quarta-feira, junho 30, 2010

Burocratas da bola...

Surpreendo-me a escrever sobre a bola. Eu explico...

Tenho com o futebol uma relação que diria adúltera. Sempre amei a bola, mas sempre a troquei por emoções mais comezinhas. Em criança, no microcosmos social da minha infância, quando como “bando de pardais à solta”, o adro da igreja era arena de nossos folguedos. E, então, a bola de trapos circulava entre nós, com a mágica grandeza de quem pontapeia a Lua...

Um dia apareceu minha Mãe com uma bola de borracha, não maior que o tamanho de um punho e, com aquele sorriso terno que ainda hoje me afaga a alma, advertiu-me: - “espero que, a partir de agora, não continuem a desaparecer as meias cá de casa...”. Cujo destino - o das meias – era, como se presume, municiar a reserva estratégica das bolas de trapos...

Garanto-vos que, ao longo da vida, foi para mim este um dos presentes mais preciosos, que me permitiu, naquela época, subir mais uns degraus na consideração social dos putos da aldeia e, em especial, dos meus comparsas da bola...

Acontece, porém, que subir na “escala social” tem os seus contras. E ser o “dono da bola” tem os seus quês... A questão é que, naquele tempo, a maioria andava descalça e as chuteiras eram, portanto, os cinco dedos de cada pé. Usar um par de botas cardadas era, pois, nessa contingência, não apenas um privilégio, mas também uma decisiva vantagem no jogo da bola, como bem se compreende.

Por isso, numa espécie de luta de classes antecipada, a maioria obrigava os raros que usavam sapatos a descalçarem-se para poderem entrar em jogo. Ainda argumentei, titubeante, com a minha qualidade de “dono da bola”, mas antes não o fizera, pois que, reunido o infantil conselho de estado, a maioria descalça deliberou prescindir da bola de borracha e se eu queria jogar que o fizesse sozinho. E que tivesse bom proveito mais a “minha” bola...

Entre a bola e os amigos, escolhi, naturalmente, os amigos. Imaginem, porém, o drama de uns pés mimosos a jogarem naquele “relvado”, povoado de pedras, areias e covas, como era então o adro da Igreja. Breve ficavam repletos de mazelas ...

Ensaiei, por isso, (e agora sem oposição da maioria) o lugar de guarda-redes, que ninguém queria. Mas cedo percebi que o prazer da bola está em correr atrás dela e que o jogo é para ser jogado e não para vê-lo passar, parado!...

Pedi, por isso, (“por exaustão” eheheh) a substituição na equipa e a “minha” bola lá continuou a rolar no melhor espírito comunitário... E, como na vida, o que se perde num lado se ganha por outro, passei a passar as tardes a jogar à “apanhada” ou às “escondidas” com as rapariguinhas da minha idade, com vantagem de poder jogar calçado, entre outros privilégios de recorte mais delicado...

Quando mais tarde subi ao Liceu ainda fiz uns bons jogos de futebol, num terreno baldio nos arrabaldes da cidade. Mas a vida é caprichosa – num jogo de “tudo ou nada”, ao saltar de cabeça a uma bola bombeada para a área, fiz um lanho nos lábios e parti um dente a um dos meus melhores amigos. O que foi um caso sério com o reitor...

Manifestamente, o meu destino não era o futebol. E, por isso, deixei de jogar...Ainda tentei coleccionar “cromos da bola”, talvez para sublimar a frustração.

Porém, não tardei em perceber, no ardor da minha imaginação de adolescente, que as pernas da Cyd Charisse e da Virgínia Mayo, ou os seios da Ava Gardner tinham outro encanto que não as pernas do Pedroto ou da carantonha do Barrigana, velhas glórias do “FCP”, meu clube de sempre. E os toques na “redondinha” passaram a ser outros...

Enfim, por uma vez, a magia do cinema destronou o futebol...

Não me vou alongar na minha relação de amor/ódio com o futebol. Confesso-vos apenas que, em determinada época, me divorciei em absoluto. O “f” de futebol estava, para meu gosto, demasiado embrulhado noutros “ff”, de forma que com a água do banho despejei também o prazer da bola. E assim, com alguma sobranceria - reconheço – transferi-me, com armas e bagagens, para outros amores e outros interesses.

Hoje, em boa medida, (porque o ciclo se estreita e poucos prazeres me restam) gostava de me reconciliar com o futebol. Totalmente, porque é um belo e inteligente jogo... Mas quando oiço os “crânios” da bola depois dos jogos a pretenderem justificar o injustificável, ou a excelsa criatura que comanda a selecção a substituir jogadores porque “estava no plano do jogo” vem à superfície todo o meu azedume e desisto, rezingando para os meus botões – “arre! estou farto de burocratas...”

Salva-me, nesta emergência, o prazer de um poeminha e a vossa calorosa cumplicidade...

21 comentários:

Nilson Barcelli disse...

O futebol é um jogo de emoções. Dentro e fora das quatro linhas, ainda que com diferentes contornos.

O problema do "plano do jogo” foi não ter em conta esse facto, nomeadamente o estado emocional da equipa, que toda a gente viu que estava de rastos desde o primeiro minuto.
E o treinador também deve ser um gestor de emoções.
Que o diga o Scolari, dentro e fora do campo.

Abraço.

Maria disse...

Delicioso post!
... "entre outros privilégios de recorte mais delicado..." é simplesmente delicioso...

Beijos.

batista disse...

ah, meu Amigo-irmão, em boa hora e belo post te revejo: parabéns!

deixo-te um abraço fraterno.

hfm disse...

Toda a cumplicidade e, neste caso, sublinhando o que está escrito no penúltimo parágrafo.
Um abraço

escarlate.due disse...

agora é que podias coleccionar os cromos da bola, ups, burocratas queria eu dizer :)

lino disse...

Belo texto, ainda por cima com um final feliz, esse do fartanço dos burocratas.
Abraço

Mar Arável disse...

Rebola a bola e a sacola

Eu gosto de um bom futebol

não gosto do jogo à bola

muito menos na secretaria

Abraço

lis disse...

heretico
O futebol sempre foi um entrave para as relaçoes amorosas.
Há ressentimentos entre os casais por causa dessa bola que os homens amam mais que o aconchego de suas amadas. Há excessões rsrs
De quatro em quatro anos abre-se um parentêses porque surge a identidade nacional e ninguém resiste( nem as mulheres), a torcer pelo seu país e seus meninos deslumbrados e pobres ricos.
Voce sabe que aqui no meu país a bola é também o melhor presente ? e nas várzeas há "bando de pardais à solta", apaixonadíssimos pelo único caminho que com um pouquinho de sorte e genialidade (agora muito raro), pode os levar a glória!
De verdade, gostei muito dessa Copa na África do Sul, valoriza o país muda o paradigma e sustenta o espírito de liberdade dos africanos.
E aqui no Brasil, país de muitas mazelas e onde o tráfico campeia nos morros e a desigualdade com o asfalto é gigante e gritante, gosto de ver a garotada pobre se dar bem , dinheiro melhor empregado do que o que fica nas mãos dos corruptos políticos.
Amei a sua crônica heretico, muito
"redondinha" e que bom os toques agora serem outros , ganho eu, podendo usufruir da sua presença aqui numa leitura sempre tão deliciosa!
Amanhã o Brasil joga com a Holanda país esse que tentou invadir o nosso território até então ainda de Portugal e perdeu! que amanhã perca de novo! rsrs
e como disse um certo poeta faz diferença as dimensões do local onde se vive e onde se experimenta as dores e alegrias , pode-se "adormecer com uma mao debaixo da cabeça / e a outra num aterro de planetas".
nao estou confiando nada nessa seleção de "pernas de pau".
Posso ficar desolada!
abraços heretico

Maria Clarinda disse...

Adorei o teu post , as tuas palavras deliciosas...
Jhs

OrCa disse...

Ora aí está uma abordagem à bola que nos aproxima tremendamente!

Resumindo, direi apenas que «seguir o plano do jogo», contra as evidências do mesmo é a auto-denúncia da burocratice idiota que nos assola a existência.

Depois, com a nossa bola de trapos, talvez não vestíssemos absolutamente a camisola... Mas despíamos seguramente a peúga. ;-»

Um forte abraço.

© Piedade Araújo Sol disse...

eu não entendo nada de futebol, mas acho que é um jogo de emoçoes, por vezes totalmente irracionais, mas, quando há jogos importantes como os da selecçao, embora não goste de ver (fico muito enervada) gosto que seja Portugal a ganhar.

enfim....mas foi o que foi...

gostei de ler este post, diferente do que escreves, mas que emrece leitura.

bom fim de semana.

beij

Véu de Maya disse...

Belíssima a escrita... e ternas as memórias.Sempre um prazer ler-te.

abraço,

Véu de Maya.

M. disse...

Adorei ler-te neste texto.

Licínia Quitério disse...

Adorei a história do teu relacionamento com o futebol. Aquela de jogar descalço com bola de borracha até me fez arrepiar.
Tudo passou, com mais ou menos emoção, com mais ou menos traições amorosas. O que tu não consegues aceitar são os burocratas e tens toda a razão.

Muito bem contado.

Um abraço.

MagyMay disse...

Uma salva de palmas!!!
... para quando, de quando em vez, te alembras de escrevinhar de maneira magistral trivialidades...
... daquelas, de quem igualmente gosta de o balancear do cacilheiro, do erudito dos manjericos e do empedrado das calçadas... (rs)

Beijo

Virgínia do Carmo disse...

Pois a minha relação com o futebol é recente; Antes, era-me indiferente; mas às tantas nasceu-me um afecto com travo a nacionalismo (Burocracias aparte!)e deu-me para torcer com afinco pela selecção... e já desisti de tentar encontrar explicações!

Abraço

mdsol disse...

Está-se no bom caminho, por aqui.

:)))

[Só não concordo com o termo burocrata, mas não é hora de explicações, depois de um texto tão bonito. Podiam parecer burocratas, e eu não me quero arriscar...]

Frioleiras disse...

eu..................não gosto de football.

São disse...

Aprecio futebol, porque tem decisões rápidas e jogadas incríveis.

Ver Messi a jogar é uma maravilha, por exemplo.

Para não ficar tão frustrada quanto me pareces estar, recuso-me a ver qualquer um dos inúmeros programas sobre o tema que invadem durante todo o ano as nossas televisões!

Quanto a Carlos Queiroz...bom, que se pode dizer? Mas também Ronaldo!

Boa semana.

Oliver Pickwick disse...

Desde a mais tenra idade fui dono de bola, condição sine qua non para o jogador "perna-de-pau" ser escalado em um jogo. Mas, também, já fiz algumas bolas de meia durante a infância e a pré-adolescência. A tentação do "exótico" e "diferente" faz parte da natureza humana.
Aqui, houve um famoso técnico de futebol que afirmava conhecer o bom jogador de futebol no "arriar das malas", isto é, no momento da chegada à sede do time que ele dirigia, dos jovens que migravam do interior para aventurarem-se em um teste nos grandes times das capitais.
Quanto à sua destreza como jogador de futebol, no "arriar" da leitura da crônica, logo percebi uma distância de anos-luz de Pelé. :)
Um abraço!

Mel de Carvalho disse...

De burocracia estudei umas coisitas na Faculdade, e, "especializei-me" na vida real; de futebol não sei nada, a bem dizer nem sei se a bola é redonda, porque, sendo algo que me "tira do sério" pelos milhões que envolve num pais de míseros "patacos" onde os pobres são cada dia mais, e mais pobres, me recuso a ver. Quero lá saber se ganham ou se perdem... O pais devia jubilar era de não ter tantos idosos a mendigar, tantos em lares onde ninguém vai, tantas crianças sem um colo... isso sim. O resto? balelas...

Do seu texto, estimado Herético, digo-lhe que é, aliás como sempre, digno de jogar na selecção. Excelente crónica de costumes.
Bem-haja pela partilha
Fraterno abraço
Mel