segunda-feira, abril 07, 2008

Do “horror económico” à “miséria” da política...

O célebre especulador financeiro George Soros, no seu livro “A Crise do Capitalismo Global – A sociedade aberta ameaçada”, após crítica documentada ao capitalismo global e à ideologia que a suporta, profere a seguinte interrogação de ressonâncias dramáticas: “Qual a dose de mercado que a democracia pode suportar?...”

A resposta à pergunta torna-se necessária e urgente, pois são recentes os tempos em que a chamada economia de mercado era o alfa e o ómega da democracia... Contudo, a realidade é bem outra. Nem o desmantelamento do muro de Berlim foi o “fim da história”, nem democracia e capitalismo são os tais “irmãos siameses”, que se alimentam da mesma seiva e cujo desenvolvimento é base da prosperidade e bem estar da Humanidade...

E, se é verdade que o desígnio político da Europa ocidental do pós-guerra, por pressão da alternativa socialista da URSS, (independentemente dos juízos de valor que tal “modelo” possa merecer) foi a tentativa de encontrar, entre esses dois pólos, o equilíbrio adequado, no contexto da realização do chamado “Estado Providência”, hoje, não há dúvida, que esse equilíbrio se rompeu a favor do mercado e dos poderosos, que beneficiam da globalização da economia mundial.

Com o cortejo de horrores e corrosão moral, que salta aos olhos dos mais cépticos e que os mais cínicos não ignoram...

Na sua brutalidade, o neoliberalismo e a ideologia da globalização abalam os alicerces da sociedade, assente até agora no trabalho e nos valores sociais que lhe são inerentes... O carácter predador do capitalismo, com a subida espectacular das cotações e lucros das empresas, a descida dos salários, benefícios e subvenções sociais, o aumento do desemprego tem como reflexo a decomposição das sociedades, com a marginalidade e o crime a assumirem, em todo o mundo, proporções endémicas ...

Na pátria do capitalismo, por exemplo, no Estado da Califórnia, - novo eldorado das tecnologias da informação e de empresas mundiais de enorme sucesso - as despesas com as prisões ultrapassam o orçamento total da educação; cerca de 28 milhões de pessoas, (mais de 10% da população!) vivem em edifícios ou em bairros protegidos por guardas armados, com os quais os norte-americanos gastam duas vezes mais dinheiro para se protegerem que o Estado gasta com a polícia...

Estamos, pois, no domínio de plena irracionalidade social...

Qual o papel do Estado e da política nesta nova emergência?!... Refere George Soros, na obra citada: “para dizer a verdade, a ligação entre capitalismo e a democracia é bastante ténue. O capitalismo e a democracia obedecem a princípios diferentes: no capitalismo o objectivo é o lucro, na democracia é a autoridade política (...) e os interesses supostamente servidos são também diferentes: no capitalismo, são interesses privados, em democracia é o interesse público”...

Nenhuma novidade. O que, porventura, tem significado é a circunstância de se tratar de afirmações de um dos mais destacados cavaleiros das especulações bolsistas, convertido à voluptuosidade do filantropismo.

E, se a globalização capitalista põe em crise a ideia de Estado, a crise do Estado é indissociável da crise política e da crise de cidadania... De facto, nunca como hoje, se falou tanto em direitos humanos e direitos fundamentais dos cidadãos. E, também, em tempos recentes, nunca como hoje, os direitos fundamentais foram tão preteridos... O que demonstra, à evidência, que a ideologia é a “expressão invertida da realidade...”.

Haverá apenas a acrescentar que são medo da despromoção social, da perda de emprego e de direitos sociais, que alastram nas sociedades capitalistas e “a angústia que eles inspiram”, quem torna os cidadãos dóceis e conformados. Mas cujo cerco, por entre dificuldades e incompreensões, os trabalhadores e os povos de todo Mundo, convictamente, se propõem romper.

Como demonstram, à escala nacional, as mais recentes manifestações dos trabalhadores portugueses...

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Um texto da “pesada”, certamente!...

Ah, pois! ... Julgavam que “isto” ficava pelos poeminhas?!... rss

Beijos e abraços.

25 comentários:

batista disse...

Chega bem a tempo ese texto, que explorarei o máximo possível, com tua anuência, é claro!

Nesse exato momento que escrevo esse comentário, minha filha está participando de uma ocupação na Universidade de Brasília, ao lado de centenas e centenas de estudantes. Desde sexta-feira próxima passada que está acampada por lá. É lógico que existe a preocupação normal de qualquer pai numa situação similar, de todo modo, por tudo que ela acredita (comungamos juntos), não poderia ser diferente.

Mais que nunca, meu Amigo, não estamos sós. Decididamente, não estamos sós.

Um abraço fraterno e solidário.

(Em tempo: durante a semana apresento um programa na Rádio Comunitária Utopia, das 15 às 17 horas. Os primeiros 30 minutos são destinados à magia das músicas e histórias infantis. Depois disso, músicas fora do circuíto comercial, representativas da diversidade cultural brasileira (vez por outra Zeca Afonso "pinta por cá"), textos como os teus, entrevistas, etc. Nesses últimos dias, em função de uns projetos em elaboração/execução, tenho tido pouco tempo para produção dos programas, sendo o jeito deixar um bom tempo só no "piloto automático". Ah, antes que esqueça, o endereço: http://utopia.dissonante.org/).

Justine disse...

Não é texto "pesado", é texto necessário!. Não sou economista, mas qualquer pessoa minimamente (bem) informada sabe ver que estamos no domínio da total exploração da maioria da população por uma minoria que detêm o poder económico, em que os outros funcionam como mera mercadoria para fazer dinheiro. E que falar dos direitos humanos e dos direitos fundamentais dos cidadãos é de facto a areia que vão deitando para os nossos olhos, na tentativa de nos cegar.
Truque que muitos de nós, e cada vez mais,já desmascararam!

Carla disse...

zncoteacho melhor ir por partes:
1º conseguiste alinhar (soberbamente) em meia dúzia de palavras pensamentos que já habitavam aqui neste cérebro há algum tempo,

2º porque razão continua a confundir-se capitalismo com democracia quando, como tão bem explanaste, os objectivos e a sua base de funcionamento não são as mesmas,

3º o Estado providência está a falir, o capitalismo puro e duro não permite que os mais fracos precisem de ajuda, exige que todos tenham que sobreviver na selva, por outro lado, a verdade é que, pelo menos em Portugal essa providência de estado foi mal gerida e deu origem a situações inadmissíveis de subsidiodependência,

4º a corrupção abunda, a globalização afasta o que é diferente, o medo instalou-se vítima de uma violência em crescendo (só as nossas estatísticas é que não querem ver), o desemprego cresce em flecha, o lucro sobrepõe-se a todos valores morais em que fomos educados, perguntamo-nos como educar a nova geração face a esta nova realidade...e há um vazio e um descontentamento crescentes que podem gerar confrontos (ainda não foi assim há tanto tempo que a França esteve a ferro e fogo) ou quiçá levar-nos a formas de gerir a sociedade que não se coadunam com os desejos da maior parte das pessoas...

5º e só aqui é que questiono o que dizes, serão mesmo apenas as razões que apresentas que tornam os cidadãos dóceis e conformados. Não haverá um certo conformismo e uma vontade de deixar andar, será que este marasmo que parece ter tomado conta da maior parte da sociedade (portuguesa, neste caso) vai continuar até que as condições de vida se degradem totalmente, até que os jovens continuem adormecidos em empregos precários, até que os mais idosos prefiram deixar-se adormecer do que lutar contra o esquecimento, até que a mão de obra activa continue a trabalhar para sustentar um número cada vez maior de pessoas que vivem de rendimentos de inserção social, de subsídios de desemprego (nem sempre aplicados de acordo com a realidade), enfim...quando é que a sociedade se vai olhar ao espelho reconhecer que envelheceu e que tem que assumir uma nova postura de vida...os dinheiros da União Europeia estão a chegar ao fim!!!! em que nos vamos apoiar a seguir para conseguirmos sobreviver? não se esqueçam que a classe média empobreceu e os ricos não gostam de pagar os impostos devidos....

ui amigo alonguei-me demasiado, desculpa e se calhar nem sempre segui as pégadas do tema que propuseste...mas as palvras são como as cerejas...
bom dia

leonoreta disse...

é um texto da pesada sim senhor, muito bem feito e muito esclarecedor. assim vale a pena visitar blogues.
(quem é que nao conheche freud?rsss)
beijinhos

Maria Laura disse...

Da pesada não sei se será, mas pesado é certamente. Tal como é pesada a realidade do dia a dia. Tudo parece piorar para quem trabalha e desculpa se não tenho o teu optimismo em relação à determinação de mudar o estado das coisas. A dicotomia/oposição entre capitalismo e democracia levava a uma profunda discussão, difícil de ter aqui. Mas uma coisa é certa: "isto" vai mal e não se vê luz ao fundo do túnel...

São disse...

O irmão siamês do capitalismo é o Vaticano.
Soros etá arrependido do seu comportamento, é?!
Mesmo os poemas podem ser denúncias...
Boa noite.

O Jacaré 007 disse...

Olá amigo,boa noite. Bom texto como habitualmente!
Olha, deste-me uma ideia.
Como os políticos vivem à pala das licenças de habitação, temos para aí casas para dar e vender. Como somos um povo hospitaleiro, o Governo e as Câmaras podiam comprar essas casas, transformá-las em prisões e faziamos com os americanos aquilo que os holandeses estão a fazer aos belgas.... eles mandavam para cá os presos deles, pagavam bem e nós guardavamo-los. Já viste melhor ideia neoliberal?

O Puma disse...

Nesta sociedade de mercado
selvagem o medo é uma regra
imposta
e até os pobres
receiam estender as mãos

alias nem sabem a quem

O TEU TEXTO NÃO É PESADO

confirma o peso da realidade

e sugere que todos
não fiquemos pela denúncia
sem prejuizo da poesia

mariadosol disse...

Para a malta da pesada só um texto da pesada...bem escrito como sempre e a tocar em feridas para as quais o remédio não ESTÁ fácil.

:))

um Ar de disse...

gwuwqvgQuanto ao texto, acho [sempre] muito oportuno.

Essa história de se confundir capitalismo com democracia é um perfeito disparate. Uma "americanice" que pegou moda até junto da intelectualidade [por razões de mercado, certamente, a questão ideológica terá vindo de seguida, para dourar a pílula!].

Alguma coisa Marx deixou ao comum dos mortais escolarizado: capitalismo, por definição, é exploração do homem pelo homem, para criação de mais-valia. Não vejo lugar para a democracia, aqui!...

Quanto ao optimismo final, estou um bocado como a "maria laura". Não serão manifestções à escala nacional que me farão vislumbrar uma ténue luz, no fundo do túnel... Acho que sim, que têm um profundo significado de insatisfação, mas não me parece que mudem, substancialmente, o quotidiano do neoliberalismo mais que instalado, tipo praga dos tempos que correm.

Achei interessante a forma como te referes ao Mr. George Soros, "convertido à voluptuosidade do filantropismo"!...
Não é o único a sofrer destes ataques de voluptuosidade...
Deve fazer parte de algum tratamento para a cura das insónias [vulgo, consciência pesada], prescrito pelo psicoterapeuta particular...

[BEIJO]

manhã disse...

verdade, concordo, o capitalismo sem freio, e o liberalismo político que lhe dá rédea solta são perigosos para a democracia porque estão a construir um fosso social que o estado não pode colmatar.

un dress disse...

poesia

poesia

que diz

e pode dizer

tantO!




:)




beijO

hora tardia disse...

pronto.


ficamos assim.



do leve peso do ser "político".



bem bom.


________________________.

Nilson Barcelli disse...

Comentar este assunto não cabe num mero comentário como os que habitualmente se fazem nos blogues...

De qualquer modo, mais tarde ou mais cedo, o poder político terá de controlar melhor o poder económico. Porque o capital vai esticando a corda cada vez mais.

Para baralhar este assunto, direi ainda que é pacífico, pelo menos na Europa, que os países pobres devem ser ajudados.
E uma das melhores maneiras de o fazer é conseguir que esses povos produzam riqueza.
É o que se está a fazer, com a redução das taxas alfandegárias e a "deslocalização" de empresas ocidentais para esses países, apenas à procura de mão-de-obra mais barata, claro.
Só que isso provoca o desemprego nos países onde essa mão-de-obra é mais cara...
Na Europa em geral e em Portugal também (calçado, texteis, etc.).

Ou seja, nós queremos sol na eira e chuva no nabal...
Como é que isto se resolve?
Eu não sei...
O que sei é que isto, por este andar, vai acabar mal...

Mas o teu post é excelente, ainda que não proponhas soluções... e a economia planificada, já se viu no que deu...

Abraço.

hfm disse...

Da pesada, meu amigo? eu diria da realidade mais pura e sem o asséptico tom desta pretensa democracia. Óptimo.

Sophiamar disse...

"Na sua brutalidade, o neoliberalismo e a ideologia da globalização abalam os alicerces da sociedade, assente até agora no trabalho e nos valores sociais que lhe são inerentes..."

impiedoso, o neoliberalismo prossegue o seu caminho, demolindo valores que considerávamos imprescindíveis. De imperdíveis passaram a descartáveis e o desmoronamento social está em marcha.

Beijinhossss

E alguns da Maria para o António. Ahahahah!

Maria P. disse...

O peso real.
Era bpm sinal se fossem só "poeminhas"...

Beijinhos*

São disse...

Vim reler, só.
Abraço.

O Lápis disse...

Apenas nos estamos a deitar na cama que (consciente ou inconsciente) ajudamos a fazer...

Como falas de povo, respondo-te com a sabedoria do povo...

Que ditado ainda existirá que nos dê esperança?


Um abraço

Popper disse...

Boa análise num texto bem escrito. Um abração.

Stella Nijinsky disse...

Olá Herético!

Saudades minhas? :)

Já se escreveram muitos caractéres neste post, delego na ML.

Stella

Stella Nijinsky disse...

um pequeno acrescento... afinal...

não esquecer que a história é feita pelos homens e, dentro destes, não apenas o mais forte, mas todos aqueles quevão nesse sentido.
e a maior parte de nós no conjunto "Humanidade" que formamos,

vai mal.
(os assim assim também contam)

jawaa disse...

A crise da cidadania existe, e não sei se não tem havido mais exigência de direitos do que deveres, o que me incomoda, claro. Os cidadãos não devem ser dóceis, muito menos conformados. Devem exigir direitos mas agir com deveres. Para existir democracia tem de haver educação, todos bem informados, o que infelizmente não sucede. Não é à toa que na Grécia a democracia se concretizou à margem dos escravos…
Um belo pensar o teu, indubitavelmente.

OrCa disse...

Aplauso, de pé, Herético.
Tens uma mestria na colocação dos adjectivos que deve perturbar bem a corja dos «analistas» oficiais da corte.

Têm outra cor, os teus. E respiram. Isso os distingue.

Abraço.

bettips disse...

Tal como "maria laura" e "um ar de", sou das cépticas e com a nostalgia de abril. Tudo bem explicado e sem ser heresia, nem da pesada! Pura verdade. Para mim o capitalismo enxertou-se na democracia para se tornar "comestível". Género hamburger, Mac'aderente por tudo onde se espalha. Enquanto a bitola for "a economia deles"... mal vamos nós! Abçs