sexta-feira, dezembro 05, 2008

Rito(s) de passagem...

Talvez este regresso seja voo de milhafre
Planando contra o vento.
Ou estultícia em filtrar o tempo
Em meus dedos...

Talvez seja vertigem. Talvez pequenas coisas
Em profusão descendo como os braços do salgueiro.
Ou moinhos em canto d´água.
Ou a pedra da soleira...

Talvez o eremitério seja a brusca passagem das horas
Já passadas. E murmúrio de oração em lábios já finados...
Talvez mulheres de negro embiocadas
Penélopes sem viagens. E epopeias de silêncio...

Talvez as cálidas mãos dos homens. Agora
Pousadas sobre a mesa e o pão repartido.
E a criança atónita espreitando o ritual do vinho
Nas gargantas ressequidas.

E o delírio da festa. E as colheitas...

Talvez os corredores da memória
Sejam espaço afadigado em estertor de ave
Já sem ninho. E que no entanto teima o calor das penas...

Talvez o vento se solte em novas profecias.

E todos os rostos venham em coro
Entoar bênçãos em teu nome.

António...

38 comentários:

Maria disse...

A terra e o que vem da terra.
As raízes... o repartir o pão...
... e as colheitas!
E a raíz!

Tão bonito...

Beijos

Licínia Quitério disse...

Um cântico de louvor e esperança.
Uma beleza, um conforto.

Abraço.

São disse...

Que entre as profecias desse vento sem rédeas se cumpra a de eu assistir ao lançamento de um teu livro de poesia!
Bom fim de semana.

hfm disse...

Deixo-me vogar nas palavras, aproveitando a onda de esperança e todos os "talvezes"

SILÊNCIO CULPADO disse...

Herético

"Talvez o vento se solte em novas profecias."
Quem sabe?
Confesso que tenho medo. O teu poema sugere um quadro que talvez não estejamos preparados para encontrar.


Abraço

Tinta Azul disse...

:))))

Peter disse...

"Talvez as cálidas mãos dos homens. Agora
Pousadas sobre a mesa e o pão repartido."

Talvez...

Graça Pires disse...

Talvez seja a vertigem das palavras. Talvez seja a epopeia do silêncio. Talvez... Belo, este poema. Um abraço

jawaa disse...

Pois... talvez o vento.
Que palavras bonitas, as tuas, aqui.
Obrigada.

Frioleiras disse...

gostei...

beijos, querido herético.

Mariz disse...

Poeta... H.

Senti uma leve e serena saudade...como uma brisa matinal onde a terra se renova, depois da noite acordar...
Senti uma doce despedida, proferizada num rosto de criança, no pão e no vinho.
Senti isso...
ou António regressa de uma longa ausência?!...
posso estar redondamente enganada, mas senti que podiam ser ambas as situações.
E com que imagens da leitura fiquei...!

Ab.
M.

(qd puder... passe; verá porquê)

Mariz disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
M. disse...

Tão bonito, também, este poema!

Maria P. disse...

Muito bonito...
Parabéns.

Beijinho*

um Ar de disse...

A vida parece ser
rito(s) de passagem...
até à prova derradeira
do guerreiro...
Que seja uma vida boa
... a do António
A tua
também.
.
[Beijo...@]

Véu de Maya disse...

Maravilhoso, meu caro herético.
Poesia profunda...

abraços

margarida já muito desfolhada disse...

talvez seja tudo isso ou, simplesmente o desejo de.

um beijo

Mar Arável disse...

O melhor vento

precisa de um sopro

para repartir o pão

Na tua poesia

colho mais que palavras

sigo um caminho

vida de vidro disse...

Primeiro, o que deve ser primeiro: linda criança, suponho que seja o António a quem o poema é dedicado. Teu neto? Parabéns! Para ti, por ele, e para ele que guardará de herança os poemas belos que o avô lhe faz.

O poema e todos os "talvez" que te perguntas a ti próprio é belíssimo no seu olhar sobre um momento da vida. E que as bençãos sejam abundantes e infindas para o António! **

Cristina Correia disse...

Sorriso

Repousa um poema a tilintar
nos lábios de uma criança.
Em seu olhar o sol
espreita
e a rima acontece
quando sorri.

Um abraço amigo.

Andreia Rodrigues disse...

caro herético,

se sentimento de tranquilidade este lindíssimo texto me transmitiu.

belo blog...que bem que se está por aquí.

=)

Mariz disse...

Com a imagem agora colocada, o poema torna-se diferente...embora o que
senti dele fosse verdade; porém bem mais perceptível pelo crescendo som frágil, dócil, e promissor foco de criança.
-------------------------------
Penso que saiba a quem me referia,embora já tivesse apagado o comentário anterior.

Abraço
MAriz

M. disse...

"porque hoje é sábado..."
Mas parece-me que ao avô também fará falta um babete. Antes usá-lo com a razão de fundo que é um neto do que pela senilidade a que tentamos escapar... :-))
Da primeira vez que aqui vim não vi a fotografia. Tão engraçado que o António é! E parece determinado...

Mel de Carvalho disse...

a importância de ser "António". talvez Gedeão... talvez detentor da "Pedra Filosofal".

...porque enquanto houver uma criança tudo faz sentido, a luta faz sentido. todo o sentido.

Abraço
Mel

Alvarez disse...

Um "Pendulo" de badaladas fortes e vibrantes...

Parabéns!...

Alvarez

Carla disse...

vibrante este vento que se transforma em doce brisa...com o correr das palavras
beijos

mdsol disse...

Pois eu aqui d meu canto acho este lindo poema um hino de amor à vida a manifestação da esperança que tem no António um lindíssimo motivo!
[Se forem precisas mais babetes, abro um concurso lá no branco...]
Parabéns!
:)))

coelhinho disse...

o António.
lembro-me muito bem: no ano passado, andares todo "babado" porque ele tinha chegado.

está porreiro o puto. giro.

talvez, ele tenha a sorte de olhar o mundo pelo lado bom. se houver um...

espero

Oliver Pickwick disse...

Este é o "mundo" que todos nós deveríamos querer para Antônio e todas as outras crianças. Muito bonito!
Um abraço!

P.S.: alguém aí insinuou que o Antônio é seu neto. Com mil raios! Já é avô, camarada? :)

bettips disse...

Sabes qual é a palavra para verificar? Nunca tal tinha acontecido ... "ciume", assim sem o nosso ú. E é mesmo o que sinto, desse andarilho que teima o calor bom das penas ...
tâo lindo, tudo!

bettips disse...

A frase a seguir...que piada "cingeo"... e por isso cinge-o ao peito como pequena ave, muito perdidamente, dando-lhe o mundo possível, o que sonhámos mais igual.
Há coincidências?
Bjinho

C Valente disse...

Belo poema
Saudações amigas

Sophiamar disse...

Quem assim poema é um homem que vive com a intensidade com que esta passagem breve deve ser vivida.

António, o avô, tem de publicar os seus poemas.

Beijos

dona tela disse...

Desculpe, mas ando com pouca inspiração.

Bom dia para si.

Stella Nijinsky disse...

Estas coisas pequeninas fazem lembrar-nos de nós mesmos quando também o fomos. E assim amamo-las e a nós mesmos.

Bençãos ao António!

Stella

éme. disse...

Talvez o vento se solte em novas profecias...

Talvez...

Houve um tempo (longo, tão longo, quase o tempo todo que é a conta da minha vida) que a ideia de "talvez" me matava a esperança. Agora o tempo é outro e eu outra serei e creio que é mesmo isso,

Talvez o vento se solte...

~pi disse...

belo nome de belas

letras de

muito bela

criança :)




BEIJO

M. disse...

:)

como eu, no mesmo ritual
passo
deixa-me voltar amanhã assim mais repousada.

Hoje deixo-te um beijo