quarta-feira, janeiro 30, 2008

A mão (in)visível do mercado...

Nem de propósito. O Tratado de Lisboa, dito Tratado Reformador, não entrou em vigor ainda, como se sabe. Mas para quem tiver dúvidas, factos recentes (como bem se sabe os “factos são teimosos”) vêm a demonstrar, com clareza, o que desde sempre se tem defendido neste espaço. A saber, que o desenvolvimento actual do capitalismo, na sua fuga para frente, empurrado pelas leis da acumulação e do lucro, não se compadece mais com a “autarcia forçada” de um espaço protegido, no interior de fronteiras nacionais.

Por isso, o Estado nacional é, cada vez mais, descartável, já que, em boa parte, deixou de poder cumprir a sua função no processo de desenvolvimento capitalista. É, neste contexto, que a União Europeia realiza o seu desígnio histórico como instrumento de domínio económico, social e político dos interesses económicos mundiais, de que os grandes países europeus são intérpretes zelosos, mais que maestros...

Os grandes países - repete-se – porque a voz dos pequenos, nem sequer contam para a orquestra. Nem de facto, nem de Direito, como o Tratado Reformador demonstra e a prática política antecipa...

Mas deixemos falar os factos. A história é conhecida. O epicentro do capitalismo global – e economia dos Estados Unidos - agita-se perigosamente em recessão. Há quem diga que em verdadeiro terramoto, cujo alcance se desconhece. Os magos do neoliberalismo saem pela direita baixa. Paralelamente à descida das taxas de juros, Bush propõe-se injectar na economia 150 mil milhões de dólares e estimular consumo mediante subsídios directos às famílias (volta Keynes, estás perdoado!)...

Claro que o se passa nos Estados Unidos, tem reflexos no Mundo globalizado. E tem particular incidência na Europa, por razões óbvias. Sobretudo, na “impoluta” Inglaterra, extensão europeia da economia norte-americana. Como se sabe, nos últimos meses, a quebra de confiança, o aperto do crédito e a baixa das exportações tem levado a sucessivas revisões em baixa no crescimento económico, em toda a Europa. Por exemplo, a última projecção do Fundo Monetário Internacional, passou de 2,1 para 1,6, a variação do PIB em 2008, na zona euro, o que, como se compreende, terá efeitos devastadores nas economias europeias mais frágeis.

E, neste contexto de crise, como reage a Europa da celebrada União Europeia?!... O senhor Gordon Brown, convoca, para Londres, a senhora Angela Merkel, e os senhores Nicolas Sarkozy e Romano Prodi e, à última hora, o senhor Durão Barroso para – diz a imprensa – “fornecer a caução europeia à iniciativa”, à revelia dos órgãos da União. Ilustrativo não vos parece?...

Bem pode a Eslovénia, que detém a Presidência da União, protestar ou o primeiro ministro belga, senhor Guy Verhofstadt, barafustar “que a Europa não é feita unicamente para os grandes, mas para todos os cidadãos europeus, Estados e populações, incluindo-se os pequenos”. As magnas decisões foram tomadas nesse directório das mais poderosas economias da Europa, desfeiteando as instituições da União Europeia e descartando os pequenos países, não fosse algum lembrar que o que é bom para Washington, Londres ou para Berlim, não é necessariamente bom para os europeus...

E tivesse, porventura, a tentação de exigir a baixa de juros do Banco Central Europeu ou a ousadia de pretender rasgar esse monumento de ortodoxia financeira, que se dá pelo nome de “pacto de estabilidade” e que tem espartilhado o desenvolvimento dos países com mais frágeis, como Portugal.

E por cá? Por cá, como de costume, “todos bem”!... O senhor Sócrates teima no seu optimismo e pretende fazer-nos acreditar que a economia portuguesa irá crescer mais que na restante Europa. E sobre a cimeira de Londres, ao que se sabe, nem o mais débil miado. O que não deixa de ser estranho, face à euforia ainda quente do Tratado de Lisboa.

Por ele terá falado, certamente, o nosso prestimoso Ministro dos Negócios Estrangeiros, ao afirmar que não tem “nenhuma dificuldade em aceitar um modelo de participação na solução das grandes questões internacionais em função de uma geometria variável”.

É isso o que conta, afinal, para o Governo português. A “geometria variável” dos interesses dos poderosos. Nem que para isso se tenha que abdicar dos interesses do País e derrogar princípios de fidelidade europeísta, aos quais se tecem hossanas!

Para mim não é surpresa que assim seja. Não por maldade dos homens, nem por fatalidade histórica. Mas por fundadas razões de que, na actual situação de globalização capitalista, os Estados e a própria democracia não serão mais que a “submissão completa à lógica sem sujeito do dinheiro...”.


30 comentários:

um Ar de disse...

Afinal, acabaste de evidenciar duas coisas fundamentais:

1. Quem são os "sujeitos" da submissão à lógica do dinheiro.
2. A visibilidade da(s) mão(s) do mercado.

E tudo o que implicará a falta de atenção...

Bj de apreensão

Kalinka disse...

Passo, leio-te, mas afasto-me de temas políticos...

Já alguma vez abriste janelas, para ouvir estrelas? Vou começar a pensar nisso quando chegar a Primavera; gostaria de conversar com elas a noite toda!!!

Beijos cintilantes.

hfm disse...

Desde o momento eu que "correram" com o referendo encerrei este assunto - apenas uma questão pragmática! Nas próximas eleições direi de minha justiça apesar de saber que não serve para nada...

Maria disse...

beijos e beijos. e mais beijos......

um Ar de disse...

Eu tenho razão?
Tu tens razão: é o musgo, que tapa e esconde uma série de minhocas e afins, que poucos querem ver, porque em "cada escavadela, cada minhoca"!

Também é por esta analogia que eu gosto do teu blog!

Haja pombas para esgravatar o chão levantar o véu! porque o verde é uma ilusão.

Já agora, brancas!... Não tenho visto dessas no meu jardim...

Não são tempos de paz.
[Acho que o Vaticano deve ter um pombal delas, em regime de exclusividade...]

Vera disse...

E onde é que vamos parar??
Gostei imenso!

Beijo

Sombras de Fim do Dia disse...

O que se vai passando por Portugal deixa-me triste, especialmente porque estamos nas mãos do nosso pior defeito "Deixa Andar, Logo se vê..." E onde vamos mesmo parar? talvez ao fundo... espero que não

Maria Laura disse...

Hoje, este teu texto conseguiu deprimir-me. Ou talvez este seja um tema recorrente nesta União em que não temos outro remédio senão estar. Ou talvez os temas económicos, sobretudo nos últimos tempos, me deixem cada vez mais pessimista. Sei lá... Agora, essa da geometria variável tem a sua piada... Aquilo que varia, é função de quê? Tu deste a resposta, mas eu gostava de a ouvir da boca do sr. Ministro. Ah, triste país!

isabel mendes ferreira disse...

muito e muito e muito obrigada.



mesmo!




_______________


abraço.

SILÊNCIO CULPADO disse...

Herético
Os teus posts são tão perfeitos que até tenho dificuldade em comentar. Subscrevo tudo o que dizes palavra a palavra e letra a letra.
Vivemos no mundo da globalização selvagem em que os 500 mais ricos consomem recursos equivalentes aos dos 416.000.000 (quatrocentos e dezasseis milhões) dos mais pobres.
Existe a desigualdade entre estados em que os poderosos subjugam os mais débeis retirando-lhes dignidade e identidade. E como se isso não bastasse, internamente, cada um dos Estados alimenta as clivagens e as diferenças. Bush (que eu detesto) ainda encara as teorias Keynesianas, mas nós aqui nem isso. Com o abrandamento do consumo interno e a concorrência das grandes superfícies, as PME´s vão agonizando e morrendo.
Um abraço

Stella Nijinsky disse...

Oi Herético,

Vim aqui comentar o post anterior e quando li este, deparei-me com, nem mais (apesar de muito bem elaborado e estruturado), aquilo que eu queria dizer.

Tardei a comentar o anterior porque era preciso dizer isso tudo que disseste agora (e ainda se podia dizer muito mais).

A ratificação do Tratado que é uma derivação do anterior, chumbado pelos povos, veio mostrar que, como se sabe, a Europa não se fará dos cidadãos, mas dos Estados. E de entre os Estados emergem naturalmente os mais poderosos, que estarão na condução política da posição da UE no Mundo.

Não é de estranhar.

No mundo de hoje os países são o espelho dos indivíduos que os habitam e governam. A História da nova Europa, uma história de 60 anos de paz artificial, é a História da Europa na Europa dos dias de hoje, do Mundo de hoje.

Os Governos forçam Tratados, mesmo os pequenos Estados, todos querem manter a Europa a funcionar.

O meio de funcionamento encontrado, a par com a evolução da política internacional e da História agora estruturada em torno da guerra comercial mundial (para além de outras coisas, mas cinjamo-nos a isto) ditará o futuro de todos nós, a História da Europa.

Se bem se mal, se referendo ou não, todos os governantes assinaram o Tratado, quiseram fazê-lo.

Cá estaremos, esperemos, para ver aonde nos conduz a Europa que nos outros séculos de vida oscilou entre povos e impérios.

Com a análise económica que fazes, escusado será perguntar porquê não se quer referendar o Tratado de Lisboa. No mundo global, as forças económicas são superiores aos povos, talvez porque os Seres Humanos são o que são, criaram forças superiores a si, pelas organizações em que escolheram associar-se, pela maneira como geriram as suas relações.

Adorei o teu texto, os factos que enuncias são completamente explicadores da pergunta que lançaste no post anterior.

Fico por aqui...

Stella

Stella Nijinsky disse...

Oi H,
Voltei a ler o post.
Quanto ao teu último parágrafo, temos certamente que olhar ao comportamento dos homens, àparte fatalidades históricas.
Todos juntos damos corpo àquilo que se chama de povo, de humanidade e
Se da responsabilidade conjunta sai um mau resultado, há que ver que se calhar há muitos maus homens, para além de homens assim assim.

Stella

Stella Nijinsky disse...

Ou se calhar sem ser àparte fatalidades históricas...

:-)

Frioleiras disse...

não entendo onde
na globalização
se pode empregar a palavra
democracia!!!....

Graça Pires disse...

Para mim também não é surpresa que assim seja. Um abraço.

Vieira Calado disse...

Adeus democracia (alguma...),
que já foste!

e...

"até quando Catilina abusarás da nossa paciência?..."

É preciso que cada um de nós diga isto!

Diga e, ao menos, proteste...

Um abraço.

Sophiamar disse...

E vamos avançando para onde nos levam.Longe vão os anos 70/80 em que os sonhos ainda tinham a cor dos cravos.
Beijinhosss

Nilson Barcelli disse...

Quando há uma crise, os políticos ficam egoístas e cada um quer safar o seu país.
Mas quando não há crise, também...
A metodologia é que varia.

Mais um bom texto, parabéns.

Abraço.

manhã disse...

nem sei o que a europa anda a fazer, também não gosto do capitalismo, mas, no mundo actual não vejo alternativa.

pardal de telhado disse...

voando~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
por aqui,
como a pomba
do
Picasso~~~~~~~~~~~~

triliti star disse...

no meio de tudo isto onde fica a esperança?

Cadinho RoCo disse...

Situação embaraçosa porque alastra-se mundo afora a concentração de riquezas a expandirem a miséria numa velocidade assustadora
Cadinho RoCo

SILÊNCIO CULPADO disse...

Amigo Herético
É preciso combater os estigmas e os preconceitos.
Junta-te a nós e copia, para o teu blogue, o selo do SIDADANIA (está no Silêncio.
Um abraço

Rui Caetano disse...

A Europa tem de olhar com a mais atenção para os excluídos da sociedade.

Klatuu o embuçado disse...

Já, decerto, deste por ti a pensar que a Democracia pôde consolidar-se numa cidade-estado senhora de um vasto império comercial, não um império de terras, mas de pequenas colónias, gémeas da cidade original, que dominavam rotas e trilhos. A Democracia gera ideias, aceita e fomenta a diversidade, sobrevive pela soma de engenho.

Mas o sistema económico que serve a Democracia hoje é outro, que sobrevive sem engenho nem ideias novas - a usura basta. Basta o dinheiro que gera dinheiro, mesmo que não produza nenhuma riqueza real. Este sistema é totalitário nos seus processos e fins e inclui na sua dinâmica o fim inevitável da Democracia.

Abraço.

P. S. Visita: http://novaaguia.blogspot.com/

Klatuu o embuçado disse...

P. S. A maioria das mulheres abomina a política - é mais é bolos -, e nós que não sabemos bordar! :)

Klatuu o embuçado disse...

... e, cada vez mais, toda esta gente me parece aqueles simulacros de que falava o velho Platão - se têm alma, eu nem quero saber.

OrCa disse...

Há, pois, um labor de formiga que nos obriga... para não haver esta dor de se querer comer e já nem ter barriga.

Um abraço.

Mariadosol disse...

hoje vou lembrar-me de junquilhos amarelos que floresceram temporãos e que a minha irmã de ofereceu no seu refrescante blog aluaflutua!
Não tenho hipótese de comentar seja o que for, neste mercado tão consensual!
:))

Oliver Pickwick disse...

"...Os magos do neoliberalismo saem pela direita baixa..." Magos? Que magos? Ah, está falando do David Copperfield!
Quanto à “geometria variável”, essa nem o Euclides sabia.
Abraços!