segunda-feira, novembro 19, 2012

Da Visita da Tia Rica às Receitas da "Santinha"...

 
 
O meio social dos tempos da minha infância era povoado por figuras-tipo que, pela sua “densidade sociológica” se impunham, conformando comportamentos e atitudes, ou abrindo espaço ao pícaro e ao grotesco.
 
Nessa diversificada galeria de tipos sobressaia a “tia rica” e, noutro polo, a “santinha”, imune aos apelos da carne e muito amiga dos pobrezinhos. Apesar das óbvias diferenças de perfil sociológico, completavam-se na especiosa tarefa de velarem pela ordem social e a defesa dos bons costumes.
 
De vez em quando, sobretudo em tempos de festa e celebração colectiva, soltavam-se, porém, os diabos da transgressão e, então a “santinha” e a “tia rica” eram o alvo privilegiado da galhofa da garotada e do acinte dos adultos. Que ambas suportavam contrafeitas e vago azedume, por amor a Deus e desconto dos seus (delas) pecados...
 
A “tia rica”, como se deduz, era abastada de terras e cabedais, geralmente solteirona e autoritária, que no amanho das terras e no comando dos serviçais, sublimava as agruras da castidade, sendo, porém, que não se livrava da fama de meter entre os lençóis, qual Messalina rural, os criados e jornaleiros mais afoitos e avantajados.
 
Enfim, contos de outras vozes, apenas sussurradas e, certamente, despeitadas por alguma afronta mal sarada...
 
Sabido de ciência certa era que, naquele tempo, no espaço social da minha aldeia, não mexia folha, nem cantava pássaro nas árvores, sem autorização da “tia rica”. De facto, em sua volta da excelsa senhora, girava densa teia de clientelas, que ela administrava com habilidade e lhe permitia sustentar o seu poder.
 
Nessa estratégia de domínio, extraia a maior fecundidade da sua situação de celibatária, que lhe permitia fazer afilhados até aos limites das povoações vizinhas e, assim, aumentar “extramuros” a sua rede de influências.
 
Claro que levar criancinhas à pia baptismal trazia o seu ónus, obrigações de que não poderia descartar-se. E, assim, a “tia rica” todos os anos cumpria o seu ritual de visitas à numerosa prole de afilhados, levando no regaço não pão, nem rosas, mas coisa nenhuma. Enfim, digamos, meia dúzia de rebuçados e umas fugidias festas na cabeça das criancinhas.
 
Quer dizer, uma mão cheia de promessas. E a consagração do “bom comportamento” dos infantes apadrinhados e suas famílias...
 
Como vos referi, surgindo nesse recanto da minha memória, a figura da “santinha”, noutro plano. Embiocada, sempre de negro, zeladora da salvação das almas, intriguista e maledicente, toda ela ardia no temor de Deus e no amor aos pobrezinhos.
 
Por vezes tinha visões místicas. E no alvoroço de tamanha santidade, recomendava aos crentes que, na benfazeja caridade, deveriam dar aos pedintes apenas pão negro, porquanto era habituá-los mal “favorecê-los” com o alvo pão de trigo...
 
Bem sei que hoje os tempos são outros. Mas desde há uns escassos dias a esta parte, no mesmo contexto temporal, ficamos todos esclarecidos sobre as viagens “à parvónia” da “tia rica” e, noutro plano, esclarecidos também sobre as virtudes da pobreza, que nos inibem de comer bifes para não ficarmos mal habituados...
 
Afinal o meu País (a Europa? O Mundo?) são os “os sinos da minha aldeia”, de que fala o Poeta. Ainda...
 
Fotos:
1 – “Público”
2 – Georges Dussand – in “Trás-os-Montes”
 
 

13 comentários:

Oliver Pickwick disse...

Percebo que as tormentas dignas do Mar de Bering que agitam o seu continente, não afetaram a sua fina ironia, além da capacidade de sintetizar o planeta humano em apenas duas personagens. Dos quatro socialistas que sobraram no mundo, isto é, Fidel, Hugo Chavez e Kim Jong-Un, você é o único que merece a minha confiança.
Continuo fã desses seus escritos demasiadamente humanos, temperados com sons de carros de boi e smartphones de última geração.
Um abraço!

quem és, que fazes aqui? disse...

Ironia pura e dura!

Beijo

Laura

São disse...

Eu também abordei a dondoca Isabel Jonet, mas não com essa tua ironia fina e arguta.Infelizmente para mim.

Uma semana feliz.

maceta disse...

Os visados deviam ler o texto e, de soslaio, estariam, pelo menos muitos, a medir-lhes as reacções. Devia ser divertido...

O Puma disse...

Excelente texto
palavras finas
que no caso os cúmplces não merecem

O rapaz e a tia
ainda se entendem na feira da ladra
ainda

lis disse...

heretico
a ironia fina é elegante,
como disse o poeta_'e uma menina'_ equilibrada.
li num fôlego só, rindo as vezes, principalmente da 'santinha' de tão bom coração ardendo de amor pelo sagrado rs
... e os sinos precisam ser mais vibrantes heretico, o soar está muito lento ( eles são surdos) rs
citando também o poeta:
_'sinto a saudade mais perto' ou é longe demais? rs
deixo abraços

Luis Eustáquio Soares disse...

sim, se o rio da minha aldeia é mais belo que o tejo é porque, em em portugal, com boaventura, estamos sempre, quando estamos, no translocal.
abraço,
l

© Piedade Araújo Sol disse...

excelente.

irónico.

beijo

Lídia Borges disse...


Um arrepio atravessa a minha memória em sobressalto.
Lembro-me bem, tanto de uma como de outra (as personagens-tipo) e achava que não voltariam, mas...

Um beijo

Menina Marota disse...

A tua forma expressiva e tão rica de significados. Adorei!

Um abraço

jorge esteves disse...

Não me parece que na fantasia do Poeta coubesse tanto impudor; nem mesmo os mascatos de Eça, Camilo ou Dinis nos ilustraram tais 'tias ricas' ou 'santinhas'...
Abraço!

jrd disse...

Ao cabo e ao resto o que mudou, para além da sofisticação dos métodos usados pelas tias?
Um texto magnífico e certeiro e, sobretudo,de uma ironia incomparável. Abraço

jawaa disse...

Ainda há... POETAs como tu que escrevem textos assim.
Um abraço