domingo, maio 06, 2012

O "merceeiro-mor do reino", leitor de GUY DEBORD?


Já foi dito e redito. Às habituais postas de pescada que o figurão vai arrotando no espaço público, arrogando-se o privilégio, pelo facto de ser rico (dizem-me que muito rico) de dar lições de patriotismo e trabalho aos portugueses e fustigar sem pejo os políticos que não lhe “caem no goto”, deu agora espectáculo, com uma operação ideológica bem urdida, que fala para além da arrogância do sujeito.

Para quem tivesse dúvidas, ficaria agora exemplarmente esclarecido. Na lógica da mercadoria, razão e fundamento do sistema capitalista, a vida humana é submetida à lei do lucro. E a economia, em vez de atender aos desejos humanos, cria e manipula incessantemente necessidades, reduzidas “à única pseudonecessidade da manutenção do seu reinado”.

O efeito espectacular (e especular) da “operação Pingo Doce”, remete assim irresistivelmente para a Guy Debord e para a crítica radical que faz do sistema capitalista em “A Sociedade do Espectáculo” e para a actualidade da sua obra.

Mas cada um julgue por si. Eis alguns excertos:

O espectáculo (da sociedade de consumo) que é a extinção dos limites do eu e do mundo pelo esmagamento do eu que a presença-ausência do mundo assedia, é igualmente a supressão dos limites do verdadeiro e do falso pelo recalcamento de toda a verdade vivida sob a presença real da falsidade que a organização da aparência assegura.
(...)
“A necessidade de dinheiro é portanto a verdadeira necessidade produzida pela economia política, e a única necessidade que ela produz” (...) O espectáculo estende por toda a vida social o princípio que Hegel concebe quanto ao dinheiro: é “a vida do que está morto movendo-se em si própria”.
(...)
“O apagamento da personalidade acompanha as condições da existência concretamente submetida às normas espectaculares da sociedade de consumo, e também cada vez mais separada das possibilidades de conhecer experiências que sejam autênticas e, através delas, descobrir as suas preferências individuais”.
(...)
“Em todas as espécies de assuntos desta sociedade, onde a distribuição dos bens está de tal maneira centralizada que se tornou proprietária, de uma forma simultaneamente notória e secreta, da própria definição do que poderá ser o bem, acontece atribuir-se a certas pessoas qualidades, ou conhecimentos ou, por vezes, mesmo vícios, perfeitamente imaginários, para explicar através de tais causas o desenvolvimento satisfatório de certas empresas; e isto com o único fim de esconder, ou pelo menos dissimular tanto quanto possível, a função de diversos acordos que decidem sobre tudo”.
(...)
A técnica espectacular não dissipou as nuvens religiosas onde os homens tinham colocado os seus próprios poderes desligados de si: ela ligou-os somente a uma base terrestre. Assim, é a mais terrestre das vidas que se torna opaca e irrespirável. Ela já não reenvia para o céu, mas alberga em si a sua recusa absoluta, o seu falacioso paraíso"
(...)
“O reconhecimento e o consumo das mercadorias estão no centro desta pseudo resposta a uma comunicação sem resposta. A necessidade de imitação que o consumidor sente é precisamente uma necessidade infantil, condicionada por todos os aspectos da sua despossessão fundamental”.

Enfim, em palavras chãs, o "consumidor devorou o cidadão"...

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Um canal de televisão traz-me imagens de Ségolène Royal, em discurso de celebração da vitória eleitoral, a afirmar que, a partir de agora, "os Bancos em vez de mandarem terão que habituar-se a obedecer"...

Bom seria ouvir por cá alguém com o mesmo desassombro!

Vive la FRANCE!...





6 comentários:

Rogério Pereira disse...

"Para quem tivesse dúvidas, ficaria agora exemplarmente esclarecido"

Não sei, não sei, meu amigo!

AC disse...

As manigâncias são tantas, e de tal forma urdidas, que os cordeiros vão beber à mão dos lobos. E ainda lhes agradecem.

Abraço

jrd disse...

Excelente.
O cidadão consumidor virou "autofágico", mas vai ter uma grande indigestão.

Vive!!!

Abraço

Mar Arável disse...

Um dos grandes investimentos do sistema é assediar o cidadão e transformá-lo em consumidor
apócrifo e estupidificado

a voz do dono

Abraço sempre

lino disse...

Exploração da miséria alheia!
Abraço

lis disse...

Uma polêmica que repercutiu bastante e foi a "alegria" das donas de casa rsrs
em tempos de crise difícil esperar bom senso de qualquer povo acuado pelos poderosos de casaca...
possivelmente não iria ao supermercado simplesmente por nao gostar de multidão rs
que venham mais pingos doces...
" o mundo nao vale o mundo meu bem"
beijinhos heretico