segunda-feira, janeiro 30, 2012

DOBRADA À MODA DO PORTO...


“Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.

Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta
E vim passear para a rua.

Quem sabe o que isto quer dizer?
Eu não sei, e foi comigo.

(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim
Particular ou público, ou do vizinho.
Sei muito bem que brincarmos era o dono dele
E que a tristeza é de hoje).

Sei isso muitas vezes,
Mas se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?
Não é prato que se possa comer frio,
Mas trouxeram-me frio.
Não me queixei, mas estava frio.
Nunca se pode comer frio, mas veio frio…”

Álvaro de Campos.

17 comentários:

C Valente disse...

Muito gostoso
Saudações amigas e boa semana

Maria disse...

O amor nunca é frio.
Esta Álvaro de Campos é muito especial!

Beijo.

hfm disse...

Sempre!

Teresa Durães disse...

um dos poucos poemas de Ávaro de Campos que gosto

jrd disse...

O Amor é louco mas a "Dobrada" é pior porque se as vacas são loucas...
;)

Abraço

lino disse...

Tripas com feijão branco é melhor comer no Porto. O Álvaro de Campos não devia saber!
Abraço

Graça Pires disse...

Álvaro de Campos gostava de questionar o inquestionável...
Um abraço, amigo.

© Piedade Araújo Sol disse...

Álvaro de Campos...sempre!

um beij

mdsol disse...

:)))

O Puma disse...

Se fosse gelada

podia queimar

São disse...

Não me lembro de ter lido este poema alguma vez.

O amor?...pois, o amor....


Bons sonhos

lis disse...

Ah esse poeta de mil faces!
qualquer dia no restaurante vou pedir " dobrada a moda do Porto" (quentinha),já aqui em casa temos à mesa coisinhas portuguesas, é vinho, é azeite ,é peixe a gomes de sá , bacalhoadas ,castanhas torradinhas ... rsrs sabes bem meu apreço pela terrinha nao sabes?
Um poema cheio de humor e graça.
Gosto heretico gosto muito, quase tudo por aí é poético!
em agradecimento pelas gentilezas portuguesas que tenho â mesa e por essa bela" dobradinha"te mando mil abraços

Canto da Boca disse...

Uma dobrada fria, sem amor... Um poema sem data, que pode ser qualquer tempo, o amor não tem data, nunca será datado, é atemporal como a poesia, e como Pessoa (e seus heterônimos)!

Lembou-me que já algum tempo o Porto me mata de saudades;

lembrou-me o Mia Couto, em O Fio das Miçangas, "cozinhar é um ato de amor", e nunca um ato mecânico.

Lembrou-me um mundo guardado em mim!

;)

Jorge Castro (OrCa) disse...

Em tempos gélidos e mal temperados, as saudades que uma boa dose quentinha de tripas nos traz...

Vamos a elas?

Lídia Borges disse...

Penso que este poema pertence à fase mais intimista (fase abulicólica) de Álvaro de Campos, em que se torna notória a desilusão e o cansaço relativamente ao mundo em que vive.
Já não tinha muito presente este poema.Foi bom recordá-lo.

Obrigada.

BlueShell disse...

"Ai que prezer ter um livro para ler..."

Sempre deslumbrate, Pessoa!
Bj

George Sand disse...

Não nunca se pode comer frio
Mesmo que o arrepio nos adormeça
Na curva dos olhos ternos do Douro.
O amor, esse, que não arrefeça