quarta-feira, fevereiro 06, 2008

Revista de Imprensa - "Dicionário newspeak empresarial"...

O bem estar dos trabalhadores é importante para nós: “Vamos instalar vending machines no hall para não terem desculpas para ir ao café”.

A segurança dos nossos trabalhadores é uma prioridade: “Se essa porta não estivesse fechada vocês passavam o dia todo na rua a fumar”.

A mobilidade é um imperativo da produtividade: “Devemos ir para onde a mão-de-obra seja mais barata”.

A deslocalização é um imperativo logístico: “Os albaneses trabalham mais barato que vocês e ficam mesmo ao pé de Itália”.
(...) .
Nesta empresa, o mais importante são as pessoas:Custa-me imenso despedi-los a todos”.

Precisamos de libertar uma parte da nossa mão-de-obra: “Vamos despedir 200 tipos”.

Precisamos de reduzir os custos fixos: “Vamos despedir 200 tipos”.

Temos de apostar na flexibilidade: “Vamos despedir 200 tipos e contratar uns brasileiros a recibo verde”.

As promoções têm de ser fruto do mérito:As mulheres que engravidem podem esquecer a promoção”.

Os imigrantes têm óptima formação e forte espírito de equipa: “Como os ucranianos não estão legalizados não podem apresentar queixa”.

Precisamos de apostar no outsourcing:Não temos dinheiro para pagar aos nossos técnicos”.

Precisamos de vestir a camisola:Este ano não vai haver aumentos”.

O esforço de reengenharia está apenas a dar os primeiros passos:Ainda não. sabemos quantos empre­gados vamos despedir”.

Vamos iniciar um processo profundo de reestruturação: “É provável que sejam quase todos despedidos”.
(...)
Precisamos de sangue novo: “Como é que se chama aquela rapariga de mini-saia e óculos vermelhos que es­tava a sorrir para mim?” .

Temos uma forte consciência do papel social da nossa empresa:Estamos a tentar obter uns subsídios”.
(...)
Precisamos de renovar a lógica de organização da empresa:Vamos mudar o nome dos departamentos”.

Estamos a repensar a missão da empresa:Pagámos uma fortuna a uns consultores para desenhar um novo logótipo”.

Devíamos fazer um brain storming: “Não faço ideia”
(...)

Temos de repensar o nosso core business: “Tecnicamente estamos na falência”.

Precisamos de aumentar o share of mind da nossa empresa:Ninguém sabe que nós existimos”.

Fizemos um realinhamento estratégico:Pagámos uma fortuna a uns consultores que nos provaram que os consultores anteriores a quem tínhamos pago uma fortuna se tinham enganado redondamente”.

José Victor Malheiros - in “Público” de 05.02.08
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Consta que o Ministro das Finanças determinou a imediata aplicação em todos os serviços públicos destes princípios, tendo em vista o aumento da produtividade dos trabalhadores da administração pública.

E que nas “lojas do cidadão”, estão ser distribuídas edições luxuosas, em papel de bíblia, deste código de boa gestão, tendo em vista o exponencial aumento do PIB nacional.

Reconheçam que é obra!...

24 comentários:

Justine disse...

Isto é pra rir, não é???
Não é a sério, pois não???

manhã disse...

bom, o melhor será emigrar, para a Venezuela, não?

Mariadosol disse...

prontosssssssssssss

:))

Maria Laura disse...

:))) Estou a ver que o bom humor te chegou depois do Carnaval.
Algumas coisas fizeram-me lembrar factos que se têm passado onde trabalho...
E o nível dos nossos empresários e dirigentes é mais ou menos esse, sim. nem é preciso distribuir-lhes os manuais.

um Ar de disse...

Também acho que não vale a pena gastar verba em manuais.

É o tem vindo a ser praticado, com mais umas adpatações e modernices (diga-se, ideias parvas).

É quase anedótico, realmente, se não estivesse a ser posto em prática.

Não me parece que estejas de bom humor...

.BEiJO.

bettips disse...

"Vamos é arranjar um Gabinete de Imprensa, onde estes tipos dos blogs críticos sejam desfeitos em picado e servidos frios (ou fritos)"... sussurros nos perdidos passos, entre diversos quadrantes democráticos eleitos.
Uma espécie de Call-blog-center para as respostas "na hora"!
Giro, giro é ser prática corrente, mesmo sem manual. Qualquer patrão de garagem o faz.
Onde teriam lido o livrinho azul do Mao Soarung?
Lembro, humildemente, que os contratos a prazo foram incluídos/iniciados por este velhinho simpático. Depois disso, a selva imensa foi avançando, a caminho da europa liberal, corrompendo as conquistas sociais mais importantes. Sem vergonha!
Abçs

hfm disse...

E que obra!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Nilson Barcelli disse...

Dá vontade de rir, mas há imensos patrões a pensar assim...

Abraço

PintoRibeiro disse...

Ainda é pior, K'mrd.
Abraço.

Peter disse...

É enternecedor o interesse que nos dedicam.

P.S. - Tentei por várias vezes comentar o post anterior, sem o conseguir.

OrCa disse...

Avassala-nos o ar uma tal pestilência que, mutatis mutandis, só a morna e sorna complacência do bom povo português suplanta...

Se eu te dissesse que aquilo que relatas - quanto à descridibilização das conclusões de uma consultoria pela seguinte - é uma realidade com que tropecei por cinco vezes em sete anos, saberias o quanto estou de acordo contigo.

Entretanto, no passa nada!

Abraço.

SILÊNCIO CULPADO disse...

Herético
Reconheço que é obra.
Mas não me espanta.Conheço o filme.
Gosto de ler as tuas preocupações cultas, bem fundadas, profundas e que vêem muito além. Entendo as tuas convicções que devem andar muito próximas das minhas e, por isso, irritam-me as explicações daqueles que nos querem convencer do contrário.
Um abraço

andorinha disse...

O dicionário está correcto e actualíssimo!

E estes princípios já estão em grande parte a ser aplicados.
Os nossos gestores/dirigentes são o máximo: sempre na vanguarda da inovação:)

Vou ler o que está para trás, despertou-me interesse.

Um abraço.

Stella Nijinsky disse...

Oi Herético,

Estes princípios que agora chegaram à Adm Pública, já estavam nas empresas privadas há muito tempo, principalmente, como óbvio, nos níveis mais baixos, do mexilhão.

Beijos de bom dia!

Stella

Vieira Calado disse...

O dicionário completo, do neoliberalismo!
E nós, alegremente, deixamos?
Um abraço.

São disse...

Gostei imenso da escolha que fizeste para colocar no blog.
Para onde vais, país que eu choro?
Se não estou errada, deves lembrar-te de Sérgio Borges : "Para onde vais, rio que eu canto?".
Abraço.

isabel mendes ferreira disse...

é. é obra.

de engenheiros à portuguesa....

salva-se o TGV...:) que é coisa de que estamos a precisar imenso...

deve ser por ser muito pobre que a Suécia o não tem...

será?


beijo.

prontoS.

M. disse...

O teu sentido de humor cáustico a completar o texto do "Público".

Maria P. disse...

Sublime.

un dress disse...

a passos largos rumo ao impensável.

tragi

tragi

tragi

tragi/comédia



.beijO

Frioleiras disse...

sempre em cima do acontecimento!
és o máximo, herético.

um bjnh de fim de semana

Graça Pires disse...

É o abuso do poder...
Um abraço

Oliver Pickwick disse...

Achincalhaste um dos quatro cavaleiros do apocalipse neo-liberal. Sei que é comunista, mas nessas horas você não acha o Schumpeter natural?
Abraços!

bettips disse...

Saudades. De saber por ti e de ti.
Abraços