sexta-feira, abril 18, 2008

SEARA NOVA - Outras sáfaras ...

Reconhecidamente, o sistema capitalista encontra-se em fase de perda; a constatação desta realidade não implica, porém, que possa estar iminente a sua superação. Como a experiência histórica demonstra, "o capitalismo não é um sistema destinado ao colapso, nem à harmonia eterna"...

Porém, a actual crise do sistema capitalista e o seu modo de funcionamento tendem a modelar as relações sociais e políticas, no sentido do aprofundamento sistemático das desigualdades sociais, que apenas pode ser imposto, mediante recurso a modernas formas de coerção.

Como tem sido notado, a democracia representativa tem servido, na perfeição, aos desígnios da actual fase de desenvolvimento capitalista, fundamentalmente, como elemento de agregação ideológica do sistema. De facto, nunca, porventura, como hoje, se falou tanto de democracia. Nem as liberdades cívicas e políticas foram tão enfaticamente proclamadas...

Uma e outras são apresentadas como a “coroação” do devir social e político da Humanidade, como se do fim da História se tratasse. Assim, em seu nome, se têm desencadeado as maiores barbaridades e se oprimem povos e Nações. E, entretanto, na “teatralização” da democracia, que se pretende impor, sem consideração pela história e pela cultura dos diversos povos, vicejam os valores do mercado e prospera o poder dos interesses económicos e financeiros do capitalismo mundial.
(...)

Esta será, portanto, a contradição actual. Por um lado, a proclamação enfática dos valores da liberdade e da democracia; e, por outro, os constrangimentos dos direitos individuais e colectivos dos cidadãos, determinados, naturalmente, pela natureza exploradora do capitalismo e sucessivas crises do sistema, que fazem cada vez mais vítimas e que é necessário manter conformadas...

Neste contexto, é reconhecida a indiscutível “plasticidade” do sistema capitalista, quer dizer, a sua permanente adequação às condições históricas concretas. Por isso, a dominação capitalista não se exerce, presentemente, na derrogação ostensiva dos direitos, liberdades e garantias, que constituem acervo histórico da Europa e do chamado mundo ocidental.

Pelo contrário, como se referiu, estes valores são exacerbados e apresentados, como modelo, urbe et orbe, enquanto que, no terreno concreto da sua aplicação, estes mesmos direitos são objecto de usura permanente, em nome da sustentabilidade do sistema e da superação do seu declínio.

E, se é certo que os Estados democráticos - até agora suporte e destino da cidadania e dos direitos individuais e colectivos - ainda prevalecem, a verdade é que estão cada vez mais condicionados pelas razões e pela lógica do capitalismo global. Ora, como bem se sabe, a lógica do dinheiro e do lucro não se compadece muito bem com as “minudências” da democracia...

Claro que em Portugal, país periférico do sistema capitalista mundial, as razões expendidas projectam-se de forma ainda mais explícita. O desenvolvimento económico implica acumulação de capital e a esse objectivo se têm sacrificado os salários e o emprego sobre os quais se faz recair a factura da recuperação da economia.Nestes termos, em obediência à cartilha neoliberal e às proclamadas restrições económicas e financeiras, são os direitos sociais que estão na primeira linha de ataque.

Nada de novo, porém.

Na óptica do liberalismo dominante, é expectável que sobre os trabalhadores e os direitos sociais, recaíam os custos da recuperação da crise da economia. A novidade será a “violência da receita” e o fosso, cada vez maior, das desigualdades económicas e sociais que semelhante receita provoca e a consequente insatisfação e a revolta dos cidadãos.

Talvez aqui, portanto, residam as causas da usura permanente dos direitos cívicos e políticos e este processo gradual de cerceamento das liberdades e esvaziamento da democracia, a que se assiste. A coerção social, face à violência da crise do sistema, irrompe pelo núcleo central de direitos políticos que constituem o cerne da cidadania, limitando os seus efeitos e restringindo a acção cívica dos cidadãos.

Os exemplos não faltam.(...)


In SEARA NOVA - nº 1703 – Primavera de 2008.

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Bom fim-de-semana.

Exorto-vos a outras sáfaras. Leiam, assinem e divulguem a revista de intervenção cívica SEARA NOVA.

Saiu o número de Primavera 2oo8. Vale a pena...

13 comentários:

hfm disse...

Bfs.

Carla disse...

fiquei convencida
bom fim-de-semana
beijos

velha gaiteira disse...

ai que recordações ...

o meu cunhado assinava-a eu lia-a e muito. quanto tempos já lá vão.
Agora o que querem é terem todos uma máquina de Nespresso...
mudaram os centros de interesse

Vieira Calado disse...

Foi a burguesia que inventou este sistema.
Com certeza era para tirar partido dele...
Um forte abraço

Justine disse...

Lendo o importante (como quase todos)artigo da SN que publicas, há uma observação que me ocorre imediatamente: se em todos estes países ditos democráticos se praricasse uma democracia participativa, real,e não apenas uma democracia representativa, manipulável e falsa, a situação dos direitos individuais e colectivos dos cidadãos não estariam como estão.
Quanto ao teu apelo, a SN é revista cá de casa.
Bom fim de semana.

Sérgio Luyz Rocha disse...

Como vai?
Chego aqui através de Nilson Barcelli, e noto por todos os lados teu profundo e sincero engajamento. Tenho também, reservas aos montes em relação à democracia que se instaura manobrando a massa - e por mais que pareça conversa de velhos esquerditas mofados, não é. Democracia, de fato, atrela-se até as entranhas com formação e informação.
Sou brasileiro, de São Paulo, mas mrando em Sergipe, não conhecia a SN e vou mesmo acompanhá-la por aqui. Há uma versão on-line?
Abraços!!

um Ar de disse...

Entre muitas outras peculiaridades do capitalismo "pós-moderno", preocupam-me as novas "formas de coerção", que nos passam despercebidas, de tão refinadas, nos seus requintes tecnológicos de malvadez.

Preocupa-me a dita "plasticidade", sobretudo!...

[BEIJO]

Peter disse...

Quem me dera voltar ao tempo em que lia a Seara Nova. Isto para recuar na idade, não no regime político, claro!

Abraço

SILÊNCIO CULPADO disse...

Herético
Seara Nova... Diz-me muito mas do passado. Desconhecia que a Seara Nova tinha voltado e com estas características. Vou gostar de ler.
Abraço

Frioleiras disse...

sei que me vais "matar" mas... desconhecia que a Seara Nova ainda existia!!! desculpa-me caro Amigo...

Um bj

Jorge P.G Sineiro disse...

Sem dúvida uma revista ater em atenção.
Veremos se segue as pisadas da velha "Seara Nova".

Saudações.
Jorge P.G.

Parvinha da Silva disse...

parece que voltamos a ter revista, após uns anitos para esquecer.

Vou comprar.

Beijo

jawaa disse...

Fazes bem divulgar a revista de que nem todos conhecem a existência.
Mas não creio que interesse à maioria a questão do civismo. Aos «patrícios» o civismo é para os outros e os «escravos» não têm nem dinheiro nem educação para mostrarem interesse. E os burgueses que refere Vieira Calado não conheço.
A classe média (dita burguesa)fez evoluir o povo e emagrecer os nobres.
Cadê ela? Cadê?