domingo, abril 15, 2012

Nem de esquerda, nem de direita?

Um dos artifícios em que a ideologia exprime a sua eficácia reside na plasticidade dos seus efeitos. Explico-me: sejam quais forem as contingências históricas em que a ideologia se manifesta a sua função é sempre a mesma, ou seja, interpelar os indivíduos concretos como sujeitos de uma relação imaginária com as suas condições reais de existência.

E o seu horizonte é sempre o mesmo – levar os indivíduos, no quadro de cada ideologia em concreto, a aceitarem livremente as sua condição social; ou seja, dito por outras palavras, o funcionamento da ideologia visa, no seu conjunto, contribuir para realização e auto-reprodução das relações de produção existentes nos diversos contextos histórico-sociais.

Neste sentido, a ideologia, nas suas metamorfoses, é “atemporal”, quer dizer, fora do tempo histórico, pois em todas as épocas e lugares a ideologia prossegue o seu desígnio.

E “não tem exterior”, dado que todos os indivíduos são por ela interpelados, seja qual for o “lugar ideológico” em que individuo concreto se encontre, todos eles impregnados dos mesmos valores. A ideologia será tanto mais fecunda quanto maior for a emersão dos sujeitos nos respectivos valores ideológicos, que então se apresentam como “evidência” irrecusável.
Todos os crentes aceitam “livremente” a sujeição e a obediência aos cânones revelados, mediante os quais os membros da comunidade (religiosa ou laica) mutuamente se reconhecem.

Assim seja!”: – Eis a fórmula consagrada de todas as obediências, implícita nos mecanismos de sujeição de todas as ideologias (religiosas ou políticas, laicas ou ateias, seja qual for o contexto histórico ou geográfico em que se manifestem)!...

Geralmente, quando se fala destas coisas, tem-se sobretudo em vista, as chamadas ideologias políticas, o que se compreende dada a relevância da instância política no processo de dominação social, mediante o exercício do poder de Estado.

Por outro lado, é sabido que a sociedade não é homogénea e que os cidadãos destinatários da política têm entre eles interesses divergentes e opostos e, tantas vezes, conflituais, pelo que não é possível reconhecimento mútuo de todos os cidadãos, no quadro de uma mesma (ou única) ideologia política.

É assim que as chamadas democracias representativas se exprimem na diversidade de propostas ideológicas e políticas, que possam corresponder aos interesses das classes sociais e grupos de interesses em confronto em dada sociedade.

Mas nem por isso as classes sociais dominantes deixam de procurar a hegemonia ideológica e política, tendo em vista esbater diferenças e manietar resistências, em vista a sujeição ideológica e política das camadas da população, cujos valores e interesses fundamentais estão nos antípodas daqueles que lhes são propostos.

Os dias de hoje são exemplares neste domínio: não faltam por aí conceitos e propostas propagandeadas como verdades absolutas, com que se pretende desarmar ideologicamente as classes sociais esmagadas pela crise e pelos ditames da senhora Merkel.

A permanente invocação do “interesse nacional”, o propalado “consenso europeu”, ou “inevitabilidade” das medidas austeridade que se abatem sobre os portugueses de mais fracos recursos, constituem prova irrecusável dessa artimanha de ocultação dos verdadeiros beneficiários das políticas de desastre nacional, realizadas em nome do País.

E, noutro plano, o alegado “fim da História”, hoje desacreditado; ou a proclamada extinção das diferenças entre a esquerda e a direita, que ainda se ouve referida... 

Porém, onde há exploração haverá sempre resistência. E nesse processo de luta, as classes exploradas criam a sua própria ideologia, que se pretende imune às pressões e ideias das classes dominantes.

Uma ideologia alternativa, portanto, que proclama os valores de liberdade e de igualdade concretas, pois que se propõe libertar os homens concretos, na solidariedade dos seus processos de luta e de trabalho, dos grilhões da servidão.

Assim seja!...      

7 comentários:

mixtu disse...

Assim seja
Algo novo...
algo do ser...
liberdade mas responsabilidade na responsabilidade
um lema cá de casa mas que se aplica no país...

abrazo serrano

jrd disse...

Assim foi...um texto brilhante e esclarecedor.
Não é por acaso que a negação de que há esquerda e direita é uma recorrência direitista.

Abraço

lino disse...

Amém!
Abraço

Lídia Borges disse...

"Porém, onde há exploração haverá sempre resistência. E nesse processo de luta, as classes exploradas criam a sua própria ideologia, que se pretende imune às pressões e ideias das classes dominantes".

Fiquei por aqui, acreditando!

L.B.

O Puma disse...

Um dia seremos de novo crianças

para recomeçar

Mar Arável disse...

Venham mais cinco

Grato pela partilha do excelente texto

Abraço

Alvarez disse...

I'm back again...