quarta-feira, abril 14, 2010

Deslaçamento...

"Quando, há já umas semanas, ouvi um deputado do PCP José Soeiro (saravah, José Soeiro, digo agora eu!) subir à tribuna falar da luta dos mineiros de Neves Corvo, em Castro Verde, senti uma forte sensação de irrealidade, uma espécie de distância imensa entre tudo e tudo, o deslaçamento enorme que Portugal atravessa, sem direcção nem destino.

A pergunta que se me atravessou - e atravessou é o termo mais exacto - era: mas quem é que quer saber dos mineiros de Neves Corvo para alguma coisa? Mas a pergunta atravessada era na realidade outra: mas quem é que aqui, nesta sala, quer saber dos mineiros de Neves Corvo para alguma coisa?

Podia-se dizer que os comunistas querem, mas mesmo nesse sentido seria possível desvalorizar esse “querer”. No fundo, o que se passava era a mais standardizada das situações. Um deputado comunista alentejano, a falar de trabalhadores alentejanos, que são na sua maioria seus eleitores, e a enunciar uma clássica reivindicação sindical defendida por um sindicato que é também constituído na sua maioria por comunistas (...).

E era a função clássica de representação do “seu” eleitorado: os comunistas falam para o "seu" Alentejo, como os deputados da Madeira e dos Açores falam para os madeirenses ou os açorianos.

Mas não era só isso. Havia uma diferença...

E de novo a pergunta atravessada passou para outra expressão, muito mais atravessada, essa sim também muito mais complicada porque já caminhava para fora da pergunta, para uma resposta: por que razão nós falhamos a estes homens, nós falhamos aos portugueses como os mineiros de Neves Corvo, que mais do que quaisquer outros precisam de bom governo, porque são os mais frágeis, os primeiros a pagar os custos das asneiras que são cometidas lá longe, em Lisboa, num outro mundo tão distante do Alentejo como a Lua.

O pano de fundo das perguntas atravessadas é a, para mim, clara e evidente percepção da enorme, gigantesca indiferença com que olhamos para estes homens, os mineiros de Neves Corvo. Eles não são mais do que uma longínqua perturbação noticiosa na sua greve (entretanto suspensa), a que na Assembleia reagimos com total desatenção.

É quando muito uma coisa para os comunistas (...) ou uma excrescência anacrónica de “neo-realismo”, que não merece nem um parágrafo no mundo modernaço dos gadgets em que se entretém o primeiro-ministro, nem os interesses dos blogues finos da direita e dos blogues fracturantes da esquerda.

Este não é o Portugal deles, esta é a face póstuma de um Portugal que eles desconhecem e abominam, que vota politicamente errado (embora votem nos únicos que dão voz aos seus interesses, (...) que não éfashionable, não tem “marca" nem griffe, nem aparece no Time Out dos urbanos da moda, nem tem graça para ser gozado em qualquer programa menor de humor, como os que proliferam hoje por todo o lado.

Se aparecem nos jornais é como arqueologia industrial, arcaísmo, anacronismo, ou, pior ainda, folclore local, que é visto com a distanciação de uma bactéria exótica.

Os problemas sociais são para muita gente uma maçada. Melhor: as diferenças sociais e a contratualidade que daí surge são para muita gente uma maçada (...). Mas os mineiros de Neves Corvo existem, estão lá, à superfície e no fundo, vivem nas suas aldeias e vilas, com famílias, presas num Portugal tão profundo como o das minas onde trabalham (...).

Tinham duas reivindicações: o aumento do “subsídio de fundo” e a “comparticipação de Santa Bárbara" (...). O “fundo” era o fundo das minas, um lugar que dificilmente imaginamos na sua dureza, mesmo que as minas já não sejam como as do Germinal.

Mesmo assim, quanto vale trabalhar nestas condições? Como é que calculamos com justiça o valor de um trabalho duríssimo e perigoso? Não sei. Só sei que não pode ser calculado apenas em termos de pura “racionalidade económica” como agora se diz (...).

Isto é o Portugal que falhamos, o Portugal que ignoramos, o Portugal que deixamos deslaçar, fragmentar, perder-se numa deriva para a obscuridade que as luzes do espectáculo fátuo em que vivemos não alumiam.

E, no entanto, há muito desse Portugal lá fora: mineiros, pescadores, agricultores, operários, trabalhadores da construção civil, empregadas da limpeza, marinheiros, gente que faz os trabalhos menos qualificados nos hospitais, nas escolas, nas autarquias, numa deriva para a pobreza, para o desemprego, para o fim da breve esperança de um Portugal melhor e mais justo. (...)

Mas o nosso drama é o deslaçamento entre os dois mundos, a perda de contacto entre as realidades sociais diferentes, o afastamento de portugueses dos portugueses e a ignorância, quando não a indiferença, que os afasta uns dos outros. É por isso que não queremos saber para nada dos mineiros de Neves Corvo e da sua arcaica greve.

Na verdade, nunca houve muito cimento entre os portugueses, mas agora há menos e tudo trabalha para que ainda haja menos".

José Pacheco Pereira – Historiador e Deputado - in “Publico”- 10.04.2010 -Excertos do artigo.
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Tudo me distingue do autor deste artigo (até as barbas). Mas não deixo, por isso, de reconhecer nestas palavras uma actualidade pungente. O que apenas revela que os espíritos heréticos por vezes se encontram...

18 comentários:

lino disse...

É um nojo que o autor utilize a dramática situação de Neves-Corvo apenas com o intuito de atacar este governo, quando a agricultura (é a PAC, é a PAC), as pescas, as minas (Moncorvo, Aljustrel, parte de Neves-Corvo e outras) e tantas outras actividades fundamentais para o País foram destruídas sob a batuta do seu amo e senhor, o contabilista de Boliqueime. Parece que o povo tem memória curta.
Abraço

Maria disse...

Não deixa de ser um texto curioso, sendo escrito por quem é...

Beijos.

heretico disse...

Lino,

aqui não há inocentes. nem falta de memória.

... e tens toda a razão, mas uma coisa não diminui a outra. (digo eu que sou "heretico"...)

abraço

bettips disse...

L'enfant terrible do democrático ppd que a mim nem me aquece nem arrefece (que dizer, aquece com alguma náusea). Todos os que foram contra tudo o que lhes cheirasse a "melhor distribuição da riqueza" etc... tanto tempo e tão continuadamente.
Somos "heréticos" mas não cépticos nem temos memória curta, lá isso não. Historiadores, escritores, "deixem-nos trabalhar" no que sabem e mandar palpites sobre o vinho do porto, etc...
Abçs

Mar Arável disse...

O Pacheco ainda é deputado?

Véu de Maya disse...

Meu caro!
Um fim feliz...os espíritos heréticos encontram-se...mas estes casos tão bem apresentados no artigo, como são tratados na política?...
Abraço.

Maria Valadas disse...

Como filha de um ex-mineiro, sinto insultada a memória do meu pai e a de todos os mineiros.

Mais não digo, senão...

Uma boa semana.

Bj

Maria Valadas disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Graça Pires disse...

Apetece dizer: digam mal mas digam.
Há de facto um Portugal que falhamos e ignoramos ou tentamos ignorar para que não nos incomode. E sentimos o abandono dos mineiros e de outros trabalhadores como se fosse a deriva em que nos encontramos.
Um beijo, amigo.

tinta permanente disse...

Não me parece, também, que JPP seja 'voz de boa moral', e, de leque aberto, no que toca aos outros, nas gentes e no tempo, por mim bem pode vir o Demo escolher...
Com iluminada epifania, mesmo que, aparentemente noutro contexto, em 1910, já Almada dizia 'O povo completo será aquele que tiver reunido no seu máximo todas as qualidades e todos os defeitos. Coragem, portugueses, só vos faltam as qualidades!'...
...
Pois era pedâneo, era; dizem, por lá, com ligações ao 'Malhadinhas'...
(se olhar o 'Acerca de mim' não há nada que enganar: todos os adjectivos são masculinos...)

Abraço!

lis disse...

Deixo um abraço e imagino quão difícil deve ser desatar os laços
que prendem "tudo e tudo" rs em Portugal.

Vieira Calado disse...

A pergunta é boa:

quem é quer saber dos mineiros de Neves Corvo

dos outros mineiros todos

e

no fundo,

quem é que quer saber daqueles que realmente fazem alguma coisa?

O que se vê é toda a gente preocupada com a "penúria"

em que caíram os que nos roubam todos os dias: os banqueiros

os "empreendedores"

os patos bravos...

Um forte abraço

jrd disse...

Abstenho-me de comentar o autor.
Mas reconheço que são as "Minas da Razão"...

Fragmentos Culturais disse...

... um beijo,

alice disse...

querido herético, quero apenas deixar-lhe um beijinho e os votos de um óptimo fim de semana :)

Licínia Quitério disse...

Talvez Pacheco queira dizer: mas eu alguma vez quis saber dos mineiros de Neves Corvo? E não creio que soe a um mea culpa, mas tão só a uma excentricidade do "pensador" com falta de tribuna.
Ah "este reino de Pacheco"! Ah os mineiros remetidos a ilustração do neo-realismo! Ainda há vozes que falam por eles e para eles. Bem as querem calar com ruidosos e bacocos discursos. Bem querem...

jawaa disse...

Herético, não céptico, afinal.
Português de gema.
Um abraço.

maré disse...

eu não tinha lido este artigo como , pelo menos, nestas últimas semanas quase nada, mas surpreende-me este humanismo que não me habituei a "ver" no Pacheco Pereira.
a questão é esta mesma: é tão grande o tal distanciamento da difícil realidade deste país de pobres por parte de quem está incumbido de "pensar" o país...

e dava pano para mangas falar sobre este assunto.

deixo-lhe um beijo