domingo, abril 19, 2009

Lenços brancos em vez de toalhas...




Como se sabe o eng.º Sócrates anda de toalha ao ombro desde que se tornaram evidentes a gravidade da crise económica e financeira e as dolorosas consequências das políticas de direita que têm vigorado, no nosso País, há mais de três décadas. A metáfora da toalha, invocada no último debate na Assembleia da República a propósito da situação na Qimonda, é uma incursão nos domínios do boxe, com a qual se pretende significar a persistência em atingir o objectivo de “salvar a Quimonda”. Atirar a toalha ao chão seria desistir do combate...

Ora, não sendo previsível que o nosso primeiro ministro goste de ser sovado e levado as cordas, a avaliar pelo que se passa no País, dir-se-ia que a toalha se ergueu, na persistente acção do primeiro ministro, como a instrumento decisivo de combate à crise. Por outras palavras, o primeiro-ministro nada faz, ou nada pode fazer, mas ergue a toalha, como símbolo de determinação. Enfim, uma refinada mistificação, como é seu timbre!...

Se não vejamos. A Qimonda, que recebeu do Governo português largas centenas de milhões de euros terá tido também uns tantos milhões de lucro, que foram lestamente despachados para a Alemanha, dias antes da declaração de insolvência. O que fez, nesta emergência, o governo de Sócrates? Nada que se saiba. Quando muito terá puxado da metafórica toalha e limpado o suor provocado por tamanha ingratidão, mas em breve a terá recolhido e enrolado, enquanto centenas de trabalhadores recebiam guia de marcha para o desemprego...

E no caso da Opel da Azambuja, lembram-se? um exemplo tido como de sucesso e de elevada produtividade, beneficiária também de milhões de euros de dinheiros públicos, que como se sabe foi deslocalizada para outras paragens em vista ao saque de novas benesses e na mira de mão-de-obra mais barata. O que fez o Governo? Atirou a toalha ao chão? Nem pensar!... Desta vez o Governo de Sócrates, segundo consta, arregaçou as mangas, fez voz de durão (salvo seja), rodou a toalha por cima da cabeça e voltou a aconchegá-la ao pescoço para assim se confortar das lágrimas dos trabalhadores traídos, despedidos e sem perspectivas de futuro...

Como se vê ter uma toalha dá muito jeito!... E se, comprovadamente, não serve para enfrentar a crise, certamente que servirá (mais não seja) para limpar as mãos da inoperância política. Aliás, tendo em conta as mais recentes previsões do Banco de Portugal, que apontam para uma quebra do PIB de 3,5% este ano, é natural que a toalha do Engº Sócrates, agora que se aproximam os pleitos eleitorais, seja desfraldada como ícone dos feitos grandiosos deste governo.

O que seria bem feito...

Entretanto, aquele que dizem ser a eminência parda do Governo Sócrates, o ilustre sociólogo Augusto Santos Silva, que antes do o ser já era comentador político ao serviço dos interesses que hoje promove como governante, num momento de poderosa reflexão teve, em tempos (Público, 8-9-2002), uma iluminação prodigiosa ao preconizar “o PS não deve afirmar-se nem pró nem contra o capitalismo...” Uma espécie de limbo político, ou uma neutralidade piedosa, para convencer ingénuos...

Desbragado oportunismo, digo eu, que ilustra a personagem e define a matriz de um partido. Levada à letra tal sentença, o PS “dá para os dois lados” (nada de mal entendidos), dependendo da ocasião e dos ventos políticos... Com tal “ideologia” e com semelhante “ideólogo” se cumpre o desígnio das políticas de direita, pois nunca, desde o 25 de Abril, os grandes interesses capitalistas foram tão obstinadamente protegidos como hoje, por um partido que não é “nem pró nem contra o capitalismo”...

Em contraponto, não falta quem, pavoneando coloridas plumas de esquerda, se apreste a branquear o ramalhete das políticas de direita, dando de barato a reserva institucional devida ao País que o elegeu por duas vezes como Presidente da República. Em nome da esquerda e dos seus valores... Longe vão esses tempos, não é Dr. Sampaio?!...

São lenços brancos a esvoaçar, em vez das toalhas, é o que está a precisar esta gente...

22 comentários:

jrd disse...

Resumindo: sendo os partidos capitalistas a favor da exploração do homem pelo homem, o que nos vale é que o partido socialista que temos é a favor do contrário.

Só mesmo com uma toalha encharcada nas trombas, com respeito pelo elefante, que é um animal nobre.

Vieira Calado disse...

Lenços brancos?

Ou uma toalha encharcada em Mértola?

(perdão, mértola?)

Um abraço

OrCa disse...

Pelo caminho e face à postura de cata-macacos patenteada pelas três ilustríssimas personagens com que abres o discurso, alguma utilidade imediata poderia, também ser dada aos lenços...

Também estou nessa da toalha encharcada nas trombas. Não se ser «nem a favor nem contra o capitalismo» acaba por ser uma postura de muito boa gentinha, sempre à espera de ventos de feição. Agora, propalá-lo como postulado político, apenas extravasa do bestunto de luminárias do quilate do citado.

Isto já nem é embirração, é emburração mesmo!

Graça Pires disse...

Nem se consegue perceber o que vai naquelas cabecinhas pensantes...
Um abraço.

mariab disse...

brilhante... com que então "nem pró nem contra o capitalismo"? define claramente o PS, digo eu.
o problema dos lenços a acenar é que é um gesto muito banalizado. qualquer treinadorzeco tem direito a essa despedida... ná, eu prefiro o pano encharcado (pode ser toalha, vá...)
beijos

Maria P. disse...

Lenços e lençóis!

Beijinho, a ti:)

~pi disse...

ai que emoção tão

horrível

tão

cadavérica

tão !! :)




beijo





~

WeareThree disse...

Lenços brancos?
Paz?
Never.

Li e gostei

Beijo

vida de vidro disse...

Sabes que mais? Estou à espera que esse do meio apareça na televisão e tenho a toalha molhada, os lenços e tudo preparado... O pior é que o homem ainda consegue convencer alguns. Aposto.**

mdsol disse...

:))

Nilson Barcelli disse...

Aponta-me melhor primeiro ministro depois do 25 de Abril...
O homem faz o que pode, mas quando poucos ajudam, não é nada fácil.
Como é óbvio, ainda que reconheça alguns erros ao Eng.º Sócrates, não concordo contigo. A governação dele tem sido positiva.
Não tenho partido (nunca tive), mas em princípio continuarei a votar nele. Tal como a maioria dos portugueses. Resta-nos saber se essa maioria será relativa ou absoluta.
Queres lá a Ferreira?
O Paulinho?
O PC?
O BE?
A ditadura do proletariado?

Eu também queria uma alternativa.
Qu soubesse governar, que soubesse aumentar drasticamente a produtividade do país e soubesse redistribuir melhor a riqueza.
Uma alternativa para o governo, para os empresários, para os dirigentes em geral e para o povo que somos.
Mas ninguém quer mudar.
Os problemas estão sempre nos outros...
Enquanto formos assim, esperemos apenas a redistribuição da pobreza...

Abraço.

Carla disse...

digo apenas concordo.
Nunca tivemos um governo tão liberal nas políticas que defende, nunca tivemos tão pouca protecção aos direitos dos trabalhadores, nunca as empresas se valeram tanto de uma palavra chamada crise para limitarem garantias adquiridas por quem trabalha ao longo de tantos anos.
Assim sendo...lenços brancos, sim!

escarlate.due disse...

não sei se lhes faltará lenços brancos ou toalhas mas tenho a certeza que lhes falta um avivanço de memória que talvez um abril sem cravos mas com outra coisa lhes venha a dar algum dia...

Tinta Azul disse...

PS. Mando-te um abraço cá da terra - a aldeia da roupa branca.

Frioleiras disse...

queridíssimo Herético....

já não sou, minimamente capaz de opinar sobre política............

bjnhs grds para ti....

(estou cansada, muito cansada
da política de todo o Mundo, ocidental ou não!...... e continuo a achar que foi o fim duma época para a qual não haverá retornos nem revivalismos.
Nada das ideologias económicas ou políticas dos anos 50, 60. 70. 80 e 90 voltará..........

esquerdas, direitas, religião cat
olica (a nossa), pós - modernismo/ neoliberalismo, globalismo etc etc
tudo isso acabou .

e o mundo tornou-se uma máquina infernal que tritura todo e qualquer humano...

o que está para vir ninguém pode prever tal como no final da 1ª guerra do sec XX, tal como os resultados da 2ª , das derrocadas dos ismos, do triunfo da informática, das telecomunicações
e dos media.......

nada resta e francamente não vislumbro nada de colorido no horizonte.

Daí não poder descarregar sempre sobre a nossa política...

Sempre fomos medíocres (mesmo durante os descobrimentos...)

portanto, onde está o espanto ????

beijinhos grandes

um Ar de disse...

O Banco de Portugal?
e as previsões do FMI?
... mais desempregados...
... mais mal empregados...
...
[Beijo...@]

Mel de Carvalho disse...

Bom, sobre esta matéria digo apenas que a cada um cabe, dentro das suas possibilidades e capacidades, não se demitir da luta. Arregaçar as mangas, fazer do que houver para fazer, e, caríssimo Herético, é exactamente isso que faço da minha vida: comecei a minha vida profissional na extinta Mague Industrias Metalomecânica. Sem trabalho, usei o desemprego para concluir a Licenciatura. Comecei de novo... Trabalhei nas Universidade, como quadro superior, quase 10 anos. A recessão atingiu os contratados... tive azar. Não desisti. Trabalho com idosos, dou formação ao pessoal... mas levanto mesas, lavo ou ajudo a lavar os acamados, leio para eles, faço o que e quando for necessário. E, como mais uma vez esta situação é transitória, quando ali acabar, irei para onde de mim houver necessidade. Sem dramatismos, sem exasperações. Não sou modelo de virtudes, mas apenas quero sublinhar que em tempo de crise como esta os galões tem de, definitivamente, ser derrubados.
Denunciar, sim, absolutamente de acordo. Mas consciencializar cada um de que é por dentro da crise que a crise muda. Com a mudança de cada um de nós.

Abraço fraterno e solidário
Mel
(sempre a incentivar à luta, obviamente ..., senão leia-se o meu último post http://noitedemel.blogs.sapo.pt/60095.html).

25 de Abril, sempre! Vermelho, pois claro.

Vitória disse...

A questão é que a toalha está parda.
E enquanto se achar que das alternativas nem o diabo as apontava, fica-se neste nim do deixar estar...

Somos um povo brando mas a paciência esgota-se. Há sinais de ondas (mesmo que o PM diga que são manobras para o denegrir) e cuidado: Pode ser que um dia destes o tsunami se erga.

E não vão haver toalhas que cheguem para enxugar tanta água.

O Puma disse...

Pois

lenços encardidos

nas ventas

ainda mais encardidas

nunca serão

apenas lenços brancos

muito menos brancos

M. disse...

Tudo demora tanto tempo a ser entendido... É o que sei dizer no meio de tanta política que me rodeia e me impede de acreditar. Na dúvida sistemática caminho. Ou paro.

Oliver Pickwick disse...

Mais importante que jogar, ou não, a toalha, é driblar o risco de nocaute.
Um abraço!

bettips disse...

Por mim, tirava-se-lhe a toalha... e o tapete! Pardos costumes; e caras sempre iguais e liberais (no mau sentido!).
Abraço