segunda-feira, março 05, 2007

Culpados são os pobres?...

Como se sabe, o número de pobres, a nível mundial, está a crescer em proporção maior que o aumento da população. O que concluir disto?! Será que a riqueza está a causar a pobreza no Mundo? Como é possível?!... A resposta para mim é simples: pelo carácter predador do capitalismo e a cumplicidade activa dos governos e instituições internacionais.

É conhecido que, desde a segunda metade do século passado, os países do chamado mundo ocidental têm vindo a investir significativamente, nas regiões mais pobres da Ásia, de África e da América Latina. Como compreender então que a pobreza, a fome e as doenças endémicas, que assolam esses países?!...

Pois bem, julgo estar sobejamente demonstrado que o capital multinacional não tem como objectivo o desenvolvimento da economia do Terceiro Mundo, nem o bem-estar dos Povos. Move-se, sobretudo, segundo a lógica dos seus interesses, motivado pelos recursos naturais, pelos elevados lucros, pelos baixos salários, pela quase completa ausência de impostos e de regulamentos ambientais, ou direitos laborais e custos de segurança social nos países em que investe...

Mais grave, porém, é que os países dão cobertura, (quando não estimulam), as predadoras práticas do capital internacional. Por exemplo, o governo dos EUA subsidia o investimento externo, mediante a concessão de isenções fiscais e o pagamento de parte dos custos de transferências financeiras. Note-se, porém, que não é, em primeira linha, para que os consumidores tenham melhores produtos e mais baixos preços que as empresas multinacionais contratam força de trabalho barata em regiões remotas; investem, tão simplesmente, para aumentarem a sua margem de lucro.

No ano de 1990, por exemplo, os sapatos feitos por crianças indonésias, que trabalhavam 12 horas diárias, por 13 centavos à hora, tinham custo de produção de apenas 2,60 dólares, mas eram vendidos por 100 dólares ou mais nos EUA... Este o primeiro dado da questão: investimentos e lucros em função de mão-de-obra barata e desqualificada.

O outro (a)braço asfixiante das economias do Terceiro Mundo está na produção agro-industrial.

Tanto quanto é permitido conhecer, o cartel da indústria agropecuária dos Estados Unidos é generosamente subsidiado, pelo que se permite inundar o mercado mundial com os seus produtos excedentários e lançar na miséria milhares de agricultores dos países subdesenvolvidos. Com a agravante de que as melhores terras destes países são expropriadas e entregues a essas mesmas multinacionais agro-alimentares, que geralmente as convertem em terras monocultura e reduzem as áreas de cultivo tradicionais, base de alimentação das populações locais.

Mediante a deslocação das populações das suas terras e do saqueio das suas fontes de auto-suficiência alimentar, as empresas criam mercados de trabalho saturados de gente desesperada e forçada a viver em bairros de lata, a trabalhar por salários de miséria (quando podem trabalhar), violando tantas vezes as leis destes países sobre salário mínimo e a segurança social.

No Haiti, por exemplo, empresas gigantes como Disney, Wal-Mart e J.C. Penny pagam aos trabalhadores 11 centavos por hora, fundamentalmente, mulheres e crianças sem qualquer protecção social. Será, por acaso, que os EUA se recusam a assinar a convenção internacional para a abolição do trabalho infantil e do trabalho forçado? Ou serão antes pelas práticas de trabalho infantil das suas empresas, particularmente, daquelas que operam no Terceiro Mundo?!...

Mas também as instituições internacionais são responsáveis, ao menos indirectamente, pela espoliação de recursos e a miséria nos países considerados. Não podem por isso lavar as mãos e remeter o problema para o “funcionamento” das leis do mercado. Pelo contrário, as próprias instituições internacionais estão ao serviço da exploração pelo capital financeiro.

Vejamos.

Em 1944, as Nações Unidas criaram o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional, sendo pressuposto que ambas prestem assistência e fomentem o desenvolvimento económico dos países necessitados. A realidade, porém, é outra.

Desde logo, pelo “modelo” de organização. Como se sabe, o direito de voto é conforme as contribuições financeiras de cada país. Como é o maior "doador", os EUA têm voz dominante no Banco Mundial, seguida pela Alemanha, Japão, França e Grã-Bretanha.

Por outro lado, estas instituições são dirigidas, quase em segredo, por um grupo selecto de banqueiros e altos funcionários dos países ricos. O que significa que os principais interessados, ou seja, os países que são objecto da acção e programas destas instituições são completamente arredados da definição das políticas destas instituições.

Qual o “modus operandi” destes organismos? A receita é a mesma em todo o lado. Por exemplo, um país solicita um empréstimo ao Banco Mundial. O mais provável é que o País em causa, já endividado, não possa pagar os altos juros impostos nas condições do empréstimo; em sequência, porque não consegue equilibrar a sua balança comercial, mediante o aumento das exportações, ou por qualquer outra razão, vê-se constrangido a pedir um novo empréstimo.

Desta vez, porém, o FMI entra em cena e impõe um "programa de ajuste estrutural". Pressionam-se, então, os países devedores para que privatizem as suas economias e vendam, a preços escandalosamente baixos, os recursos naturais (minérios ou outros), os caminhos-de-ferro e outras infra estruturas, bem como muitos dos serviços públicos.

E são pressionados também a cortar os subsídios para a saúde, a educação, os transportes ou os alimentos, bem como a diminuir as despesas sociais, em nome do sacrossanto “deficit, quer dizer, com a finalidade de dispor de mais dinheiro para satisfazer os pagamentos aos credores e financeiros internacionais...

Pressionados, assim, a aumentar a produção para a exportação e a “cativar” os rendimentos disponíveis para pagamento da dívida, estes países tornam-se cada vez dependentes e incapazes de alimentar a sua própria população, num círculo vicioso de dependência. Os salários reais diminuem, a dívida externa cresce vertiginosamente, a ponto de absorver a totalidade dos rendimentos disponíveis, com o consequente empobrecimento colectivo e impossibilidade dos países satisfazerem as necessidades da sua população...

Claro que para justificar tudo isto se criam bodes expiatórios e alguns mitos. Entre eles, a corrupção e falta de democracia, iludindo-se a questão de que os países do Terceiro Mundo foram, durante séculos, colónias dos países ocidentais. Falta de democracia e corrupção?! Talvez... Mas então, se assim é, pobre “herança” a que o ocidente deixou nesses países...



ver também Michael Parenti

25 comentários:

disse...

Como cantava o poeta, eles comem tudo, eles comem tudo.

batista filho disse...

Amigo-irmão, num determinado momento das minhas inquietações (e versejar), cheguei a questionar:

“Branco, branco, cabelo preto:
quantas covas abertas
quantos calos nas mãos
pro caroço virar espiga
e matar a fome da família desse cristão?

Branco, branco, cabelo preto... uma coisa me intriga:
por que não vejo a maior parte dos frutos da minha lida?!

Branco, branco, cabelo preto:
o prefeito, o deputado, o juiz, o padre, o pastor
dizem:
todos são por mim
fazem leis que me protegem
rezam horas a fio pela minha salvação
mesmo assim as coisas não melhoram pro meu lado
... quão grande será o meu pecado?!”

herético disse...

Meu caro Batista,

grato por ilustrares este blog com tão belo poema, digno do poeta maior Manuel Bandeira.

abraço do tamanho do Atlântico...

JPD disse...

Olá!

O prognóstico de Malthus está comprovado.

A correlacção entre recursos e a população está desequilibrada para o lado da população.

Ao mesmo tempo, a distribuição da riqueza do Hemisfério Norte não responde à pobreza crescente porque a racionalidade do modelo não se propõe resolver essa questão.

Se um por cento dos lucros da especulação bolsista fosse canalizados para programas de erradicação da pobreza, muita assistência poderia ser conseguida.

Se associada à escassez, muitos conflitos, guerras, etc fossem evitados...

Se, se...

Bom texto
Um abraço

O
http://osuordabelha.blogspot.com
acolhe visitas

Frioleiras disse...

o homem estraga,
estragará
sp,
tudo,
tds ...

jrd disse...

A população do Ocidente atinge apenas vinte por cento do total da população mundial, mas, consome aproximadamente oitenta por cento dos recursos mundiais.

uivomania disse...

Àgua mole em pedra dura tanto dá até que fura.

Vêem em bandos com pés de veludo...

1/6 da população mundial vive com 83% do produto bruto (Portugal incluido).
Somos mil milhões de consumidores que, por consumirmos disparatadamente, acabamos por ter muito mais poder e responsabilidade no estado das coisas do que parece. Haja consciência e vontade em criar mais justiça, e qualquer multinacional manipuladora de governos e massas, esquecida da moral e de caridade ignota, pode tremer e cair como um baralho de cartas.

Maria P. disse...

Excelente!

Ser pobre é herança...será?!

Bjos*

bluegift disse...

Excelente artigo. Perdoar a dívida externa desses povos não é mais que devolver-lhes o dinheiro habilmente roubado. Focas o velho problema dos liberais, que confundem convenientemente desenvolvimento com ganância. Só a educação desses povos poderá impedir que continuem a deixar-se explorar.

Licínia Quitério disse...

E depois? Quantos estão dispostos a concordar com o quadro que aqui tão claramente expões? Quantas vezes já ouviste dizer coisas assim:
"Eu cá não tenho culpa, até dou esmolas (agora usa-se mais "fazer solidariedade"), ricos e pobres sempre há-de haver, os políticos andam todos ao mesmo, se não fosse assim como teríamos as lojas dos trezentos, os governantes desses países são todos uns corruptos, há por aí muita gente que não tem cabeça para se governar, e... eu cá de política não percebo nada, nem quero perceber."

Já agora convido-te para um jantar de gala, com leilão de obras de arte e tudo, cuja receita reverterá a favor dessa pobre gente num país qualquer de que nem sei o nome. Achas que leve o vestido Armani? É que parece que vai lá estar a revista FACES.

Sou pessimista? Talvez.


Não pares.

Menina_marota disse...

Excelente texto, de uma realidade que fere... não fosse estar já tão ferida pelas realidades que vou constatando pelo mundo fora...

Como sempre, é um privilégio ler-te.

Um abraço carinhoso e boa semana ;)

M. disse...

Mais uma vez, obrigada pela partilha destas questões que nos abanam.

vida de vidro disse...

Eu acho que desta vez assino em baixo do que a Licínia disse. É muito difícil fazer com que alguém siga essa cruzada. Para aliviar a consciência que às vezes pesa, dão-se uns cobres ou, em situação de extrema visibilidade, fazemo-nos embaixadores da boa vontade, ou lá o que é... Coisa mais ridícula!!
E é isso, não pares. **

Diafragma disse...

Belo texto este me caro.
Terrivelmente trágico mas mesmo assim não tanto como a realidade.
Por vezes tento aplicar, mentalmente, um exercício de matemática pura a estas aberrações, e tentar imaginar o que se passará "nos limites". Mas não descubro. Nem solução nem saída.

ps: lembraste-me um livro que muito apreciei, a "Geopolítica do caos" do Ignacio Ramonet.

Vlad disse...

Este blog pratica um verdadeiro serviço público. Tudo o que o povo não deve saber para "não acordar" do seu sono hipnótico pode ler-se aqui, escrito de maneira simples para que todos possam entender.
As pessoas que têm esta visão clara da realidade e a tentam passar para a opnião pública são normalmente acusadas de fabricarem teorias de conspiração.
Só que essa conpiração não é teorica. Se lermos com ateñção esta análise encontramos aqui tudo o que é preciso saber para compreender porque é que é necessário uma revolta a nível global...
Um abraço

António Melenas disse...

Elementar, meu Caro Watson! como diria o velho Sherlock. A lógica do capitalismo é engordar o mais que pode, sugando o suor dos mais pobres e indefesos. Quanto à corrupção dos novos Estados africanos eles tiveram bons mestres, alguma coisa devem ter aprendido: o pior como é costume. Percebo o pessimismo da Licínia. Mas nem po isso estas situações devem deixar de ser denunciadas e denunciadas e denunciadas... até que o barro pegue.
Bem hajas pois, por mais uma vez o teres feito
Um abraço

Opintas/Bernardo disse...

Gostei, discordando da perspectiva mas concordando com o conteúdo. Boa tarde e um abraço.

Peter disse...

Um óptimo texto, no estilo a que já nos habituaste.

O FMI, não é nenhuma instituição de caridade. O que esperavas? Dali "não é moita de onde saia coelho".

Abraço

Klatuu o embuçado disse...

Pois, haveria de ser do quê? A equação é simples: Marx explicou-a há muito... e por mais que se façam correcções e se esperneie... continua fundamentalmente correcta!

Abraço.

PR disse...

Abraço,

Rafael Velasquez disse...

ilustre amigo,

nada mais complicado que isso. acho uma lenda essa coisa de novos países vão surgir como líderes mundiais. Sou descrente.
A idéia é que os ricos continuem ricos e o pobres, mesmo os "países em desenvolvimento" não sejam como ou mais que eles.

abraço,

isabel mendes ferreira disse...

venho rendida deixar uma herança de flores e um beijo de "mulher"...



___________________

!!!!!!!!!!!!!!!

Cris disse...

Foi a herança deixada, pesada herança.

Beijinhos e Bom Fim de Semana
Cris

noreinodafantasia disse...

É tudo uma cambada de sanguessugas! Isto revolta-me!
bjs

Kalinka disse...

Apetece-me sentar-me no parapeito da janela e olhar o céu em silêncio, contemplar as estrelas, sentir-me envolvida pela luz da lua.
Apetece-me embrulhar-me num cobertor e chorar até que as forças me faltem, deitar toda a dor, mágoa, tristeza, desilusão, arrependimento, amargura, medo, tristeza…

Palavras para quê…???
Estou de férias…vou tentar «estar» muito bem.
Beijokas.
Bom fim de semana.