terça-feira, julho 29, 2008

Uma pequena vingança...

Meu amigo Zeca, alentejano de Beja, era entroncado e moreno, de barba espessa e bem cuidada, de lábia pronta e ligeiro sotaque. Um desatino no engate, como já dei a conhecer. Quando jovens, eu vegetava à sua sombra, em contraste com ele, magricela e desengonçado. Calhava por vezes, que amiga tem amiga, sair sozinha dava então mau aspecto, de forma que sempre eu ia facturando uma namorada ou outra, à pala do meu amigo Zeca. Como pendura, está bem de ver...

Conhecemos na Praça da República, em Coimbra, em noites de fantasias várias, nos idos de sessenta. Em Lisboa, onde por razões idênticas, concluímos a licenciatura, aprofundámos a nossa amizade. O Zeca nunca casou, como sabem. Em verdade, receio que as únicas mulheres que verdadeiramente amou fossem a mãe e a irmã, pelas quais nutria desvelos comoventes.

E as restantes mulheres?! Bem, as restantes ou eram, foram ou para lá caminhavam... Não me perguntem para onde, que não me atrevo à curta palavra que o Zeca, sem rebuço, lhes chamava. Quando, em grupo famélico de lobos sem freio, alguém do nosso grupo comentava os hábitos mais ou menos “liberais” desta ou daquela, era certo e sabido que o Zeca desbocava: - “que Deus a faça cada vez mais e que a mim toque alguma coisa” – gargalhava.

Um predador este Zeca. Mas de uma generosidade espantosa e amizade à prova de bala!...

Quis o destino que uma tarde de Junho, já em Lisboa, em plena Feira do Livro, o Zeca embicasse com duas desprevenidas gazelas, que de stand em stand se bamboleavam...

- “Vamos àquelas!...” - atirou-me, felino em plena caçada. E meu dito, meu feito: passados minutos estávamos os quatro a comer pastéis de nata na esplanada do Parque Eduardo VII.

Eram a Diana e a Andreia, nomes fictícios, como calculam, pois à época ainda não haviam “dianas”, nem muito menos “andreias”, com que modismos posteriores vieram colorir o arco-íris dos nomes femininos. Naquele tempo, as mulheres eram todas santinhas, quer dizer, ostentavam, quase todas, gloriosos nomes de santas e mártires. Mas que importa agora o nome? Assentemos, portanto, que se chamavam Diana e Andreia...

Durante umas semanas, saímos os quatro. Umas matinées de cinema, umas idas à Sanzala, no Campo Grande, para umas tardes de calor tropical, umas saídas para a praia, etc. ... Enfim, todo o percurso de um engate “à maneira”. Com o Zeca como maestro, está claro. A determinada altura, porém, as coisas entre Andreia e o Zeca deixaram de funcionar, enquanto eu estava todo filado na Diana...

Habitava eu, então, o apartamento de um militar em comissão de serviço, em Africa, que a troco do pagamento da renda, consentira que o irmão e uns amigos (nos quais me incluía) ocupassem o apartamento. Uma pechincha e um luxo. Havia mobília, cozinha, tv e gira disco e até uma pequena biblioteca, que o militar era dado a leituras... E polícia à porta, pois no prédio residia um ministro. Circunstância que, aliás, trouxe mais tarde a nossa desgraça, que dizer, nosso despejo sumário, como um dia contarei, se vier ao caso...

Por ora importa referir, que apesar de todo esse luxo, não havia maneira de convencer a Diana a conhecer o famoso apartamento. Que não, que sem a Andreia, nada feito! (vá lá entender-se as mulheres), de forma que não tive outra hipótese senão abrir-me com o Zeca e propor-lhe que retomasse o namoro com a Andreia, ao menos durante um fim-de-semana...

O Zeca ainda torceu o nariz, mas, na sua generosidade, soltou: “está bem, sou mais que teu pai; mas promete que não me deixas ficar mal e “comes” a gaja!...”. Confesso, que havia semanas que não pensava noutra coisa; porém, não era assim tão categórico quanto à certeza do desfecho. Mas, enfim, convenci o Zeca que sim, “que comeria a gaja!”...

Finalmente, a noite “D”. As meninas tiveram o talento de convencer a madre superiora de uma urgência familiar que as obrigava a ficar fora nessa noite e eis o quarteto (não o de Alexandria, é evidente... rss) no celebrado apartamento.

Na fase da cerveja e dos pregos tudo esteve bem. A Andreia e o Zeca estavam amorosos. Até pareciam um par de noivos, como irónica, a Diana sugeria. Findas as libações, a dança... Soltam-se emoções do gira-discos, na voz delicodoce de Adamo (lembram-se?). Tacticamente (ou não estivéssemos nós em terreno militar) escolhemos cada um de nós sua divisão da casa. Dançava-se já, sem música no gira-discos, em inércia de corpos em ebulição, segregando prazer por todos os poros. No encontro de coxas, das línguas, das mãos...

Eu sentia-me em glória nos sorrisos e nos doces lábios da Diana...

Inesperadamente, com um raio na electricidade da noite quente, o bater seco da porta de saída: o Zeca desaparecera e a Andreia estava debulhada em lágrimas!... Nunca percebi as razões, nem o Zeca alguma vez me contou. O certo, porém, é que receei o pior, que dizer, que a minha estratégia militar redundasse no maior fracasso e o crepitoso corpo de Diana ficasse apenas, mais uma vez, como promessa de batalha adiada!...

Uma dramática situação, de facto. Voltar ao lar nem pensar, soluçava a Andreia. Que explicação daria às freiras? Logo seguida do assentimento da Diana, que solícita lhe limpava as lágrimas. Eu descorçoava: a minha vida a andar para trás e elas não descolavam uma da outra. Aos beijinhos e outras pieguices...

De súbito, a Diana luminosa e salvadora: “Ficamos os três!...” E eu, gaguejando: “mas... mas... os três?!... como"?!..." E a Diana decidida: “ora, ficamos os três na mesma cama!...”

Ficamos!...

Um pequeno favor que devo ao meu amigo Zeca e que ele nem imagina...
E uma pequena vingança que os deuses me propiciaram!...

24 comentários:

Maria disse...

Ó Herético, eu nem acredito.....
... a não ser que ficasem a dormir cada um para seu lado, hehehehe
:))))
Saiu-te a taluda, nessa noite!(ah, nem tu imaginavas!)

Beijos

jrd disse...

Muito bom! Melhor mesmo, só em Alexandria com a Justine e a Clea.

Maria Laura disse...

Bem, bem, à pala do Zeca, lá concretizaste a fantasia de todos os homens (dizem...). :) E ainda gaguejaste? :))

mariam disse...

ui! dizem que o "ménage à trois", é a fantasia predilecta de nove em dez homens........

boa semana (inclui recordar)
um grande sorriso :)

Cassiane Schmidt disse...

Olá, grande noite! A providência por vezes nos reserva boas surpresas...

Adorei seu texto, principalmente a maneira com que escreves!

(@_@)

Carla disse...

uiiiiiiiiiiiiiii que a noite aqueceu...afinal à pala do Zeca houve fantasias que se tornaram realidade.
Muito bem descrito o teu texto
beijos

mdsol disse...

ESCREVES MUIIIIIIIIIIIIITO BEM!
[O tema é recorrente....diria quase obsessivo a fazer pensar que é catártico. Oh herético...gasta-me esse talento escrevinhador com outros temas
(digo eu, que...pouco sei)]
:)

Graça Pires disse...

Como é bom ser-se jovem!
Um texto cheio de vivacidade. Um abraço.

Graça Pimentel disse...

Os anos sessenta em Coimbra, a Praça da Répública, o Adamo... Como voltei atrás no tempo!

beijo

dona tela disse...

Assim é que eu gosto. Bons programas.

As minhas cordiais saudações.

Mar Arável disse...

Dava um romance

Sempre bem desenhado

Quem não tem unhas mete cunhas

e não há duas sem três

abraço amigo

Frioleiras disse...

és o máximo caro Herético!

gostei.........

Nilson Barcelli disse...

Mas que história divertida.
Como essa já não são possíveis mais histórias, tudo mudou. Para não falar do Adamo... e do tombe la neige...

Abraço.

Licínia Quitério disse...

Não acredito. Então nesses tempos os jovens faziam lá essas coisas.

RESSACA disse...

Aqui nasceu o Espaço que irá agitar as águas da Passividade Portuguesa...

Justine disse...

Subscrevo inteiramente a opinião da Mdsol quanto ao tema escolhido!

Limpa o Pó disse...

vingança? chama a isso vingança?
não, caro amigo, não concordo!

bettips disse...

Afinal nos idos anos sessenta ... bem que se sentava a virtude, ao lado e de costas voltadas!
Era no escondidinho, à pala do amigo e da amiga, enfim, razões inadiáveis da mocidade.
Tombe la neige... et maintenant?
(e se soubesses como sou teimosa de viver!
Lembras "Os Inadaptados"?)
Bjinho

um Ar de disse...

As histórias dos "ménages à trois"!...
Pois é... não são consensuais.
Mas, nem têm que ser. Há tantas histórias diferentes!
.
Também já dormi no meio de dois homens, num abrigo na Serra do Gerês, há muitos anos...
.
Confesso que estava um frio de morrer e nem pensei duas vezes.
Ficaram, eles, bem mais constrangidos do que eu, com a perspectiva de que se passasse mais alguma coisa do que manutenção do meu equilíbrio térmico [que sempre foi precário].
.
Dormi que nem um anjo. Apenas o nariz acordou gelado.
.
Um deles viria a ser o meu primeiro marido. O outro é um dos seus melhores amigos e meu, também.
.
[Beijo de lembranças passadas, que a tua história me fez recordar...]

Klatuu o embuçado disse...

Isso! Os zecas deste mundo é que são responsáveis por seres mulherengo! :)

Abraço.

éme. disse...

:))
Acabo de chegar, precisamente, da famosa Praça da República!
Aqui por Coimbra continua tudo muito na mesma! Dos anos 60 para agora só o século mudou... :)

De novo uma história deliciosa!
Essas considerações em torno do ar dos "predadores" e das "gazelas" tem tanto que se diga... Tem piada como, ao longo do tempo, tudo seja tão sempre assim.

A sério que gostava de vos ver de novo por cá!
Esse Zeca re-visitado em tantos dos amigos ali do lugar... essas gazelas em tantas figurinhas que todos os anos se renovam em cada lufada académica, esses amigos-do-maestro... oh, como o filme se faz novo todos os dias! :)

(Sabe mesmo bem voltar a ter dois minutos antes do último exame -de massacre de estudantada- em último dia do mês e chegar aqui para ler estas "coincidências históricas" das vidas de cada um de nós!)

*disse massacre de estudantada a ver se me engano, que este ano nem o mês de Agosto se livra de filas e filas de linhas escritas para ler e avaliar... enfim, cada qual "engana-se" com o que pode :))

Sophiamar disse...

Se não fosse o Zeca não terias histórias destas para contar. O "safado" era era ele. Atrevidão! E tu nem tiveste grande imaginação!
Olha, deixa lá, escreve Deus direito por linhas tortas. Iria ser uma noite pouco saborosa.
Quanto à escrita, essa sim, é deliciosa. O seu " fazedor" não se deixa ver. Mostra lá meia face.Eheheheheh!

Beijinhos

M. disse...

e ficaram os três na mesma cama.
e adormeceram.
e ponto final.
e eu que esperava pormenores. claro que me socorro da imaginação mas lê-los escritos pela tua mão tem sempre outro sabor..

ah vivaço, vivaço, afinal o Zeca era um santo ao pé de ti

MJM disse...

Adoro as tuas sátiras!

Já tinha vindo ler mais esta tua 'história dos 3' (morde só a analogia com a série da Enid Blyton) e tinha-me deliciado. Mas o blogger estava nos dias difíceis e comeu-me o comm.


[E agora foi giro, pois q reparei q os 'RESSACA' tb por aqui andaram a largar "spam" (rsss) -- é q eu, tenho-me deliciado na picardia por lá!]
:-)))))))