sábado, outubro 02, 2010

Até quando?...

Acolitado pelo Ministro da Finanças, o senhor Primeiro-ministro (ou seria o Ministro das Finanças acolitado pelo Primeiro-ministro?) convocou luzida conferência de imprensa para anunciar ao País o desastre!...
“Medidas duras” a exigirem coragem – clama, afivelando a pose de “dor no coração” o Primeiro-ministro!... “Medidas necessárias” para aplacar os mercados financeiros – sustenta, pingando a lágrima das noites mal dormidas, o senhor Ministro das Finanças!...
Do alto de seu ilustre cargo, o senhor Presidente da República contorce-se em esgares de protagonismo, caído como “mel na sopa”, a adoçar motivações para nova candidatura presidencial…
No Parlamento, a direita encena a rábula! Nega com a boca o que lhe vai no coração – quer dizer, aumenta a parada para deixar passar o orçamento… que faria!
Na pantalha das televisões, os habituais ex-ministros das Finanças e “catedráticos” falando de cátedra como seria de esperar, rasgam as vestes em compungido amor pátrio (como se não tivessem sido, durante décadas, a caução das políticas prosseguidas) e, em dantescas visões, exigem mais e mais do cidadão pagante e do corpo exaurido da Pátria…
Nas excelsas instâncias comunitárias, a burocrática ambivalência – a cenoura dos aplausos numa mão e o chicote da ameaça na outra!...
Seriam ridículos, não fora a dimensão da tragédia!...
Haja Deus! O povo é sereno e os mercados vão acalmar. Depois deste novo aperto o deficit das finanças públicas, no ano de 2012, estará “mais ou menos” (Primeiro-ministro dixit) ao nível do deficit da Alemanha!... Ora bem sabemos quanto são seguras as previsões de Sócrates e do seu Governo…
Porém eu, céptico, que pouco sabe de economia e menos de finanças, retenho a informação, porventura distraída do senhor Primeiro-ministro, de que o orçamento para 2011 ficará ao nível das receitas de 2008. Querem maior confissão de fracasso da governação e deretrocesso do País?
O velho Mestre de Finanças Públicas, prof. Teixeira Ribeiro, deve estar a dar voltas no túmulo. Pois não é pressuposto dos cânones do equilíbrio orçamental o aumento constante das receitas do Estado em razão do aumento da matéria colectável e do desenvolvimento do económico. Reconhecer que as receitas públicas regridem é, assim, a confissão do desastre políticas económicas e da consequente anemia do País…
Nada que pessoas avisadas não tenham patrioticamente alertado, defendendo outra política, em ruptura com as políticas de desastre nacional, que o PS e o PSD, em alternância, têm imposto ao País, há décadas, sob a batuta da instâncias comunitárias…
Quem não se lembrará da parábola da panela de ferro e da panela de barro, introduzida no discurso político, quando da adesão ao euro, pelo então deputado Carlos Carvalhas? Pois bem, são hoje muitos dos que na altura procuram ridicularizá-lo, a reconhecerem, por caminhos ínvios, que a adesão ao euro “foi precipitada”…
Ter razão antes de tempo? Mais do que isso: trata-se de um exercício de bom senso, e não permitir que ideias feitas à medida dos interesses económicos dominantes ofusquem o diáfano peso da realidade.
“Os factos são teimosos”, porém. Aí temos, portanto, a reluzente panela de ferro da anafada economia alemã, a desfazer em cacos as débeis economias periféricas, no abraço de urso de uma União Europeia à sua medida…
Até quando abusarão da nossa paciência?
Até quando?

16 comentários:

jrd disse...

Até quando deixaremos que eles abusem?
Acredita que gostaria muito de te responder.
Abraço

lino disse...

Será mesmo até quando os deixarmos.
Abraço

magnólia disse...

o começo. do fim. claro !

uminuto disse...

até sempre digo eu, face `impávida aceitação de um Zé Povinho estropiado até ao tutano e que mesmo assim abana a cabeça em sinal de assentimento... e vão pensando, "enquanto for só com os outros" e deixam andar. Infelizmente os outros de hoje somos o nós de amanhã.
um texto magnífico e bem real. parabéns

Mar Arável disse...

Será até ao dia

em que os explorados

acordem da letargia

Abraço

alice disse...

tenho pena de não saber escrever sobre estes temas, mas gostei de ler o que penso e realmente espero ter paciência, embora uma atitude mais pró activa da nossa parte seja necessária para travar o contínuo desastre a que assistimos... beijinho grande, herético*

OrCa disse...

Olarilolela, como este não há nenhum, digo cá eu com os meus botões, já que não me ocorre algum hino da Carbonária mais a propósito, para além de serem tão bonitas as carvoeiras...

Nem sei bem que te comente, meu caro. A ilha em que estamos é pantanosa e o mar em volta cheio de sargaços e derrames de crude...

Mas onde é que está a malta que vota nestes gajos?...!

Olha, viva a República!

Grande abraço.

São disse...

Excrevi hoje sobre o centenário da república, que a bem dizer é mais um cinquentnário, dada a noite de breu da ditadura.

Quanto ao que aui nos perguntas, penso que a maior responsabilidade é nossa que votamos sempre nas mesmas criaturas!

Um bom feriado...e que se cumpra o ideário republicano.

© Piedade Araújo Sol disse...

até quando?!

já nem sei, andamos todos anestesiados, e enganados e o pior de tudo, conformados.

o texto está sublime!

beij

Nilson Barcelli disse...

Simplificando, diria que todos os que nos governaram desde a entrada para a CE têm culpa. Desde essa altura que temos vivido acima das nossas possibilidades. A entrada para o Euro foi boa e má. Mas os que nos têm governado não têm sabido empurrar as coisas para o lado bom.
Acrescente-se, no entanto, que do lado dos governados pouco ou nada se fêz... a atitude tem sido sempre a mesma... à espera de subsídios e de um D. Sebastião...
Um abraço, caro amigo.

Poesia Portuguesa disse...

"...Até quando abusarão da nossa paciência?Até quando?..."

Durante 40 anos o regime Salazarista abusou da nossa paciência!
Serão precisos outros 40 anos?

Espero não ter abusado da tua, quando levei "emprestado" um poema teu.

Um grande abraço

Graça Pires disse...

É sempre para os mesmos... Até quando?
Um beijo, amigo.

C Valente disse...

Medidas duras são sempre para os mesmos, a classe média é a grande vitima e bengala destes governantes
saudações amigas

jawaa disse...

Pois meu amigo, sei a palavrinha que te doeu, mas falei de um modo geral, para acentuar que antes assim do que uma realeza imposta por uma via deificada que não aceito.
Afinal a República deu muito, mas não o que os ideais republicanos esperavam, como nós esperávamos do nosso Abril, que também deu muito, convenhamos.
Estamos no pântano e a culpa é de todos um pouco. Se os que nos governaram até aqui só fizeram borrada, nós gostámos bem de viver acima das nossa possibilidades.
Também há os «trabalhadores» e os trabalhadores. Também há os excluídos e os que se excluem. Nada é tão linear assim.
A probidade tem de estar dentro de nós, se quisermos - e podemos! - levantar isto, não é nenhum partido melhor do que outro, nem há nenhum D. Sebastião que nos salve.
Temos é deixar de cultivar a ideia de que somos desgraçadinhos e ai valha-nos Nossa Senhora dos Aflitos.
Tão corrupto é a «jardinagem» da Ilha e da Banca, como o «trabalhador» que recebe o subsídio do desemprego para manter a TV cabo, a net e os telemóveis, o automóvel para os biscatos em que não desconta para o Estado.
O mar é feito de gotas de água.
Um abraço grande. Admiro-te a escrita e as ideias que transmites, as mensagens que passas aqui e são tão necessárias.
Reclamar é preciso, denunciar é preciso!
Obrigada por isso.

maria manuel disse...

gostei de ler, boa análise. e dizes bem, há anos que a situação económica (e não só) está má, vindo a piorar e a ser camuflada pelos governos que, alternadamente, têm estado no poder. e agora escusam-se de responsabilidades, ameaçam-se mutuamente, continuam sem apresentar propostas concretas de cortes nas despesas públicas, além dos óbvios aumentos de impostos e ivas e reduções de salários e pensões. não propõem eliminar instituições inúteis, assessorias e privilégios de detentores de cargos públicos e políticos desnecessários e esbanjadores (veja-se o exemplo da Suécia), acabar imediatamente com os negócios privados com laboratórios farmacêuticos, construtoras civis, e demais..., fiscalizar seriamente e penalizar arduamente - de uma vez por todas - todas as fugas ao fisco, acabar com financiamentos a partidos e campanhas partidárias, acabar - desde ontem - com as reformas milionariamente absurdas dos detentores de cargos públicos e políticos antes dos 60/65 anos, sendo que estas passem a corresponder aos anos de trabalho e não acumulem com outras, como acontece com os demais portugueses, e tantas outras medidas sérias...

Maria P. disse...

Tenho receio que a maioria não acorde a tempo...

Beijos*