terça-feira, julho 07, 2009

Uma conversa na net...

Abri janela e surgiu, assim, com ambiguidade do seu nome - Gwen.

Não sei se o som gutural, se o artifício do “W” a insinuar-se em vaga sofisticação de quem domina línguas germânicas... Certo é que não lhe resisti e cliquei...

Popular sim, revelava-se!... De resposta afiada na ponta dos dedos, saltitava, com mal disfarçado frenesi, de nick em nick, solícita, por vezes, outras vagamente agastada, quando um ou outro introduziam, no discurso anárquico, conotações eróticas. Em rigor, nada a distinguia, porém, na teia daqueles discursos cruzados, na sala de chat!...

Chamei-lhes discursos?! Melhor fora nomeá-los como poeira barulhenta em arremedo de sentido. A não ser, claro, a persistência daquele nick na retina, fatigada por um dia de trabalho...

Segui, portanto, mecanicamente, a rotação das conversas e... pronto! Aqui vou eu direito à sua janela. Os cumprimentos da praxe, blá...blá...blá... e, de rajada, anunciou categórica, que gostava de ler...

Sorri, intimamente, do despropósito e a atirei, com alguma indolência:

- “ E o que lês tu, Gwen”? ...

- “ De tudo, leio de tudo; mas gosto de literatura neo-realista!”...


Acordei então do torpor e, entre irónico e interessado, lancei um pouco sarcástico:

- “Talvez Paulo Coelho, não?!”...

Surgiu-me, assim, naturalmente, o nome do escritor da moda, pois, como expoente de literatura pronta digerir, seria facilmente reconhecível... e adequada à conversa!..

Que não, que conhecia o nome, mas a sua preferência ia para escritores sul-americanos...

- “Como assim, Gwen? ” - carreguei a ironia: - “não gostas de brasileiros?!”...

- “Não é isso! – apressou-se a esclarecer: - “quando refiro escritores sul-americanos tenho presentes, sobretudo, Gabriel Garcia Marques, Vargas Llosa e Isabel Allende...”

E eu a dar-lhe com os brasileiros:

- “E então o Jorge Amado e os seus “Capitães de Areia” e a celebrada “Gabriela, Cravo e Canela”, não te dizem nada, Gwen?.. E até o nosso Ferreira de Castro com sua “Selva”?

Desses escritores, especialmente dos portugueses, pouco sabia, mas que eu teria oportunidade de brilhar, recomendado alguns...

- “Quem sou eu Gwen, para recomendar seja o que for!... Para mais tenho sérias dúvidas que algum dos nossos escritores actuais queira ser classificado como neo-realista...” - soletrei, com letras mal batidas, em melancólico sorriso...

- “Mas há uns anos atrás, sim - acrescentei – “haviam uns senhores que de bom grado se assumiam como tal. Ainda tive o privilégio de conhecer alguns...”

- “Deves então ser muito velho” - atirou-me, em desafio irónico...

- “Claro que sou, Gwen!... Carlos de Oliveira, Alves Redol, Soeiro Pereira Gomes extinguiram-se com os últimos dinossauros - retorqui – “resta-me a convicção, porém, que como dinossauros poderosos deixaram algumas pegadas...”

Adivinhei um sorriso de simpatia e afoitei-me:

- “Mas que razões levam uma mulher, que gosta de literatura sul-americana, a identificar-se com o estranho nick de Gwen?... Não haveria por aí nomes mais de acordo com o teu gosto literário”?...

- “Olha que não”... - resposta imediata, como se aguardasse a pergunta - “Gwen” é diminutivo, de “Gweneviere”; ora, como saberás, Gwenviere é uma figura central na lenda do Santo Graal”. Não era o que esses “teus” escritores perseguiam”?!...

Confesso a perplexidade!Quem imaginaria?!... A lenda de “Camelot” assim atirada numa conversa virtual, que sentido faria?...

Porém, avancei no jogo :

- “Mas como sabes Gwenéviere destruiu a Távola Redonda e o “Graal” ficou cada vez mais distante... Tudo por culpa duma mulher – acrescentei - que não foi capaz de cumprir os seus deveres de rainha ...”

E, em desafio:

- “Que farias tu Gwen, no lugar dela?!... Entre o amor e o dever qual escolherias?...

- “Sem dúvida o amor”!...- afirmou, categórica.

E eu, a insinuar-me:

- “Dizes isso porque, com certeza, não és casada e não podes, portanto, colocar-te no papel de Gweneviere...”

- “Claro que sou... Ora que presunção a tua!” - ripostou.

E, um pouco irritada:

- “Quem destruiu a “Távola Redonda” não foi o amor casto de uma mulher. Desfez-se por estupidez dos homens, que mediram a transcendência da missão pela mesquinhez do ciúme...”

Subjugado pela lógica das palavras (ou dos sentimentos?) que me caíam no écran, julguei-me no direito de dizer, em vaga comiseração:

- “Talvez a “Távola Redonda” já não fizesse sentido!...Talvez os seus cavaleiros deixassem de acreditar no Graal para se baterem apenas pelo amor de uma mulher!...”

- “És pessimista ou estás nostálgico, amigo?...”- replicou.

Pressenti fervor, no lado de lá do écran:

- “O “Graal” está inscrito no coração dos homens e viverá enquanto não for conquistado o reino da liberdade para todos...”

Claro que é uma banalidade!... O certo, porém, é que a autenticidade da resposta tocou a minha corda sensível, sempre pronta a soltar-se...

Julgo que a pergunta seguinte (se fosse na vida real) sairia com a voz embargada:

- “Que fazes na vida, Gwen?” - soltei, não sei se em esforço de auto controle, se motivado por verdadeiro interesse...

Passaram uns segundos (com o peso de horas em tempo real) e resposta chegou, cristalina:

- “Sou operária... operária gráfica!...”

Ruíram, então, todos os meus artifícios... Acarinhei a cálida emoção e balbuciei:

- “Uma operária. uma operária na net!...”

- “E que fazes aqui, Gwen: uma operária gráfica?!" - perguntei movido, então, por verdadeiro desejo de compreender.

- “Estou sem trabalho, na prateleira e em alguma coisa hei-de gastar o tempo!... A net é uma forma de não morrer completamente estúpida...”

Pasmei, então, perante a insólita (?) realidade que me tombava na mesa de trabalho: -uma operária, pagando o preço das novas tecnologias e a subverter, com a vida vivida, a “ordem das coisas”...

Encaixei, por isso, a vaga provocação:

- “Que farias no meu lugar? Irias, certamente, bajular o patrão para teres algo para fazer...”

E, em altivez de mulher, certamente abusada na sua consciência:

- “Mas comigo fia mais fino!... – quem me explorou todos estes anos tem agora que me aguentar até eu querer!"...


(Pobre "intelectual" que te presumes, por vezes, meu caro narrador! Que grandeza nesta determinação em nada fazer!... Que vingança histórica!...

Que silogismo jurídico, que cartilha política ou ciência sociológica te poderão enquadrar, Gwen?... Que força ou que destino se encobrem na ambiguidade dessa teimosia?... Gostaria acreditar que transpostas contigo, como símbolo, a aurora indefinida da nova época que desponta...

Gostaria!... Mas vá lá saber-se, Gwen?!... Por isso te deixo estas linhas, como um registo de emoções, talvez como sintoma de esperanças perdidas... Porventura como prenúncio de vida (um novo Graal?) na banalidade do quotidiano, que a net transfigura. Ou entorpece...)

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Este texto tem mais de uma dezena de anos. Do tempo da novidade das novas tecnologias e da reconversão industrial, que fizeram milhares de vítimas e que, de alguma forma, anteciparam a crise económica e social presente.

A conversa é verdadeira. A heroína é pura ficção. E qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência...

26 comentários:

Paula Raposo disse...

E...a semelhança com a realidade nunca é pura coincidência...digo eu. Beijos.

MagyMay disse...

Li-te com toda a atenção e o texto "prendeu-me"...
Encantada, eu!!!
Vou voltar

maria m. disse...

Li o texto com bastante interesse. Gostei e tem, de facto, motivos para reflexão.

abraço.

mdsol disse...

:)))

triliti star disse...

houvera um Nobel para posts e seria para este.

vou já a correr mudar o meu nick :)))


abraço grande

Licínia Quitério disse...

Muito interessante. Dá para ficar a pensar. Nos novos meios, nos velhos problemas, nos homens e nas mulheres que são tão iguais e tão diferentes...
Enfim, coisas tuas.

Um beijo.

hfm disse...

Prendeste-me desde a primeira linha. Da realidade à ficção o fio de quem se interroga. Gostei muito.

Maria disse...

Encantada com este post. E contigo. Com a tua escrita. Independentemente se é (ou não) mera coincidência...

Beijos.

isabel mendes ferreira disse...

genial.


mas genial mesmo.




(a realidade é sempre mais paradoxal que a ficção)!


saio. encantada.

escarlate.due disse...

mera coincidência...
está bem, chama-lhe isso

OrCa disse...

Há aquele espantalho fatalista que nos diz que um texto extenso não merece honras de leitura cá por estes domínios...

Claro que só diz isso quem tem uma especial afinidade com o Tony Carreira, ou, então, porque nunca tropeçou com os teus textos!

Pois é, meu caro, com este vago despautério, aqui lavro o meu enlevo por te ir lendo.

Um grande abraço.

Nilson Barcelli disse...

Não fiquei convencido da verdade da conversa.
Nem do contrário.
Em qualquer caso o diálogo e as considerações feitas ao longo da "conversa", resultam num excelente texto, que merece ser lido com toda a atenção.
E o post não é grande... aguentaria ainda mais umas quantas linhas de diálogo, etc., porque se lê de um fôlego.
Continuas brilhante (velho é que não... de todo...). Parabéns, uma vez mais.
Abraço.

~pi disse...

grande escrita

grande mesmo,

quente, viva e

com veias

vi sí veis!! :)




beijo




~

vida de vidro disse...

Já estou como aquela senhora da literatura "pronta a digerir": não há coincidências.
O importante é a qualidade da escrita e a humanidade revelada. Gostei. Muito. **

mariab disse...

e vai ele e provoca "talvez Paulo Coelho, não?" ... :). até acho que a Gwen foi bem paciente na resposta!!
brinco, adorei o texto, tem a marca da qualidade deste lugar e toda a "auto-crítica" final é de uma humanidade exemplar.
beijos

jrd disse...

Genial, como diz a Isabel.
Uma operária construída...
Abraços

audrey disse...

a vida..... é assim mesmo

a vida

a vida real..............

(gostei muito..)

Peter disse...

Por vezes não nos lembramos disso:

"Do tempo da novidade das novas tecnologias e da reconversão industrial, que fizeram milhares de vítimas e que, de alguma forma, anteciparam a crise económica e social presente."

Abraço

© Piedade Araújo Sol disse...

coincidencia ou não...

gostei ...

beij

Vitória disse...

Não vou tecer consideraçõe sobre a forma como o texto está redigido, sería repetir, e tu sabes o teu valor.

Fizeste-me sorrir. Pela verdade e actualidade do relatado.
Há Graal onde menos suspeitamos e no fundo os "santinhos" somos nós mesmos.
Eu tive o meu há um par de anos com o meu mecânico. Mãos imundas de óleo. Era pianista, adorava Liszt... nas horas (pouco) vagas de que dispunha.


Não te esqueceste de mim. Outra surpresa, confesso.

São disse...

Meu caro, não há coincidências. Nem acasos, tampouco.

Fica bem.

jawaa disse...

"Tudo por culpa duma mulher – acrescentei - que não foi capaz de cumprir os seus deveres de rainha ..."
Venho agradecer as tuas palavras sempre gentis no meu sítio, mas não estava a ver-te dizer aquilo lá em cima... que é lá isso?
Voltarei para ler-te com mais tempo, ainda não regressei a casa.
Abraço

SILÊNCIO CULPADO disse...

Herético

Muito interessante e muito actual sempre. Por acaso também dediquei o meu post de hoje a uma operária.
As elites desvirtuadas raramente entendem os sentimentos genuínos e ainda menos os valores que os norteiam (com ou sem novas tecnologias).

Gostei.

Abraço

Miosotis disse...

... talvez! Talvez...

Um beijo

M. disse...

Estou de volta. Gostei muito do que encontrei.

Graça Pimentel disse...

Gostei do texto e dá que pensar. Hei-de voltar para ler outra vez.

Beijo