quinta-feira, agosto 19, 2010

O gelado...

Dois rectângulos concêntricos e uma rua perpendicular em direcção à praia, definem a centralidade da simpática vila. Bordejando o rectângulo exterior, restaurantes e amplas esplanadas que, nas noites encaloradas, regurgitam.

Ultrapassada linha da rua, o rectângulo exterior encolhe, proporcionalmente, em cada lado, e define uma praça aprazível, onde a criançada se solta e os velhos se sentam, reclinados em bancos de alvenaria. Ao centro um fontanário sem água...

E são, agora, os artesãos e artistas a colorir o rebordo interior da praça. Jovens, alguns deles com crianças pela mão, que, no jogo da vida e na falta de emprego estável, fazem seu ganha-pão, na vontade decidida de não baquear, derrotados. Comovente esta determinação...

A rua principal, descaída para o lado esquerdo estende-se, por uns cinquenta metros, em direcção ao marulhar das ondas, escondendo, lá ao fundo, na rarefacção da luz, sabe-se lá que amores ou pecados... De um lado e outro da rua, restaurantes e lojas de quinquilharias, hierarquizados no gosto e na qualidade, à medida em que se desce e se afastam o centro...

Do lado sul, encostada ao limite exterior da praça, uma capela setecentista convive, separada apenas por estreita quelha, com um apreciado bar, onde, uma vez por outra, se ouvem canções em voga. Cá fora, para compensar a limitada lotação no interior, um balcão provisório, em plena esplanada, que serve em pé, caudais de cerveja e outras bebidas.

Como se compreende, este é o centro daquele espaço fervilhante...

Acresce que, a escasso meio quilómetro, um parque de campismo alimenta, em vagas sucessivas, a fornalha crepitante dos corpos misturados. Nada os distingue, apenas o olhar atento. A grande fractura é apenas a idade...

Tive sorte naquela noite. Acabadinho de chegar à apinhadíssima esplanada, vagou uma mesa bem encostada ao bar, em local estratégico, que permitia desfrutar, em grande plano, o horizonte da praça e, em pormenor, olhar os rostos, assim próximos, na moleza da noite estival.

Enquanto bebericava um inócuo Favaios gelado (moscatel do Douro) e minha mulher o inevitável chá de ervas, dei-me conta do quarentão casal da mesa em frente, acompanhado de duas filhas, naquela idade indefinida entre juventude e a adolescência.

Todos enormes - não direi gordos, pois o excesso de “bagagem” era harmoniosamente distribuída por todo o corpo. Direi até que, nos gestos e no porte, transparecia uma certa elegância que fazia esquecer o óbvio excesso de peso...

À frente de cada um, uma vistosa taça de gelado. Que, com manifesto prazer, cada qual, saboreava, em seu estilo peculiar. Quase ao mesmo tempo terminaram, deliciando-se com a última gota...

Foi, então, que o homem, até aí de costas, se levantou. Dirigiu-se ao bar e, passados minutos, enquanto as mulheres tricotavam uma qualquer conversa, surge, glorioso, ostentando enorme e festiva travessa, engalanada com gelado de todas as especialidades, mediante as palmas das filhas e o sorriso dos circunstantes...

Como em ritual pre-estabelecido, cada um, com sua colher, atacou a montanha de gelado. Deliciados e indiferentes...

Pressenti alguma incomodidade inicial, no olhar, com que a menina mais nova, de vez em quando me brindava. À medida, porém, em que o gelado se derretia, também seu olhar. A vaga irritação deu lugar a uma discreta volúpia de gestos, em que o gelado e a boca, se transfiguravam em metamorfose do Desejo.

- “Talvez Eros seja um deus voraz e efémero, como gelado em noite de Verão”- murmurei para os meus botões...
(...)

(Fora eu escultor e gravaria, em pedra, o momento.)


19 comentários:

hfm disse...

Uma bela e acutilante imagem.

jrd disse...

A midsummer night's Favaios.
Abraço

O Puma disse...

Como eu te compreendo

excepto no Favaios

com Setúbal aqui tão perto

Maria disse...

Tu és demais... quero eu dizer, és um excelente observador...

:)))

Beijo.

Rogério Pereira disse...

Sendo as palavras
menos moldáveis que a pedra
ficou aqui bem esculpido
o texto terno desse momento

Boa?

Márcia Maia disse...

dá para ver a cena como se fosse um filme.

© Piedade Araújo Sol disse...

hehehe a realidade de um país em férias...

beij

Paula Raposo disse...

Mas ficou gravado nestas tuas palavras excelentes! Cheguei a visualizar a cena toda. Obrigada. Um beijo.
P.S.-Eu também iria no Favaios...

Licínia Quitério disse...

Visões nocturnas. Miragens do Verão. Não, a culpa não é do Favaios ;)

lino disse...

Excelente texto. Para mim pode sair uma caneca bem gelada e melhor tirada; talvez uma atrás da outra.
Abraço

lis disse...

Vilas em noites de verão e temos aí um mix colorido e diversificado, calorentos, a procura de sorvetes bem geladinhos .
Assim imagino esse barzinho com cadeiras nas calçadas e fervilhar pulsante. Muito bem retratado , apesar do friozinho do inverno hoje, senti-me em uma de nossas praias abarrotadas em dias de 40º rs
todos voluptuosos rs
deixo abraços heretico

Maria P. disse...

Tão atento...
:)

Beijos*

Graça Pimentel disse...

E o momento ficou gravado...

beijo

Fragmentos Culturais disse...

... voltarei para ler este texto!
Hoje já passei meus limites...
Beijo,

MagyMay disse...

Tudo, tudo... uma qualquer forma de gulodice.
(inclusivé o texto...rs)

Beijo, Herético

bettips disse...

Botero

como em todas as praias
e a centralidade globalizante
da quinquilharia.

Comoventes, outros, os pormenores de certas vidas, como os vês.
Abç

Fragmentos Culturais disse...

... pois eu suponho que a tua exaltação do gelado perderia muito da vivacidade com que 'esculpiste' em palavras esta encantadora descrição!
Sendo que até o próprio ritual do gelado sorvido com prazer... se quedaria sem aromas!

Lindamente poética esta tua prosa de costumes!
Um beijo,

jawaa disse...

Por mão de mestre, a descrição que pintas do prazer e do egoísmo puro. Porque um dia o estado social vai pagar as bandas gástricas...!

M. disse...

O Favaios acentuou-te a perspicácia na observação, suponho... :-)