sábado, abril 26, 2008

Lágrimas de Crocodilo, precisam-se!...

“O fascismo nunca existiu!...” A célebre boutade proferida, logo após o 25 de Abril, por um conhecido intelectual residente em França, onde tem cátedra universitária, tem sido recorrente na nossa comunicação social. E a carga irónica inicial, que subvertia o sentido literal do enunciado, fechou-se agora no seu significado facial, num claro propósito de branqueamento.

De facto, nos meios de comunicação social dominante, ao longo das últimas décadas, têm sido constantes as afirmações de que não houve fascismo em Portugal, no longo período de 1926 a 1974. Historiadores, sociólogos, politólogos e outros cientistas sociais juram a pés juntos que o regime não foi fascista, preferindo, em seus argumentos, expressões como “Estado Novo”, “antigo regime” ou “regime ditatorial”...

Porém, factos são factos. Que outro nome chamar a uma ditadura que edificou um Estado policial e totalitário e condenou à miséria, ao sofrimento, à ignorância e ao obscurantismo gerações de portugueses? Que outro nome dar à repressão criminosa com tribunais especiais, prisões políticas e campos de concentração e que não hesitou em assassinar, quando considerou ser necessário?!...

Como qualificar o gesto simbólico de Salazar manter, na sua secretária de trabalho, o retrato de Mussolini, junto do qual, aliás, se fez fotografar? Ou então ter proclamado três dias de luto nacional pela morte de Hitler? E, noutro plano, o apoio explícito ao ditador Franco durante a guerra civil de Espanha, sem o qual outro teria sido o resultado do conflito?

Que dizer do Estatuto do Trabalho Nacional e das diversas Corporações Nacionais, copiadas das instituições fascistas italianas, designadamente, da “Carta del Lavoro”? E as estruturas paramilitares, como a Mocidade Portuguesa e a Legião Portuguesa, nas quais se procurava enquadrar e doutrinar a juventude, os trabalhadores e a sociedade em geral?

Parece óbvio que negando-se o fascismo, se procura desmentir a acção de todos os que heroicamente a ele se opuseram, desde a primeira hora e, assim, negar o “corte” estrutural na realidade sócio-política portuguesa, decorrente do impacto político da Revolução de Abril, que muitos gostariam tivesse sido, noutro contexto, “a evolução na continuidade” marcelista.

Claro que este “apagamento da memória” e este relativismo conceptual ou as proclamadas objectividades científicas de branqueamento do fascismo têm efeitos deletérios na sociedade portuguesa. Desde logo, o desmerecimento da política e o sentido lúdico da sua prática. Pois não era Salazar quem abominava a política e quem proclamava o “sacrifício” da governação?

O slogan fascista “se soubesses quanto custa mandar, gostarias mais de obedecer”, perseguia a sociedade portuguesa, desde as escolas aos locais de trabalho, como fundamento de conformação social.

E quem ignora que tal magistério ainda hoje tem “cultores” na vida pública portuguesa? Pois não é verdade que nos mais altos lugares do Estado são ocupados por políticos que arrenegam ser “políticos profissionais”? E que a dita sociedade civil esta repleta de “génios” (políticos) que privam a Pátria do seu(s) talento(s) pelo desdém da política e pelo “sacrifício” da devoção à causa pública?

Claro que a isto tudo se associam ainda outros factores de descrédito, como as promessas não cumpridas e bloco central de interesses instalado na sociedade portuguesa. Mas digam-me, com este “caldo de cultura” e semelhantes modelos sociais, que esperar da juventude?

A mais completa indiferença, já se sabe... Mas então que não chorem lágrimas de crocodilo aqueles que são os responsáveis por tal estado das coisas!...

8 comentários:

um Ar de disse...

E os encontros de Salazar, com o General Franco, nas Termas de Monfortinho?

O General vinha de jacto próprio, que pousava no aeródromo, próximo das termas.

Salazar vinha de carro [poupadinho..., pelo menos não gastava as solas daquelas botas inesquecíveis, ou teria a fobia das alturas, das descolagens e das aterragens...].

Depois, não sei, mas adivinho as longas conversas, para acertar "agulhas" [e, até, outros instrumentos de tortura...], num entendimento ibérico, só para os dois, que também está muito em moda, nos nossos dias.

Haja paciência para certos esquecimentos!

[Beijo]

mariadosol disse...

"In science as in love a concentration on technique is quite likely to lead to impotence" (Berger 1976).
[Não não me enganei...] É o que faz aplicarem "definições técnicas" a estas coisas...
Há uma frase que me ficou há muito ... o que é óbvio não carece de demonstração... mas, fazer o quê?... impotências portanto!

São disse...

Eu já nem me quedo em preocupações de denominação.
O que eu reputro mesmo importante é que se dê a conhecer aos mais jovens a dura realidade da ditadura!!!
Saudações.

bettips disse...

Perfeito retrato, de antes e de agora!
Haja vergonha na cara! (o que é difícil que os predadores têm mil caras).
Abraço

bettips disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
OrCa disse...

Há, portanto, esse labor diário, constante, enérgico e sem baixar guarda de se saber transmitir às novas gerações o que sabemos e vivemos desses tempos.

Essa será a ponte para o futuro. Não pelo trauma ou pela comiseração, mas pelo culto da Vida, onde expressões como solidariedade activa ou defesa de ideais não sejam meras palavras, mas uma respiração quotidiana.

O que poderia esperar-se de gerações sucessivas de «apavorados» para os quais, de súbito e sem que para tal tivessem expectativas, surgiu Abril?

E as «elites»? Os ditos politizados?

O que transmitiram ou transmitem, uns e outros, aos seus filhos? O que fizeram (fazem) eles próprios na sua prática diária?

Receio bem que muito do culto do «salve-se quem puder» instituído seja o reflexo mais significativo dos caminhos perdidos de Abril.

Tento não me esquecer de que - diziam alguns, bem poucos... - a revolução começava por se fazer em casa de cada um, entenda-se isso como melhor se queira.

Pelo caminho, muito de acordo contigo, como sempre.

Um abraço.

isabel mendes ferreira disse...

a INDIFERENÇAjustifica tudo?


sei não.


abraço.


e boa noite.

leonoreta disse...

ai o fascismo nunca existiu?
palavra de honra.
a nivel de educaçao, meu deus, que domesticaçao intelectual.decoravam-se rios e linhas de ferro. dois mais dois sao quatro e pouco barulho.
hoje os meus alunos pensam. tem seis anos.quando nao chegam la eu ajudo-os. o saber e o ar que se respira.
beijinhos