinistros de encontro à parede de um prédio. E só me perguntavam com ar ameaçador, "De que é que os paizinhos falam lá em casa ao jantar?"

uivomania disse...

O circo está montado. Os números sucedem-se e entre eles rufam os tambores a criar a expectativa. A malta assiste contente, fascinada, aplaude ou assobia e leviana vai na onda, sem suspeitar que dentro tem um grande Português sequestrado por medos e mesquinhês, poços sem fundo de ambição de "ter", invejas e despeitos de quem lhe está perto e que lhe tornam mais suportável a sua presuposta pequenês/mediocridade.
Há por aí alguns (poucos) grandes Portuguêses à solta. Gente que procura ser integra e pensar com a própria cabeça. Que conserva a capacidade de se indignar com a perfídia e se recusa a participar nela! Que apoia o necessitado à sua beira e é solidária, que não muda de passeio... mas são tão poucos... que provávelmente, este é o país que a maioria merece. A maioria que vive uma vida adiada à espera do euromilhões, que se manda de cabeça a vender não importa o quê para uma empresa de pirâmide que lhes promete miragens com ferraris e mansões em Miami!
Preocupante, é que estes programas, estas série de entreter com gargalhadas padronizadas sincronizadas, estes concursos de sorte ou azar com tombolas a rodar em que se tem de adivinhar os preços das coisas... é fruto de uma civilização em fuga para a frente e é apanágio dos chamados países ricos.

vida de vidro disse...

Deixa-me primeiro esclarecer aqui um ponto: nunca me passaria pela cabeça emparelhar Salazar e Cunhal e o que vou dizer não tira a razão inteira que tens na tua indignação e na defesa que fazes do que Cunhal representou para a libertação deste país de uma ditadura que, na realidade, foi mesmo ditadura, por mais que agora a queiram branquear.
Mas... eu também vi o programa e dei comigo a pensar que algo se está a passar neste país (talvez na Europa) que me tem passado um pouco ao lado. Em vez do muro de lamentações a que temos a tendência de nos encostar, porque não perguntar as razões deste "crescer" da direita e de opções até extremistas ?
O 25 de Abril deu-nos liberdade. Certo. Soubemos nós (a esquerda, nezste caso) fazer dessa liberdade algo de pleno na vida social, económica, etc..? Soubemos nós transmitir aos mais jovens que mesmo a liberdade, só por si, é um bem incomensurável? Soubemos nós ensinar-lhes a nossa história recente? Não e, por isso, eles valorizam apenas as péssimas condições e oportunidades de vida que os aguardam, neste momento. E acham que, se calhar, dantes era melhor. "Estes" não fazem nada.
Claro que as correntes organizadas de direita sabem aproveitar este descontentamento. Estiveram bem lá "no fundo" durante alguns anos, obviamente são agora os mais mobilizados, os que estão a lutar para vir à tona.
Daí que, lamentando embora o que tenho ouvido nestas semanas à conta dos "Grandes portugueses" e do referendo, acho que talvez um pouco de auto-crítica fosse positivo, neste momento.
Apre, tu tens mesmo o poder de me pôr a fazer discursos... **

Opintas/Bernardo disse...

Bom fim de semana.

Cris disse...

Mas há dúvidas de que estamos em Estado de loucura?????

Bem apanhado, adorei a carta.

Bjos e bom Wk

maria disse...

Tens total e absoluta razão em tudo o que dizes! Contudo, o comentário da "Vida de vidro" 8sem evidentemente em nada contradizer as tuas palavras),fez-me reflectir...
Beijo e bom fim de semana

ana maria costa disse...

arrepiante!

M. disse...

Compreendo a tua indignação, também eu a sinto. É perverso este uso para proveito próprio que alguém faz de todos nós. Inacreditável que o país continue nesta senda desonesta, mentirosa e manipulatória. E, quanto a mim, absurdo também que se faça um concurso destes. Aonde iremos parar?

António Melenas disse...

Este texto está absolutamente correcto. No entanto eu resolvi dar ao tema um tratamento diferente mais de descaso num pequeno apontamento que inseri hoje mesmo no meu outro blogue http://enquantoenao.blogspot.com Estou convencido que nem com tantas manobras o "Manholas" vai ficar à frente. De qualquer forma nda vai mudar o valor de quem o merece.
Bom, bom foi pores pôres aqui a bela carta de Alvaro Cunhal à irmã, que é uma lição de serenidade e de confiança.
Vais gostar, tenho a certeza é do texto "Tempo de trevas", no meu outro blogue
Um abraço

Escorpiana Explosiva disse...

Passei aqui para conhecer teu cantinho e confesso que adorei,o texto esta maravilhoso pena que não sei como descrever o que senti ao ler.


Um abraço.

Vlad disse...

Não bastava o retorno dos exploradores através da impunidade dos próprios meios do regime dito democrático.
Há também que reescrever a(s) história(s) colocando na mesma página o heroi e o infame, baralhando os parágrafos, maquilhando com figuras de estilo, até que já não se perceba quem é qual...
(serão precisas mais provas para que acreditem que a teoria da conspiração é já uma prática?)
Um abraço

Maria P. disse...

O grande erro é este "concurso" existir.

A carta, excelente.

Bom fim de semana*

Peter disse...

Não vale a pena sequer lembrar os truques que já foram praticados (ou teriam sido)durante a 1ª fase deste concurso que não tem significado nenhum e não é representativo de nada.

Nilson Barcelli disse...

Nunca vi o programa, mas têm-me chegado ecos do mesmo.
A RTP não devia ter feito um programa onde a manipulação é tão evidente. Já que é um grupo organizado que trata de arrebanhar os votos necessários.
Claro que o Salazar foi das pessoas mais importantes para Portugal, mas pela negativa.
Mas, num país onde se elegem Felgueiras, Valentins, Jardins e quejandos, o que poderíamos esperar?
A Maria Elisa também é fresca, desconfio (ou tenho a certeza?) que é bem pior que a Carolina Salgado.
Um abraço, bom fim-de-semana.

Mariazinha disse...

Que post fantastico!
Parabens.Penso exactamente da mesma maneira.
Bom fim de semana

PR disse...

Bom domingo, abraço,

Menina_marota disse...

Não posso compreender, eu que só conheço factos pela história e por relatos, que tarde tomei consciência do que se passava no meu País antes do 25 de Abril, mas que os factos provaram toda a veracidade, possam existir hoje em dia, tamanha desfaçatez.
Habituei-me ao longo de anos a respeitar Álvaro Cunhal, pelo motivo inverso que Salazar me desperta um sentimento negativo, especialmente pela forma como privou o “seu” povo, o Povo de cujas origens ele descendia, de toda e qualquer forma de dignidade.
Por um lado, não serei a melhor pessoa para opinar. Afinal, nem eu nem a minha família, fomos vitimas daquilo que se passava em Portugal, nomeadamente por estarmos dele ausentes.
Por outro lado, a revolta da descoberta exerceu em mim o fascínio de querer mudar alguma coisa, mas que se tornou uma luta infrutífera, porque se o sonho comanda a Vida, por vezes esses sonhos são destruídos pelos seres que constituem essa mesma Vida.
“Porém, entre o resistente heróico e o carrasco não há qualquer equivalência possível, para um olhar isento.”
É por este olhar isento que possuo, por tudo aquilo que descrevi, que mais uma vez me revolto, por ver que, afinal, há quem não tenha aprendido a lição…


Um abraço

OrCa disse...

Desde o primeiro momento que receei pelos "descaminhos" do programa. Primeiro por aquilo que considero uma abordagem história redutora e, portanto, errónea: um homem, por muito líder que o seja, não faz sozinho um momento histórico. As circunstâncias determinam-no. E às circunstâncias podemos chamar os interesses instalados, que irá dar ao mesmo.

Salazar foi um títere. A face de um regime. Um regime de opressão. Foi, dir-se-ia, a sua imagem de marketing.

Talvez sem ele, aquele regime não se sustentasse por tanto tempo, mas isso já é outra história.

Agora, no estado actual do país, em que o novo-riquismo se alcandorou ao poder, com a sua cáfila de pedantes, burgessos e ressabiados, que outra coisa esperar senão esta oportunidade de "vendetta", dada de mão beijada, que a menina Elisa lhes oferece?

Ora aí está um programa que deixei de ver e que militantemente desaconselho, tentando - sim, já sei que sou ingénuo... - contrariar as "lógicas" que me querem impor.

Não há "grandes portugueses" sem ser aos olhos de cada um... e somos cerca de 20 milhões de olhos. Daí que este programa não faça sentido nenhum.

A Maria Elisa, cansativa e padecendo cansaços, ainda faz menos sentido.

Um grande abraço.