quarta-feira, julho 09, 2008

"Dos Pincipados Eclesiásticos..."

Somente nos resta discorrer acerca dos principados eclesiásticos: nos quais todas as dificuldades são anteriores à propriedade: porque se adquirem ou por valor ou por fortuna, e em um e outra se mantêm; porque são sustentados por antigas instituições religiosas que ganharam tal poder e qualidade que têm os seus príncipes no estado, seja qual for o modo com que procedam e vivam. Só estes possuem Estados, e não os defendem; súbditos, e não os governam: e os Estados, apesar de indefesos, não lhes são tirados; e os súbditos, que não são governados, não se preocupam com isso, nem pensam que possam libertar-se da sujeição.

São, estes, então, os únicos principados seguros e felizes. Mas porque são regidos por razões superiores que a mente humana não atinge, deixarei de falar deles; porque, sendo levantados e mantidos por Deus, constituiria ofício de homem presunçoso e temerário discorrer acerca deles.

Todavia, se alguém me perguntasse de onde provém o facto de que a Santa Sé tenha chegado a tanta grandeza no plano temporal que, antes de Alexandre, os potentados italianos, e não só aqueles que em rigor mereciam o nome, como todos os barões e senhores, ainda o mais mínimo, a prezavam pouco no âmbito temporal, e agora intimida um rei de França, o expulsa da Itália, e arruína os venezianos: direi que se trata de coisa que, apesar de bem conhecida, me não parece supérfluo voltar a recordar. (...)”


Nicolau Maquiavel – in “O Príncipe” – Guimarães Editores – Filosofia & Ensaios

Per omnia secula seculorum...

Concord(at)emos, pois!...

10 comentários:

Mel de Carvalho disse...

Estamos perante as descrições preparatórias dos tipos de Estado do Maquiavel, Repúblicas e Principados, tipos de Repúblicas e Principados, que este autor dedica a Lourenço de Médicis.

Principados eclesiásticos só temos mesmo o Vaticano: O Estado é cada vez mais laico pretendendo-se que seja racional, temporal, não espiritual…

Mas sabemos contudo que qualquer governo é sempre baseado na crença, e não raras vezes, na religiosa. Claro que estas esferas nunca são especialmente separadas … são jogos de rolamentos em interacção. Para o melhor e para o pior.

Quanto mais o poder político se basear na convicção/ na crença/ no dogma sobre a razão, mais “eficaz” será, é essa é a chave da maior eficácia que o Maquiavel lhes atribuí…

A eficácia deste modelo não deixou de ter como contraponto os seus patronos.
Mas o que é certo é que sobre a fórmula da eficácia pura, era/é quase perfeito, até porque onde há mandato divino não há oposição. Não é mesmo?

Mas e nos estados laicos? Como analisar este “veio coincidente”??? Será que estamos perante mandatos divinos, perpetuados no tempo???...

Caríssimo Herético, já me colocou a pensar. Temo que os meus fracos neurónios se incendeiem…

Tenha uma boa tarde e vou ouvir Mozart… Requiem, pois pelos estados laicos que não se coíbem de se “emparelharem” nas práticas vigentes com ao Principados Eclesiásticos e irem, em tantas ocasiões, beber de Maquiavel…

um Ar de disse...

Depois deste primeiro comentário [lei-os com a maior atenção], pouco me resta acrescentar...
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E não acredito em neurónios incendiados, só se for em sentido figurado [de fogo criativo] :)...
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Boa questão a do "veio coincidente". [Por alguma razão, ainda lemos Maquiavel, será?...]
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[Beijo para os dois, pois...]

Véu de Maya disse...

A actualidade do " Príncipe" de Maquiavel...tão mal interpretado por tantos...laicos e religiosos...
ou melhor dizendo...tão bem aproveitado por quase todos para quase tudo...onde até o absoluto se perde nos corredores da verdade ou das suas máscaras...sibilinas coisas. Belíssima indução à reflexão. O Poder corrompe? Ouvir o Requiem de Mozart é sempre sublime...

abraço

mdsol disse...

Ámen!
:)

Maria Laura disse...

Das "ligações perigosas" entre o que devia ser o poder espiritual (ebentualmente...) e o que é o poder temporal. Sempre existiram, provavelmente sempre existirão. E a actualidade de Maquiavel...

mariam disse...

pois...... maquiavélico!

............ :) ........

mariam disse...

percebeu... não queria nem sabia como comentar! LOL

um sorriso :)

Miosotis disse...

... ainda ontem Filomena Mónica, autora e pessoa que muito admiro, falava em debate, da ligação estado/religião!

Sensibilizada pelo olhar 'atento' em 'fragmentos'!

um beijo 'laico' :)

jawaa disse...

Pois, meu amigo, és sempre «aquela máquina». Um Requiem, Maquiavel logo abaixo.
Os grandes homens são sempre grandes pela obra que deixam. O Príncipe é como a Bíblia (é a Bíblia de muitos)
pode ser interpretada de muitas maneiras... está lá tudo.
Um abraço

Sophiamar disse...

Eu creio que " O Príncipe" é uma obra de todos os tempos.Terá sido Maquiavel assim tão maquiavélico?

Beijinhos