terça-feira, abril 01, 2008

Na outra margem...

Gosto de locais e pessoas com carácter. Por vezes, são apenas ligeiríssimas marcas, que traçam as linhas de fractura da “arqueologia” dos tempos sociais sobrepostos. No outro lado do rio, Cacilhas ou a Trafaria, são dois desses locais de culto.

Ontem almocei em Cacilhas. Almoço de Domingo de famílias completas - avós, filhos e netos à mesma mesa. O encontro semanal das solidões compartilhadas no breve espaço da refeição. Incontornáveis aqueles rostos-testemunha, abertos ao exorcismo da memória. Os velhos de rugas marcadas e de olhar alto, órfãos de Alex e de Bento Gonçalves, perscrutam a minha mesa, com a altivez e dignidade. São velhas árvores que morrem de pé!... Os filhos saídos do bojo dos estaleiros ou do arsenal, barcos carcaças nas margens do progresso e da reconversão económica, afogam na espuma da cerveja, a utopia mobilizadora de outrora. Os filhos, adolescências sem fronteiras - a cidade do outro lado, em incursões nocturnas e brinco na orelha. A ganga, agora, é “t shirt” em algodão de feira!...

( Donde esta minha dor?!...)

Corria em passo de trote (qual cavalo amestrado em picadeiro) o empregado de mesa. Não andava de pressa, corria mesmo, em passo de corrida, cadenciado, sem um momento, sequer, perder o ritmo por entre as mesas. Ligeiramente corcunda. Quarenta anos, talvez!... Longe o tempo de “marçano”, subindo escadas e galgando ruas com os caixotes de mercearia às costas. Empregado de mesa era seguramente uma promoção social...

Fixei-me no homem, seguindo as evoluções circenses de pratos e travessas. Tentando (re)escrever, na minha fantasia, o percurso da sua vida e vislumbrar onde o homem teria chegado na sua determinação, se porventura tivesse sido “outra pessoa”, quer dizer, tivesse tido outras condições de vida. Enfim - desabafava eu intimamente – “o homem é ele e a sua circunstância”. E, talvez, por aí me ficasse, descendo ao peixe grelhado e ao vinho branco...

Então, minha mulher que conhece os meus silêncios e, por formação, a morfologia da repressão e do medo, intromete-se no meu desvario: - “já imaginaste os estalos que este homem apanhou em criança para, nesta idade, correr assim, com tanto zelo?!”...

(Uma gorjeta calará a minha angústia?!...)

31 comentários:

mariadosol disse...

Muito bonito...estende o elogio à tua mulher...obviamente!

:))

Miosotis disse...

Gostos comuns! Locais e sobretudo 'pessoas' com carácter!
Uma qualidade/valor raro!

Como sempre, ando atrasada em relação ao cumprimento prazeiroso de responder aos meus poucos mas 'fiéis' comentaristas.

Lamento :(

Questões outras... que não agradáveis, me afastam por vezes deste espaço que acarinho!

Sensibilizada pelo olhar sempre atento em 'fragmentos'!

Um beijo

batista disse...

Não é à toa que te chamo IRMÃO!
.
Um texto de encontro, reconhecimento... belo e dorido - sem perda da Esperança.
.
Um abraço fraterno.

Gi disse...

pode não calar a tua angústia mas por certo será uma forma de reconhecimento pelo seu zelo.

Um outro olhar. Este. O teu. Também ele zeloso , fraterno. talvez ele o tenha notado, talvez isso valha mais do que qualquer gorjeta. Se todos soubessem interpretar silêncios, quantos gritos mudos não se fariam ouvir ...

Um beijo. Gostei muito deste teu "desabafo"

Vieira Calado disse...

“o homem é ele e a sua circunstância”

Em Portugal a circunstância sobrepõe-se.
E essa circunstância, para a maioria, é confrangedora.
Um abraço.

Paradoxo disse...

5 estrelas, passei por aqui! obrigado por teres um espaço assim!

hora tardia disse...

sorrio.





é o que dá passear nas margens da vida.



.


abraço.

O Jacaré 007 disse...

Ah amigo, o Ginjal, o ginjal...
aproveita o passeio e sobe ou desce no elevador panorâmico...
Bela vista.
Abraço.

Justine disse...

Um retrato social bem desenhado, onde não falta a ternura, a compreensão, a ironia sorridente.
Texto nostálgico, também. Muito belo.

O Puma disse...

cOM MAIS ESSA ESMOLA

APANHOU MAIS UM ESTALO

MAS TODOS FICARAM BEM

ESPERO

Nilson Barcelli disse...

A tua mulher deve ser professora... eheheheh...
Estou a imaginar a cena que descreves (conheço os locais, vários restaurantes da zona e talvez até o empregado corcunda... e o peixe grelhado, claro) e a pensar que a mim sucedem-me coisas do género. Até deixo de ouvir as conversas à mesa...
Mais um excelente post, o que não é novidade nenhuma.

Abraço.

SILÊNCIO CULPADO disse...

Herético
Deixaste-me sem fala com este texto duma beleza e duma profundidade surpreendentes. Não que me surpreenda a qualidade da tua escrita que conheço de algum tempo. Mas porque senti cada palavra desta história de percursos perdidos, desviados da sua linha. Vilfredo Paretto diz que as elites se reproduzem. Outros afirmam que só um operário dá filho operário. Alguns são "educados/amansados" à estalada. Outros não. Mas não são sempre os mais capazes que chegam aos lugares de topo.

Um abraço

herético disse...

O Puma,

"na mouche"!...

grato. abraços

Maria P. disse...

Pois é, lições de ou da vida...

Beijinhos*

um Ar de disse...

Sombrio...
...que estás. Não será para menos.

Gostei de ler...
... mas também percebi
"(donde esta minha dor?!...)"

[Pois haverá gorgeta que...? Talvez...? De outra maneira...? Assim...?]

[BEIJO]

un dress disse...

bela escrita e interessanrte

este teu dissertar!! ; )





beijO

São disse...

Não, nada cala a consciência de uma pessoa tão solidária como tu!
Dorme bem.

pentelho real disse...

já os tenho visto a correr e (estupidez a minha, ou presunção), julgava que mais ninguém reparava. fico contente por ver que me enganava. e se pensava "o que os faz correr ?", a tua mulher talvez tenha encontrado uma resposta certa. porque outras haverá também.
para os dois deixo um beijo. aliás, um beijo para cada um.

jawaa disse...

Ainda com os sonos trocados, encontro este belo texto que não me deixa passar sem deixar um abraço.
O mesmo não fiz com um outro abaixo que me apanhou de camisola às riscas transversais...!

foryou disse...

1ª reclamação: e porque é que eu não fui convidada??? amigos da onça!!!

2ª avós, filhos e netos à mesma mesa... isso na minha família não se chama almoço, chama-se reunião de professores e é uma grande seca! (apesar de eu os adorar) :)

3º Nenhuma gorjeta conseguirá calar... antes fosse possível dessa forma simples...

4º não é uma reclamação mas um reconhecimento: belo texto

Maria Laura disse...

Um texto sensível, solidário, atento. Num registo diferente do habitual mas muitíssimo bom.

Graça Pires disse...

Excelente texto retratando "solidões compartilhadas"
Um abraço.

hfm disse...

...o silêncio da verdade que tantas vezes queremos esquecida.

M. disse...

Mas este texto é lindíssimo, herético! Prosa poética no sue melhor!

Tinta Azul disse...

Palavras "macias". Realidades àsperas. Gostei de ler. :)

Licínia Quitério disse...

Na outra margem de outras vidas. Acontecem assim, os sobressaltos, no nosso provisório bem-estar.

Um abraço.

Licínia Quitério disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Carla disse...

sorrio porque também eu invento vidas, nos passos das pessoas, nas paredes velhas de casas abandonadas...soube bem ler este texto
bom fim de semana

Maria disse...

Devo dizer-te que este post me comoveu. e me doeu, também...

beijos

andorinha disse...

O texto é belíssimo e revela uma grande sensibilidade.
Tenho passado sem deixar rasto...mas sempre a ler com agrado.
Abraço.

Oliver Pickwick disse...

Está vivendo o seu filme de Bergmann, meu amigo. É o o que se deduz da leitura deste e da publicação atual.
Melhor “t shirt” de feira, que camisa requintada de listras. Vade retro!
Quanto aos nossos empregados de mesa - garçom, aqui no Brasil, fazem tudo que este aí faz, e ainda tem de tratar a todos por "doutor". Pois não, doutor!. Ás ordens, doutor!"
Ás vezes, acho que a dignidade é um pouco como o espírito da antiga Escola de Sagres, morre aos poucos em nome de supostos tempos modernos.
Abraços!