segunda-feira, julho 02, 2012

Deambulações sobre o futebol...



Sempre tive uma relação ambivalente com o futebol. A jogar fui um desastre. Mas naquele tempo, onde houvesse peladinhas e outros deslumbres da bola eu entrava em jogo. Tinha bons argumentos no futebol, apesar de “não dar uma prá caixa”...

Na infância, no espaço social rural onde cresci, era eu o “dono da bola” e jogava calçado, numa equipa em que as chuteiras eram os cinco dedos dos pés. Sei, hoje, que pouco contava, então, quem era o “dono da bola” (de trapos), manifestamente, “propriedade colectiva”, pois que o vínculo individual deslassava logo que era concebida nas mãos amorosas que lhe davam forma.

Mas usar botas, sim, era argumento. Quem em tão encarniçados desafios se iria aventurar às canelas de um couraçado? A vantagem significava era até “abuso de posição privilegiada” e não raras vezes tive que jogar descalço, perante a juvenil rebelião das massas.

Mais tarde, quando subi ao Liceu, os meus “argumentos futebolísticos” foram outros. Tinha fama de bom aluno e disso aproveitava. Digamos que dava um certo chic intelectual aos bárbaros torneios que se desenrolavam no largo do toural. E digam-me lá, quem enjeitaria ter na sua equipa o melhor aluno da turma? É certo e sabido que os meus compinchas me reservavam o lugar onde menos poderia atrapalhar, isto é, a jogar na baliza: mais frango menos frango, sempre me poderia redimir com uma placagem de bola, digna da televisão que não havia...

Uma tarde, num lance decisivo na grande área, onde defesa e ataque se confundiam no prenúncio do golo, certamente espicaçado pelos três a zero que a minha equipa já levava “na batata”, por entre um redemoinho de corpos e gritos, saltei em voo, qual super-homem salvador, procurando a bola que teimava em saltar de cabeça em cabeça.

“Azar dos Távoras”!... A bola entrou na baliza e, ali a meu lado, estendido no chão, sangrando desalmadamente da boca, o avançado-craque da minha equipa que, em denodado esforço de defesa, não encontrou melhor lance que não fosse cabecear e derrubar seu esforçado guarda-redes e dar de mão beijada um novo golo à equipa adversária.

Eu saí com um galo na testa e o meu amigo partiu dois dentes. O que causou algum reboliço no Liceu com um raspanete colectivo do reitor e, uma particular advertência à minha adolescente pessoa, que “tinha obrigação de dar o exemplo e ter mais juízo”...

Enfim, ficou tudo por ali. Sem qualquer trauma...

No entanto, a partir dessa data, movido certamente por outras pulsões, entretanto despertas, mais lúdicas e compulsivas e pelo prazer, não puramente estético, das formas arredondadas, o futebol perdeu para mim seu encanto e ficou no limbo da minha vida até bastante tarde: decorriam os anos oitenta do passado século (meu Deus, como o tempo voa!) quando voltei a olhar o futebol com alguma atenção...

Claro que para este divórcio, mais que um certo snobismo intelectual (que não descarto) muito contribuía a trilogia “Fátima-Futebol-Fado”, pela qual a generalidade dos jovens da minha geração nutria profundo desprezo.

Mas nos anos oitenta, o futebol entrou-me outra vez em casa, pela porta grande. Meu filho, então na adolescência, envergou as vestes de um fanático benfiquista (não conheço nenhum benfiquista que não seja fanático) e – pai sofre! – para não perder o pé reconciliei-me com o futebol. E, imaginem vocês, um émulo do Barrigana (velha glória nas balizas do Futebol Clube do Porto) a vibrar de vermelho na “catedral da Luz”.

Antes do “apagão”, está bem de ver...

Hoje posso dar-me ao luxo de uma posição distanciada quanto ao futebol e ao fenómeno desportivo de uma maneira geral. Gosto, no futebol, do delírio do golo, da interacção criativa, da organização e trabalho colectivos, que não anulam talentos individuais, antes os estimulam.

Perdoo-lhe até um certo “patrioteirismo de relvado” e toda a parafernália económico-mediática que o envolve e o parasita como fenómeno de consumo das massas populares.

Mas quando, durante um mês de histeria futebolística, em que quem trabalha é despedido ou perde salários e direitos sociais em níveis inauditos, num mês de abissais regressões histórico-sociais, em que as leis laborais são totalmente invertidas a favor do patronato, num mês em que o País se afunda cada vez mais, rumo ao seu destino de colónia tolerada no espaço europeu, esta histeria mediática em volta do futebol e dos feitos da selecção nacional, não pode deixar de ser ofensiva para quem mantem a dignidade e um pouco de lucidez.

E não posso deixar de me interrogar se o desporto, há muito tempo esventrado da proclamação matricial “mens sana in corpore sano” e projectado, como espectáculo, à escala mundial, pelo poder dos média, não representa um exemplo eficaz das teorias da infantilização e embrutecimento (“tittytainment”), com que se pretende anestesiar populações “supérfluas”, potencialmente perigosas na sua frustração, e assim as lançar numa espécie de “letargia feliz” e inofensiva...

Assim vai este nosso Mundo!...



           

14 comentários:

jrd disse...

Com estas deambulações chegaste bem longe...
Não fora aquele detalhe "azul" e diria que escreveste um texto perfeito.
Mas ninguém é "perfeito", nem mesmo os fanáticos benfiquistas, que são quase...
Abraço vermelho

Rogério Pereira disse...

Vou ler este teu texto ao Guilherme,
talvez o "puto" aprenda alguma coisa...

AC disse...

Panem et circenses, mas creio que há mais circo que pão.

Abraço

quem és, que fazes aqui? disse...

Comecei a ler e a rir. Terminei séria.

A presente equipa adversária está na vantagem que lhe dá o poder.

Certamente acabaremos com galos nas cabeças e dentes partidos, as se tivermos o poder da resistência e da união ( princípio básico de uma equipa) vamos derrotá-los.
Não sei, sinceramente, se isto será uma visão otimista, mas temos que acreditar nela.
O jogo ainda é nosso!

Beijo

Laura

Anónimo disse...

Considerando-me apenas uma pequena partícula dentro das "massas populares" alienadas, aqui me confesso adepta e apreciadora de futebol, talvez até um tanto fanática. Mas afinal não somos todos fanáticos por qualquer coisa? Parece-me que sim, nem que seja por essas poses de distanciamento... Sinceramente não me parece que o povo seja mais alienado por gostar de futebol ou por soltar a alegria se a sua equipa ganha. Ou até por ficar triste, se não ganha.Há apenas uma questão que me parece fundamental separar: a "salvação da pátria" não está no futebol nem em qualquer outro desporto. E, para esse engano, em muito contribuem os media. Vejam-se os anúncios das marcas patrocinadoras. São o indicador mais claro da alienação. Aí sim, concordo.
Talvez seja bom pensarmos que a salvação do que é possível salvar consiste em sermos "um por todos e todos por um" e não "onze por todos e todos por onze".
E devo dizer que "um por todos e todos por um" não é o lema de nenhum clube de "fanáticos" (na tua opinião...). Como deves saber, a tradução correcta do latim é " e, de todos, um". :))

heretico disse...

espero que pintes a cara de... vermelho!

por mim, quando olho em volta, confesso que me apetece, por vezes, pintá-la de negro...

quanto ao mais, este espaço é democrático - até admite comentários anónimos.

O Puma disse...

O teu texto é uma ternura
quase
Só tenho pena que sejas azul
a minha cor preferida
fora dos relvados
Quanto ao futebol
repara que os estádios estão repletos de desempregados
Temos "direito" a algumas paixões
mesmo no plano da irracionalidade
Que se levante o primeiro
a reclamar perfeição.
No liceu também fui guarda-redes
arrancava os cabelos aos avançados
mas não era por mal
Hoje noutros pelados jogo ao ataque
e os guarda-redes fazem-me o mesmo
Ao quisto chegou.

lino disse...

Gosto de ver futebol na televisão, de preferência bons jogos e com muitos golos, mas acho detestável as infindáveis ante-visões e pós-visões!
Abraço

São disse...

O meu coração é verde e como sofro...

Comecei e avancei sorrindo, mas na parte final pus-me séria, porque concordo contigo: este mês foi um desastre , uma tragédia...encoberta pela histeria futebolística em que nem sequer ganhámos nada!

Um abraço

Graça Pimentel disse...

Que texto delicioso! Aquilo que jogavas era mesmo desporto. Hoje é negócio.
Eu cresci com quatro irmãs. Cinco meninas nunca tinham brincadeiras dessas... Nunca gostei de futebol e sinto-me ofendida com os dinheiros que estão ali em jogo. Também me incomoda a maneira como a comunicação social trata todas as outras modalidades desportivas.

Concordo totalmente com os últimos parágrafos.

Beijo

Evanir disse...

Hoje me sinto confortável com sua postagem .
Gosto de ler sobre futebol estou do lado de cá assim posso desejar que os times de todos vcs torcedores ganhe não tenho como deixar vc triste.
Eu aqui no Brasil confesso que estou bem chateada com meu time mesmo com o (NEIMAR)a coisa esse ano ficou feia pro meu time.
Coitado do menino ninguém deixa ele de pé e os outros jogadores acha que ele sozinho pode fazer milagre.
Vejo sempre Portugal jogar pela tv só não poderei dizer qual time eu gosto mais dai rsrs.
Um beijo no coração.
Evanir.

jawaa disse...

Li-te com o maior prazer, pois a leveza de todo o texto está à altura da profundidade dele.
É o mundo que temos, o que deixamos, mas é bom que fique escrito o que sentimos com a injustiça de bradar aos céus - o endeusamento do futebol e seus pares.
Quero acrescentar que vi o jogo em que perdemos dignamente, deveríamos orgulhar-nos disso.
O que significa «perder» ou «ganhar»?

Um abraço de uma simpatizante sportinguista... ai.

© Piedade Araújo Sol disse...

não entendo muito de futebol, e talvez por isso,nem gosto de ver na TV pois fico extremamente nervosa.

um beij

lis disse...

Oi herético
Percebi que fostes mesmo um 'perna de pau' rs ainda bem que saíste cedo e salvou-nos de viver os tais 'traumas presenciando seus 'frangos' rs
Concordo contigo.
Tem sido o ópio do povo o futebol, por é aqui é comparado ao samba que todo brasileiro diz amar.
O pior é que os tais 11 tem sido reduzido num 'salvador da pátria' endeusado, como se não fosse necessário os outros dez.Irritante!
Só acompanho em Copas do Mundo pela grandiosidade do evento e por gostar de ver as delegações estrangeiras com todo o ritual que os envolve.
Brasileiro é fanático por natureza e se acha ...só quero ver o 'mico' que vai pagar em 2014 se continuar do jeito que vai ...
e quanto ao rio de dinheiro que pagam aos jogadores e a mídia consome com propagandas e patrocínios daria pra salvar muitas crianças da pobreza , do tráfico e das doenças que os acometem.
Enfim "Assim vai este nosso Mundo!"
rs
prosa longa a minha, não é?
e logo logo volto pra te ver e continuar o assunto que nunca se esgota rs
abraços heretico