sexta-feira, fevereiro 26, 2010

O rosto do capitalismo

Há pequenos nada que explodem em sentido. Pequenos gestos, inesperadas atitudes, insignificantes sinais que, na linguagem do quotidiano em que desgastamos os dias, se sobrepõem e se dilatam na sua expressividade, como paradigma dos tempos que correm. É a realidade a ultrapassar a ficção...

Tivéssemos o talento para narrar o inarrável e o imaginário dos romances de Charles Dickens, saltaria destas linhas, como se o século dezanove nos revistasse, com seu cortejo de horrores na implantação do capitalismo. Com a agravante de, agora, ser o próprio Estado cúmplice activo da crueldade.

Porventura, em nome do “capitalismo de rosto humano”. Certamente, em nome do “socialismo moderno”...

Como se sabe, o número oficial de desempregados no nosso país ultrapassa a percentagem de dez por cento da população activa. Não importa agora saber da fiabilidade das estatísticas, nem o número exacto de trabalhadores desempregados. Mas não será difícil para qualquer cidadão, dotado do mínimo de consciência social, compreender o drama humano que será ficar sem emprego e meios de subsistência...

Certo que, produto de conquistas sociais dos trabalhadores, nas economias do proclamado Estado social, os problemas individuais do desemprego, são amortecidos, mediante o respectivo subsídio, como contrapartida dos descontos do trabalhador, durante a vida activa.

Não importa também agora referir as barreiras legais para a atribuição do subsídio. Sublinha-se, porém, que o subsídio de desemprego não constitui uma benesse do estado ou da sociedade, pois que incorpora os descontos que regularmente o trabalhador fez para a Segurança Social.

Neste quadro, que sentido faz o conceito de “procura activa de emprego” e o indispensável comprovativo que os desempregados têm de apresentar, regularmente, nos Centros de Emprego para terem acesso ao subsídio?

Ora aí está um desse “pormenores” que revelam mais que dizem, ou procuram esconder o que manifestamente não podem calar. Esse o papel da ideologia subjacente...

No caso, a pretensão legal de rigor  esconde a imoralidade e a hipocrisia de responsabilizar o desempregado pela situação de desemprego (ou por sair dela), colocando-o numa situação dupla de precariedade social e dependência. De facto, até a manutenção do subsídio de desemprego depende de encontrar dois “empregadores” que aceitem atestar “a busca activa de emprego”...

E, como se fora pouco - lê-se e não se acredita! – não faltam abutres que tiram proveito do estado de necessidade dos desempregados.

Uma reportagem recente sobre a realidade social do nosso país, dava conta um jornal diário de Lisboa da existência de empregadores que cobram 5 euros aos desempregados para lhes carimbar “o papel” e de outros que impõem, como condição, a prestação de trabalho gratuito, antes de passarem o comprovativo...

Eis o capitalismo em todo o seu esplendor humanitário – o desespero usado como apropriação de “mais valia” e humilhação de quem precisa de trabalhar e sobreviver.

Com o apoio activo do Estado, que abriu o caminho a essa vergonha, mediante a introdução na legislação do trabalho do conceito de “busca activa de emprego”, como condição de atribuição do subsídio...

Denunciar e eliminar esta indignidade legislativa e semelhantes prepotências, mais que um dever de cidadania, é uma questão de higiene social...

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Adenda:

Muitas e boas razões, fazem-me sentir "cubano", como por vezes tenho a veleidade em afirmar.

Por isso, são-me de uma incomodidade dolorosa as greves de fome, que se verificam actualmente em Cuba.

Não há greves de fome "boas" e greves de fome "más"...


10 comentários:

Paula Raposo disse...

Tens razão. E sei de um dos meus filhos que não teve subsídio por que faltava não sei o quê, que na altura, achei uma abjecção...sem comentários. Emigrar foi a solução.
Beijos.

casa de passe disse...

pois, não basta ser um lindo país à beira mar plantado...

Ernesto, o avô

Licínia Quitério disse...

Como se nós fôssemos sempre a coluna do DEVE e nunca a do HAVER.

São disse...

Cobram ?! Obrigam a trabalhar?!
`´E obsceno!!

E, claro, ninguém faz nada!

E esqueceste uma coisa: já não existem trabalhadores, mas sim colaboradores!!

Fica bem.

lino disse...

Parece que o Teixeira dos Santos afirmou que o PEC ia incluir cortes nas prestações sociais. Cheira a mais uma facada nos desempregados involuntários.
Abraço

jrd disse...

Excelente!
Um rosto marcado pelo opróbrio e que nenhuma maquilhagem logrará humanizar. Nunca!
Abraços

maré disse...

subscrevo a inteireza do texto

e mais grave:
o rosto do capitalimo
vence e convence
pela apatia que gera

e temos as mãos cheias
...de utopias!

_____

um beijo

poemarte disse...

páro

escuto

leio

DEvorazMENTE

e antes de sair ( porque não senhora do tempo ) deixo




.
um beijo

OrCa disse...

Se não nos conhecessemos há um bom par de anos, diria que a tua consciência social chega a surpreender-me pela veemência, frontalidade e limpidez assertiva.

Assim, digo apenas que ela continua a surpreender-me por essas mesmas exactas razões.

Quanto ao conteúdo da presente, nada mais do que o despautério em que um «socialismo» da treta tem vindo a mergulhar o País.

Por vezes - e mutatis mutandis - traz-me à memória um outro «socialismo» da treta a que outras razões históricas apelidavam «nacional»... com o aplauso acrítico de uma população anestesiada.

Grande abraço.

OrCa disse...

... Talvez deva concluir o comentário anterior acrescentando:

aplauso esse que custou bem caro ao mundo todo.

Não se esqueçam!