domingo, maio 03, 2009

"Crónicas de um tempo perdido" - A Merência II

Merência I

(...)Perguntava, então, também pela Merência. Todos os irmãos haviam emigrado, mas ela ficara e era o amparo da mãe, cuja doença prendera, sem remédio, à enxerga.

E, entre sorrisos mais ou menos explícitos e insinuações picarescas eu ia cimentando a suspeita que a Merência e o Zé se encontravam, pela calada da noite, no recato dos lençóis, de que o Zé se escapulia, lesto, já quando a alva brotava no último canto dos galos e horizonte se tingia das tímidas cores da manhã.

Contava-se, até, que um dia, surpreendidos, entre estevas e giestas, em parte do termo mais distante, o Zé obrigara o incauto pastor a ficar calado, mediante promessa de lhe guardar as ovelhas, no dia da festa do Verão, em honra do santo padroeiro da freguesia, quando os jovens da terra, de fatiota nova, se revolvem em bailaricos e, quando Deus quer e a ocasião surge, nalgum canto mais esconso, os corpos suados na dança, se soltam no frémito dos sentidos.

Contava-se, pois, na aldeia, os encontros clandestinos dos dois amantes, sendo que as más-línguas logo acrescentavam versão mais picante, posta a circular pelo lesto pastor: ou seja, que o Zé, fazendo jus à sua alcunha de “sugão”, estaria a amestrar a língua nas mais íntimas impudicícias da Merência...

Tal era o falatório e a risada pública que, pelo Entrudo, entre os gritos e esgares, os “caretos” e os galfarros da terra, mimavam o Zé, declamando, em coro: - “Haja decência, o Zé Sugão não chega para a Merência!”...

Enfim, uma orgia de gritos e gestos, com laivos de crueldade...

O picaresco episódio acentuou o divórcio entre o casal e o povo da aldeia. Em olímpico desprezo, porém. Raramente se viam durante o dia, mas pela calada da noite encontravam sempre engenho e arte de se amarem, quando a mãe da Merência dormia ou, quando já mais débil na doença, não podia atazanar a filha, “que era a sua desgraça”...

Assim, por anos a fio. Claro que a lei da vida por vezes é justa. A mãe da Merência acabou por falecer e, com seu óbito, foram removidos os últimos obstáculos à felicidade daquele perene noivado. Sem encargos familiares, eram ambos livres de se “juntarem” e o povo da aldeia que se danasse...

À Merência coubera em partilhas o terreno confinante à horta do tio Alípio centro das desavenças antigas entre as duas famílias, que constituem, por assim dizer, os liames ignorados desta história. Assim, à margem das regras, subvertendo a ordem social, juntaram os trapinhos e os escassos atavios, que as vidas, essas, há muito haviam sido fundidas numa única órbita, como os deuses costumam desenhar para os amantes predestinados.

A horta, que de bom grado o Zé trocara pela forja, em ajuste amigável com o irmão, agora um pouco mais alargada com herança da Merência, era uma espécie de jardim das delícias. Reconstruíram o casebre que lhes servia de guarida, à força de braços e teimosia, dando ao escasso cubículo condições mínimas de dignidade e esmerada limpeza que a Merência nessas coisas não transigia... O Zé, com ajuda de uma junta de bestas tratava da vinha, da meia dúzia de oliveiras e de algum cereal. Ela, a Merência tratava do “seu” Zé e da horta e dos primores, quando chegava o tempo...

Arredados assim do mundo e do destino da aldeia, onde raramente desciam...

Quis o acaso (ou a estranha razão dos afectos) que numa tarde de fim de Verão, quando o narrador percorria veredas e memórias, em viagem circular de um tempo sem regresso, fosse desembocar ao mítico lugar, onde o Zé e a Merência, havia construído o seu destino - o seu porto de abrigo e o seu mar.

Devo esclarecer que, embora sabendo das suas vidas, como ficou referido, haviam passado mais de vinte anos, desde a última vez que o narrador falara com o casal. Receava, por isso, não ser reconhecido e, em última análise, até que a sua vista pudesse ser entendida como intromissão abusiva. Como bem se sabe, existem universos assim, em que uma qualquer vibração exterior, por breve que seja, é bastante para os perturbar.

Estava, por isso, receoso o narrador e hesitou por uns breves segundos. Mas afoitou-se, movido não tanto pela antiga amizade, mas sobretudo – sabe-o agora – pela busca dele próprio, no registo de outras vidas...

Apareceu a Merência ao sinal discreto no portão.

- “Ah, és tu!...” – exclamou sem qualquer surpresa, como se fosse ontem o último dia, ou a visita tivesse sido previamente anunciada. Limpou as mãos no avental e apertou a minha, com um vago sorriso de acolhimento. E, sem mais, apontado uns metros mais abaixo:

- “O Zé está ao pé da figueira tentando arranjar a parede do poço!...”

Desceu o curto espaço, evocando memórias vagas, que o local despertava e deparou o narrador com Zé, absorto no seu trabalho.

Foi, portanto, o narrador quem quebrou o enguiço do tempo e do lugar. E num vago sorriso, ensaiado nas lides citadinas, em ironia que não passou despercebida, exclamou, prazenteiro, mal o Zé levantou os olhos, incrédulo:

- “Escusas mostrar essa cara, a Merência abriu-me o portão e eu entrei...”
- “Pois é, a Merência é assim: abre a porta ao primeiro vagabundo que passa
”... ripostou em sorriso aberto.

Acolheu-me com um forte abraço. E, depois de algumas palavras de circunstância, cada um de nós tentando fazer prognóstico da última vez que estivéramos juntos, com ar sério e formal, o Zé disparou:

- “E eu p´ra aqui a tratar-te por tu e não devia. Ouvir dizer que eras “doutor de leis”...
- "Pois sou Zé, mas não te embaraces... Para dizer a verdade, sou mais uma espécie de “ferreiro sem forja” – ripostou o narrador numa gargalhada, mal sabendo do que ria, se da frustre memória dos tempos de infância, se da finíssima dor da actualidade.

O olhar do Zé, como aço, procurou então o olhar do narrador e assim ficou, por momentos, devassando-lhe as entranhas da alma. E, depois, desta nesga de silêncio, em que cada um se perdeu, o Zé alargou o olhar à Merência e aos dois palmos de terra que eram seus e ripostou:

- “A minha forja agora é esta. Espero que sejas tão feliz quanto eu sou...”

Insistiu ainda o Zé num copo de vinho branco, “como não se bebe em Lisboa”, fresco, retirado com esmero das águas frias do poço. E beberam numa partilha genuína, com a brisa da tarde a escoar-se por entre os dedos...

A saída, a Merência surpreendeu-o com um ramo de inesperados lírios:

- “São para a tua mulher, que adivinho merecer-te...”

Tanto quanto pode, disfarçou o narrador a pontinha de emoção que a delicadeza do gesto desencadeara e, no seu jeito de camuflar-se em palavras desajeitadas, exclamou em arroubo de sinceridade:

- “Mas, Merência, como eu não sou digno das tuas flores, porque não vais tu entregá-las? E assim ficavas a conhecer a família toda...”

Que não, que não iria!... Havia meses que não descia à aldeia e não tencionava ir lá tão cedo...

E assim se despediram. O narrador com um ramo de flores debaixo do braço. Sabendo uns e outros que passaria tempo sem mais se verem. E que vida, em seus caminhos cruzados, dura apenas o perfume de uns lírios ...

25 comentários:

hfm disse...

Como gosto de te ler!

OrCa disse...

Carago! Não fazendo ideia nenhuma de quem seja o autor, sempre te digo, Herético de mil demonhos, que se me razaram os olhos da água da felicidade!

Nota vinte, em dez de escala. O sítio sagrado onde o urbano regressa ao rural, mesmo ali ao lado e tão esquecido.

A cumplicidade do narrador perante a felicidade teimosa...

Olha, meu caro, quase uma nova «Invenção do Amor», mas esta rural, ou rústica, se melhor quiseres.

Do melhor que tenho lido nom (largos) últimos tempos. O meu chapéu!

Abraço.

Graça Pires disse...

Gostei do narrador e da "pontinha de emoção"...
Um abraço.

Paula Raposo disse...

Através do Jorge Castro venho ler-te atentamente. Porque as memórias são feitas de lírios...muitos beijos.

mariab disse...

prosa irrepreensível, herético. prosa que nos desperta o gosto de ler e sentir essa emoção tão subtilmente descrita.
beijos

bettips disse...

Fica-nos sempre, do que amamos, um perfume de flor.
Gostei muito - mas claro que "a lei da vida raramente é justa", amigo!
Bjinho

isabel mendes ferreira disse...

perfume. prosa bem perfumada. crónica com lírios debaixo da cada metáfora.



muito bom. claro...mas quem sou eu para dizer mais que isto?.



abraço.

mdsol disse...

Muito bem se escreve por aqui!

:)))

Peter disse...

Excelente texto! Li-o maravilhado. Fez-me recordar os tempos da minha juventude, tão diferentes deste corre-corre da cidade que me ignora.

Frioleiras disse...

ao acabares com "perfume de uns lírios"................lembrei-me tanto do Veríssimo e saudades, muitas
de ter tempo para o voltar a ler.......

bjnh p ti...

(ao menos.... a ti. vou-te lendo....)

jrd disse...

O Zé, a Merência e, acima de tudo, o teu talento, vagabundo das palavras.
Abraço

um Ar de disse...

Nas memórias do "teu" narrador parece-me ver as "minhas"...
:)
Adorei, claro!
Beijo...@[]

~pi disse...

como muitas vezes -

(e sabes do mais estreito porquê

reconheço-me nas

memórias

nos ecos da voz

nos gestos

nos odores

lugares e até nas flores

que vejo em mim,

e sim, também

nessa brevidade

nessa respiração

nessa passagem

( pequenina

que é a vida,





beijo






~

Cristina Correia disse...

Ficarei para sempre no tempo incerto
dos silêncios,
junto às árvores_____sei que as agarro
durante as minhas horas de existência
porque, essas sim,
são verdade,
espaços contíguos
das minhas rugas, que me concedem
caminhos de firmeza
e, me enchem de claridade.

Abraço-Te...Cris.

Carla disse...

ler-te é viajar no tempo das mil maravilhas
beijos

vida de vidro disse...

Muito saborosa, esta tua crónica. Buscando os aromas, os sons das memórias que ficam. Gostei muito de te ler neste registo. **

Isamar disse...

Um texto que se lê de um trago tal a excelência da escrita.
Temos poeta, romancista, novelista, enfim, aqui há escritor.

Bem-hajas, amigo!

Mil beijinhos

São disse...

Alguém me explica a razão de tantas "obras" inqualificáveis serem publicadas e escrita de excelente qualidade - como a tua - se confinar à NET?!
Um abraço.

Nilson Barcelli disse...

Parabéns pela narrativa, que é excelente e prende o leitor desde a primeira à última linha.
Abraço.

Véu de Maya disse...

Que narrativa mais bela! a simplicidade do amor e do afecto, na sua tonalidade rural e campestre...magistral, meu caro.

abraços

mundo azul disse...

__________________________________


Bonito texto! Uma bela mensagem em suas linhas...


Beijos de luz e o meu carinho!

___________________________________

© Piedade Araújo Sol disse...

gostei dos amores clandestinos, gostei do narrador, e gostei das gargalhadas de satisfação.

tão bem escrito, que prende o leitor desde a primeira à ultima linha.

parabéns!

beij

jawaa disse...

Ler-te é sempre um prazer!
Um abraço longo

mariam disse...

Herético,


Adorei!


beijinhos
mariam

Oliver Pickwick disse...

Uma história intrigante sobre um casal audacioso. Aliás, intriga-me o seu múltiplo talento.
Um abraço!