sexta-feira, outubro 10, 2008

Confesso, eu sou culpado! (mas renego)

Confesso, sou Eu o culpado! Não ter rias – tu também és culpado!... Culpados todos Nós - sujeitos e objectos da sociedade capitalista - interpelados a todo o momento para a liturgia do consumo, na publicidade, na moda e nos modelos sociais.

Somos todos culpados os que ajoelhamos livremente perante o deus-consumo. Somos culpados de habitar uma casa nas margens suburbanas, ou de nos termos atrevido a uma segunda habitação; somos culpados da festarola por ocasião do casamento da filha, com vestido branco e dezenas de convidados; somos culpados pelos diazitos de férias fora das fronteiras com que a “cara-metade” há tanto tempo sonhava; somos culpados pela troca do velho “Fiat”; somos culpados pelo frigorífico e pelo plasma; somos culpados pela consola dos filhos; somos culpados pelos "ténis" da menina; somos culpados, de vez em quando, pelo jantarzito, fora de portas, com a família. Somos culpados pelas promessas celestiais do capitalismo triunfante e pelo bem-estar eterno das delícias do consumo. Somos culpados pois nos endividamos e perturbamos, com a nossa incúria, a ordem pré-estabelecida do “fim da História”...

Esta a “oração” que, subliminarmente, é introduzida no discurso dominante. Para que Tu e Eu nos penitenciemos. Para que Tu e Eu continuemos confiantes. Para que Tu e Eu tenhamos a certeza que o sistema encontrará a soluções para a crise. E que a nossa segurança – pois não nos foi anunciado que podemos estar descansados com os “nossos”(?) depósitos? - passará incólume a crise. E que os oficiantes do sistema – pobres de nós! – aplacarão a ira dos deuses e a vida retomará o seu percurso “natural”...

Para que todos nós digamos eternamente – “Amén!...”

Porém, eu renego! E, como "mau sujeito", hereticamente deixo-vos para reflexão as palavras sábias de um velho filósofo, em vários aspectos considerado "maldito".
..................................................................................................................

A garantia absoluta de que tudo está bem assim é a condição de os sujeitos reconhecerem o que eles são e de se conduzirem em consequência e tudo correrá bem: “Assim seja!...”

Resultado: Encerrados neste quádruplo sistema – de interpelação como sujeitos, de submissão ao Sujeito, de reconhecimento universal e de garantia absoluta, - os sujeitos “andam”, “andam sozinhos” na imensa maioria dos casos, com excepção dos “maus sujeitos”, que provocam a intervenção, deste ou daquele destacamento de aparelho (repressivo) de Estado.

Mas a imensa maioria dos (bons) sujeitos, anda bem “sozinha”, isto é, pela ideologia (...). Inserem-se nas suas práticas, regidas, pelos rituais dos Aparelhos ideológicos. E pela ideologia “reconhecem” o estado de coisas existente, de que “a verdade que é assim e não de outra maneira” de que é preciso obedecer a Deus, à voz da consciência, ao padre, ao patrão, ao engenheiro, a De Gaulle, (a Sócrates acrescento de minha lavra) que é “preciso amar o próximo como a si mesmo”, etc. A conduta concreta material desta maioria não é mais do que a inscrição na vida das admiráveis palavras da sua oração: “Assim seja!”.

Sim, os sujeitos “andam sozinhos”, quer dizer, “pelo seu próprio pé”. Todo o mistério deste efeito está nos dois primeiros momentos do quádruplo sistema que acabamos de falar, ou se preferirmos, na ambiguidade do termo sujeito. Na acepção corrente do termo significa de facto: 1) uma subjectividade livre: um centro de iniciativas, autor e responsável de seus actos; 2) um ser submetido, sujeito de uma autoridade superior, portanto desprovido de toda a liberdade, salvo a de aceitar livremente a sua submissão.

Esta última reflexão dá-nos o sentido desta ambiguidade, que reflecte apenas o efeito que a produz: o indivíduo é interpelado como sujeito (livre) para que se submeta livremente as ordens do Sujeito, portanto para que aceite (livremente) a sua sujeição, portanto, para que “realize sozinho” os gestos e os actos da sua sujeição. Só existem sujeitos para e pela sua sujeição. É por isso que “andam sozinhos”...

Assim seja!” ... Esta expressão que regista efeito a obter, prova que não é “naturalmente” assim. Esta expressão prova que é preciso que seja assim, para que as coisas sejam o que devem ser: para que a reprodução das relações de produção seja, até nos processos de produção e de circulação, assegurada, dia após dia, na “consciência”, isto é, no comportamento os indivíduos-sujeitos, que ocupam os postos que a divisão técnica do trabalho lhes atribui na produção, na exploração, na repressão, na ideologização, na prática científica, etc.

De facto, o que está por detrás deste mecanismo de reconhecimento especular do Sujeito e dos indivíduos interpelados como sujeito e da garantia dada pelo Sujeito aos sujeitos se estes aceitarem livremente a sua sujeição às “ordens” do Sujeito? A realidade presente neste mecanismo, a que é necessariamente desconhecida nas próprias formas de reconhecimento (ideologia = reconhecimento/desconhecimento), é efectivamente, em última análise a reprodução das relações de produção e das relações que delas derivam...”



Louis Althusser – in “Ideologia e Aparelhos Ideológicos do Estado” – Editorial Presença – Biblioteca das Ciências Humanas.

22 comentários:

Vieira Calado disse...

Somos todos culpados
"das coisas boas e más da vida" - cito de cor o que um dia disse Cesarini.

Sempre estive, nesse aspecto, de acordo com ele.

Mas é preciso saber onde estamos, perceber os que mandam nisto.
E perceber que, por mais cordeiros que parecem, só nos querem ir aldrabando com sucessivas artimanhas e golpes de teatro.

Um forte abraço.

mariam disse...

Oh Herético!
Estou com um sorriso sem fim "plantado" no rosto, comparando as nossas "escritas"...
vc é demais!
gostei muito do post, tão irremediavelmente REAL... pronto Eu um bocadinho culpada me confesso também, mas olhe que tenho andado a reabilitar-me bastante...

bom fim-de-semana
um grande sorriso :)


mariam

Véu de Maya disse...

Herético,

li nos tempos da universidade esse curioso e conhecido livro de L.Althusser...Muito simples nas análises que faz sobre os aparelhos ideológicos do Estado...e agora com uma actualidade espantosa...quando comecei a ler o texto percebi que já me era conhecido...Bem hajas pela sua divulgação...
Mas fiquei triste quando soube que fazendo massagens exageradas no escoço da mulher acabou por matá-la.Deves saber...mesmo o filósofo mais lúcido pode um dia ficar doente...e se calhar a mulher também era chata?-o que não justifica de modo algum essa estranha conduta de Althusser...vitudes públicas e vícios privados?... De tanta desordem por aí à solta que o capitalismo aprenda e faça as inflexões que é urgente fazer...

abraços

hfm disse...

Culpada. Mas só se se inventar outro Mundo reacreditarei porque o que neste encontro não me dá alternativa.

um Ar de disse...

Pois, é preciso que "assim seja"...
Tal não impede o sentimento de solidão de alguns [talvez os menos "culpados"]...
Toda a nossa percepção e consciência do Mundo não passará de "representação social".
Há quem tenha percebido tal [f]acto, para que os mais "atentos" sejam, também, os mais "culpados"... paradoxos dos tempos que nos [per]correm!
[Beijo...@]

éme. disse...

Oh que diabos...
Mas qual culpa qual quê?... Culpa só se for por intervir de menos, culpa só se for por calar demasiado. Culpa só... não percebo mesmo nada e não aceito quase de todo essa coisa do pecado.
Não me passaram a ideia de pecado, lá está. Escapei.
Passaram-me a noção da responsabilidade individual, isso é certo!
Passaram-me a importância de estar para os outros, essa também.
Passaram-me a ideia de ser no caminho da justiça e da igualdade que devíamos seguir caminho...
ora é este caminho que anda demasiado apertadinho, demasiado estreitado. Qual igualdade qual quê? Que igualdade de oportunidades? Aonde?
Isto anda tudo virado, sim. Sem dúvida.
A conversa de nos fazerem crer na importância da culpa individual... oh oh oh... mas que bem jogado, não é? Perder mais tempo com -mão no peito- dizer "eu culpado me confesso" e continuar a deixar passar ao lado os já confessos que sem desculpa jogam as finanças do mundo e põem em causa a distribuição equitativa ou, mais que pôr em causa, a recusam!... isso é que é perder tempo, desviar sentidos, descansar depois da afirmação de culpa e de seguida, ficar tudo na mesma.
Importa é agir. Importa intervir.
Estou farta de, nisso culpada me confesso, ter estado quieta tempo demais. Silenciada tempo a mais!
- Este ano lectivo, a 17 Abril 2009 - vão completar-se 40 anos sobre o "rebentar" da crise académica coimbrã... há 20 anos andei profundamente envolvida nessas outras actividades de renovação de princípios e julguei que fariam diferença... cá estão mais 20 e a coisa parece é ter piorado... a ver vamos das acções que se preparam! E como me amanharei por elas... É pela educação que o imobilismo se há-de vergar. Acredito nisto. É por aí que vou!
...
Chega. Por hoje, aqui, já chega.
Que a culpa é inimiga.disfarçada da mudança.

Bom fim de semana

jrd disse...

Pois eu não me confesso.
Mea culpa, porquê!?
Que culpa tenho eu dos meus antepassados não serem de outra galáxia?
Abraço

corner disse...

eu

não sou culpada.

garanto!

Tinta Azul disse...

Quando ouço falar de L Althusser não consigo deixar de pensar, em primeiro lugar, que estrangulou a mulher...

heretico disse...

Tinta Azul,

em ataque de loucura. como foi demonstrado em tribunal.

e, neste contexto, o caso é meramente "incidental". parece-me.

já agora acrescento que, como saberás, que sob o efeito da doença o filosofo suicidou-se pouco tempo depois.

beijo

tolilo disse...

tio herético,
poque é que andas sempre a ronronar?
(rsss quer dizer o quê?)

Chuac!_

vida de vidro disse...

É aqui o confessionário? :)
Culpada devo ser de muita coisa e do consumismo também, claro. Mas não me arrependo.
Assim seja, pois. Pelo menos talvez tenha alguma consciência de que sou manipulada, apesar de, de vez em quando, pensar que ando pelo meu próprio pé.
Dou-te os parabéns pela introdução ao texto. Herético no seu melhor... **

As Sombras de Fim do Dia disse...

Culpada! Mas reabilitada, pode parecer idiota, mas sempre me lembrei do que o meu avô me dizia, um senhor muito sensato, " se não está ao teu alcance, não o faças, cresce primeiro, e qdo tiveres o braço grande o suficiente apanha a fruta, e se não poderes esperar, tem cuidado com o cão do vizinho"

Ultimamente, ninguém cresce e todos são mordidos pelo cão, a culpa tb é um bocadinho nossa. Assumo, sem vergonha.

Tinta Azul disse...

Herético,

Em primeiro lugar...
Isso quer dizer que penso a seguir sem ser nisso. E muito.

:)
bjs

Licínia Quitério disse...

Culpada? não. Co-responsável, sim. E não é uma questão semântica.

Isto está feio e não vale a pena fingir que não estamos assustados. Os que continuam a alimentar o monstro existem, mas ainda não houve a coragem de os nomear, de lhes mostrar o rosto. Talvez resida aí a grande culpa de nós muitos.

Um abraço.

Sophiamar disse...

Gostava de poder comentar-te mas , infelizmente,não me sinto capaz de verbalizar o meu descontentamento. Céptica, muito céptica, quanto às palavras com que alguns senhores me querem apaziguar, desiludida muito desiludidada quanto ao sistema capitalista que tanto tinha de bom, triste muito triste por me lembrar do que tenho lido quanto às soluções encontradas em tempos de crise como esta que estamos vivendo, falta-me a vontade de escrever, de falar, de aqui estar.
Quano ao livro, li-o quando, jovem ainda, acreditava num mundo mais justo, numa sociedade mais equilibrada, e o meu querido professor,Doutor Borges Coelho, em História Económica e Social nos falava , de forma brilhante, desse tipo de sociedade. Já lá vão tantos outonos, o fosso social nunca diminuiu,servos e senhores continuaram a distanciar-se, e tudo tem vindo de mal pior. Culpada? Eu? Talvez! E muitos mais!

Beijo

dona tela disse...

Ai que até me sinto esquisita a ler isto. Será que eu tenho culpa disto tudo?
Olhe, muito boa tarde para o Senhor.

M. disse...

Aguardo antes o próximo post no qual enumerarás com certeza os caminhos da absolvição..

ou talvez não...

Graça Pires disse...

Culpada, sim, de ser assim como sou e não me renegar...
Um abraço.

Maria P. disse...

Culpada...responsável também, claro.


Beijinho*

Oliver Pickwick disse...

Confesso, eu sou culpado! (mas renego)

Se não me engano, o seu amigo ali, da foto à direita, no alto, disse algo parecido. :)
Um abraço!

Porfirio Silva disse...

Porque é preciso recomeçar a pensar (a menos que se pense que "a crise" foi um carnaval e já estamos em quarta-feira de cinzas...), permito-me interromper para sugerir Para uma economia política institucionalista .