segunda-feira, janeiro 14, 2008

"Europe´s West Coast" – uma gracinha azul!...

O Governo anda preocupado a vender o País no estrangeiro. Não, não me refiro, desta vez, a alienação de património e de valores imobiliários na Avenida da Liberdade ou na terra alentejana, por exemplo. Refiro-me à ideia de “vender” no sentido de apresentar o País como destino turístico. Louvável intenção, dir-me-ão. Louvável intenção, sem dúvida, se o propósito respeitar a dignidade de um Povo e de uma Nação com mais de oito séculos de História. E sem abastardamentos da Língua Portuguesa...

Lembram-se da campanha publicitária o All Garve?!... Esperem, então, pelos desenvolvimentos da campanha e vão-se habituando às delícias da modernaça “Europe´s West Coast”...

No seu ingente propósito, o Governo encarregou uma empresa privada da especialidade da tarefa estudar a melhor forma de vender o País no estrangeiro e apresentá-lo atractivo como destino turístico. Não importa agora saber a quem, por que custos, nem saber se, na Administração Pública, haveriam competências para tanto. Fixemo-nos apenas no “produto” congeminado...

Deitando mãos à obra, os publicitários crânios começaram pelo princípio (como é suposto começar-se sempre) e, puxando pelos esclarecidos bestuntos, interrogaram-se: - “Como pode uma marca que é a 23ª do mercado, que tem fraca e até má reputação, pobres argumentos, baixo preço e uma desmotivada força de vendas, dar a volta por cima e criar um grande impacto no mercado?!... Leram bem. Portugal é uma marca comercial, com má reputação e baixo preço, com desmotivada força vendas, aliás!...

Temos assim que para os doutos publicitários Portugal tem má fama, é subdesenvolvido, associado à iliteracia, à corrupção e à miséria e, horror dos horrores, considerado “um país do sul”, como fazem notar superlativamente. Notem bem - um País do sul! - pois aqui reside o brilho da campanha publicitária...

A partir de tão preocupante diagnóstico, os criativos pensaram! Compreenderão, aliás, que para resolver tão grande imbróglio, decorrente desta fatalidade histórica de Portugal ser um país do sul, uma espécie praga vinda do norte de África, tiveram que pensar muito e necessitaram de muita imaginação. E, como não lhes competia “fabricar” o produto a vender, quer dizer, modificar a situação geográfica e sócio-económica do País, empenharam-se, com denodado esforço, em dourar a pílula, pois que, como se sabe, na falta do brilho do oiro, o pechisbeque faz as suas vezes, encadeando os papalvos.

Pensaram, então, os publicitários. Pensaram e repensaram!... Deram mil voltas ao bestunto, queimaram as células cinzentas (aliás parcas) em fogosos brainstorms, revolveram-se na cama em noites de insónia, gastaram recursos, montanhas de wisky, águas minerais, cólicas, subiram mil vezes e outras tantas rebolaram pela encosta, quais Prometeus agrilhoados. Porém, nada!...

Até que – eureka! – como relâmpago incendiando a sarça, a Ideia, a suprema ideia redentora (que grande mangona!) ali estava à mão de semear: “Portugal não é apenas um país do Sul. É também um país Ocidental!... Estava resolvido o problema e descoberta a Europe´s West Coast. Digam-me, não é brilhante?!...

E não me venham dizer que os publicitários são exagerados. Como consta e tenho como certo, (pelo menos até prova em contrário), é em Portugal que se encontra o Cabo da Roca, ou seja, o ponto mais ocidental da Europa, “onde a Terra acaba e o mar começa”...

Os criativos tinham, então, acabado de inventar a pólvora, perdão, a Europe's West Coast, convolando-se, num golpe de mágica, o Portugal, país do sul e as respectivas as conotações terceiro-mundistas, para um País imaginário, ocidental, rico e desenvolvido...

O Governo, como é de prever adorou a ideia. E, ao que consta, apenas, uma pertubarção de pudor de última hora, o terá impedido que aprovasse a campanha publicitária em toda a sua plenitude, que incluía uma colorida cerimónia com enorme impacto nos média internacionais: a mudança de bandeira, com o vermelho e o verde (considerados terceiro-mundistas) a metamorfosearem-se no celeste azul europeu.

A ideia da bandeira, não terá, no entanto, pegado para desgosto dos criativos publicitários, apesar do seu afã em demonstrarem que a bandeira nacional mudou uma data de vezes ao longo na nossa História...

Em verdade, vivemos num País de génios, não lhes parece?...

25 comentários:

pentelho real disse...

fico encantada sempre que leio o que escreves.
nem sempre estou totalmente de acordo, mas vale sempre a pena vir aqui.

Mariadosol disse...

Mas isso é plágio do Homo Publicitarius....

Então ?
...Que da ocidental praia lusitana
Por mares nunca dantes navegados
Passaram ainda além da Taprobana

ou... como eu gostava de brincar

...Que da ocidental prana lusitaia
Por mares nunca dados navegantes
Passaram ainda alana da taprobém

NINHO DE CUCO disse...

O Eu-génio Sócrates, o Eu-génio Lino e tantos eugénios que para aqui pululam e nós cada vez mais longe das metas.
Mas em mistificação somos dos melhores. Disso me convenço cada vez mais.

Maria Laura disse...

Ora, ora, ora... isso já é mau feitio! :)) Afinal, os cartazes até ficaram giros e, depois, não podes negar que somos o país mais ocidental da Europa.
Mas como queres tu vender um produto de tão má fama? A única hipótese é mesmo vender gato por lebre, ainda que aqui não saiba bem o que é o gato e o que é a lebre. Que eu gosto muito de ser do sul da Europa! :) Mas estás a ver o sainete que dá o nosso PM a fazer o seu jogging na Europe's West Coast?

Justine disse...

Então os portugueses não foram os grandes descobridores? Continuam a fazer jus à fama...
Tristeza de mundo, em que tudo se tenta vender pelo engano, pela mistificação!

Stella Nijinsky disse...

Oi herético,

Tu realmente nem nos dás tempo para respirar.
Tens muita razão no que dizes.
Aqui há uns anos atrás li um artigo no Público, creio, chamado "Lisabónia 2010", que começava dizendo que "os portugueses vivem confortavelmente dos rendimentos da venda do seu país..."
Ainda fiz uma pesquisa para tentar encontrá-lo, mas como é do ano 2000já não o apanhei.
Em todo o caso, sou capaz de o ter em casa, tenho a certeza que vais adorar, pois ia justamente no sentido daquilo que dizes aqui, numa Europa a caminhar para o directório, em que Portugal mais não era do que a Lisabónia, regionalizado não por consciência ou escolha, mas pelo movimento das regiões e pela negligência na condução dos assuntos do Estado, caciquismo e dinheiro fácil.

Sempre na crista da onda!!!

Beijo,

Stella

M. disse...

A publicidade é uma praga. Detesto-a. Pelo que esconde e acena em vez de.

bettips disse...

Bestuntos.
Disseste bem, que não chegavam os fados para os fadar!
Publicitário é isso: engana e encobre. Detesto a falsidade, agora cada vez mais camuflada de estupidez.
Abçs

Maria disse...

Detesto a mentira. E a publicidade assim (e assado...) é uma mentira....

Sophiamar disse...

De facto, depois do meu Algarve ter sido vendido como All Garve já espero tudo.No entanto, creio, não estou ainda preparada pelo que do espanto não estou isenta. Essas cabecinhas pensadoras fazem tudo.

beijinhossss

Nana Lopes disse...

Meu pais foi vendido a preço de banana por longos anos...
È a vida. Beijokas e gostei de seus escritos.
Voltarei.

Nilson Barcelli disse...

Tu és brilhante na exposição das tuas ideias. Acerca disso já ninguém tem dúvidas.

Do conteúdo, desta vez não tenho opinião porque não conheço suficientemente a campanha.

Mas quando aplaudires aqui uma boa iniciativa deste governo, eu vou pensar que estás doente...

Um abraço.

velha gaiteira disse...

"Um país de génios" dizes tu!
Que razão tens em tudo!

Abração!

manhã disse...

Portugal vende-se bem, boa comida, boas gentes, é bom que se venda pois com a catrfa de hotéis que nos últimos anos inundam este cais tem mesmo que se vender senão lá vai o investimento!

Mar Arável disse...

DESGOVERNADOS

temos um belo país

para ser visitado.

Para viver só com outras políticas

e outros protagonistas.

Não podemos mudar de povo

mas quando o povo quiser

podemos mudar de governo.

É URGENTE AMAR MAIS ESTE PAÍS
NÃO BASTA TER RAZÃO.

O teu texto como sempre
na forma e no conteudo
sacode a indiferença.

abraço

Graça Pires disse...

O que a publicidade encobre!...
Um abraço.

SILÊNCIO CULPADO disse...

Este País virou uma prostituta que só pretende agradar aos amantes ricos. Mesmo quando está escalavrada com tanta exploração e maus tratos.
Amigo Herético, um abraço

Vieira Calado disse...

O que é que será que está para vir, depois do Alcochete »jamais« (françiu)

São disse...

Como li, em tom de crítica, num blog espanhol há minutos atrás: tudo está em venda, até minha alma!

Só que me parece que nem alma há já...

Saudações.

Maria P. disse...

Só o título de post vale 5 estrelas!
E acredita a bandeira ainda muda de cor...

Beijinhos*

PintoRibeiro disse...

Dá vontade de chorar...
Passei, abraço K'mrd.

Licínia Quitério disse...

Um jogador de futebol é um produto. Um país é um produto. Só a dignidade não é cotável em bolsa. O que é isso? Ah, pois. Uma excentricidade...
Outros tempos virão.

Vera disse...

Mas que genialidade...
Cada vez estou mais farta disto...

Brilhante a tua forma de expôr as ideias! Tu sim, genial!

Beijinhos

hora tardia disse...

:)))))))))))))))))))))


.


boa tarde...


em azul....



bjo.

Oliver Pickwick disse...

"Vender" o país como uma atração turística, eu particularmente não acho nada demais, afinal, Portugal tem essa vocação.
Agora quanto à escolha dos publicitários é outra história. A julgar pelo infeliz slogan, “Portugal não é apenas um país do Sul. É também um país Ocidental", confesso, já vi coisa melhor.
Por que não chamar os caras que fazem a publicidade da Coca-cola?
Abraços!