quarta-feira, julho 11, 2012

MÍTICO REGRESSO, APENAS...


Granítica paisagem de meus olhos
Tão longínqua que assusta a águia
Em seu voo picado e a tímida giesta
Se embaraça na rocha sob o musgo...

Apenas o vento se atreve e o fumo
Tudo o mais é espaço e lume ardido...

O sol que das cigarras tem o canto
Guardado e nos raios acesos o delírio
De flores secas amarelo de tanto estio
Desce agora. E o horizonte esfarrapado.

Nuvens breves acenando lá ao fundo
E o mar como ausência além surgindo...

Pedras sobre pedras. Tão perfeitas formas
Que tombam ou se erguem sob invisíveis
Dedos como pássaros. Quixotescos castelos
Domados. Ou fantasmagorias na vertigem
Da noite dos tempos. Como a cruz solar
Dominando o cume na contraluz da tarde...

O templo é esta secreta pedra. Cravada
Como unha na montanha. Por dentro
Fechada e por fora o silêncio. E o lixo.
Agonizante festa que morde a rocha.

Restos. Saturnais em cinza quente ainda.
Ou fanada dança solta pelo caminho...

Somos o que somos. No íntimo círculo
Bem sabemos que estas antas são apenas
Reminiscências que eufóricos buscamos.
E o esboroado muro afeiçoada pedra.

E sofremos então a dor do teixo sob hera
E bebemos a água cristalina pelos dedos...

E nos fios de Penépole que nos prendem.
Sólidos. Somos o mar que agora se fecha.

Somos ilha. E o perfume do vinho raro
Que brindamos. E a tentativa destes versos
(Como abraços). Que não hino, nem poema.

Mítico regresso, apenas. Ítaca montanha.






10 comentários:

Canto da Boca disse...

Sabe que eu li o poema três vezes e todas elas fui devastada por intensa emoção? E tentei esboçar algum coisa minimamente inteligente e nada. Não sai nada.
Então entrei aqui na caixinha de mensagens, e meus olhos se fixaram na informação: "sem comentários". Então, disse-me, isso, é isso, esse poema é sem comentário!

Beijo!

São disse...

O teu poema agradou-me muito...e nem imaginas como me fascinam os monumentos de pedra...

Um bom dia.

Virgínia do Carmo disse...

Sendo nós tanto ou tão pouco, o poema é imenso. A poesia é sempre tão maior do que nós.
Muito belo.

Um abraço, Manuel

lino disse...

Um grande poema!
Abraço

O Puma disse...

Cristalinas águas
de beber
por entre os dedos

Belíssimo poeta amigo

~pi disse...

somos... uma mistura complexa de matérias e sentidos. todos.



beijos





~

jrd disse...

Os Deuses nas terras de Demo.
Um poema espantoso.
Abraço poeta Amigo

lis disse...

Lindíssimo heretico.
E de tristeza convincente!
Um regresso profundo ,num voo sem volta.
"Somos o que somos" é uma certeza como "pedra sobre pedra".
E ser uma ilha é mais doce do que o "vinho raro"
Brindemos essa lindeza de poesia heretico, se possível rumo a "Ítaca" rs com abraços mesmo que seja só assim , imaginários.
Desculpe descaracterizar seus versos, só sei comentar assim devaneando rs
É belíssimo,Parabéns.
meu abraço grande,bem grande.

M disse...

Lindíssimo! Lindíssimo!

AC disse...

Grande poema, naveguei por essas origens/memórias!

Abraço