sexta-feira, dezembro 11, 2009

A Paz e os Direitos do Homem... pois claro!

Estamos confrontados – dizem os historiadores – não com o fim da História, mas porventura com algo mais catastrófico, ou seja, com uma espécie de “rarefacção dos acontecimentos” perante a qual a história se tornou impossível.

Explicitemos esta ideia. Com a queda do Muro de Berlim e a falência do sistema soviético, o capitalismo canibabilizou todo o sentido de negatividade. Onde até então existia dialéctica ergue-se agora um percurso de sentido único. Onde até então a densidade dos factos se projectava nas consciências e empolgava militâncias, hoje os factos despenham-se na sua profusão e nos efeitos especiais com que a comunicação social os apresenta, banalizando-os, encharcando o quotidiano com marasmo do idêntico por toda a parte.

Na política, na cultura, na média, na moda e até nas próprias causas que, mesmo quando se apresentam como “fracturantes”, são as mesmas, seguindo o mesmo padrão de sentido único...

Hoje, tudo se passa em tempo real. Já não há mais lugar à verdade real dos acontecimentos. Tudo se resume agora à coerência dos factos, imediatamente apreensível no alinhamento dos telejornais. Sabemos tudo, a toda a hora, na espuma do quotidiano ...

A história fica paralisada, não por ausência de acontecimentos, mas pela lassidão das consciências, empanturradas de informação. As chamadas maiorias silenciosas, a imensa indiferença das massas humanas, a falta de mobilização cívica têm certamente diversas explicações. Mas a inércia social não resulta seguramente por falta de motivos para acção cívica e política...

Nesta espécie de auto dissolução da história, todos os mecanismos da democracia política se degradam. E, nessa degradação, se precipitam valores políticos, cívicos e morais. As próprias exigências do exercício da liberdade e de respeito dos direitos do homem não passa de um simulacro.

A democracia planetária dos direitos do homem está para a liberdade real está como a Disneylandia está para imaginário social” – escreve Jean Baudrillard num livro célebre (A Ilusão do Fim ou a greve dos acontecimentos).

Se com o colapso do sistema soviético, o capitalismo devorou, como uma paródia universal, a dialéctica e a história, ao assumir todos contrários, numa grotesca síntese sem alternativa, é porque, na sua veleidade de dominação totalitária, devora a própria substância do ser humano para o reduzir à sua essência de ser produtivo...

Salva-se, porém, a cultura da liberdade e dos direitos do homem! Mas salva-se?!...

Que os digam os milhões e milhões de “gente descartável” , que à escala planetária são afastados, como excedentes (mercadoria portanto) do processo de produção e de consumo.

Que o digam as prostitutas na Tailândia, os índios no Brasil, os escravos na Mauritânia, as crianças e as mulheres em Ceilão, no Paquistão ou na Índia! Que o diga África! Que o digam, nos Estados Unidos da América, os muros de milhares de quilómetros electrificados e a vigilância electrónica (e os rifles) apontados aos emigrantes mexicanos!...

Da liberdade já só resta a ilusão publicitária, isto é, o grau zero da ideia, a que regula o regime liberal dos direitos do homem" (...) – exclama o autor referido, ou seja, “a promoção espectacular, a passagem do espaço histórico para o espaço publicitário, passando os media a ser o lugar de uma estratégia temporal de prestígio...”

Construímos a memória síntese dos nossos dias, mediante a profusão de imagens publicitárias que nos dispensam da participação dos acontecimentos realmente transformadores da vida e da sociedade

Talvez, a esta luz, se perceba melhor a aceitação acrítica de como “um discurso de guerra pode celebrar um Prémio da Paz” e o Nobel seja atribuído por antecipação do acontecimento celebrado (a Paz), que afinal não se vislumbra...

Nesta antecipação publicitária, se canibaliza o futuro e se procede à reciclagem dos "detritos" da história e dos mitos. Também os pais fundadores da nação norte americana, em nome da liberdade, permitiram a escravidão!...

Resta-nos a convicção que, ao longo dos tempos, sempre os escravos se revoltaram... E que, em seu "surdo ruído",a História prossegue seu caminho.

Bem se sabendo quão duras são suas dores...


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Bom fim de semana! (se possível...)

21 comentários:

jrd disse...

Excelente!
Cada momento da História saberá encontrar o seu Spartacus.

Vieira Calado disse...

Esperemos que, desta vez, também se revoltem!

Excelente, o seu texto.

Um abraço

Maria Valadas disse...

Excelente texto, narrado com com toda a frontalidade e sabedoria.

Haja paz no Planeta!

Bom fim de semana.

Beijo.

hfm disse...

A revolta dos escravos contra todos os seus senhores! Um abraço.

Graça Pires disse...

Um excelente texto para reflexão.
Beijos.

lino disse...

A excelência do texto dispensava lindamente a muleta de Jean Baudrillard, filósofo mais do que banal e pseudo-herético que julgo pouco ou nada ter em comum com o Herético dono deste espaço. Talvez um dia os verdadeiros pensadores se revoltem conta os "pensadores de pacotilha".

jorgeferrorosa disse...

Trabalho excelente. Reflectir sobre o assunto poderá ver a situação noutro prisma.
Abraço
Jorge Ferro Rosa

heretico disse...

Lino,

grato pelas tuas observações, que fora o que têm de elogiosas, considero justas.

mas para além da forma como tu ou eu possamos avaliar o filosofo, interessaram-me, no caso, as afirmações transcritas, que julgo documentarem (com autoridade eheheh) o sentido do texto.

abraços

maré disse...

excelente blogue!

e este tema sempre tão, necessariamente, actual.

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gostei que me batesse à porta
Obrigado

Genny Xavier disse...

Neste mundo globalizado, claros são os sinais do domínio econômico das grandes potências em relação aos demais países do globo, estes acabam por funcionar como objeto de imposições imperialistas daqueles, detentores de capital e poder e, assim, interferem no processo social e aguçam as desigualdades, as exclusões, a violência e a escravização dos povos diante das manobras do poder e da economia...
Mas, como você mesmo disse, sempre existirão os resistentes, aqueles que lutam e rompem correntes, aqueles que vão além da utopia idealizada e lutam no curso dos dias e das noites por um processo dialético de resistência e mudança.
Seu texto nos provoca e nos inquieta.
Um abraço.
Genny Xavier

Maria disse...

Inexoravelmente segue o seu caminho...
Excelente post!

Beijos e beijos

Frioleiras disse...

gostei, gostei muito deste teu post...




Na realidade, não acredito já em nada dos valores criados pela geração nascida no pós guerra.

Da história, sinto a plena convicção de que a civilização judaico-cristã está no fim.

Todas as civilizações tiveram o seu tempo e o seu 'princípio de Peter' .

A derrapagem começou, a meu ver, na época do Gorbachov.

Lembro-me de estar com um grupo de amigos, aquando do encontro em Reikiavic, no bar Imprevisto e um deles ter dito que seria o princípio do fim...
E foi. Foi o princípio do final dos 'ismos' . O 'princípio de Peter' atingiu o cume quando havia uma certa dignidade humana e valores. Aqui foi mesmo o 'sinal' de que o fim duma civilização poderia estar à porta.
Lembro-me de ter achado esse meu amigo 'meio parvo' com as considerações que, agora estou ciente de fazerem sentido.

Esta civilização de 2000 e tal anos teria de acabar...

Penso que estaremos quase como aquando da queda do império romano.
Dele surgiu a barbarie, os medievalismos, a queda também do império romano do oriente, o renascimento, a reforma, a contrareforma, o absolutismo, a revolução francesa, o iluminismo, o romantismo, a revolução industrial e... a partir daí toda a panóplia de ismos: comunismo, fascismo, socialismo, capitalismo e depois o princípio do fim com o neoliberalismo, a queda do comunismo e a bola de neve que se transformou no estrondo que foi a globalização.

A informática e a Tv foram o ar que ajudou a encher a grande bolha que está a rebentar e que deram origem ao endeusamento e poder dos media

E o que virá a seguir?

Provavelmente uma barbarie como foi no começo.

chineses, árabes e indianos que nos hão-de (aos ocidentais) tornar escravos do mundo falso e sem ideais que criámos e onde não há respeito pelo ser humano seja ele mulher ou homem. Voltaremos a ser escravos. O comércio irá parar totalmente às mãos dos chineses, a informática gerida por indianos e afins e a banca mundial poderá ficar no poder de árabes. Tudo à mistura com a bárbarie/terrorismo.

Mas destes povos só as elites é que mandam. Países onde democracia é palavra que não faz parte do léxico deles. Depois alguns países emergentes que por terem recursos naturais darão cartas.

Agora que qualquer coisa diferente está para acontecer tenho plena convicção e
futuro,
sonhos,
projectos
liberdade
e muito, muito menos igualdade
serão palavras que serão abolidas dos léxicos que hão-de vir.....

Desculpa este chorilho de disparates. Meti a foice em searas de que nada percebo. Sou frioleiras e as frioleiras só percebem de futilidades... daí estes disparates.

Deu-me para aqui !

Licínia Quitério disse...

Assizadas reflexões as tuas. Os escravos terão de novo o seu tempo, creio, mas até lá, muito sofrimento, muita dissolução das consciências. É um tempo poluído este que vivemos, a esbracejar num mundo que não encontra sentido.

manuel disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
heretico disse...

frio leira mente. viva, Frioleiras!

beijo.

grato.

jawaa disse...

Eu já me contentava em que cada um arrumasse a sua casa... era meio caminho andado.
Eu queria que o nosso PR (em quem não votei, mas que o aceito como democrata que me prezo de ser) desse um murro na mesa e estabelecesse um prazo brevíssimo aos senhores da Justiça (PGR e Presidente do Supremo) para que pusessem as cartas na mesa sobre o que há de verdade e mentira sobre quem nos governa. Todos dizem que sim mas que também, todos dizem coisas diferentes sobre o mesmo, alguém mente.
Desconfiar de tudo e de todos dá direitos a quem os não tem, nomeadamente ao atiçar da fogueira pelos media.
Há que repor algum rumo, seja ele qual for, que a barca vai mal. Todos têm de remar, mas que se saiba onde fixar os pés!

r. disse...

"Construímos a memória síntese dos nossos dias, mediante a profusão de imagens publicitárias que nos dispensam da participação dos acontecimentos realmente transformadores da vida e da sociedade"
ain't that the goddamn truth..

Véu de Maya disse...

Profundíssimo o teu texto...O grito da vida e da história terá de encontrar o seu rumo...em favor da liberdade e contra todas as formas de escravidão...Bem-hajas.

Abraços

M. disse...

Gostei muito. Pois claro!... :-))

éme. disse...

Gente descartável, pois é...
A História vai seguir e fazer-se, é certo... mas era preciso dar-lhe um empurrão diferente, não é?

OrCa disse...

Outra vez, aplauso com chapelada. Tornas-te de leitura obrigatória, digo eu.

Pois não será este o grande combate: lutar pela História? Não a das personagens, mas a dos povos. Contra o imediatismo que favorece a crassa ignorância e a ausência de faróis a iluminarem as rotas dos espíritos.

Tens de saber do trabalho das minhas amigas historiadoras, meu caro. Há ali um passado cheio de futuro!
Grande abraço.