segunda-feira, dezembro 31, 2007

Outras Leituras - "O Desejo de Futuro..."

"De há uns tempos para cá, vozes muito dissemelhantes parecem insinuar, se não explicitamente afirmar, que não há futuro para ninguém ou que vivemos tempos em que ninguém se arrisca a qualquer gesto (...) ou actividade de prognose. Conheceríamos uma era em que teríamos já desistido, ou teríamos de desistir, de tentar imaginar ou desejar um rosto para o futuro.

Esta situação dever-se-ia a um medo que inibe a própria imaginação e de que padeceríamos para além de todo e qualquer pessimismo (...). E contudo se não houver futuro, se não tivermos futuro, seremos como dizia o outro, “cadáveres adiados que procriam”. Porque aquele medo se torna uma patologia do desejo, uma tão brutal antecipação simbólica da morte que inibiria todo o imaginário, amputaria a capacidade de simbolização e tornaria toda a esperança uma ilusão ou um produto do sono da razão. Ora, nós precisamos do futuro como do ar que respiramos.

A perda do desejo de futuro seria, segundo alguns, uma lição aprendida com a experiência social e histórica disponível. Pois não é verdade que todas as revoluções acabaram traídas pelos revolucionários? Pois não é verdade que a história do séc. XX é uma história de catástrofes e de massacres, é a história do fim das ideologias emancipatórias? Eis a “experiência histórica disponível” reduzida a essa pobre e desgraçada fórmula da resignação fatalista : "sempre houve pobres e ricos e portanto sempre os há-de haver". Respondamos perguntando o que significa “disponível”. Não seria melhor dizer “disponibilizada” pelos senhores da comunicação planetária?
(...)
Essa disputa interessa ao conflito entre os possíveis do presente (...). O que aconteceu podia não ter acontecido, porém, de facto, aconteceu. Mas apagar a luta dos possíveis significa fixar, imobilizar ou paralisar o que aconteceu: a história desaparece na repetição do mesmo. Tal paralisia, desencadeando a repetição, tornando fatal todo o acontecido, torna a história uma narrativa profética, uma profecia dos vencedores: será sempre assim, porque sempre assim foi.

Aliás, a tese sobre o “fim da história” começa por ser uma história mal contada e, mais do que um diagnóstico, representa uma tentativa de eternização de um presente reduzido e um bloqueamento do futuro por esgotamento dos possíveis. Nós, na “tradição dos oprimidos” (...), aprendemos a não ceder aos desastres, aprendemos a trabalhar para estoirar o tempo contínuo das derrotas e a perscrutar os momentos em que algo de diferente foi possível, mesmo que por umas semanas ou meses ou décadas. O trabalho da esperança que magoa ensina-nos que o que foi possível, e logo derrotado, será possível (de outra forma) outra vez.

Para outros, a ausência de abertura ao futuro seria resultado de uma limitação própria da acção humana orientada por fins gerais e últimos. O sujeito pós-moderno teria finalmente reconhecido que as acções humanas seriam no limite inconsequentes, (...) quando não perversamente contraproducentes, uma vez que a evolução das sociedades seria um processo de tal forma multivectorial e complexo que seria de facto incomensurável para a inteligência, a consciência e acção humanas. As tentativas de orientar os processos sociais, (...), seriam uma tentação voluntarista, própria de um sujeito moderno, que implicaria de raiz uma violência destruidora, desencadeada sobre “o curso natural” (fatal) das coisas" e traria no seu cerne a ameaça do totalitarismo.

E, contudo, tudo se transforma. Transforma-se o mundo em nós e fora de nós. E da mudança dos tempos e das vontades, nós participamos. Não como animais caminhando para o abate, nem como demiurgos incondicionados. Mas como agentes procurando o máximo de consciência possível, estendendo as mãos e tacteando os possíveis; fazendo, de acordo com os tempos, a vinda de um outro tempo. Não somos adivinhos, nem sabemos rigorosamente prever qual será o rosto do futuro, mas isso não nos impede de o desejar.

O carácter profundamente transformador do trabalho humano, o facto de uma criança de dois anos ser capaz de produzir uma frase que nunca ouviu, o facto de a poesia reinventar a língua em que se escreve, o facto de as artes serem construções antropológicas e de os humanos se configurarem e reconfigurarem, segundo uma “autopoiesis” histórica, são fundamentos suficientes para que nos possamos, sem mais garantias, prometer um futuro - “uma terra sem amos!”.

Porque nós habitamos o mundo e o mundo é a nossa tarefa".


Manuel Gusmão – in “Público” - de 30.12.2007
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Moldemos, então, com nossas mãos, o rosto do Futuro!...

Bom Ano de 2008!

36 comentários:

uivomania disse...

Esta é uma mensagem urgente. Talvez utópica! ...Uma terra sem amos. Uma terra sem subservientes, sem individualistas assanhados e curtos de vistas. Uma terra de gente disposta a construir esse futuro fraterno agora. Só assim será possível. Cabe a cada um de nós descobrir como se revolucionar.
Um bom ano para ti, para o Manuel Gusmão e para todos os revolucionandos.

Mariadosol disse...

A esta hora da manhã (peço por isso benevolência) ocorre-me a frase (quase absurda) atribuída a uma anciã russa: "sim, faz mau tempo, mas é melhor que faça mau tempo do que não faça nenhum"...

Sinal dos tempos?

Oliver Pickwick disse...

Ótima transcrição, amigo Herético! Um artigo escrito com uma visão histórico/sociológica ímpar.

"Pois não é verdade que todas as revoluções acabaram traídas pelos revolucionários?"

Verdade verdadeira! E eu jamais tinha pensado nisso.
Abraços!

Gi disse...

O tempo não tem sido meu aliado nestes últimos tempos e se tenho faltado à marcação do ponto na blogosfera as minhas leituras de jornais também deixam a desejar. Quando comecei a ler pensei ter sido escrito por ti (não me surpreendia) identifico-te muito com esta forma de escrita e linha de pensamento. "Porque nós habitamos o mundo e o mundo é a nossa tarefa" fechou com chave de ouro. E tu também.

Votos de um Bom 2008. Que não se perca a esperança que podemos fazer um futuro melhor.

Um beijinho

hora tardia disse...

"moldemos" então....se futuro há....

haverá?



_____________certamente não será o vento.





bom ano.

sol poente disse...

Feliz Ano de 2008. Um Ano com saúde, paz e amor e pleno de realizações.

Maria Laura disse...

É bom ler palavras destas no último dia do ano. Palavras de esperança, de acordar consciências. Ainda que não escritas por ti, podiam sê-lo (imagino).
Entremos então 2008 desejando o futuro e, sobretudo, resolvendo fazer algo nesse sentido.
Beijo e votos de um 2008 em que nos continues a acordar, com palavras de esperança!

Maria disse...

Já tinha visto referê^n^cia a este artigo no tempo das cerejas, ontem. Quando cheguei aqui era muito tarde para ler, com todos os sentidos, este post.
Que é urgente ler, e reler. Para moldarmos o rosto do futuro...
"o mundo é a nossa tarefa"...
Obrigada.
Bom Ano de 2008.
Beijo

Maria P. disse...

Feliz 2008!

Beijinhos de Maio todo o ano*

Entre linhas... disse...

Agradeço e retribui os desejos de um 2008 repleto de esperança, embrulhado em sonhos e enfeitado com um laço de ternura.
Bjs Zita

Miosotis disse...

Caro 'Herético',

Não tenho palavras para agradecer a cuidadosa amizade que me tens dedicado em 'fragmentosdanoitecomflores!

Muito sensibilizada, venho aqui poisar meus de um Novo Ano pleno de serenidade e muita esperança!

**Bom Ano 2008**

Um beijo fraterno

[voltarei para ler este texto que me pareceu muito interessante, e que vem de encontro a tantos 'medos'...
O teu empenhamento social é extraordinário!]

Um Ar De... disse...

Gostei, sobretudo, da última parte do artigo do Manuel Gusmão [a prova da existência do que parece não existir...].

Depois de ter caído na asneira de ver o noticiário, à hora de almoço, só porque ligaram a televisão, soube-me bem ler um texto com princípio, meio e "futuro".

Bj

PoesiaMGD disse...

Um bom ano novo, pleno de felicidade.
Um abraço

batista disse...

Amigo-irmão: que em 2008 a Esperança realimente nossas forças para que possamos prosseguir.

Em muitos e muitos anos foi o dia mais tarde que levantei... e mesmo assim instado por “Manchinha”: companheira canina de longo tempo, a cobrar o passeio que normalmente fazemos às seis horas da manhã. Hoje irei almoçar com quatro irmãos. Ou seja: dificilmente acessaria a internet, mas o fiz. Ao fazê-lo, impreterivelmente teria que passar por teu espaço. Deparei-me então com essa maravilha de post, que depois terei que revisitar, é claro! Grato, de coração.

Deixo o meu abraço fraterno e algo mais: o que o teu post despertou em mim...

meus versos não são de agradar.
“meus” versos não são meus: cão sem dono.

o cão sem dono
late, morde, lambe
dispensa coleira, mas não o versejar.
feio ou bonito, asseado ou imundo
- cão sem dono -
irmão do mundo.

não rola
não apanha jornal
morto ou vivo (não finge)
não balança a cauda pros poderosos.
o cão sem dono
late, morde, lambe
dispensa coleira, mas não o versejar.

o cão sem dono
- irmão do mundo-
pele, ossos e sonhos
não quer ser astronauta
nem galã de cinema.
quer simplesmente
correr mundo
ver o sol nascer e se pôr
dormir sob as estrelas
tomar banho de rio (num dia de calor)
nas noites frias, aconchegar-se numa fogueira, junto à alcatéia.

o cão sem dono não quer ser dono de nada ou de ninguém.
quer seguir em paz com o mundo
semeando um verso aqui, outro acolá:
seja ou não lua cheia!

Graça Pires disse...

Manuel Gusmão é um homem muito lúcido. Gostei de ler o texto dele.
"Nós precisamos do futuro como do ar que respiramos". E precisamos da esperança, digo eu.
Um abraço e bom ano.

Anónimo disse...

bom ano Futuro!



________




imf.

manhã disse...

o "desejo de futuro" , aliás só nos resta desejar o futuro porque o passado foi atamancado e o presente nem por isso. bjo e bom ano!

Anónimo disse...

viver sem a espectativa de futuro? suicidio! a nossa motivação de ser humano é sempre o Devir. seja ele qual for.
assino em baixo no teu apelo
beijinhos e bom ano.

http://leonoretadelambreta.blogs.sapo.pt

herético disse...

Mariadosol,

lembro-me dessa anciã russa. embrulhada em confortável casaco Astrakan...

sinal dos tempos, sem dúvida.

Bem viinda.

Frioleiras disse...

Beijinho


grande


de
Bom Ano !

...

Mariadosol disse...

:))

Obrigada

Maria Luar disse...

Será possível moldar o futuro? Não é preciso haver esperança? Tenho-a em pequena quantidade.

Abracinho

Anónimo disse...

obrigada pelo bronze.










Bjj.

___________________.

Outonodesconhecido disse...

Crónica interessante com uma visão histórica, sociológica bastante real, apesar da utopia.
Hoje já é dia 3, esqueçamos que entramos num novo ano e comecemos a construir algo de novo.
jasmimdomeuquintal, hoje outonodesconhecido

Nilson Barcelli disse...

Não tinha lido e achei esta reflexão muito boa.
"E da mudança dos tempos e das vontades, nós participamos. Não como animais caminhando para o abate, nem como demiurgos incondicionados.
Um excelente 2008 para ti.
Abraço.

hfm disse...

Bom ano para ti! quanto ao futuro... estou muito céptica. O que li é muito bonito, as nossas mãos e atitudes existem mas eles andam por aí a destruir o futuro. Obrigada, contudo, por esta esperança.

Licínia Quitério disse...

Grande tarefa esta de habitar o mundo. Mais doce fica quando tentamos construir futuros.

Sê bem-vindo ao novo ano!

Bernardo Kolbl disse...

Vim deixar um abraço.

SILÊNCIO CULPADO disse...

Herético
Que bem que balança o pêndulo do teu relógio. Ele diz-nos que afinal há tempo e, quando há tempo, há mãos que criam, que constroem, que se estendem, que se apertam e que colherão os frutos.
Havendo tempo há sempre um amanhã, um futuro, uma alternativa e um caminho.
Um abraço e bem vindo a 2008!

Mar Arável disse...

O FUTURO TAMBÉM SE CONQUISTA

E COMEÇA NO MINUTO

QUE SE SEGUE

NO INSTANTE

QUE SE SEGUE

D. Maria e o Coelhinho disse...

MON CHÉR AMI,

DO YOU LOVE ME ?



D MARIA (baralhada)

velha gaiteira disse...

Lindinho,

Beijocas de
BOM ANO
para ti!

un dress disse...

ao futuro...AGORA!







:) bOm anO!!

beijO

Vieira Calado disse...

Claro que se trata dum texto de muita lucidez e bastante bem escrito.
Um abraço.

Vieira Calado disse...

Claro que se trata dum texto de muita lucidez e bastante bem escrito.
Um abraço.

OrCa disse...

Artigo de desassombro, de combate, afinal.
Excelente ideia de trazeres este artigo de Manuel Gusmão, que também me tinha escapado - o que seria imperdoável - e que, graças a ti,me 'encheu as medidas'. Até aos bordos!

Um grande abraço.