terça-feira, dezembro 14, 2010

Angelus Novus



“Há um quadro de Klee chamado Angelus Novus. Representa um anjo que parece preparar-se para se afastar de qualquer coisa que olha fixamente. Tem os olhos esbugalhados, a boca escancarada e as asas abertas. O anjo da história deve ter este aspecto. Voltou rosto para o passado.

A cadeia de factos que aparece diante de nossos olhos, é para ele uma catástrofe sem fim, que incessantemente acumula ruínas sobre ruínas e lhas arremessa a seus pés. O anjo gostaria de parar para acordar os mortos e reconstituir, a partir de seus fragmentos, tudo aquilo que foi destruído.

Mas do Paraíso sopra um vendaval que se enrodilha nas suas asas e que é tão forte que o anjo já não as pode mais fechar. Esse vendaval impele-o irresistivelmente para o futuro a que ele volta costas, enquanto o monte de ruínas à sua frente cresce até ao céu.

Aquilo que chamamos de progresso é este vendaval”.

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“A tradição dos oprimidos ensina-nos que o “estado de excepção” no qual vivemos é a regra. Precisamos de um conceito de história que se dê conta disso”.

Walter Benjamin – in “O Anjo da História” – Assírio&Alvim

18 comentários:

Rogério Pereira disse...

Herético,

Acho o texto muito forte mas escapa-me o seu sentido, embora ache que o progresso é tumultuoso é um vendaval. A parte final é clara e estou certo dessa necessidade generalizada (embora eu já lide com um conceito de história cujo uso me conforta...)

mixtu disse...

o progresso...
necessário ...
será catástrofe? ruínas...
se assim o desejarmos...

abrazo serrano

hfm disse...

Meu amigo, direi apenas - aquilo a que chamamos progresso é um bom retrocesso.

Graça Pires disse...

Esta interpretação do quadro de Klee é cruelmente lúcida. Concordo com ela.
Um beijo.

Virgínia do Carmo disse...

O excerto é excelente, o livro deve ser fantástico, todo ele!

Obrigada pela partilha!

um abraço

Maria P. disse...

Progresso...será?


*Beijos

Véu de Maya disse...

Não poderia estar mais de acordo, meu caro herético.Desejo-te Um Natal Feliz e um Ano Novo com saúde e paz e felicidade.

Abraços,

Véu de Maya

jrd disse...

Este progresso não passa de um vendaval de cinzas.
Abraço

lino disse...

O progresso devia ser uma tensão contínua entre a destruição de parte do antigo e a construção do novo. Nos últimos anos tem sido mais regresso ao passado das trevas.
Abraço

C Valente disse...

Adorei este poste, muito cheio de sentido.
Saudações amigas

Frioleiras disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Frioleiras disse...

Para mim o progresso..........sempre existiu..

o mal presente, o progresso actual... começou com a revolução industrial e com a bola de neve a que conduziu.

Hoje, os computadores, a mulher ter saído de casa para trabalhar.......... e a ausência de crenças religiosas ... estragaram a natureza das coisas.

A informática, telecomunicações etc etc e toda a panóplia de maquinetas que abundam no que resta do nosso planeta ... retiraram a dignidade da labuta, do trabalho natural, da mão de obra.................

A mulher, mesmo que não precise, acha que a «emancipação» começa na sua "afirmação" como ser em que se valoriza se trabalhar e regressar a casa às tantas da noite.

Não importa q os filhos passem a vida em colégios (caríssimos) mesmo que o seu ordenado chegue apenas para os ditos colégios e para a empregada a dias....... mas sente-se «realizada» por ter uma carreira....
O que é uma carreira??? Subir numa empresa em troca de se sentir «igualada» ao macho...

As crianças... essas... têm montes de brinquedos, de amigos do colégio, de competição desde que entraram no infantário e, dos pais ... não lhes resta senão 1 ou 2 horas ocupadas com o banho nocturno e o jantar engolido meio ensonadas.........


Depois o Deus dinheiro tirou tudo o que é humano, ético e adjectivo ... aos seres humanos....................

Destes progressos, em que me inseri............ nada me ficou ... senão o gosto amargo do tempo vivido demasiado rápido e sem sabor........


Foi o mundo que a geração da segunda metade do sec XX gostou ... de construir...
A isto ... chamou-se Progresso............................

Lis disse...

Oi heretico
aqui da minha janela o progresso avança , me tira o restinho de céu e mar que gosto de olhar pelas manhãs.
Lá vem subindo mais um arranha-céu!
quando tudo acabar vou estar olhando só janelinhas e silhuetas ... rs
o quadro de Klee, quem sou eu pra saber o que representa?
posso até aborrecer o artista se falar em politica olhando pra obra dele rsrs
ah heretico nao entendo mesmo! deixo isso pro Benjamim.
procuro sim entender um pouquinho de anjos ... e queria um aqui hoje agora
pediria uma passagem pra Portugal! rsrs aí tem esse friozinho gostoso , aqui é só calor calor!!
abraços heretico, obrigada pelo carinho no blog
que o sentido do Natal humanize os homens e assim haverá progresso!

alice disse...

a metáfora do progresso mascarado, brilhantemente escrita, heretico. um grande beijinho e óptimo fim de semana!

Vieira Calado disse...

Olá, meu caro, boa noite!

Venho simplesmente desejar-lhe,

a si

e aos seu familiares

uma óptima

Quadra Natalícia!

Saudações poéticas

bettips disse...

De acordo com o que disse "lino": uma questão de forças em tensão mas sempre em progresso deveria ser. Especialmente para os oprimidos: o que não se verifica no estado mundial hoje. Progresso hoje é "ter coisas" e não "saber coisas", mesmo que seja a sabedoria de plantar batatas.
As pessoas precisam de meios de subsistência para o corpo físico e meios de cultura para o espaço mental.
Abçs.

Licínia Quitério disse...

Belo texto. Uma meditação que nos ajuda neste remoinho em que o vendaval nos traz.

Licínia Quitério disse...

Esclareço. Progredir é caminhar em frente. Assim se constrói, assim se melhora. Recuar na história, isso sim, é a ruína absoluta. Que a caminhada não é linear, todos sabemos. Amontoamos erros, desastres, chacinas de corpos e de mentes, mas vamos. A luta contra os bárbaros é a nossa tarefa, o nosso único caminho. Olhar para trás, sim, para saber o que não deveríamos ter feito, mas também para não esquecer o que de bem fizemos. A humanidade cria monstros, mas não é, em si mesma, monstruosa. Nós, os que aqui estamos, não somos anjos nem demónios. Porque haveriam de ser todos os outros?
Isto é o que insisto em dizer. Eu que luto, que não desisto, que sou mulher do meu tempo e que, de outro antigo, não gostaria de ser.
O passado é dos mortos. Eu amo os meus mortos e a vida.