segunda-feira, julho 14, 2008

Barack Obama

"Até para aqueles que, como nós, nos Estados Unidos da América (EUA) e no mundo, conhecem bem o sistema capitalista e as suas crises (...), os seus partidos políticos e seu processo de falsas eleições (...) é impossível não considerar a possibilidade de eleição de um presidente negro nos EUA - o centro do imperialismo e racismo mundial – como um evento histórico assinalável.(...)

Não é surpresa nenhuma que a grande maioria da comunidade negra dos EUA apoie a campanha de Obama. É surpreendente, porém, e revelador que tantas pessoas brancas também o apoiem. Mas se este apoio a Obama se manterá por parte da comunidade branca é uma grande incógnita. A senadora Hillary Rodham Clinton ainda está a tentar tirar partido disso e com Obama candidato do Partido Democrático, o senador John McCain e outros tentarão destruí-lo com uma campanha racista sem restrições...

Ainda assim, mesmo frágil e contraditório, é bastante encorajador para quem é progressista e está familiarizado com a profundidade e a prevalência do racismo nos EUA que dezenas de milhões de pessoas brancas tenham votado por um negro chamado Barack Hussein Obama, nas primárias do Partido Democrático. (...)

Obama, no entanto, não é um revolucionário e não constitui por isso uma ameaça ao sistema capitalista. Apesar de tudo, é difícil imaginar sinal mais dramático para o sistema do que o sucesso eleitoral de Obama (...).

Para Obama e os seus apoiantes influentes, a actual política norte-americana, apelidada de neo-conservadora, baseada no poderio militar da América imperial para recolonizar o Médio Oriente e dominar o mundo, tem sido uma catástrofe completa, diminuindo o poder da América imperialista. Obama e os seus apoiantes pretendem uma aproximação diferente. Obama reflecte mais a nova e emergente ordem capitalista transnacional, criada pela globalização imperial.

Para reverter a erosão da posição mundial dos EUA, Obama quer deixar de contar apenas com o poder militar; colocar um rosto mais simpático à América imperialista e melhorar a sua habilidade de competir economicamente com a China, Índia, Europa e América Latina.

A contradição é que os problemas do sistema capitalista são tantos e tão graves que Obama, mesmo com novas ideias, não os conseguirá resolver. O quase colapso do sistema bancário mundial no passado mês de Março, salvo apenas pela intervenção massiva da Reserva Federal dos EUA, não foi o fim da crise capitalista do crédito. Foi o começo de um novo sistema de crises no mundo capitalista que é provável venha a ser maior e mais violento que a Grande Depressão dos anos 30. A única questão é a velocidade a que a crise evoluirá e os eventos que afectarão o seu percurso.

O imperialismo norte-americano está preso em duas guerras que não consegue vencer, nem abandonar, com a possibilidade de uma guerra contra o Irão, antes das eleições do Outono. Por outro lado, para os trabalhadores as coisas têm piorado cada vez mais. A dimensão dos desapossados das suas habitações e o nível de despedimentos crescem a cada mês, apenas ultrapassado pelos preços crescentes do combustível e da comida.(...)Esta a realidade social com que Obama está confrontado.

E, no plano político, o problema mais frustrante poderá ser que, uma vez eleito, Obama fique cativo do horrível sistema que procurará servir como presidente. Aliás os ataques têm sido terríveis e, obtida a nomeação do partido democrata, Obama vem sendo apelidado de traidor, terrorista, de uma ameaça para a cultura ocidental, a civilização e a cristandade e para os valores “americanos”(...).

E se quer vencer as eleições terá de suportar tudo isto e sorrir porque não é realmente o apoio das massas populares que ele busca para chegar à Casa Branca. É a aprovação da classe dominante capitalista. (...)

Não há razões, de facto, para que a classe dominante dos EUA se questione sobre a lealdade de Obama. No entanto, esta classe não é lógica; é profundamente paranóica e vigilante como é sempre de esperar de uma classe de exploradores racistas e reaccionários e opressores, que construiu um império através da escravatura, colonialismo, guerra, roubo e repressão.

A classe dominante dos EUA está consciente do que fez e continua a fazer à população negra. (...) O racismo está bem vivo, mas Obama terá que fingir que é coisa do passado.

Admitamos que Obama é eleito presidente. Uma das primeiras iniciativas do próximo presidente dos EUA, seja ele qual for, será decidir sobre cortes massivos em programas sociais, incluindo Medicare (cuidados médicos), Medicaid (ajuda médica), Educação e Segurança Social. Estes cortes orçamentais irão processar-se quando os trabalhadores sofrem cada vez mais com a crise económica. (...)

Estas contradições políticas e sociais tornam assim difícil, se não fútil, que as pessoas mais progressistas trabalhem na sua campanha para fazerem avançar as suas propostas. Obama é alheio a pressão do movimento de massas. A pressão a que é sensível vem da classe dominante (...).

Na verdade, a única maneira pela qual as pessoas progressistas poderem defender Obama contra o racismo e o reaccionaríssimo, se e quando isso for necessário, é estando de fora e independentes da sua campanha e do Partido Democrático.

Terão de ser os activistas negros a tomar a liderança de explicar as contradições de Obama. (...) Fomentando organizações centradas na classe operária e na população anti-imperialista, independentes dos partidos da classe dominante. Isto é mais que essencial. É urgente.

Mais do que nunca, os trabalhadores estão perceber que as guerras no Iraque e no Afeganistão são os principais factores de agravamento da crise económica (...). A crise da guerra e a crise económica juntas, estão a formar as bases para a próxima fase da luta social, como movimento de protesto. O que poderá ter influência decisiva nas eleições de Novembro deste ano".


Larry Holmes, membro do Secretariado Nacional do “Workers World Party” - in “Seara Nova” – nº 1704 – Verão 2008.







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12 comentários:

jrd disse...

Tudo isto é de uma evidência incontestável, mas, lá e agora, não me parece que seja de "apostar" ainda que de forma subliminar, no quanto pior melhor.
O Mundo, que não os States, não aguentará muito mais.
Abraço

Maria disse...

Este post quase me sacou um sorriso com aquela do "Obama, terrorista"...
É a luta de classes, mais acesa do que nunca (nunca não, nós últimos anos...)

Beijos

um Ar de disse...

O que os americanos se "esforçam", ao ponto de tudo indicar que Obama vai ganhar!...
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Mas, não sei... Tudo pode acontecer!...
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O mundo católico, por um triz, não teve um papa negro. E, a seguir, apareceu fumo branco, a anunciar um papa alemão...
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Até ver...
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[Beijo...]

Maria Laura disse...

Sinceramente, nem sequer tenho muita certeza de que ele vá ganhar. Ainda assim, se pensarmos que, há bem pouco tempo, nunca nos passaria pela cabeça a hipótese de um negro vir a ter sérias hipóteses de ser presidente dos states, não há dúvida que é um progresso. Mesmo que esse progresso não represente nenhuma real ameaça para o sistema vigente. Mas que diabo, não queiramos tudo ao mesmo tempo! Fazer a revolução nos EUA ainda está um bocadinho no campo da utopia... :))

M. disse...

Obama! Obaaaaaaaaaamaaaaaaaaaa!!
OOOOBAAAMAAAAAAAAAAAAAAAAA!!!!!!!!!

OOOBAMAAAAAAA, OBAMAAAAAAAAAA, OBAMAAAAAAAAAAAA

batista disse...

andamos, andamos, ao longo do tempo... e a impressão que temos é que à nossa frente se encontra um abismo. contudo, a minoria de sempre, com seus exércitos e sereias, d'uma e/ou d'outra forma, tenta impedir que as "massas" despertem, enxerguem outros caminhos: novos e incontáveis caminhos.

um abraço fraterno e solidário.

mariam disse...

volto mais logo............... :)

jasmimdomeuquintal disse...

Excelente texto, ams questiono-me se o mundo discute tanto os candidatos à presidência em outros países. Não é por nada, ams estou farta dos EUA, entretanto o mundo continua a girar em torno deles... e nós também, basta ver as taxas a subir...
boas férias

Nilson Barcelli disse...

Gosto do Obama.
Mas não o conheço o suficiente para gostar nem para saber se vai ser bom Presidente (acho que vai ganhar...).

Mas gosto mais do "swanee river boogie". Uma delícia...

Abraço.

mdsol disse...

Baraca Obama?
John Mccain?
Há dúvidas?

mariam disse...

pronto, simpatizo com o "Obama" ....
mas adoraria que durante uma semana
todos os "media" do Mundo fizessem greve ás notícias sobre os "States" ....
boa semana
um sorriso :)

M. disse...

Cá estou de regresso ao Relógio de Pêndulo.
Interessantíssimo este texto. Apesar de todos os "ses", seria um avanço se Obama ganhasse.