domingo, agosto 31, 2008

Canto da cigarra que teima...

Sou o linho estendido sobre a pedra. Como mesa.
E o suor dos rostos em círculo. Como mito. (Sei agora...)
E o pão avaro.
E o rito das mãos de boca em boca
E as gargantas ressequidas.
Sou o vinho...

Sou a sombra. E a gota de água.
E a agitação do freixo. Sou a canícula e a raiva.
E a boina basca descaída sobre os olhos
E a precária sesta na aragem do dia.

Sou os tordos espantados de meus olhos
E a voz do amo
E o sol que já declina...

Sou os corpos debruçados sobre a terra
E o crepitar do caule e da espiga.
Sou o fio da revolta
Que não sabe ainda...

E neste horizonte de mágoa
Sou sopro de bandeira desbotada
Sou esta linha quebrada que explode
E me incendeia...

Sou este signo vazio de nada
E o canto das cigarras que teima...

..........................................................

Grato pela vossa presença amiga.
Beijos e abraços

27 comentários:

um Ar de disse...

Achei o poema lindíssimo...
... comovente, até.
O título... e o final deixaram-me apreensiva.
Mas, regressaste, mais o teu canto daquela cigarra que teima...
.
[Beijo para essa cigarra que há em ti!]

Tinta Azul disse...

Chego aqui cheia de Rio e Bons Ares e quase fico sem respiração...

E subscrevo [mesmo sem a sua permissão] o que diz a um ar de.
:)
Há relógios, muitos, n' aluaflutua.

Maria P. disse...

Soberbo, lindíssimo!

Beijinho*

Maria disse...

Belíssimo!!!!
Gosto (tanto) de quem teima, assim, com a certeza de que teimar pode ser é o caminho...
Palpita-me que nos vamos cruzar um dia destes...

Beijos

Véu de Maya disse...

Que bom o teu regresso!

O sacrifício indicia sempre algo de divino...o que pressupõe o canto por vezes da cigarra.

abraço

Peter disse...

Belíssimo! Regressaste de férias cheio de "verve" poética.É um poema de "intervenção", a meu gosto.
Abraço.

M. disse...

Não tenho inveja às cigarras
Também vou morrer a caaantaaarr


Gostei muito, espírito de cigarra. Que teimes tão eterno como ela.


Beijo

Mariz disse...

Salvé Herético!
Acho este poema tudo... menos de "canto da cigarra" - embora ela "teime".
Acho, isso sim, um Cântico á alma do próprio poeta e sua intervenção pelos desafios da "Caminhada".
Que cante então!...Hinos de Louvor á propria VIDA!
Saudação especial
Mariz

audrey disse...

Herético,

Linda a sua poesia mas nunca mais nos prendou com os textos críticos a que nos tinha acostumado!

Apaixonou-se?

~pi disse...

teima queima teima

sem

pre


~

Graça Pires disse...

Belo poema! Vê-se que tem tordos espantados em seus olhos...
Como diria Torga: Quem não canta pode morrer de fartura...
Um abraço.

jawaa disse...

Um dia destes, quando tiver palavras à altura, venho roubar mais este.
Uma beleza!

mundo azul disse...

Muito bom o seu poema!!! Imagens bonitas e coerentes...
Gostei muito!

Beijos de luz e o meu carinho!!!

São disse...

Que o canto da cigarra se ouça mesmo no longo e escuro inverno.

Bom regresso!

Marinha de Allegue disse...

A cigarra cantarina...

Unha aperta.
:)

Mar Arável disse...

Canta cigarra

se possível em todas as estações

abraço

batista disse...

Amigo-irmão: taí um poema que vou me "apropriar" sem nenhum pudor! rss! - brincadeira à parte, tocou-me o mais funda da alma e consciência.
Grato, de coração, pela partilha.

Ah, meu amigo: por cá os tempos também são duros. Tantos que vi combater o bom combate e estão desesperançados...! Paciência. É prosseguir fazendo o que estiver ao nosso alcance, desde as tarefas mais humildes, no microcosmo de nossa existência.

Um abraço fraterno.

Mia disse...

Soberbo. tantas as imagens que desfilaram enquanto te lia. Lembrei-me de saramago,Levantado do Chão. Aqui fiz jus ao meu nome e evadi-me.Louve-se quem assim poema.
Beijinho

Sophiamar disse...

Pois que teime o canto da cigarra. Dele precisamos.Das tuas palavras, do teu blog, referência na blogosfera que tão importante já é e sê-lo-á ainda mais a cada dia que passa.
Felicito-te pelo regresso. Ficamos todos mais ricos.

Beijinhos

Carla disse...

como conseguimos ser tanta coisa, desde que a imaginação e a vontade assim o permutam
belo poema
beijos

mdsol disse...

Belo poema! Ternas as palvras. Elegante o sentido!
Bem voltado. É um prazer rever-te aqui e lá pelo branco!
:)

SILÊNCIO CULPADO disse...

Herético
Um excelente poema e não digo isto para ser simpática.
Mas antes a linha quebrada que incendeia, que o signo vazio num horizonte amargo.
Abraço

Nilson Barcelli disse...

Publicas pouca poesia.
Mas quando o fazes, ela é de primeiríssima água.
Próximo de Torga no estilo, pareceu-me.

Abraço.

Vieira Calado disse...

Hei! Que belo poema!
E depois de ouvir um mestre nas sinfonias...
Um abraço

São disse...

Para quando mais cantos ?
Tudo de bom.

Stella Nijinsky disse...

Olá Herético, outra vez,

aqui está ele, muito bonito, delicado, eu diria muito "Zeca", mas mais não digo que isto de avantes pra mim...

Eheheh

Stella

milf disse...
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