terça-feira, maio 11, 2010

O Partido Comunista, os católicos e a Igreja

"Muitas vezes o Partido Comunista Português tem definido a sua posição em relação ao problema religioso, aos católicos e à Igreja. O Partido Comunista tem afirmado e reafirmado os seus princípios de respeito pela liberdade de crença e de prática de culto e o propósito de fazer tudo quanto estiver ao seu alcance para que tais princípios sejam uma realidade no Portugal democrático de amanhã.

O Partido Comunista, ainda que tendo como base teórica o materialismo dialéctico, entende que as convicções religiosas, por si só, não são susceptíveis de afastar os homens na realização de um programa social e político e que, desta forma, comunistas e católicos podem e devem unir-se em defesa dos seus anseios comuns, em defesa dos interesses e aspirações dos deserdados e ofendidos, do povo e do país.

O Partido Comunista tem assim proclamado a sua vontade de união com os católicos e, na prática da sua actividade, tem demonstrado a sinceridade das suas afirmações.

A esta nossa posição de concórdia, de entendimento, de unidade, que resposta têm dado os católicos? Aqui há que distinguir. Por um lado, os trabalhadores católicos, assim como muitos católicos progressistas, particularmente jovens, têm compreendido a necessidade desta união e têm engrossado a frente da luta pelo pão, pela liberdade, pelo progresso e pela independência.

Por outro lado, a Igreja Católica, pela boca dos seus mais autorizados representantes, como o Cardeal Cerejeira, altos dignitários e imprensa, longe de uma posição de concórdia e tolerância, têm tomado uma posição política clara, pregando o ódio aos comunistas e outros democratas e aconselhando o apoio ao salazarismo.

A Igreja intervém assim activamente na política, colocando-se ao lado da ditadura fascista contra as aspirações democráticas do povo português.

Altera isso a nossa posição em relação aos católicos? Não, não altera. Nós, comunistas, defensores do nosso povo e da nossa pátria, continuamos desejando sinceramente a unidade com os católicos progressistas na luta pela realização das nossas comuns aspirações..."
(...)
Álvaro Cunhal
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Texto publicado no jornal «Avante!» em 1947.
Reeditado pela Editorial Avante em 2007, nas Obras Escolhidas de Álvaro Cunhal - Tomo I, pp. 789-812
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O artigo integral em Socialismo

19 comentários:

São disse...

Cerejeira seguia no encalço do Papa Pio XII, que se calou perante o nazismo mas que falou bem alto contra o comunismo.

Uma noite serena.

Mar Arável disse...

Boa memória

Abraço

arlindo disse...

Olá camaradas. Esta treta de comunismo e católicos não dá certo! Essa K7 já tem a fita estragada. Já foi chão que deu uvas!

jrd disse...

Texto mais do que actual.
Um abraço

escarlate.due disse...

milagre, milagre era não misturar politica com religião, mas isso seria um m8ilagre tão grande que acho que nem um deus consegu7iria realiza-lo

lino disse...

Houve e continua a haver centenas de católicos a militar no Partido Comunista.
Abraço

Licínia Quitério disse...

Um texto infelizmente tão actual. A intolerância da Igreja e a sua promiscuidade com o poder foram sempre obstáculos à união de comunistas e católicos.

Saudades de Álvaro Cunhal.

maria manuel disse...

lembro Sophia de mello Breyner, ao que sei católica progressita, que escreveu também apelando á justiça...

o ideal era o estado laico, independente das religiões que nele se professassem.

e religiões verdadeiras, para as pessoas ´crentes e de fé, de acordo com a vida, as palavras e os valores daqueles que as inspiraram;
não "religiões" inventadas/manipuladas por instituições, plenas de poder, riquezas e bens materiais, maus exemplos de conduta, ao longo dos tempos em várias situações, apoiantes de crimes, criminosos e ditaduras, etc.

Graça Pires disse...

Álvaro Cunhal era um homem lúcido...
Um beijo, amigo.

mundo azul disse...

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Muito bom o texto! Obrigada, por dividir conosco...


Beijos de luz e o meu carinho!!!

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gabriela r martins disse...

há algumas verdades que convém recordar.....




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um beijo

casa de passe disse...

depois de grande ausência apareço e, estava eu muito compenetrada a ler, julgando que isto era um artigo seu e, de repente aparece-me o cardeal cerejeira...

bem, parece que o quartel general continua em abrantes, como dantes.

gostei de ler.


Nini

mdsol disse...

:))

Chris disse...

Uma partilha a não esquecer.
Um beijo
Chris

Virgínia do Carmo disse...

Considero que Álvaro Cunhal foi um homem sábio, este texto prova-o. Na verdade, para mim o cristianismo e o comunismo, na sua essência, têm muito em comum. É pena que os homens se ocupem tanto com a deturpação do esencial...

E isto é a muito humilde opinião de alguém que até pratica o catolicismo - porque me move uma essência, ainda que me desiludam os Homens...

Obrigada pela partilha

Abraço

Fragmentos Culturais disse...

... vim para te deixar um beijo,

Véu de Maya disse...

Alta lucidez e profunda sabedoria a de Alvaro Cunhal...Uma excelente texto, cheio de actualidade.

Abraço,

Véu de Maya

dona tela disse...

O TEMPO PASSA, NÃO É?

alice disse...

gosto muito do pensamento de álvaro cunhal e este texto de há 53 anos espelha bem a sua inteligência futurista, já que se mantém actual. é prodigioso. um beijinho, heretico.