segunda-feira, outubro 12, 2009

Meu amigo Zeca - empresário (parte 2)

Vocês lembram-se de meu amigo Zeca?

A última vez que dele vos falei aqui deixei-o em afanosa tarefa de deslindar as pegadas dos moiros nas insígnias de um município no norte do País. Como não vos quero privar da sequência de sua saga, eis-me em solicito cumprimento de meu múnus de relator...

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Aquilo era demais, convenhamos - virem, assim uns “bárbaros” sulistas a dar lições de história local!... Suprema humilhação!

O distinto Presidente, como quem apanha um murro no estômago, titubeou, mas não se deu por vencido. Saiu da cadeira, sibilando – “essa agora!... essa agora!” -fez minuciosa análise à bandeira e, perante a contrariedade da evidência e a perplexidade dos circunstantes, exclamou:

- “E eu que nunca tinha dado por isso!... Mas já vou tirar tudo a limpo”...

Bamboleando as nádegas, tal odalisca fora de prazo, o Presidente atravessou a sala em direcção ao telefone. Do outro lado, titubeante, o vereador da Cultura replicando à pergunta inesperada:

- “Moiros?!... Se houve moiros no concelho?!”...
- “Sim. Moiros no concelho!... que sabes tu disso?!...” – insistiu ansioso o Presidente.

E tapando o telefone, enquanto aguardava, expectante, a resposta que se adivinhava frustrada, o Presidente alargou o olhar aos circunstantes e, em desabafo contido:

- “Tanto que me bati para nomear este gajo como vereador da Cultura e querem ver que não sabe se existiram moiros no Concelho...”

E, de facto, depois de uns momentos de silêncio constrangedor, pressentindo-se em ebulição os (parcos) neurónios do vereador, chegou a resposta, embrulhada em titubeantes desculpas: que não, que não sabia! e nem nunca lhe constara terem havido moiros no Concelho... Mas se ele, Presidente, assim o desejasse, dentro de momentos a Dr.ª Filomena, directora dos Serviços Culturais, estaria na sua presença para completa elucidação do assunto.

- “Manda-me cá essa gaja... “ - ordenou o Presidente, em voz de falsete e tom desabrido, suspeitando-se pelo esgar a enorme contrariedade que a presença da Directora lhe provocava.

Ainda o charmain insistiu, cerimoniosamente, ansioso seguramente por entrar no assunto que ali os trazia para o "Presidente não se incomodasse..., que não valia a pena... que por certo a Presidente tinha toda a razão e que nunca por ali houvera moiros..., que a sua leitura das insígnias municipais assentava, por certo, nalgum equívoco de alguém que não era especialista...”:

Mas o Presidente foi peremptório:

- “Não! Agora faço questão! Este assunto tem que ficar esclarecido. Eu não sou homem para deixar para depois o que pode ser resolvido já!...

Entreolharam-se os circunstantes, aceitando o destino com bonomia, bem sabendo eles que se “Paris vale uma missa” também os interesses económicos em jogo justificavam os desconchavos de um Presidente da Câmara...

O silêncio, cortado pelos olhares cruzados e os semi-sorrisos dos visitantes, foi entretanto interrompido por um discreto toque na porta e a entrada triunfal da Dr.ª Filomena, uma balzaquiana espampanante, emoldurada em tailleur laranja, sobre os qual se derramava uma opulenta cascata de cabelos negros, longos e encaracolados.

Afogueada e empenhadíssima, no alto de seus tacões, lançou sobre a sala, povoada de ilustres forasteiros, soberbo olhar famélico, em jeito de leoa que, na floresta, tivesse detectado, plena de lascívia felina, a novidade da caça... “Uma lua crepitosa em noite quente e plena de Agosto”, como o Zeca, em arroubo poético, distinguiu a aparição!...

Porém, sobre “quarto crescente” nas insígnias municipais, a Dr.ª Filomena prestou uns esclarecimentos confusos. Que talvez sim, ou talvez não, que a única hipótese admissível era a de que os cruzados, nos tempos da reconquista, terão atravessado o concelho; ora, como se sabe, onde há cruzado há moiro, logo é possível que...

Nesta fase da erudita explicação, quiçá prolixa, o Presidente pigarreou e, sardónico, soltou o chicote de seu falsete, zurzindo, impiedoso, o denodado esforço da Dr.ª Filomena que, com manifesto prazer, exibia seu charme e sua erudição...

- “Ó doutora, deixe lá essa treta dos cruzados!... A questão e simples e clara: houve ou não moiros no concelho?! ... É que se não esclarece esta magna questão, a mim e aos nossos visitantes, terei de concluir que não passa de uma burra com saias...”

O silêncio, até então oscilando entre o divertido e o enfado, gelou. A “pobre” doutora ainda ensaiou uma desculpa qualquer e, em sua fragilidade de vítima de um mais que evidente erro de casting, teve a ousadia de invocar a penúria do orçamento municipal para actividades culturais.

Antes o não fizera:

- “Ó sua... ó sua... incompetente! Pois atreve-se?!...” - casquinou o Presidente, qual cascavel cuspindo veneno - “eu não lhe admito, ouviu?! ... As minhas ordens são para cumprir, não para discutir!...”

E, colérico, com o dedinho roliço espetado:

- “Trate de saber imediatamente se houve moiros no concelho, antes que a reunião termine e estes senhores partam. Era o que me faltava!...”

E, descorçoado, atirando-se para o presidencial cadeirão:

- “Estou rodeando de incompetentes!...”

Era demais!... Como poderia o Zeca, fulminado pelos prenúncios crepitosos do vulcão pronto a explodir, aceitar o vexame aquele soberbo exemplar do “sexo fraco”?!...

Reagiu, portanto...

E perante a surpresa dos presentes e a apreensão do chairman, que sobretudo velava pelo bom resultado da diligência que ali os trazia, o Zeca insinou-se .

- “Ó senhor Presidente, tenho uma sugestão para resolver as preocupações, que nós inadvertidamente lhe causamos – o senhor presidente coloca no estandarte do Concelho o imponente menir que daqui se avista e nós levamos a connosco a malfadada lua...”

(Referia-se o meu amigo Zeca a um desse monumentais falos pré-históricos apontados ao Céus, que pululam no país rural e que, no caso, decorava a entrada dos Paços do Concelho, ao alcance do olhar através da janela aberta.)

A insólita proposta apanhou todos de surpresa. E intrigados entreolhavam-se. Apenas as longas pestanas da Dr.ª Filomena se moveram para o Zeca, num doce e cúmplice pestanejar, prenhe de promessas...

Entretanto, os sorrisos abriam-se, no rosto dos “bárbaros” visitantes sulistas! E, após fecunda ponderação, para pasmo dos presentes, o Presidente, confiando o queixo, exclamou em exaltada anuência.

- “Ora aí está uma sugestão a ter em conta...”

Depois de firmado o contrato, já de regresso a Lisboa, o chairman para o Zeca:

- “Francamente, Zeca! Você é um exagerado! Um menir, hã? Não lhe bastaria um bom boneco do Bordallo?!...

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Acaba de me telefonar o Zeca anunciando-me que, no concelho em causa, as eleições autárquicas foram ganhas pelo presidente de sempre. Que o contrato vai de vento em pompa! E que, assim, as suas visitas ao norte irão continuar.

Para proveito próprio e alegria da “competentíssima” Dr.ª Filomena que tem dado sobejas provas de seu talento...

Um sortudo, meu amigo Zeca, não acham?

16 comentários:

Paula Raposo disse...

Pois claro! Assim funciona o país...beijinhos.

Véu de Maya disse...

azinus azinum fricat...impagável e imperdível a tua crónica... que açorda vai por aí!...
abraços,

véu de maya

O Puma disse...

O teu excelente texto como sempre

transporta-me para a ideia

que o povo é quem mais ordenha

e como diz um amigo nosso

ordenha mas não mama

Moisés Nazareno disse...

Olá! Tudo bem como voce?

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Boa sorte!

Arabica disse...

Ai! Menires, bárbaros e moiras competências!

Vai de vento em popa, ai vai, vai!

:)

isabel mendes ferreira disse...

:)))))))))))))))))))))



(talento de re.contar sobre a ficção do texto).


beijo.

jrd disse...

Os Moiros, como o Zeca, quer estejam na Costa quer se atrevam no interior são mesmo sortudos.
Uma delícia.
Abraços

Frioleiras disse...

já que falas em mouros... (embora prefira vikings... e não aprecie o corão...) à meia-noite de 14 para 15 de Outubro... dedico-te um post ! Aparece lá a ver............

bj. bj

Oliver Pickwick disse...

Por uns instantes imaginei que o Zeca voltaria outra vez a bancarrota - pondo o negócio abaixo - por esmurrar (coberto de razão) o tal presidente. Porém, agiu com perspicácia.

"Bamboleando as nádegas, tal odalisca fora de prazo..."
Além da jurisprudência, do acurado olhar sobre a política, e de poeta sensível, tem também seu lado bad boy, hein? :)

"monumentais falos pré-históricos".
Vivendo e aprendendo! Já ouvi as mais complexas teorias sobre menires, algumas delas, inclusive, repletas de teorias de conspiração. No entanto, nenhuma assim... como direi... tão freudiana. :)
Um abraço!

P.S.: Na próxima, não deixe um delay tão grande entre primeira e segunda parte.

Demóstenes disse...

Narrativa fluída e muito bem escrita a agarrar o leitor até final.

Parece-me, no entanto, haver duas pequeníssimas imprecisões:

insinou-se em vez de (presumo) insinuou-se e confiando em vez de cofiando.

Voltarei mais vezes.

Branca disse...

Passando pra desejar um bom fds!

Bjo!

© Piedade Araújo Sol disse...

belo post com a acutilancia e a mestria de sempre.

bom fim de semana

um beij

mundo azul disse...

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...é assim, mesmo! Infelizmente...

Gostei do seu texto e gostei muito do seu poema no post anterior!

Você escreve muito bem!!!


Beijos de luz e o meu carinho...


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MagyMay disse...

A historinha está divina e com sempre bem escrita. Este tempinho em que a li, diverti-me.

E acho que até há por aí uns "presidentes" que aprofundam e resolvem e não são de virar as costas, a questões idênticas a esta.

Bom fim de semana Heretico e um beijito

São disse...

Claro que gostei...como não poderia deixar de ser.

Um abraço.

Graça Pires disse...

A arte de contar não é para todos. A ironia, essa, é para quem tem talento. Gostei.
Um abraço.