quinta-feira, maio 17, 2007

Outras Leituras XIV - "O mito Kennedy..." - J. Pilger

No dia 5 de Junho de 1968, pouco após a meia-noite, Robert Kennedy foi alvejado na minha presença no Ambassador Hotel em Los Angeles. Ele acabara de confirmar a sua vitória nas eleições primárias da Califórnia. "Vamos para Chicago e havemos de vencer ali!", - foram as suas últimas palavras, referindo-se à convenção do Partido Democrático, que nomearia como candidato presidencial.

Eu viajara com Kennedy através dos vinhedos da Califórnia, ao longo de estradas secundárias (...). Trabalhadores latino-americanos vomitavam devido aos pesticidas e os candidatos presidenciais prometiam-lhes que "fariam alguma coisa".

Perguntei a Robert Kennedy o que ele faria põe eles. – “Nos seus discursos”, disse-lhe, “é uma coisa que não fica claro”. Ele mostrou-se confuso: - “Bem, falo baseado na fé neste país… Quero que a América retorne ao que ela costuma ser, um lugar onde todos os homens têm uma palavra sobre o seu destino”.

O mesmo fervor visionário, a mesma "fé" nos mitos da América e no seu poder, têm sido pronunciados por todos os candidatos presidenciais de que há memória, mais pelos democratas, que começaram mais guerras do que os republicanos.

Os Kennedys assassinados foram exemplo disso. John F. Kennedy referia-se incessantemente à "missão da América no mundo", mesmo quando promovia a invasão secreta do Vietname, que provocou mais de dois milhões de mortos Robert Kennedy fizera a sua fama como um eficaz conselheiro do senador Joe McCarthy na caça às bruxas do comité de “actividade anti-americanas".

Como Procurador-geral, apoiou, com zelo, a guerra de seu irmão no Vietname e, quando John F. Kennedy foi assassinado, não teve pejo em utilizar o seu nome para ganhar a eleição como senador júnior por Nova York. Na Primavera de 1968, a sua fama de oportunista estava, portanto, com razão, consolidada na opinião pública...

Como testemunha de tais tempos e acontecimentos fico sempre chocado com as tentativas interesseiras de recuperar o mito dos Kennedys. Como acontece com livro recente de Gordon Brown ,“Courage: eight portraits” (...).

Segundo Gordon Brown, Robert Kennedy está colocado no pináculo da moralidade, seria um homem “movido pela angústia da injustiça, pelo desperdício de vidas, pelas oportunidades negada, o sofrimento humano". Além disso, - diz Brown - a sua “coragem moral é uma mercadoria mais rara do que a bravura na batalha ou uma grande inteligência”.

A verdade, porém, é que Robert Kennedy era conhecido nos Estados Unidos pela sua falta de coragem moral. Só em 1968, quando o senador Eugene McCarthy foi contra a guerra do Vietname, é que Kennedy mudou também a sua posição face à guerra. Tal como hoje, Hillary Clinton no Iraque, era um oportunista por excelência.

Ao viajar com ele, ouvi-o fazer citações de Matin Luther King e, no dia seguinte, estava já a utilizar expressões racistas, invocando a lei e a ordem...

Não é de admirar que o “legado” dos Kennedys atraia este Brown, deslumbrado por Washington. Também ele procura, em vão, apresentar-se como um político com sólidas raízes morais, quando, na verdade, como governante realizou uma agenda imoral de privatização de serviços públicos e financiou uma invasão ilegal (do Iraque) que já matou talvez mais de um milhão de pessoas. Ou que pretenda gastar milhares de milhões de libras no sistema de armas nucleares Trident.
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John Pilger é um jornalista galardoado e de méritos reconhecidos. Vive em Inglaterra, seu País de adopção. Durante cinquenta anos tem cumprido, com coragem, o que é cada vez mais raro na sua profissão: fazer o seu trabalho com honestidade e competência. Foi correspondente de guerra e tem publicados vários livros sobre temas se actualidade. É conhecido e apreciado, em todo o Mundo, pelos seus documentários sobre os crimes do imperialismo.




5 comentários:

OrCa disse...

Estas "realidades forjadas", que se perdem no tempo da História dos homens e que repercutem sempre a "conveniente verdade dos vencedores" constituem, porventura, a maior força de bloqueio ao desenvolvimento do ser humano.

Por outro lado, porque cada acção provoca uma reacção, são elas também, tantas vezes, o rastilho da revolta.

Somos, na verdade, uns bichos contraditórios...

Um abraço, meu caro.

PintoRibeiro disse...

Os K's são um produto exemplar de eficácia da máquina "sonhadora" americana.

vida de vidro disse...

O sonho americano incarnado nos descendentes de um mafioso... com dinheiro suficiente para os fazer chegar onde chegaram. Moralidade? Isso dá alguma vontade de riri quando se analisa a vida dos Kennedy. Mas eram bonitos, nem maquilhados, bem apoiados e falavam aquilo que a América ( e não só) queria ouvir. Os assassinatos... pois, não se consegue agradar a toda a gente. **

António Melenas disse...

Pois, pois, tudo bons rapazes... O melhor não presta.
O mal não está nas personagens está no sistema e o sistema é assim. è como o lacrau è de sua natureza picar e picam
Um abraço

Maria disse...

Já ontem tinha passado por aqui.
Fui embora porque fico sempre com um "piquinho" de alergia quando se fala de responsáveis americanos.
Mas hoje decidi voltar, para dizer que, não tendo absolutamente nada contra o povo americano (que não considero muito esperto, portanto muito menos inteligente - embora haja excepções, como em tudo na vida), não tenho o menor apreço pelos seus dirigentes políticos.
Não me merecem o mínimo respeito. Pena é que sejam, de facto, os senhores do Mundo...

Bom fim-de-semana
Beijo