domingo, agosto 03, 2008

Play time...

"A lei do tempo como valor de troca e como força produtiva não se imobiliza no limiar do lazer, como se este escapasse miraculosamente a todos os constrangimentos que regulam o tempo de trabalho. As leis do sistema de produção capitalista nunca entram em férias. Reproduzem o tempo como força produtiva, incessantemente, por toda a parte nas estradas, nas praias, nos clubes.

O aparente desdobramento em tempo de trabalho e tempo de lazer - inaugurando este a esfera transcendente da liberdade - constitui um mito. (...) A orquestração gigantesca do tempo anual em “ano solar” e “ano social”, com as férias (...) este gigantesco fluxo e refluxo só na aparência se revela como ritmo de estação.

É um mecanismo funcional, não um ritmo (sucessão dos momentos naturais de um ciclo). Constitui o mesmo processo sistemático que se desdobra em tempo de trabalho e tempo de lazer. (...)

Na ideologia própria do lazer, o repouso, o descanso, a evasão e a distracção talvez sejam “necessidades”, mas não definem por si mesmas a exigência própria do lazer, que é o consumo do tempo. O tempo livre consiste talvez em actividade lúdica (...), mas é (deveria ser), sobretudo a liberdade de perder tempo e, eventualmente, de o “matar” e dispensar, em pura perda.

Não basta, portanto, afirmar que o lazer está “alienado” porque se reduz ao tempo necessário para a reconstituição da força de trabalho. A “alienação” do lazer é mais profunda: não diz respeito à directa subordinação ao tempo de trabalho, encontra-se ligado à própria impossibilidade de se poder perder tempo.

O verdadeiro valor de uso do tempo, que o lazer procura desesperadamente restituir, consiste em perder-se tempo. As férias constituem busca de um tempo que se possa perder no pleno sentido da palavra, sem que tal perda seja possível pois que entra, por sua vez, em processo de cálculo, acabando o tempo (simultaneamente) de qualquer modo por ser “ganho”.

No nosso sistema de produção e de forças produtivas, é possível ganhar sempre o tempo: esta fatalidade pesa tanto no lazer como no trabalho. Só se consegue "fazer-valer" o tempo, ainda que seja utilizando-o de maneira espectacularmente oca.

O tempo livre das férias é a propriedade privada do veraneante, objecto e bem por ele ganho com o suor do ano, por ele possuído e de que frui à maneira do que sucede com os restantes objectos de consumo- não sendo capaz de se desapossar dele para o dar e sacrificar, para o destinar à disponibilidade total, ausência de tempo que constituiria a verdadeira liberdade.

O Vereanante está cravado ao “seu” tempo como Prometeu ao rochedo, preso ao mito prometeico do tempo como força produtiva ...

Sísifo, Tântalo, Prometeu - todos os mitos existenciais da “absurda liberdade” caracterizam bastante bem o veraneante e todos os seus esforços desesperados para mimar a "vacância", a gratuidade, a despossessão total, o vazio, a perda de si mesmo e o seu tempo que não pode atingir - porque como o objecto foi assumido numa dimensão definitivamente objectivada do (seu) tempo "livre".

Vivemos numa época em que os homens jamais conseguirão perder tempo suficiente para esconjurar a fatalidade de passarem a vida a ganhá-lo. Não nos desembaraçamos do tempo como da roupa interior. Também é impossível matá-lo ou perdê-lo, juntamente com o dinheiro, porque ambos constituem a própria expressão do sistema do valor de troca.

Na dimensão simbólica, o dinheiro e o ouro surgem como excrescência. O mesmo se passa com o tempo objectivado. Na realidade, é muito raro e, no actual sistema, logicamente impossível restituir o dinheiro e o tempo à sua função “arcaica”(...). Na ordem do cálculo e do capital, dá-se de certa maneira precisamente o inverso: objectivados e manipulados por ela como valor de troca, fomos nós que nos tornámos o excrescência/excremento do dinheiro e do tempo...

Por consequência, pese embora a ficção de liberdade no lazer, por toda a parte se descobre a impossibilidade lógica do tempo “livre”, existindo apenas o tempo constrangido. O tempo do consumo é o da produção. Revela-se como tal, na medida em que se reduz a simples parêntese “evasivo” no ciclo da produção.

Diga-se que esta complementaridade funcional (diversamente partilhada segundo as classes sociais) não constitui a sua determinação essencial. O lazer é forçado na medida em que, por detrás da aparente gratuidade, reproduz fielmente todos os constrangimentos mentais e práticos do tempo produtivo e da quotidianidade escravizada".(...)

JEAN BAUDRILLARD - in "A Sociedade de Consumo" - Edições 70 - Arte&Comunicação
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Boas Férias!

Desperdicem bem o tempo. Nessa "absurda liberdade" da ilusão do tempo livre...

32 comentários:

Maria disse...

Uma verdadeira lição de economia...
Boas férias para ti, desperdiçando, ou não, bem o tempo...
Por mim já estou de férias definitivas... :)))

Beijo

Frioleiras disse...

boas férias para ti, herético.

Eu irei na 2ª semana de Agosto ...
mas Lisboa é mesmo boa em Agosto....

mdsol disse...

"Não quero incluir o tempo no meu esquema" Alberto Caeiro (FP)

E bons desperdícios de tempo... talvez a criação mais humana ...o tempo...

:)

Leonor disse...

prefiro quando es tu a escrever.
beijinhos

~pi disse...

braudillard...

do melhor, do mais concretamente clara, a consciência deste tempo!!

a ler atentamente.



e... bom tempo a ti! :)


beijo

jrd disse...

Porque quanto mais perdemos tempo mais ganhamos:

"Eight hours for work, eight hours for rest
Eight hours for what we will;
Eight hours for work, eight hours for rest
Eight hours for what we will."

Boas férias
Abraço

Maria Laura disse...

Pessoalmente, bem queria ter algum tempo para desperdiçar... sem me preocupar muito com as questões filosóficas agarradas a essa noção.
Aproveita (ou desperdiça) bem o teu "play time...".

Mar Arável disse...

Muito aprecio o tempo que gastamos

a pensar que não é desperdício

e não é

porque nos dá algum prazer

Mariz disse...

Salvé!

Estou de partida. Mas antes, vim pessoalmente aqui, fazer um convite, para uma celebração especial...embora não esteja cá, "revejo" todos, quando chegar. Fique bem, divirta-se e espero que goste do que preparei.
Sempre,
Mariz

ESPAVO!

Miosotis disse...

... 'a verdadeira ' noção de 'não tempo' esta de Jean Baudrillard!

Sensibilizada pelo afectuoso olhar em 'fragmentos'!

... 'ilusão de tempo livre' já é uma desconexão... se há tempo, não é livre :)

Um beijo

dona tela disse...

Apresento-lhe a minha nova faceta.

Abraço respeitoso.

M. disse...

Ilusão sim, mas deixa lá que enquanto duram os dias toda a gente se engana a si próprio.

ainda por cá fico infelizmente

a minha vez não chegou.

se for a tua, boas vacanzas.

Leva o Zeca contigo para ser emocionante rsrs

O Puma disse...

O Carvalho da Silva tem de reflectir com o teu texto
e o Mário Soares que tentou acabar com o subsídio de férias tambem

Como eu te entendo
meu caro

Lord of Erewhon disse...

Vou ver se não leio - excepto traseiros... LOL!!!

D. Maria e o Coelhinho disse...

NÓS TAMBÉM!!!!

VOU DE FÉRIAS COM O COELHINHO!

ATÉ BREVE!


Dª MARIA

um Ar de disse...

Querido amigo,
.
Não tenho feito outra coisa, se não, desperdiçar o "tempo"...
.
Texto tão oportuno!...
.
[Beijo em consonância... não sem alguma mágoa...]

hfm disse...

Como gostei de ler este Do tempo e da sua Liberdade, digo eu.

Boas férias e atempe-se bem!

Graça Pires disse...

Gostei do texto de Jean Baudrillard.
Eu pessoalmente, gostava de ter tempo para desperdiçar, para me dar à preguiça...
Boas férias em liberdade,não absurda, mas totalmente vivida.
Um abraço.

Carla disse...

boas férias
..ganhei o meu tempo nesta fabulosa leitura
beijos

Nilson Barcelli disse...

Excelente texto o que escolheste. Para além de apropriado para a quadra que atravessamos.
Eu diria, por outro lado, que as férias não constituem, na maioria dos casos, uma plena libertação à troca baseada na força produtiva com o capital durante 30 dias. Com efeito, mal saímos de uma dessas trocas, caímos noutra, seja porque viajamos de avião, dormimos num hotel, etc., onde o capital, com outro formato, é certo, continua presente e a olhar-nos como potenciais geradores de mais valias, tal como nos 11 meses de trabalho.

Boas férias, abraço.

Rosa Brava disse...

"...Por consequência, pese embora a ficção de liberdade no lazer, por toda a parte se descobre a impossibilidade lógica do tempo “livre”, existindo apenas o tempo constrangido."


Pois...

Só para te desejar umas boas férias ;)))

Um abraço

Sophiamar disse...

Continuo de férias, pouco ligada à net, mas venho desejar-te um bom fim de semana. Do meu mar e da minha serra envio-te beijinhos e um abraço amigo.

mariam disse...

excelente texto!

pois eu hoje, estou em tempo de preguicite...que bom

deixo-lhe, com votos de muito boas férias! e com ganhos e boas percas de tempo...

"Não sejas o de hoje.
Não suspires por ontens...
não queiras ser o de amanhã.
Faze-te sem limites no tempo.
Vê a tua vida em todas as origens.
Em todas as existências.
Em todas as mortes.
E sabes que serás assim para sempre.
Não queiras marcar a tua passagem.
Ela prossegue:
É a passagem que se continua.
É a tua eternidade.
És tu."

«Cecília Meireles»

um grande sorriso :)

margarida já muito desfolhada disse...

já o mês passado desperdicei quinze dias que me souberam muito bem.

um beijo

As Sombras de Fim do Dia disse...

Tempo desperdiçado, apenas para se poder ter tempo para o fazer. Gostei muito. Perdoa a minha ausência e muito obrigado por estares sempre presente.

Boas Férias...

Um Certo Olhar disse...

Um post de inquestionável qualidade.Boa escolha.

Beijinho

MJM disse...

Ai, quanto custa fazer nada!...

Lembro-me de nas aulas de Francês se estudar uma coisa engraçadíssima (estranha!? ainda por cima, habituada à lenga-lenga de que o trabalho é que instrói...), era aquilo La Societé des Loisirs.
Ou seja, no séc passado, houve uns cretinos que achavam que era importante encurtar-se o período de trabalho!?!?!?
Bom, moral da história: ainda vivo o trauma da utopia (porém uma utopia très rafinée e com um accent do caraças!) rsrsrs

Loisira paí!
Bisous, qu'é com'a quem diz
Kisses da Baby !!!

- ganda texto!!

Peter disse...

Um texto difícil de "digerir". Que tenhas umas boas férias.

mundo azul disse...

Um belo texto! Gostei de ter lido...


Beijos de luz e o meu carinho!

SILÊNCIO CULPADO disse...

Herético
Não há tempo livre para o homem que não é livre, escravizado à sociedade de consumo, ao medo e à prisão do seu próprio egoísmo.
Só o desprendimento poderá fazer milagres e restituir-nos a nossa identidade. Mas desprendimento é um luxo que poucos podem ter. A máquina produtiva, o lucro que o patrão procura, a sociedade materializada que só encontra sentido esbanjando o tempo (o único bem que não se pode comprar) impõem e exigem uma certa forma de existir: uma forma sem tempo.

Boas férias

mariam disse...

voltei p'ra dar um "olá" !
fique bem.

o meu "dolce fare niente" começa hoje ~~~~

um grande sorriso :)

Oliver Pickwick disse...

Ótimo artigo. Uma reflexão/análise sobre o capitalismo sem a mesmice de sempre.
Ainda bem que tirei meus poucos dias de férias antes de ler esta matéria.
Um abraço!