terça-feira, junho 07, 2011

DESENRASCADOS, CHICO-ESPERTOS E QUEJANDOS...



Existem, na realidade, subtis distinções entre estes espécimes, que povoam a nossa vida colectiva e moldam a acção política do País.

Como em algumas famílias de aves canoras, é dado por vezes constatar imperceptíveis modelações de timbre ou discretas variações no emplumado de seu canto e de seu porte, que apenas atentos olhares permitem captar-lhes a riqueza das performances ou pletórica euforia com que se autocontemplam.

É vê-los por toda a parte. Nos restaurantes, nos aviões, nos espectáculos, nas auto-estradas, nas filas de trânsito e por ai fora...

Há quem se dedique a caçar borboletas. Tivera eu gosto e paciência e dedicar-me-ia a descrever-lhes os tiques e as protuberâncias da alma…

Como sabem, há neste fenómeno uma escatologia, uma graduação, uma ascese de comportamentos que vai do tremoço e da cervejola ao Lamborghini. Ou do condomínio à alta política. Mas a matriz é sempre a mesma – o descartar para o lado e ultrapassar o parceiro (pela direita, quase sempre!). Ou aparecer, no momento certo, proferindo o coice do ressentimento…

A noite das eleições foi uma verdadeira montra...

Não, não se trata de camaleões que mudam de cor, em função do imediato instinto de sobrevivência. De uma maneira geral, tirando a repulsa ao tacto, os camaleões são pacíficos. Coitados, não alcançam para além do volume do ventre…

Contrariamente, os espécimes a que me refiro são activos e perigosos. E ressumam veneno…

Será necessário apresentar exemplos? Espero que me dispensem.

Mas sempre vos digo que foi edificante ver o senhor Moniz, salta-pocinhas das televisões e mercenário da comunicação, a distribuir empolgantes pontos ao discurso do vencedor das eleições e a dar uns coices, com a fidalguia que se lhe reconhece, no moribundo engº Sócrates, que  aquela hora já então era…

É o que se chama cuspir na sopa do PS, de que, em devido tempo, fartamente se serviu…

Claro que o senhor Passos se desenrascou devidamente. E tirou um excelente coelho da cartola, ganhando as eleições. Mas também o senhor Sócrates, apesar de pesada derrota, se desenrascou bem.

Para já, o que não é coisa menor, passou a “batata quente” da tróica para outras solícitas mãos e teve ainda o must de um “desenrascanço” no brilhante discurso de despedida, pensado para novos voos, quando for o tempo e a hora. Um sabidão este engenheiro...

Entretanto, ainda seu cadáver fumegava e o estertor da agonia ecoava nas suas proféticas palavras, já outro “desenrascadinho”, que em tempos, no dizer do próprio, foi descansar das agruras da vida partidária, (que dizer desenrascar-se), para o dolce fare niente do Parlamento Europeu, se perfilava como seu herdeiro…

Enfim, uma alegria!...

Claro que, com tão vasta galeria de desenrascados, chico-espertos e quejandos, a grande maioria, irá votar sempre, não naqueles que lhe falam verdade, mas, sobretudo, naqueles em que se projecta, quer dizer, nos modelos sociais em que se revê, na ilusão de que o “efeito especular” da transferência (sociopsicológica) os vai salvar da enrascada em que estão metidos…

… E, assim, subir aos céus no flamejante “elevador social” que, no senhor Paulo Portas, tem solícito e eficaz manipulador!

       



     



  

11 comentários:

São disse...

De pé te aplaudo o brilhante texto que deliciada acabei de ler!

Uma feliz semana, apesar dos pesares.

Rogério Pereira disse...

Em contexto semelhante
não sobrevivi, como é sabido
Mas meu povo fez o que tinha que fazer.
Faz sempre, quando tiver de ser...

Assino-me

Viriato
("regnator Hiberae magnanimus terrae")

lino disse...

Excelente texto, mais uma vez!
Abraço

jrd disse...

Um texto fantástico!
Um retrato implacável!
Do melhor que tenho lido sobre essa cambada.
Abraço

batista filho disse...

Amigo-irmão, imaginaríamos que um dia, depois de amargar longos e longos anos de ditadura, camaradas, "irmãos" da causa de uma sociedade igualitária, render-se-iam ao deus Mercado? Infelizmente, tanto cá quanto aí, por vezes o desânimo, a descrença campeiam. Todavia, inda estamos vivos - e nossos ideais também!
Deixo um abraço fraterno e saudoso.

Licínia Quitério disse...

Certeira apreciação da ascensão e queda da cidade do poder.
A presença do senhor Moniz foi um asco. E a própria figura dele tem qualquer coisa de ridículo e tétrico. Personagens da fábula que tão certeiramente apontas.

Abraço, Amigo.

jawaa disse...

Não gosto muito de bater pq detesto que me tratem mal. Assim, «não faças aos outros...» embora às vezes tenha necessidade de trincar, e dar a outra face, não gosto não senhor.
A propósito, e na sequência da tua bela escrita, como sempre, acabo de ouvir na TV que 80% dos portugueses votaram na coligação actual.
Como? Terei ouvido bem?
Se contarmos só a abstenção+brancos+nulos perfaz 45%. Sobram 55%. Ah, e atenção que os portugueses que foram às urnas votaram maioritariamente PSD e PS, não PSD e CDS, que eu saiba.
Não entendo esta democracia.
Não deve ser para entender.
Tu bem sabes o que dizes.

C Valente disse...

Bela prosa
Bons feriados e fim de semana

C Valente disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
frioleiras disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
frioleiras disse...

lendo-te... pergunto: onde está o espanto? portugal é um país assim ! tu e eu (quase sem excepções) e todos os q conhecemos ! portugal e portugueses, são assim! ponto.