quarta-feira, janeiro 28, 2009

Palavras em trânsito...

A língua portuguesa é barbaramente sugestiva. Todos os que a cultivamos, com mais ou menos talento, procuramos explorar as suas possibilidades, desdobrando o(s) sentido(s), de forma a que, por vezes, o que se diz, encobre e desvenda, em jogo de sedução, aquilo que desejamos (pudicamente) revelar.

Eis um inútil exercício de escrita. Mero prazer da forma neste texto. Deixo, porém, para os que tiverem paciência, a oportunidade de lhe darem algum sentido...
....................................................................

Existem algumas palavras muito a gosto de uns tantos: entre elas, afeiçoar e ajeitar-se...

Próximas na sua semântica , mas não significam exactamente a mesma coisa. “Ajeitar-se”, consultando um solícito dicionário on line, tanto pode ser “tornar-se apto” como “pôr-se a jeito”, “amoldar-se...”. Seguindo a mesma fonte “afeiçoar” é “dar determinada feição ou forma”, sendo que na sua declinação reflexa “afeiçoar-se” pode ganhar a dimensão de “fazer ganhar afeição”, “dedicar-se” ou, vejam bem, até “apaixonar-se”...

E temos também na mesma família o substantivo “jeitinho”, de fazer (ou dar) “um jeitinho”, uma espécie de água chilra, seiva de que se alimenta o Portugal em inho de que falava o poeta Alexandre O´Neill. Se continuarmos a cavar até a raiz dos verbos e das significações enunciadas, iremos certamente bater (salvo seja) na magnificente glória do “jeitoso”...

Quero eu dizer na minha que esta modulação de jeitos, jeitosos e afeições se distribui por diversos timbres, como partitura de orquestra, desde os tons mais átonos até aqueles que determinam o fluxo dos grandes naipes...

Assim, o jeitinho é nota menor na escala. Mesquinho o jeitinho, sem dúvida. Mas não vai além do chinelo, que é como quem diz, além do cotão dos cotovelos coçados, que a vida está difícil e mais uns cobres ao fim do mês dão mesmo jeito. Ora cá está, o jeito!... Que por vezes se eleva a “jeitão”! E, então o jeitoso, sobe na escala dos timbres. E, em lugar dos habituais jeitinhos, começa a “ajeitar-se!... Em progressão geométrica, naturalmente, da sua capacidade de “amoldar-se”...

Mas, por aqui, se fica o jeitoso. Poderá chegar ao escalão de pequeno ou médio instrumentista, mas geralmente, nunca se elevará a dignidade do proscénio... Claro que poderá ganhar afeição e dedicar-se à causa. E, então, o jeitoso, pode até, em conjunturas favoráveis, atingir a qualidade de solista, que na versão orquestral deste texto é, mal comparado, uma espécie de líder, sabe-se lá se até mesmo com dimensão de primeiro-ministro...

Mas, geralmente, está vedado ao jeitoso “dar determinada feição ou forma à coisa...”

“Dar feição à coisa” é matéria mais discreta. Reservada, por natureza ao mundo das afeições, que se afeiçoam umas às outras. Em osmose permanente, entre os gabinetes alcatifados do poder político e as madeiras exóticas dos grandes escritórios de advogados. Ou na dança das cadeiras ministeriais e as cadeiras do mundo empresarial...

Tal qual uma família ou núcleo restrito a poucos.

Corta-se aqui, emenda-se ali. Acrescenta-se, faz-se e desfaz-se, se for o caso... Adiam-se prazos ou aceleram-se, conforme a conveniência...Até a obra ficar de feição. Que outros granjeiam... Seja lei avulsa ou empreitada de milhões. Seja operação urbanística, ainda que seja necessário alterar de uma qualquer ZPE.

No estuário do Tejo ou qualquer outro lugar debaixo do Sol. Desde que renda, naturalmente...

Complexa, a “aventura do sentido” das palavras... Aliás, por vezes, caiem-nos na escrita sentidos e ressonâncias que nem imaginaríamos. Sobretudo, quando a polissémica língua portuguesa se tinge garridamente e se “afeiçoa” a anglicanismos em voga.

Quem imaginaria, por exemplo, que Alcochete poderia rimar com “outlet"?!...

25 comentários:

Mar Arável disse...

Meu caro e estimado amigo

li e reli

saboreei a forma e o conteúdo

Excelente e certeiro

audrey disse...

só tu, Herético !

Maria disse...

Do mais excelente (ah, a língua portuguesa!!!) que já li por aqui.
Na "mouche"! Merece uma divulgação mais ampla, que farei por mail (com todos os dados) se não te importares...

Beijos vezes 3 vezes

Cata-Vento disse...

Fantástico, amigo! Perante a tua dissertação, essa aptidão para a escrita, esse tanto saber só posso afirmar que cada vez mais é um prazer passar por aqui.

Beijinhos

Bem-hajas!

Graça Pires disse...

"modulação de jeitos, jeitosos e afeições se distribui por diversos timbres, como partitura de orquestra, desde os tons mais átonos até aqueles que determinam o fluxo dos grandes naipes..."
Você o disse neste conteúdo repleto de coisas certeiras...
Beijos.

vida de vidro disse...

Hoje não te posso poupar elogios, eu que até nem sou de dizer muito.:) Este é um texto exemplar. E as razões seriam várias mas distingo o seguinte:
- Está barbaramente escrito ... :))
- É actual e bate de forma elegante e original no assunto do dia
- Faz um retrato perfeito deste Portugal em inho e dos jeitosos que nele fazem carreira

Bravo, sr. Heretico! Aplaudo e delicio-me a (re)ler.**

jrd disse...

Fantástico!
Do melhor que tenho lido. O sabor das palavras. Repeti.
Abraço

mariab disse...

meu caro heretico, este é um texto de se lhe tirar o chapéu. com todos os pontos nos ii, sem precisar de nenhum jeitinho. lembra-me uma elegante estocada de esgrima. que toca o alvo, claro. :)
beijos

pront'habitar disse...

caro herético,
muito jeitoso, fico cheio de inveja, a palavra não é o meu forte...

Patanisca disse...

Tempo só para agradecer e retribuir o teu "BOM Ano

beijos".

Beijinho.
Teresa

Véu de Maya disse...

Pode haver jeitinhos e jeitosos e até muitos manhosos que não sei se serão tão poucos assim!...mas a qualidade do trabalho não engana...só os básicos...ou os tolos é que se deixam enganar...Mas há tantos...Parabéns pelo belíssimo exercício de semãntica...mas a pragmática é que está a dar...talvez seja por isso que os computadores só têm sintaxe...0/1...

BFS

Abraços

Mel de Carvalho disse...

Caríssimo,

de todo.
quem iria “con_ce_Ver” tal barbárie poética?
nem o Rimador que por ai anda em certos espaços destinado a formatar poesia a metro poderia sugerir tal. É para além de inédito.

Na verdade a língua portuguesa é fonte inesgotável. Haja quem saiba dela fazer bom uso e teremos “outlet’s” no estuário do Tejo, do Sado … em qualquer lado.
Concebidos sem pecado, pela graça e amén do espírito santo.

“Alcochete poderia rimar com “outlet"?!...

Óbviamente, caro Herético. Obviamente!!!

Tiro-lhe o meu chapéu. Excelente e muito, muito actual.

Cordiais Saudações, bom fim de semana.

hfm disse...

Um jogo de palavras de leitura obrigatória, deveria ser remetido a certos senhores e senhoras.

Parabéns!

C Valente disse...

muito bem.
Uma lingua tão mal tratadaq
Saudações amigas

Rogéryo de Sá disse...

em Portugal toda a gente dá um jeitinho. certo?

Maria Queve disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
jawaa disse...

Com arte e com jeito, com saber também, afeiçoaste um texto de primeira água...

Escrevi e eliminei o comentário anterior, talvez mais bem afeiçoado, mas enganei-me na conta. Desculpa o mau jeito, apaga por favor. Se o recebeste, fica sabendo que é meu, assinadinho por baixo.

Um primor a tua escrita.
Abraço

heretico disse...

Rogeryo de Sá,~

certo? Não.

ERRADO!...

Carla disse...

que belo exercício de escrita...e que belo final!
beijos e bom fds

~pi disse...

ah sim! "linda rima" :)






beijo






~

Arabica disse...

Uma das mais irónicas dissertações que já li sobre a língua portuguesa, que de resto, há muito se põe a "jeito" de tais considerações ;)


Quanto a Alcochete -sou suspeita ;)-, para mim, embora possa parecer um contra senso, continua a rimar com barcos, sol, rio, pescadores de pele tisnada, amêijoas, sal, História e igrejas (veja-se por exemplo que a Igreja Matriz de Alcochete é um local de culto antiquíssimo, construído sobre os alicerces de uma antiga mesquita, com características quatrocentistas. A sua fachada, portal e rosácea são de estilo gótico. No interior, existem três naves gótico-manuelinas e as paredes interiores possuem azulejos azuis e brancos do Séc. XVIII).


Espero que esta omolete do outlet não venha a ser integrada no menú histórico desta vila de traça antiga, mas... :)




Um abraço

Popper disse...

Sempre. Um abração, kamarada.

M. disse...

clap clap clap

aplausos

pelo rumo que deste ao que parecia uma aula de gramática portuguesa.

que jeito!



e o que pode barbaramente sugerir a palavra "aotelete"? :)

bisous

escarlate.due disse...

e eu li até ao fim :)
a nossa língua é excelente, não é Heretico?
depois resta saber se temos pericia suficiente para, como tu, dar baralhar e voltar a dar e no final obter algo assim :)

OrCa disse...

Bem apanhado, uaneçaguein...

«Outlet» decomposto, ainda que não cheirando, pode ser visto como «out» e «let», qualquer coisa assim como o «deixado de fora».

Aí a coisa começa a fazer algum sentido, se articulado com o pós-arábico «Al coche te», sugerindo - quem sabe? - limousines ao domicílio.

E tudo vai tomando forma. Então, se conjugado com «freeport», sendo que «free» é o que toda a gente sabe e «port» a parte verde da bandeira portuguesa (a outra é a «ugal») estamos em presença de mistério desvendado!

A culpa do surreal é tua. A do disparate corre por minha conta. ;-)

Um abraço.