sexta-feira, junho 22, 2007

Outras Leituras - Para um Manual de Etiqueta!...

O mestre das maneiras portuguesas (...) é simplesmente o sr. João Félix Pereira, médico, engenheiro civil e agrónomo. Vejamos algumas dessas leis que as crianças decoram para os seus exames e pelas quais os adultos se governam nas suas correlações sociais:

Para que um sujeito possa a todos os respeitos considerar-se um gentleman, acha conveniente o sr. João Félix:

1º - que ele faça a barba;
2º - que se não ponha à janela em mangas de camisa, nem com o pescoço descoberto;
3º - que quando cuspir o não faça sobre a cara da pessoa com quem fala (maxime se é uma pessoa de respeito!)
4º - que não tenha olhos em contínuo movimento;
5º - que nos jantares de etiqueta não limpe os ouvidos com o palito com que houver de palitar os dentes;
6º que não arrote à mesa.

O sr. João Félix especifica ainda, com escrúpulo pelo qual nunca lhe poderemos votar suficiente reconhecimento, que “diante de gente de respeito não se cortem as unhas”.

E assim é! Achando-nos na presença de pessoas que respeitemos, como verbi gratia: Sua Majestade el-rei, um príncipe estrangeiro, um embaixador ou uma rainha, o pôr-nos repentinamente a cortar as unhas – principalmente sendo estas as dos pés - poderia ser tido por acto menos palaciano.

Se o sr. João Félix nos permitisse um leve apêndice aos seus conspícuos preceitos, diríamos que cortar calos, nos parece também operação que, só em caso de muita necessidade, nos deveremos permitir no meio de grandes assembleias.
(...)
Tratando-se do modo de proceder à mesa do jantar faz o sr. João Félix Pereira duas observações muitíssimo sábias. A primeira é que “não tomemos pitadas de rapé pelo meio das coisas que estivermos comendo”.

Compreende-se todo o alcance desta advertência reparando-se, por um só momento que seja, nos equívocos a que poderia dar origem a concorrência do rapé com os acepipes, resultando, por exemplo, lançar-se a pitada sobre a salada e meter-se no nariz a beterraba.

A segunda advertência é que “nunca metamos bocado nenhum na boca enquanto não tivermos engolido o bocado antecedente”. Ninguém imagina sem o ter experimentado quanto importa ser cauteloso na matéria deste capítulo! Metendo na boca os bocados sem tomarmos a deliberação de os irmos sucessivamente engolindo, chegamos por espaço a uma indefinida aglomeração de bocados dentro da boca.

As pessoas que insistem por tenaz grosseria em não engolirem os bocados, que vão metendo consecutivamente na boca, caiem, ao cabo de alguns dias dessa terrível incúria, na dura necessidade de depositarem os bocados antigos, que tenham, entre a maxila superior e o maxilar inferior, a fim de receberem bocados novos.

Quando isto haja de se fazer convém que se tenha em vista o que o sr. João Félix discretamente consigna a respeito do cuspo, isto é: que tais esvaziamentos se façam, o menos que ser possa, sobre penteados das pessoas que nos cerquem e muito mais particularmente quando estas tenham tido a precaução de nos advertir que tais depósitos feitos sobre as suas cabeças lhe inspirem ideias asquerosas. Neste caso, toda a insistência da nossa parte correria o perigo de ser taxada de menos cortês” (...).

Ramalho Ortigão – in “As Farpas”.

Agora digam-me: o que mudou na alarvidade da burguesia nacional ?!...

Bom fim-de-semana. Divirtam-se. E tenham maneiras, pleaseeeee! ...

26 comentários:

Cris disse...

PFTTTTTTTTTTTTTTT!!!! nada mudou, as farpas continuam afiadas e certeiras!!!!!

Beijinhos e bom fim de semana
Cris

Gi disse...

O que mudou? Pouco, muito pouco.
Mas alguma coisa se aprendeu entretanto. Acredito que a Paula Bobone tenha continuado a excelência deste trabalho (que pena não ter aqui um bonequinho irónico ...)

Já me diverti sim. Foi bom para final de noite.

Um beijinho

beleza de mulher disse...

heheheheheh hora hora hora tà tudo dito

Anónimo disse...

excelente farpa....



mudou sim....para uma tremendíssima falta de elegância.


____________________


beijo.

e excelente fim de semana.



(piano)

un dress disse...

hehehe!!!

qualquer coincidência é pura semelhança...


:)



beijO

M. disse...

O que mudou na alarvidade da burguesia nacional? As roupagens dos alarves. Mas que o texto é delicioso, lá isso é.

PintoRibeiro disse...

Mudou. Para pior. A democracia de massas tem disso, K'mrd.
A voltar, devagar, vim deixar um abraço.

Nilson Barcelli disse...

Terá mudado para pior...
Mas tenho notado que as cuspidelas para o chão têm diminuido, ainda que as atiradas para a cara sem motivo razoável tenham aumentado...
Bom fim-de-semana.
Abraço.

vida de vidro disse...

Parece-me uma boa advertência aquele que aconselha a que “nunca metamos bocado nenhum na boca enquanto não tivermos engolido o bocado antecedente”. É mesmo perigoso, que diabo... :)
Um bocado de humor no fim de semana é bem vindo. Quanto ao que mudou... ah, são todos muito mais "fashion"! **

Frioleiras disse...

Herético
Como sp... adoro lêr-te (sou frívola mas não passo sem passar pelo teu blog !)
Adorei "rever" este bocadinho do Ramalho Ortigão ... e és sempre oportuno.

Bj amigo

F.

manhã disse...

eheheh, então cuspe sobre as cabeçinhas, subversivo sem dúvida!

O JACARÉ 007 disse...

Também dá pouco jeito aos "motards" coçar a mona sem tirar o capacete.
Um abraço.

Peter disse...

3º - que quando cuspir o não faça sobre a cara da pessoa com quem fala (maxime se é uma pessoa de respeito!)

É difícil, para quem lhe faltam dentes à frente, conversar cara a cara com uma pessoa sem lhe deitar "gafanhotos".

6º que não arrote à mesa.

Se não arrotar depois de um jantar em casa de um amigo chinês, é sinal de má educação. Está a demonstrar que não gostou do jantar.

Abraço.

P.S. - Meti um novo "link" no blog. Chama-se OTA.

audrey disse...

O "MILAGRE" DO COELHINHO !!!!
E
AS
"grandes JANTARADAS"
DA



D. MARIA

bettips disse...

Só o podermos falar mais e mais nela. Termos o dever de... Todos e muitos. Vê lá que andávamos a bater no mesmo céguinho!!! Sim porque aqueles censores eram uns alarves, além do mais. Acredito que se coçassem a ler o que cortavam! Abraço

zetrolha disse...

Nada!Até se dispensa "peço desculpa" quando se manda uma bufa em narizes alheios...

foryou disse...

Acho que ao longo do tempo muita coisa foi mudando, outras nem por isso. Ainda assim era bom que muito boa gentinha lê-se (ler se calhar não basta mas já era alguma um começo) alguma coisa sobre etiqueta ou no minimo sobre educação.

Maria disse...

Muito bom para relaxar no fim do dia....
Se mudou alguma coisa, foi.... quase nada....
Obrigada pelo sorriso que me sacaste.

Boa semana, com maneiras!!!!!!!

Anónimo disse...

4646
71912551 1 4635, 453 1469.
897... 897... 83991!!!!!!!!!!!

7313991

hfm disse...

Nada e como ele Ramalho nelas escreveu, cito de cor: "são 500 anos de fradismo e marmelada de Odivelas!"

PintoRibeiro disse...

Bom dia e boa semana, abraço,

António Melenas disse...

`sempre bom ler os nosso classicos e "As farpas" deviam ser de leitura obrigatória. Par nos lembrar-mos de quão ridículis somos
Um abraço

Mel de Carvalho disse...

"Agora digam-me: o que mudou na alarvidade da burguesia nacional?!..."

Uma questão pertinente. Na verdade pouco ou nada mudou e as Farpas estão e são intemporais.

A alarvidade tão manifesta nos actos e nos gestos de muita gente, transborda do particular para o público e vice-versa...

Meu amigo, é um prazer ter descoberto este Relógio de Pêndulo (eu que sou tantas vezes "pendular").
Vou colocá-lo lá na parede da minha noite, senão se importa… rsrsrs...

Honram-me os seus generosos comentários na minha poesia para a qual e desde já se sinta sempre convidado, seja na "noite", seja na "maresia"... Obrigada.

Um abraço fraterno e pendular, uma excelente semana

Mel
www.maresiademel.blogs.sapo.pt
www.noitedemel.blogs.sapo.pt

Popper disse...

Mas neste cantinho alguma coisa muda? Boa semana.

Isabel disse...

Mudou o modo com que se atiram as farpas; agora, são atiradas de um modo certeiro, mas com muita subtilidade.

Bjt

Belzebu disse...

"As Farpas" estão mais actuais que nunca. A nossa Bobone, que provavelmente é uma descendente do sr. João Félix Pereira, depois de uma experiência genética totalmente falhada, assim o prova!

Uma verdadeira alarvidade pequeno-burguesa!

Um abraço infernal desde as profundezas, com as unhacas devidamente cortadas, no recato do lar! ehehe!!!