sábado, fevereiro 02, 2008

Máscaras e Tambores...

O senhor Presidente da República, com um sorriso mefistofélico, aconselhou os políticos a descontraírem-se nestes dias de Carnaval. Levemos à letra a sábia palavra de Sua Excelência e sigamos o exemplo dos políticos – descontraiamo-nos, pois!...

Sugiro, então, que depois de saboreados os corsos, pernas nuas e bundas falsamente brasileiras, no recanto da famílias, ao serão, enverguem máscaras e trajes, encenando este “infernal” diálogo...


MEFISTÓFELES:
(...) Ouves os tambores?

FAUSTO:
Guerra outra vez? Não agrada aos melhores.

MEFISTÓFELES:
Em guerra ou paz, eu sei o que é melhor:
Da circunstância proveito tirar,
Ao momento propício dar atenção. Ele chegou? Fausto, deita-lhe a mão!

FAUSTO:
Poupa-me a esses enigmas, por favor! Explica-te! Diz já o que há a fazer!

MEFISTÓFELES:
A minha viagem deu p'ra notar
Que está em apuros o bom do imperador. Já o conheces. Quando o divertíamos,
Falsas riquezas na mão lhe metíamos,
Pensava que o mundo era seu.
(...)

FAUSTO:
Erro fatal.

(...)

MEFISTÓFELES:
(...)Gozou como podia,
E agora o reino caiu na anarquia:
Grandes, pequenos, todos guerreando,
Irmãos perseguindo-se, matando,
Atacam-se castelos e cidades,
Guildas e nobres em luta, inimizades,
Bispo, povo e cabido desavindos,
Olham-se e pronto!, já são inimigos.
'Té nas igrejas morres, e diante
Das porras corre risco o viajante.
Cada um mais ousado se mostrava;
Viver? Não, defender-se! - E a coisa andava.

FAUSTO:
Andava - coxeou, caiu, ergeu-se,
Deu duas cambalhotas e perdeu-se!

MEFISTÓFELES:
E ai de quem ousasse censurar!
(...)
Mas um dia os melhores disseram: Basta!
Os mais capazes erguem-se, p' ra exigir:
Mandará quem a paz nos garantir!
Não o pode, não o quer o imperador?
Eleja-se outro, pr' o reino salvar,
A todos dando segurança
Num mundo novo, de mudança,
Que paz e justiça venha casar.

FAUSTO:
É conversa de padres.

MEFISTÓFELES:
E padres foram
Os que a anafada pança defenderam.
Mais que ninguém se meteram na alhada.
Cresce a revolta? A revolta é sagrada,
E o nosso imperador, que o céu lhe valha!,
Marcha talvez pr' a última batalha.

FAUSTO:
Que pena! Tão bom! E inspira confiança.”

(...)

JOHANN WOLFGANG GOETHE – in “FAUSTO” – Ed. Circulo dos Leitores.

33 comentários:

Maria P. disse...

"Máscaras e Tambores..." e o humor...

Beijinho*

Klatuu o embuçado disse...

Cavaco Silva é apenas decorativo - contra muitas expectativas... Mas sempre achei que o iria ser.

Abraço.
P. S. Não te preocupes... os comunistas não estão na minha lista... ;)

Miosotis disse...

Muito sensibilizada pelos teus olhares sempre atentos e muito afectuosos em 'fragmentos'!

Há momentos...

Um beijo

...Goethe sempre actual!

casa de passe disse...

com humor o teu post...
mas
eu
gosto do Carnaval!!!

bjnhs

Gi disse...

Na peça Fausto vence o Diabo. Quem consideras tu que aqui é o intelecto? O mal sei eu onde está :)

Sempre actual e muito bem rebuscado (nem outra coisa seria de esperar :) )

Umm beijinho , bom fim de semana

Maria disse...

Um Fausto e um Goethe sempre actuais....
... como é que se chamam mesmo os brincalhões?

Bom domingo, beijos

hfm disse...

Em círculo a vida passa. ;)

jawaa disse...

Pois, meu amigo, onde os mais capazes que dizem: Basta!?
Onde a Justiça?
Um abraço

Justine disse...

Sua Excelência, mesmo quando aconselha a descontracção, está contraído, cheira a "conversa de padres"...

Valha-nos o Goethe, para esquecer o aprendiz de Mefisto!
Bom domingo :)

un dress disse...

ciclos.

cada vez menos reconhecemos as distinções.

e caímos desiquilibrados.

máscaras e tambores, e como se lê bem a actualidade da literatura...

a sua perenidade, de espectadora dos eternos lugares de fora mmas, sobretudo, de dentro.



.beijO

Sophiamar disse...

Quando, fartos de máscaras e tambores, dirão os mais capazes: Basta!

De descontracção precisamos todos nós para levar este quotidiano tão encapelado.
Até quando?

Beijinhos

velha gaiteira disse...

Completamente de acordo, Herético.

Nem me fales em máscaras e tambores.

A minha meia-idade anda muito abalada e fraca!

bettips disse...

Esqueceu-se por completo - que há anos castigou a tolerância de ponto e foi castigado a seguir. Afável-amável Mefistófeles, e que diferença que me assusta, aprecia as máscaras dos imperadores caindo uma a uma.
Nós escutaremos as vozes de amanhã, sempre o fizemos.
As tuas palavras pequenas, contidas e que me suavizam tanto, lá no lugar-espaço.
Abçs

Martinha disse...

Politicas /:
não vejo grande futuro para mim neste país...
*

Oliver Pickwick disse...

Você é um cara de sorte, ainda pode propalar-se de esquerda aí no seu país, sem correr o risco de sentir-se ridículo. Aqui, a esquerda virou fascista, além de imbecil. Para honrar meu passado socialista, nas eleições, voto na direita tradicional que por acaso tem projetos mais socializantes que a esquerda que está no poder, a qual, mantém constantes diálogos com Mefistófeles. Vão acabar corrompendo até o pobre diabo.
Abraços!

bettips disse...

Donde veio, que me soa vagamente familiar?
"Casa onde caibas... terra quanto vejas!"????

Vieira Calado disse...

E não esquecer que o dito chefe, quando era 1º ministro, quis toda a gente a trabalhar durante o Carnaval...
e agora vem armado em carapau de corrida...
Um abraço

As Sombras de Fim do Dia disse...

Extraordinário como este diálogo, há tanto escrito, e em contexto diferente, é acutilantemente adequado aos dias de hoje? Fantástico!

M. disse...

Bem vista a parecença do sorriso mefistofélico...

Graça Pires disse...

Goethe cada vez mais actual...
Gostei do "sorriso mefistofélico"
Bom Carnaval.

batista disse...

somos o que somos... o que querem que sejamos... somos o que queremos ser?

direita x esquerda... os que se dizem de esquerda e rezam no catecismo da direita já fizeram sua escolha.

um abraço fraterno, meu Amigo.

Paulo Sempre disse...

Cavaco Silva tende a socorrer os pobres, as viúvas, os órfãos, os desvalidos, os fracos, usando, para tanto, um "ar" paternal...como se não tivesse sido iniciado no "secreto" mundo da política...onde, tantas vezes, há misteriosos pactos - também eles secretos - pouco apreensíveis pelos sentidos do Povo. Qual é o político que não fala da "lei justa e da decisão equitativa?
Para se viver 10 anos no palácio de Belém, tem o seu preço...: «agradar a gregos e a troianos».
Abraço
Paulo.

Mariadosol disse...

do que mais gosto no Cavaco é da pinta da D. Maria.hihihi

:))

rouxinol de Bernardim disse...

Muito bom blogue1

Rui Caetano disse...

Muito interessante, gostei.

Frioleiras disse...

No dia de Carnaval, um beijo.

Gi disse...

Eu sei que não ligas nenhuma a estas coisas mas não consigo resistir, que queres?
Tens mais um prémio lá no meu canto, como é carnaval e gosto de dar que fazer aos curiosos :) tens que procurar os números coloridos, é lá que ele está.

Um beijinho, resto de um bom feriado

O Puma disse...

OS PALHAÇOS

TAMBÉM SÃO FILHOS DE DEUS

E FAZEM PENSAR

COMO É POSSÍVEL

SEREM ELEITOS

PARA NOS TRAMAR

ABRAÇO

Nilson Barcelli disse...

E agora o reino caiu na anarquia:
Grandes, pequenos, todos guerreando,
Irmãos perseguindo-se, matando,
Atacam-se castelos e cidades,
Guildas e nobres em luta, inimizades,
Bispo, povo e cabido desavindos,
Olham-se e pronto!, já são inimigos.

Ainda não caímos nisto, mas não falta muito...
Venha a quaresma...

Um abraço.

uivomania disse...

Tivesse esta peça falta de público e há muito que não estava em cena. Mas, na realidade, o público acotovela-se para entrar e assistir ,refastelado. Apenas. Como se não fosse nada com ele. Cada um a cuidar da sua vidinha. Apenas. Pronto a aplaudir ou apupar. Apenas.
Depois, sai e esquece que representa um personagem que poderia fazer toda a diferença. Sai, pronto para marchar contra canhões e dar corpo a inimigos sugeridos que se dispõe a comer vivos ao som dos tambores rufados por ditadores tresloucados.
Sai, disposto a continuar a acreditar que o mundo é uma selva em que quem não mata morre, quem não explora é explorado... e por aí além!

Maria Laura disse...

Descontraída, como é de bom tom após o Carnaval, venho ler o que o teu humor fez deste diálogo. E ainda me diverti (mesmo que a situação a que se aplica não tenha nenhuma graça) a tentar identificar as personagens. :)
Já se vão ouvindo os tambores, já...

Licínia Quitério disse...

E afinal nada de novo acontece. As mesmas máscaras, os mesmos tambores. Mudaram-se os nomes, mas não as vontades.

Muito a proósito, como sempre.

Um abraço.

OrCa disse...

Tu corróis, carais!

Se eu acreditasse nas bem-aventuranças, nomeava-te! ;-)

Grande abraço.