sexta-feira, abril 11, 2008

Em louvor da vida...

Gosto de gente. De pessoas anónimas, por vezes próximas, respirando no mesmo ritmo. Outras (quase sempre) apenas momentos, riscos de acaso, meteoritos intensos na solidão da cidade. Uma viagem de autocarro (ou de metro) é sempre uma revelação inesperada. Pequenos nadas que nos perseguem (momentos, horas, dias?) e que “exigem” que os soltemos, de tão intensos!...

Gosto de gente anónima. Dos seus rostos. Da linguagem subtil dos seus gestos. Do seu porte. Do meu Povo!...

Por vezes, a cor desânimo, toma o sangue e o cepticismo cria raízes. E uma ironia triste ocupa o espaço da esperança. Porém, do meio da multidão, surge, tantas vezes, sem nos darmos conta, uma imagem, o resto de uma carícia, uma ternura, uma beleza inesperada, que nos humaniza e reconforta. Que nem sempre estamos disponíveis para ver. E que outras vezes, porém, guardamos em refrigério de alma!

Falo-vos de uma viagem de autocarro entre o Rossio e o Cais de Sodré, tempos atrás. Na curta distância, cenas para um retratista, que não sou! - o melhor e o pior de um Povo concentrado no escasso espaço de um autocarro, à hora de ponta.

Nada diferente de outras viagens. Até que uma jovem mãe, de rosto trigueiro e olhar apaziguado, entrou, aconchegando no colo uma criança de escassos meses. Sozinha, face as intempéries e os balanços da vida, ali bem simbolizados nos apertos e balanços do autocarro. Um jovem, de brinco na orelha e crista de galo loira, cede-lhe o lugar (no meu íntimo, um sorriso freak!).

Acomodou-se a “minha” jovem Madalena (era, de certo, este o seu nome!) com o bebé nos braços, sereno que nem um anjo. E alheia a tudo que não fosse sua “divina” maternidade, a jovem soltou da blusa o seio (mármore puro) e a boca da criança, em esplendor, buscou afoita o mamilo, assim exposto em dádiva...

Vi então olhares brilhantes nos rostos cansados dos transeuntes. Ternuras caladas e inesperados silêncios. Orações pagãs em cada sorriso. E a minha alma cansada e entoou, então, um cântico de louvor à vida!...


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Bom fim semana!...
Retemperem energias. Para a semana há mais...

14 comentários:

mariadosol disse...

Gosto muito...

M. disse...

De novo a prosa poética que tanto aprecio.

Tinta Azul disse...

Caro Herético,
Como entendo tão bem o que dizes. E que bem o dizes!
Se não fosse a capacidade de olhar estes, às vezes, tão breves momentos dos dias, o que seria de nós?
Apetece-me, tantas vezes, sacar da máquina fotográfica e registar os gestos, os olhares, os silêncios, de quem viaja comigo no metro.
Pequeníssimos acontecimentos iluminam de sorrisos os rostos geralmente sérios e circunspectos.
Há tempos, ía tudo da cor do dia, cinza carregado. De repente, numa das paragens a porta abre-se e entra, literalmente, uma tempestade de granizo pela carruagem , chegando o branco aos sítios mais inusitados. Milagre! De imediato, dezenas de sorrisos trocados, de pequenas conversas iniciadas... Abençoado granizo.

PiresF disse...

Caro amigo Herético!

Talvez para ti, a poesia seja o que é para mim o sonho...já tive discussões com outras pessoas acerca disto e cheguei à conclusão que talvez seja uma relatividade de conceitos que nos faz discutir...mas um poeta tem que ser sonhador e um sonhador pode não ser poeta! Logo, o sonho abrange os dois "ramos": quem é poeta e quem não o é... e se a poesia nos pode levar longe, para além do “é bonito, tocou-me” este texto transporta-nos a essa galáxia, porque nos faz rebolar a alma de tanto prazer que retiramos ao lê-lo.

Clap, clap, clap, clap!… e um grande abraço com o meu agradecimento.

Sophiamar disse...

Querido Amigo!

Creio ser a primeira vez que assim te trato mas este post tocou-me fundo na alma.Acabadinha de ser avó, senti a minha neta, sôfrega, em busca do mamilo que a sacia. Puro deleite da avó que , derramada de ternura, contempla o prazer da neta.
Um belo momento para fotografar.
Bem hajas!
Em fim de tarde, um post que caiu como um docinho conventual.

Beijinhossss

um Ar de disse...

Sabes que já passei por aqui várias vezes e não consegui comentar?

Não será o pormenor umbilical da mãe e da sua criança...
Não será... não sei...

Talvez me bastasse dizer, também, "gosto muito..." e não estaria a mentir.
Mas era se bastasse...
E não basta.
Fica o imponderável por "transmitir".

Esta comunicação virtual, ainda tão pouco estudada por entendidos e versados na matéria, deixa de fora outros "sinais", que não as palavras...

... silêncios... olhos vidrados, ligeiros gestos de cumplicidades, cambiantes diversos de sorrires, o som das palavras, enfim!...

Claro que potencia a reconstrução imensa de outros significados...

Mas, hoje, não sei... não me basta.

[Beijo incompleto]

velha gaiteira disse...

Que bem que me soube ler o teu texto e ouvir a música. E logo eu, por razões óbvias, ando enfurecida!
Obrigada, caro Amigo!!!

Maria Laura disse...

Testemunho de um olhar atento ao que nos faz seres humanos, ao que deixa entrar uma luz de cumplicidade e espanto por estarmos vivos. Um texto que nos põe nos olhos aquele véuzinho húmido que por vezes a felicidade provoca.

Frioleiras disse...

adoro a música.
adorei o teu post.................

Miosotis disse...

... também gosto de pessoas anónimas...

nas ruas, observo os movimentos, os afectos, as intenções... mas por vezes deparo-me com tantos 'atropelos'...
Algumas 'tocam-me' profundamente!

Lindíssima esta 'crónica' poética! Olhar perscrutador, sensibilidade nas palavras!

Sensibilizada pelo olhar afectuoso em 'fragmentos'!

Boa semana!
Beijo

... foi bom 're'ouvir 'Gracias a la vida'!

Justine disse...

Dizes tu que não és retratista, mas retratas como tal! Belíssimo texto, cheio de humanismo e de ternura.
Gracias a la vida, siempre!

P.S.: fico feliz por conseguir transmitir-te o que Toledo me "disse" :))
Boa semana

OrCa disse...

Afinal, uma vez por outra, havemos de ser humanos.

É curioso como isso nos traz apaziguamento e um sorriso, por vezes, até, com lágrimas... para logo mais o esquecermos, em exercício de desumanidade.

Bem hajas por prolongar o momento feliz. Parece-me bem ser também essa a missão dos poetas.

aquilária disse...

excelente texto.
a mão, amamentando o seu filho.o corpo, fonte de vida. e por breves momentos, o bulício dá lugar à tranquilidade. por momentos,entra-se num outro tempo. gestos antigos semeando magia e memórias nos olhos de quem os observa.

bettips disse...

Oa pequenos gestos da sobrevivência, da liberdade...
Conforto de os ler aqui!
Abçs