sábado, dezembro 01, 2007

Revista da Imprensa - Parte Dois

(...)

A arrogância e o desprezo pelas greves está muito para além da discordância com os seus objectivos, é uma manifestação antidemocrática e mais uma, entre muitas, manifestações do tardo-salazarismo inscrito no nosso espaço público e que abomina o conflito como se fosse um mal, e que deseja um mundo sem ondas e sem confrontos, onde os negócios prosperem sem complicações, em que uma mediocridade remediada seja a regra para todos e onde a ausência de escrutínio e vigilância democrática decorrem do peso abafador dos consensos.

Um pouco como já acontece com a "Europa".

Mas, a realidade que mobiliza os grevistas é incontornável e tem a ver com o empobrecimento dos portugueses. Com a excepção de muito poucos, a maioria dos portugueses estão mais pobres e não tem qualquer esperança sobre o seu futuro. Cada vez mais ameaçados pelo desemprego, pela perda de poder de compra, pelo peso esmagador do fisco, o sentimento e a realidade do empobrecimento atinge as pessoas, as famílias e as empresas.

Todas as estatísticas revelam esta crise, e todos os dias saem novas estatísticas mostrando o mesmo caminho: menos "desenvolvimento humano" (um agregado da ONU de vários indicadores), mais desemprego, aumento da inflação, quebra de poder de compra dos salários, menos confiança dos consumidores e dos empresários, mais penhoras, falências, dívidas incobráveis, e os sinais de perturbação social no aumento da criminalidade.

Quando tudo isto é recebido por manobras comunicacionais e spin do Governo e dos seus apoiantes, transformando sinais de empobrecimento e estagnação em sinais de que se vai no “rumo certo”;

quando a oposição do PSD continua muda e calada, quando não ao lado do Governo, às claras ou às escondidas, a negociar tudo e todos, com meio mundo;

quando mesmo os cínicos habituais do jornalismo ficam estranhamente apáticos e complacentes;

quando numa sociedade em que as dependências e a precariedade são tantas que poucas vozes são efectivamente livres,

apoucar os grevistas (...) é ser parte da pasmaceira colaboracionista em que nos atolamos.

É que há mais dignidade cívica nos grevistas do que naqueles que se queixam por tudo o que é recanto discreto ou anónimo dos males da governação Sócrates e não têm coragem para alto e bom som dizerem o que pensam e sofrer as consequências”.


Excerto de um artigo de José Pacheco Pereira – in “Público” de 01.12.2007.
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Claro que, quanto a pressupostos e soluções da crise, haverá com certeza divergências. Profundas, certamente. Mas é inquestionável o rigor e oportunidade de semelhante análise. A vida tem destas ironias...

Tiro-lhe o meu chapéu!...

13 comentários:

isabel mendes ferreira disse...

ah...acho bem.


pois acho...!


vou saber.

:)



bjj.

Peter disse...

Eu não lhe tiro o chapéu. Fosse Pacheco Pereira um "Zé Ninguém", a trabalhar por recibos verdes e gostaria de ver se ele falava como fala.
Do texto destaco isto:
"quando a oposição do PSD continua muda e calada, quando não ao lado do Governo, às claras ou às escondidas, a negociar tudo e todos"
Concordo e lembro-me do "pacto jurídico" PSD/PS. Os portugueses não são estúpidos. Se houve acordo entre os dois grandes Partidos é certamente porque haveria interesses mútuos, não foi certamente para defender os interesses dos "Zés Ninguéns" deste país.

bettips disse...

Não tenho chapéu e o JPP é bom homem, agora já cresceu e tudo, até pode ir a Fátima a pé que de boas intenções está o inferno cheio... Escreve bem, sim senhor. Mas também o VGM e não é flor que eu cheire, mesmo traduzindo os clássicos... Abrácicos. Ou seja, beijinhos heréticos até mais não.

Entre linhas... disse...

Os partidos apenas lutam pelos seus interesses e lideranças e nunca nos interese do Zé Povinho..
Bom Domingo
Bjs Zita

Anónimo disse...

eu faço greves para nao ser fura greves. é dificil ser a unica a ir para uma escola vazia e enfrentar as colegas no dia seguinte mas muito sinceramente nao acredito nos poderes de uma greve porque se fazem greves e os resultados nao sao nenhuns.
mas se a greve ja surgir como um protesto de que as coisas nao agradam ao povo entao... vamos nessa.
nao me expliquei la muito bem pois nao?
beijinhos da leonor dos improvisos

aquilária disse...

sim, também estou de acordo com este excerto do artigo de JPP.
a "mediocridade remediada" que, de há uns anos para cá se vem instalando, em todas as áreas - um vómito.
e que mágoa, por aqueles que fizeram das suas vidas uma luta para concretizar um sonho alto e que vão soçobrando, de desencanto e cansaço...

São disse...

Lutar nunca foi fácil, pois não?
Dar a cara e assumir consequências sempre teve custos ou não?
Quanto mais nos acomodarmos, pior será!!
Boa semana!

Maria Laura disse...

E lá vou eu ter que concordar com Pacheco Pereira! Só por esta vez, que o homem consegue mesmo irritar-me. Depois, nem tenho chapéu para lhe tirar...
A sério, claro que a administração pública tem todas as razões para fazer greve e, na actual conjuntura, dão sinal de grande espírito de luta ao fazerem-no. É que, no actual estado das coisas, é uma atitude que lhes pode custar caro. Frequente é ouvir dizer que a "mobilidade" não terminou e portanto juizinho... Mais uma razão? Talvez mas nem todos conseguem pensar assim, o que eu tenho que entender.

Anónimo disse...

excelente espaço:)

deixa me aconselhar te um livro fantastico para este Natal:

http://www.livapolo.pt/index.php?action=artigo_detalhes&artigo_id=65329

beijo;)

Patsy

Um Ar De... disse...

Também fiz greve.
Just to make a point. [Já não o "nosso", mas o "meu".]
Reconheço que "greve" é mais um termo como "classe trabalhadora", "proletário" e por aí...
Agora é o tempo do discurso cada vez mais "neoliberal", "globalizante", "pós-moderno" e por aí...

E é por aí que a coisa vai andando, com Um Ar De novidade meramente enganadora, porque no essencial o que os termos significavam continua a existir.

[Desde o tempo do final do salazarismo, que não via tantos pedintes na Baixa portuense...]

E, verdade seja dita, que nem prestei grande atenção ao que o Pacheco Pereira escreveu, porque hoje não é o dia do lobby sim, mas do lobby não.
Amanhã cantará de outra maneira e, por isso, não me vou render a esta colher de chá...

Amanhã é dia de trabalho, com tudo na mesma, como a lesma.
Os sem abrigo [já não se usa pedintes, mesmo quando é disso que trata, embora nos façam acreditar que é uma opção de vida!] que se cuidem! Está um frio de morrer.
Rectifico: está um frio para morrer!

Anónimo disse...

excelente espaço:)

deixa me aconselhar te um livro fantastico para este Natal:

http://www.livapolo.pt/index.php?action=artigo_detalhes&artigo_id=65329

beijo;)

Bi.

Oliver Pickwick disse...

Venho acompanhando este assunto desde o post Revista de Imprensa - Parte 1. Não vou opinar por achá-lo um assunto interno, privativo de discussão entre vocês, portugueses. Entretanto, gostaria apenas de constatar que tais eventos são como um produto, uma mercadoria, e distribuídos pela maioria dos países do mundo por um grande fornecedor, que atua de modo silencioso e subliminar, porém, os efeitos são estrondosos, especificamente entre as classes mais desfavorecidas.

A propósito, quanto ao escritores da liberdade, repassei o testemunho a um blog mais do que merecedor.

Abraços, e mantenha-se distante dos dominicanos do Santo Ofício.

OrCa disse...

Alguns comentários fizeram-me, uma vez mais, matutar na importância de cada um saber definir o inimigo principal e da necessidade de coordenar esforços no 'contar das espingardas'...

Enfim, o que se discute aqui é a grandeza humana de se assumir uma greve, ainda que a sua definição (no topo) possa não cumprir todos os cânones da correcção política.

Nessa perspectiva, estou contigo: aplaudo o artigo do Pacheco.

Acho, pelo contrário, execrável o esforço das televisões - sem excepção - em entrevistar os coitadinhos que foram 'prejudicados' pela greve, como forma vil de apoucar - é o termo - atitudes de coragem.

Como se fazer uma greve, neste país de misérias, contribuísse para a felicidade de alguém!...