quinta-feira, junho 14, 2007

“Jamais!... Jamais!...”

Como é sabido qualquer discurso nunca é apenas o que diz: é também aquilo que revela, para além do corpo de sinais, em que se materializa. E, se é assim na literatura, na fotografia, na culinária, na publicidade ou na moda, é sobretudo na política, onde se adensa, com especial vigor, “a voz decorativa” do discurso...

Não cabe no âmbito destas linhas desvendar as diversas leituras possíveis da célebre expressão do Ministro Mário Lino, para além da evidência de um certo exibicionismo, porventura, produto da cultura de pechisbeque dominante, que leva a procurar aparentar-se o que se não é, ou a pretender afirmar-se o que não se possui...

Enfim, o estilo faz o homem, como é sobejamente reconhecido...

Mas para além do estilo, importa-me a substância. E, neste plano, recordemos que a expressão do Ministro foi proferida na defesa acalorada da construção na Ota do novo aeroporto e que a escolha das palavras –“jamais, jamais”!...- ditas em francês, acentuou o efeito conotativo da determinação do governo. A localização do aeroporto fora da Ota?!... Nunca, jamais, em tempo algum...

E, no entanto, passados escassos dias o Governo, pelo mesmíssimo ministro, recua e determina novos estudos, admitindo agora considerar a opção do campo de tiro de Alcochete.

Como compreendem, sou um dos milhões de portugueses que não tem opinião sobre o assunto. Acrescento até que a matéria é sobejamente árida e especializada para não motivar as minhas preocupações intelectuais... Falam-me em milhões euros e dezenas de grossos volumes de estudos entretanto feitos e fico apenas perplexo, como qualquer português que paga impostos...

Aliás, para ser completamente claro, tenho como adquirido, como qualquer português minimamente informado, que, na localização do novo aeroporto e nos milhões e milhões de euros que estão subjacentes à sua construção, se medem interesses poderosos e a eficácia dos diversos lóbis... Mas isso é um sintoma da “modernidade” capitalista em que estamos envolvidos...

Interessa-me, porém, o significado político deste recuo...

Que terá acontecido para tão radical alteração no discurso? Aconteceu “apenas” que, no mesmo dia do recuo do ministro, o presidente da Confederação da Indústria Portuguesa (CIP) entregou formalmente ao Presidente da República, Cavaco Silva, um estudo que defende as vantagens da localização do aeroporto na campo de tiro de Alcochete...

A partir daí, o ministro “baixou a bolinha”, passe o plebeísmo! Aliás, o presidente a CIP não de coibiu em afirmar que o estudo fora combinado, há três meses, com o primeiro-ministro que “se comprometeu que não iria tomar entretanto posições irreversíveis”; porém, na sua arrogância patronal, não mediu plenamente o alcance político das suas palavras, pelo que “fontes do gabinete do primeiro-ministro” desmentiram atabalhoadamente e a garantiram – imaginem! - que o Sócrates se limitou a “tomar conhecimento” da realização do estudo...

Significativamente, já antes o Presidente da República havia alertado para a necessidade de uma “discussão aprofundada” sobre a localização do empreendimento – podemos ficar descansados, o Presidente da República vela por nós...

E nesta onda vogamos... Ressalta, gritantemente, que nesta mudança de opinião do Governo de Sócrates foi determinada pela “palavrinha” do Presidente da República e, antes dele, ou para além dele, da vontade da CIP...

Pretendem discurso político mais claro, para além da política?!... Basta ler os sinais. Quem decide no País, quem?!... Não necessariamente o Governo...

30 comentários:

bettips disse...

Eu também estou nos milhões, de pedintes, que não sabem nada da Ota, nem da horta...mas que me cheira mal, cheira! Em havendo muito dinheiro em jogo, é como as placas tectónicas: há terramoto de interesses. Que nunca são os nossos. Sobre o ministro fazer o pino, o Lino, ele nunca viu o James, o Bond: "Never say never"!!! Abç

sonia r. disse...

Um bom fim de semana.

eu disse...

-Quem decide no País?
-Pois issso, até uma galinha estúpida e ignorante como eu, já compreendeu.
Apesar de não costumar deixar comentário no seu blog, porque não me considero à altura, leio sempre, atentamente, o que por cá diz.
(E fico roída de inveja por não ter essa inteligência, conhecimento e, capacidade de exposição de ideias.
Obrigada.
D. Galinha

sonhadora disse...

Nunca é tarde para sonhar.
Bom fim de semana.
Beijinhos embrulhados em abraços!

isabel mendes ferreira disse...

jamé!!!!!!!!!!!!!


______________ _____________


até sinto vergonha...


juro!



__________________

mas passo fundamentalmente para Te agradecer a







ternura.






_____________________________!

vida de vidro disse...

Mas é que este é mesmo um assunto chato com que nos bombardeiam todos os dias! Eu quero lá saber se é na Ota ou em Alcochete. Em ambos os casos, muito dinheiro estará envolvido e muitos interesses irão lucrar... ou não! Mas digo cá para mim que, se for em Alcochete, teremos que fazer uma ponte só para o TGV... que mudará de traçado, também! Enfim, serão dois recuos do Governo em problemas nos quais tinha, até aqui, feito finca-pé. Parece que afinal o "jamais" é muito relativo... depende de quem se movimenta. **

hfm disse...

Só para acrescentar uma coisa que nada tem a ver com este post mas com o anterior. Gostei de ver ali referido o livro da minha adolescência - Os Thibault - livro que ainda me marca e que, aqui há uns anos na net, noutros destes "apanhados" eu referi. Coincidências.

OrCa disse...

Permite-me uma louvaminha: -Excelente o teu desenvolvimento de raciocínio que nos induz a relação causa-efeito. É serviço público, meu caro, o que fazes. Este sim.

A "determinação condicionada" a que este (des)governo nos habitua já roçaria o ridículo... se não fosse dramático.

É um caso claro das "entradas de leão com saídas de sendeiro", que acaba sempre por se saldar na maior desmoralização da coisa pública, a que se vem assistindo, de forma galopante, em todos - sem excepção - os governos do centrão.

Depois, com o estado desgraçado da justiça, e como os bons exemplos vêem de cima, o povinho assume esta falta de éticas como o real e assumido estado da nação, em que todos nos movemos.

A ver se este estadio não será um imediato percursor da lei da selva - que já campeia um pouco por todo o lado - a qual, quando se "oficializar", também terá efeitos sobre estas pesporrentas criaturas (Sócrates, Mários Linos, Cavacos, etc.), por muitos condomínios fechados em que se protejam...

Quanto ao cerne da questão, Ota ou Alcochete ou a pata que os pôs... talvez nos interesse apenas saber o porquê e o para quê, para daí então avaliarmos e eventualmente decidirmos, enquanto cidadãos, o onde e o como.

Mas a isso chamar-lhe-iam "democracia popular", o que não cabe nos bestuntos dos instalados interesses privados, os únicos que determinarão sobre a Ota ou Alcochete... ou a pata que os pôs.

Aquele abraço.

Miosotis disse...

Eu recuso-me a falar de política por considerá-la tão 'torpe'!
Já vi grandes amigos [seriam mesmo?!] virarem inimigos por questões políticas!

Mas gosto mt de ler as tuas chamadas de atenção q ñ passam despercebidas aos cidadãos [neste caso, cidadã] mais atentos!
No entanto, é sp bom 'ouvir' alguém proclamar em praça pública "O rei vai nu..." [Hans Christian Andresen , todos estamos lembrados]

Tens visto a série 'Roma' na RTP2? A história repetir-se-á sempre...

Sensibilizada pelo poisar de teu olhar amistoso em meu espaço!

Miosotis disse...

Errata - '...História...'

Marta Ribeiro disse...

venho anunciar a abertura do meu espaço...um espaço onde as opiniões sao fundamentais tanto pra mim como para o crescimento do blog...
espero que o visites e que gostes e deixes a tua opiniao...este é um comentario maira para divulgar mas logo logo sera um comentario em relação ao conteudo deste espaço...
serás sempre bem vindo(a).

Bonnie disse...

... já respondi à batata quente, volto depois para comentar como deve ser...

Beijinho

Nilson Barcelli disse...

Ainda será cedo para fazer história e tirar conclusões sobre o assunto.
Mas começo a ficar preocupado com vários aspectos.
Um deles é pensar-se que um assunto destes deve ser de discussão pública. Quanto mais se fala menos se percebe, no meio de tanta complexidade técnica, vindo ao de cima apenas os aspectos mais primários em termos de compreensão (mas que são importantes), ficando de fora uma montanha de critérios e avaliações mais ou menos ininteligíveis para o comum dos mortais.
Outro, é que tenham andado a fazer estudos há décadas e que, de repente, se ache que se deve estudar tudo e mais alguma coisa. Só que os opositores da OTA não tinham qualquer ideia de relevo. Eram contra porque sim ou porque lhes interessava na margem Sul.
Outro ainda é ver julgado em praça pública uma pessoa que no calor da refrega disse uma frase menos conveniente.
E que, até aqui, o governo era autista. Agora, porque mudou de opinião na presença de uma opção fundamentada, parece que toda a gente goza com o seu recuo. Não vi ainda ninguém dizer: parabéns, mudaram de opinião porque viram algo que poderia ser melhor. Porque só os burros não mudam. E toda a crítica neste sentido, leva a que futuramente nenhum governo mude de opinião só para que não o achem vulnerável.
O Primeiro Ministro não é nenhum Deus e a história não se pode fazer desde já. Mas, até esta altura do campeonato, considero que foi o melhor primeiro ministro que tivemos depois do 25 de Abril.
Bom fim-de-semana.
Abraço.

António Melenas disse...

Excelente análise, meu Amigo,.
Infelizmente É assim mesmo. Quem manda verdadeiramente no país (e no mundo) são os interesses económicos. Agora é só ver qual é o Grupo económico mais poderoso: Se o que joga na Ota se o que joga em Alcochete. Agora que essa de o ministro Lino, que tão peremptoriamente nega a hipótese de o aeroporto alguma vez ser construído em Alcochete, entregar escolha entre os dois locais aoo LNEC - organismo oficial dependendo do Governo, cheira um bocado a esturro.
Também eu estou de acordo com um comentador acima (sem desrespeitar o direito a que ele pense como pensa) que o primeiro ministro Sócrates foi o até hoje o melhor que tivemos... para a direita.
Um abraço

Vera disse...

Uma análise soberba, como sempre meu amigo!
Gostei de te ler, tinha saudades!

Beijinhos

Popper disse...

A visita obrigatória. Bom fim-de-semana.

un dress disse...

fiquei informada

/mas tudo isto me incomoda e faz mal à alma .../

deixo-te um abraÇo :)

bOa.nOiTe ...

Opintas/Bernardo Kolbl disse...

Exactamente. Quem decide...Bom domingo e um abraço.

manhã disse...

esta coisa da OTA e de Alcochete é um bocado como dizer tudo para fazer passar o que se pretende sem discussão e o que se pretende é agradar a determinado grupo económico. O discurso é por isso, concordo contigo, um mais do mesmo. Como o outro "Eles falam falam mas não dizem nada"

Mel de Carvalho disse...

Um dia, Herético, escrevi um poema em que dizia:

"Não digas nunca, Jamais,
Jamais é tempo a mais,
é para além do tempo ..."

Ora ai está. Os nossos políticos andam parcos de leituras e por essa via, optam por fazer "poesia" para nos ir empatando ... anzóis (como se diz onde vivo).

Ainda na semana passada estive numa Conferência onde e mais uma vez a questão "Ota" foi apresentada.
Não como uma certeza, mas e mais uma vez, como um "cenário" ... “SE” …
"unir as margens vs separar as margens".

Tanto a dizer Herético. Sai da dita convicta de que andamos todos e "empatar anzóis" só que não tencionamos ir à pesca... manobras de distracção.

Gostei de te ler. Ofereço o meu blog e a minha modesta poesia onde me suspendo "pendular"... em busca de mim mesma.

Um abraço
Mel
www.noitedemel.blogs.sapo.pt

triliti star disse...

quando "aqueles" são governo, o governo decide.

quando não são, decidem "aqueles".

bettips disse...

Além da tua bem estruturada exposição (o tal serviço público...), estou com os mesmos receios de "orca". Um mal estar que se propaga de cima, uma indisciplina grotesca, uns chefezinhos pimpões. Um véu fantasioso para não vermos os reais problemas, espremer os bolsos dos distraídos do costume. Abç

Rafael Velasquez disse...

tive fora dessas página devido ao número de exames.
Bom fim de semana, amigo.

F F Moniz disse...

Olá! Sou novo aqui no Blogger. Sou escritor e busco amigos que tenham interesse em literatura. Quando tiver um tempo, visita o meu blog, ok? Um grande abraço e parabéns pelo seu blog!

Gi disse...

E ainda há alguma dúvida nos interessas económicos subjacentes?

Faça-se o aeroporto em Espanha (eles agradecem) e acabam-se as polémicas de uma vez. Apanhamos o TGV e num instantinho estamos lá.
Um único investimento e com um tiro matamos dois coelhos. Era capaz de não ser má ideia

Boa noite Herético, este tema faz mesmo de nós OTArios

Um beijinho

Maria disse...

Então não é costume ser o poder económico a dominar o poder político?
Já era assim antes.... os donos desta "quinta" é que eram outros, hoje mais afastados dos 10 mais ricos...

Abraço (sem jamais....)

PintoRibeiro disse...

De passagem, boa semana, abraço.

Kanoff disse...

No ICRL, oportunidade para ouvir Florin Turcanu, um dos melhores peritos romenos sobre Mircea Eliade e autor de «Mircea Eliade - Prizonierul istoriei», uma monumental obra sobre esse mestre do pensamento que viveu em Portugal grande parte da sua vida. A palestra é às 18.30H na Av. Luís Bivar, 61, 4º andar.

O JACARÉ 007 disse...

Quem será que manda?

O Belmiro?

O Salgado?

O Amorim?

O Jardim Gonçalves?


Um abraço!

miruii disse...

Talvez bons argumentos sirvam... por que não?
Picada saudável