domingo, março 02, 2008

Finis Patriae?!...

Um povo

imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso de alma nacional - reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta (...)

Uma burguesia

cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados (?) na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira e da falsificação, da violência e do roubo, donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro (...)

Um poder legislativo

esfregão de cozinha do executivo; este, criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do país, e exercido ao acaso da herança, pelo primeiro que sai dum ventre - como da roda de uma lotaria (...)


Dois partidos

sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, (...) vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se amalgamando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento - de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar”

Guerra Junqueiro - in “Pátria”

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Finis Patriae?!...
Nem tanto. Quero acreditar que País tem reservas de patriotismo para resistir. E mudar de vida...

"o que faz falta é avisar a malta/
o que faz falta é dar poder à malta"!...

26 comentários:

leonoreta disse...

pois...
eu tambem quero acreditar na medida em que sempre uma reamer e uma believer.
acredito, acredito. apesar de tudo.
beijinhos

Maria Laura disse...

Lá querer acreditar, eu quero. Mas a realidade do país não dá para ter grandes sonhos. Também não será propriamente o fim, mais o aviltamento daquilo que julgámos que o país poderia ser.
Mais uma vez trazes à liça um autor que se mantém actual. O diagnóstico da situação podia hoje ser esse. Tal e qual.

um Ar de disse...

As teorias da História do ocidente, connosco, não se aplicam, mesmo!

Sem qualquer menosprezo pelos africanos [os da África Negra, precisamente], pelo contrário... nós somos eles para a Europa!...

Bahhh....

[BEIJO]

Miosotis disse...

Bom... não há dúvida que se buscarmos nossos pensadores lusitanos Ramalho, Eça, Guerra Junqueiro e até mais recentemente o saudoso Agostinho da Silva, vamos vendo, infelizmente, que a história se repete num país sem 'progresso' nas atitudes e nos valores...

Não sei se fará 'falta avisar a malta'... estamos perante outras gerações, outros valores, melhor dizendo contra valores e não vejo uma nova plêiade semelhante à de 1968!

Dou-te o benefício da dúvida na esperança que sim :)

A tua crença é 'sem retorno'... mudar a vida do nosso país com um povo que só sabe progredir além fronteiras, mas que cá dentro não avança, é no mínimo estranho como característica!

Sensibilizada pelo teu olhar atento em 'fragmentos'! Vim tarde... ando um pouco distanciada, por muita coisa, mas perdoa! Não esqueço os fiéis amigos!

beijo

bettips disse...

Incrível, a actualidade de Guerra Junqueiro. Fascinante similaritude... e pensar que seria excomungado outra vez se cá viesse!
Pois que dizem que são sempre os mesmos: como se se pudesse etiquetar a raiva e o desalento, a pobreza e a violência, a injustiça e as desigualdades...
Quero acreditar enquanto a memória deixar!
Abçs

Germano V. Xavier disse...

Olá!

Passei por aqui...
Gostei do blog!!!

Abraços pernambucanbaianos...

Germano
www.clubedecarteado.blogspot.com

uivomania disse...

Francamente, acredito que a malta está avisada. Simplesmente, não está para se ralar. Querem acreditar que podem conseguir um lugar à mesa e esperam que os ùltimos fechem a porta.

OrCa disse...

Comovente o trecho em que se refere um povo que "guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso de alma nacional".

Que esse lampejo não se apague nunca e que, pelo contrário, ateie a fogueira da vida e o incêndio do sentir, alicerçado nos saberes que em nós se entrannham.

Essa será a fé que nos redime. Mas que seja feita de actos diários, possíveis ou impossíveis, mas concretos, para além do isolamento dos "estados de alma".

"Penso nos outros, logo existo", dizia-nos José Gomes Ferreira. Uma boa oportunidade parece-me ser já a do próximo dia 08 de Março... ainda que daqui até lá também destas palavras se faça a nossa bandeira.

Um abraço.

Justine disse...

O texto do Guerra Junqueiro, infelizmente, parece ter sido escrito ontem.
Mas isto vai, amigo, isto há-de ir, com a "malta" acordada a empurrar a outra malta que ainda não acordou.

Roderick disse...

É um circulo vicioso.

mariadosol disse...

eles já escreveram tudo o que há para escrever?...
ou
nada de substancial mudou?
não teremos aprendido nada?

hoje estou mto perguntadeira
:)

Graça Pires disse...

Sempre certeiro o nosso Guerra Junqueiro. O que é que mudou?
Um abraço.

manhã disse...

eram corrosivos estes tipos, comparando com os comentadores dehoje, sobra-lhes fibra!

Licínia Quitério disse...

Terá reservas,sim, mas as feridas são tão fundas que muitas vezes duvido. Há algo de tenebroso por aí que nos pode fazer implodir. Que é isso que eu temo e não as explosões.

Abraço.

Carla disse...

também gostava de acreditar, mas falha-me a fé e quase consigo partilhar do pessimismo de Guerra Junqueiro

isabel mendes ferreira disse...

não o imaginava assim tão crédulo....:) que surpresa.



mas acho bem.

assim morre.se mais tarde.


____________________.


bjjs.

Nilson Barcelli disse...

Infelizmente, no essencial estamos mais ou menos na mesma...
E todos temos culpa... somos um povo que não se governa nem se deixa governar, acharam os romanos quando foram embora, dizem...

Abraço.

Vieira Calado disse...

Por acaso já conhecia este excelente texto.
É tão actual que até dói.
Dói de ver que afinal, não é novo, nem nos questão por cima, nem nos que estão por baixo.
Um abraço

O Puma disse...

Também é preciso

abrir os olhos

varrer a canalha

eleita

Klatuu o embuçado disse...

À época, dos poucos republicanos que disse alguma coisa com sentido...

Conheces a da excomunhão?

Telegrama do Papa:

Segue aqui a minha excomunhão, considere-se excomungado.

Telegrama de Guerra Junqueiro:

Segue aqui um tiro, considere-se morto.



Abraço.

pardoca assim assim disse...

avisar a malta?!

o que a malta quer é cada um orientar-se e os outros que se lixem!

Jasmim disse...

shjkPois é, Guerra Junqueiro, sempre actual, quem diria?

Rui Caetano disse...

A realidade é nua e crua. Vamos mesmo é acreditar.

tolilo disse...

o que é malta, herético?

Chuac!_

um Ar de disse...

Esta pergunta faz sentido...

Afinal, quem é a malta?
Palpita-me que já não é o que era...

[BEiiiJO]

Oliver Pickwick disse...

Os caras de antigamente estudavam mais, refletiam mais, e vislumbravam o futuro com mais acuracidade. É a única maneira de compreender como um poeta antigo - ainda que tivesse a sua fase panfletária, exibisse um conteúdo tão grandioso e atual.
Texto escrito com tinta à base de nitroglicerina pura, e que, em certas épocas, acredito, capaz de levar até defunto à luta.
Abraços!